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4.7 O RESULTADO – REINVENÇÃO DA POLÍTICA?

5.1.5 A cadeia produtiva: Programa Clube dos Produtores

O Walmart sustenta duas grandes metas: tornar-se líder em sustentabilidade e ser o melhor canal entre consumidor e fornecedor. Entre as ações geradas para cumprir tais metas, a empresa investe na sua rede de fornecedores. Em primeiro lugar, procura influenciar toda a cadeia produtiva a adotar práticas responsáveis e sustentáveis. A empresa elabora ações que envolvem fornecedores dos produtos, os responsáveis pela logística e incluem os de construção das lojas. As práticas dizem respeito, principalmente: (i) à encomenda de produtos considerados sustentáveis; (ii) ao suporte técnico destinados aos pequenos produtores; (iii) à conscientização e multiplicação de boas práticas; (iv) a encontros e fóruns exclusivos para fornecedores.

Os incentivos a boas práticas estão ligados aos três pilares sob os quais a Walmart orienta suas metas ambientais globais - Clima e Energia, Resíduos e Produtos, além de observar se os fornecedores respeitam a legislação trabalhista, o Estatuto da Criança e do Adolescente e os Direitos Humanos. O vínculo entre os parceiros é também estimulado “em reuniões periódicas ou fóruns temáticos, as empresas alinham e compartilham valores e metas, trocam experiências e buscam novas oportunidades de desenvolvimento conjunto”. (RELATÓRIO DE SUSTENTABILIDADE, 2009, p. 53). Foi a partir de 2008 que a Walmart passou a incorporar o tema da sustentabilidade nos encontros com os fornecedores.

O Clube dos Produtores foi uma iniciativa do grupo Sonae Distribuidora do Brasil - SDB em 2002 e, a partir de 2005, passou a fazer parte do discurso e da prática de Sustentabilidade do Walmart Brasil. Tem como finalidade apoiar a produção, qualificação e comercialização de produtos perecíveis. Tal apoio sustenta-se, principalmente: (i) na eliminação de canais de intermediação entre produtor e consumidor; (ii) no estímulo dado aos pequenos e médios produtores locais; (iii) na adoção de melhores práticas de produção; (iv) no incentivo à produção de produtos com alto valor agregado no que diz respeito à qualidade,

sabor e frescor; e (v) na adoção de parcerias com empresas públicas. (AGENDA SUSTENTÁVEL, 2009).

O Clube dos Produtores é uma iniciativa europeia que foi trazida para o Brasil, e aqui deixou de pertencer à Sonae para ser conduzido pelo Walmart. Serão analisadas as duas experiências, primeiramente pela portuguesa porque: (i) considera-se essencial compreender o

que originou a formulação do referido Programa; (ii) a narrativa sobre o Clube em Portugal

parte, prioritariamente, do olhar da empresa, fato que permite uma compreensão mais abrangente do Programa; (iii) na experiência brasileira conduzida pelo Walmart [a partir de 2005], observou-se que não foi construída uma narrativa própria, quer dizer, manteve-se o que fora elaborado pela empresa portuguesa.

6 CLUBE DOS PRODUTORES SONAE - CPS

O Clube de Produtores - CPS - é um projeto pioneiro da Sonae Distribuição em Portugal. A Sonae é a empresa líder no setor de varejo português, atuando no setor de alimentos (marcas Continente, Modelo, Modelo Bonjour e Bom Bocado) e não alimentos. Sua importância para a economia nacional revela-se nos números relativos ao ano de 2008: "volume de negócios de 4.220 milhões de euros; 777 lojas; 34.158 mil colaboradores; 245 mil artigos disponibilizados aos consumidores; 6,5 mil fornecedores; 3,3 milhões de clientes semanais". (ANUÁRIO DE SUSTENTABILIDADE SONAE, 2009).

A fundação do CPS em Portugal ocorreu em 1998 e seu objetivo estratégico consiste na seleção e promoção de produtos nacionais de acordo com elevados padrões de qualidade e segurança nas cadeias de varejo alimentar do Grupo, prestando, para o efeito, um apoio consistente e estruturado aos seus membros e garantindo, simultaneamente, uma via para o escoamento da sua produção. (SONAE PORTUGAL, 2009a).

O foco no desenvolvimento da produção nacional é traduzido na missão do Clube e no selo que o identifica, conforme Figura 21. A divulgação do selo atualmente tem tido restrições em razão de novas políticas de comunicação com o consumidor, que serão detalhadas no decorrer do trabalho. Apesar disso, o selo permanece como um fator de identidade do Clube.

O símbolo, segundo a empresa, representa:

(i) produto nacional proveniente de produções selecionadas; (ii) produto elaborado com o maior rigor de acordo com fichas técnicas pré-acordadas com o produtor; (iii) produto cujo processo de fabricação foi monitorado por técnicos do Clube de Produtores; (iv) produto submetido a um rigoroso controle de qualidade.

Figura 21: Selo Clube de Produtores em Portugal Fonte: SONAE PORTUGAL (2009a).

Uma das linhas estratégicas do CPS consiste em afirmar seu crescimento sustentado, que exprime a dimensão dos volumes e valores que gera, e a sua abrangência do mercado. Segue uma síntese de alguns dos seus principais resultados. (X ENCONTRO CLUBE DE PRODUTORES SONAE, 2009 - slides impressos):

a. Número de produtores: Até dezembro de 2009 o Clube de Produtores possuía

e produtores individuais, o que representa um crescimento de 42%, desde o início dos contratos, em 1998.

b. Volume em negócios: Desde 1998 até 2009, o Clube negociou 980 mil toneladas de

produtos e movimentou 885 milhões de euros.

c. Novas áreas de negócios: As atividades do Clube iniciaram a partir do setor de

Frutas e Legumes. Atualmente, o segmento de mercado/n° produtores divide-se em: hortofrutícolas (117), carnes (66), embutidos e queijos regionais (36), peixaria (3), doces e compotas (2), padaria e pastelaria regional (6).

d. Dinamização de mercado: Consiste nas diferentes formas de comunicação com os

clientes, a fim de promover o consumo e, consequentemente, a produção. Em 2009, a campanha "Faça a prova dos 5 e some saúde", procurou demonstrar os benefícios das frutas e legumes para a saúde, propondo ao consumidor a ingestão de cinco porções diárias.

O Clube de Produtores é uma ideia que nasce da necessidade de "conjugar sinergia entre distribuição e produção e na resposta à ausência de sustentação de interesses associados", segundo Miguel Mota Freitas, Administrador da Modelo Continente. (PRODUÇÃO, n° 6, jan./2001, Editorial). Na entrevista realizada em Portugal com a atual presidente do CPS, Eng. Eunice Silva, ela destacou que o surgimento do Clube coincidiu com uma época em que Portugal estava com problemas de distribuição em razão da sua entrada na Comunidade Europeia. Segundo ela, havia dificuldades de distribuição por não saber como se estruturava a produção. Por outro lado, era importante para o setor produtivo saber quais eram os objetivos da grande distribuição, no que dizia respeito à embalagem, ao preço, etc., e como iria evoluir. A presidente salientou a desorganização dos setores econômicos e o comprometimento da empresa Sonae com a sua responsabilidade social.

"E tinha muita desorganização. A agricultura nacional não estava preparada para a grande distribuição. Por exemplo, fazíamos uma campanha de alho que vendíamos bem e, no ano seguinte, todos os produtores iam produzir alho. Se nós quiséssemos outros produtos, tínhamos que comprar fora. Chegou um tempo que tínhamos que comprar 60 a 70% de fora do País. A essa altura, a empresa já era grande e sentíamos que era nossa responsabilidade social fortalecer a economia portuguesa, fortalecer a economia nacional". (PRESIDENTE DO CPS - ENTREVISTA, 2010).

Eunice Silva completa, afirmando que "sentimos que precisávamos nos organizar para que não houvesse excesso e, portanto, não tivéssemos condições de escoar e, por outro lado, não faltassem produtos, exigindo que comprássemos de fora". (PRESIDENTE DO CPS - ENTREVISTA, 2010).

O pioneirismo da Sonae culminou em uma prática recorrentemente elogiada pelos seus pares. Em uma dessas avaliações, o Eng. Agrônomo e funcionário da Sonae Distribuição, Rui Matias, descreve o CPS como uma "elite de produtores de Portugal", principalmente por diferenciar-se das práticas correntes no País e pela mentalidade mais receptiva dos produtores. Para ele,

"o clube não tem muito a ver com a realidade social de Portugal. O clube é a elite dos produtores de Portugal. E é elite pelas exigências que tivemos, pelas regras que passamos para eles. Assim, eles têm uma mentalidade diferente da média dos produtores do País. O fato de eles tomarem uma iniciativa de participar do Clube é porque eles têm a mente mais aberta, que é diferente da média dos produtores em Portugal. A mentalidade é diferente". (AGRÔNOMO DO CPS - ENTREVISTA, 2010).

A partir de uma visão externa à empresa, mas com estreita afinidade com o tema, Luís Rochartre, Secretário-geral do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável em Portugal - BCSD - contribui para entender a situação emergente do surgimento do CPS e o seu consequente sucesso, como ele próprio caracteriza. Segundo Rochartre, a Sonae é um grupo muito grande e, no que diz respeito às suas empresas ligadas ao varejo, precisa estar mais alinhado às tendências e às expectativas da sociedade e dos seus clientes, como uma forma de garantir que o seu negócio não acabe. No seu entendimento, todas as empresas que têm uma ligação direta com o consumo e com o consumidor acabam por serem mais ágeis a responderem os desafios da sociedade. (SECRETÁRIO-GERAL DO BCSD, ENTREVISTA, 2010).

Para ilustrar a capacidade de mudança e revisão das suas práticas tradicionais no varejo, Rochartre cita inicialmente a empresa Walmart, que fez uma inversão do seu modelo de negócio. Tal reavaliação teria se originado nas críticas da sociedade, por exemplo, pelo modo como tratavam os funcionários, sua política de contratação, sua relação com os fornecedores, esmagando os preços etc. A rede Sonae também foi muito contestada em termos das suas práticas laborais. Grande parte dos funcionários, sobretudo os repositores, que trabalham nas lojas, no açougue e nos legumes, não tinham muito estudo e havia uma grande rotatividade e salários baixos.

Em razão das críticas recebidas, a Sonae assumiu o compromisso de mudar o que as empresas tradicionalmente faziam. Rochartre exemplifica, dizendo que havia muitos argumentos de empresas do tipo: "não pagamos bem, mas temos muitos empregados". Para ele, a Sonae "deu um salto de forma mais proativa em relação às práticas correntes. Entendeu que as práticas são transversais em relação a todas as suas atividades, e passaram a pensar no

negócio de forma integrada". Ou seja, as questões econômicas não se distanciam das questões sociais, por exemplo.

Outro aspecto que viabilizou o surgimento do Clube foi a situação da agricultura portuguesa e a consequente necessidade de importação de bens alimentares. Tal situação fez com que os consumidores questionassem a escassez de produtos nacionais, e também que os produtores reclamassem que não conseguiam colocar seus produtos nas lojas. Além disso, os produtos não eram competitivos, nem em termos de preço e nem de qualidade. O surgimento do CPS, então, é uma resposta às ameaças ao negócio, assim como um manifesto de coesão e responsabilidade local com a economia portuguesa. Rochartre completa:

"O CPS é uma resposta inteligente a ameaça de reputação que o negócio tinha ao mesmo tempo fazendo uma ligação mais direta com a produção nacional, ao mesmo tempo não o fazendo de uma forma clandestina, mas ao mesmo tempo de uma forma em que aproveitava o balanço para comunicar de forma positiva a produção. O Clube é um sucesso em termos práticos porque consegue abastecer uma parte importante em nível nacional, e por isso mantém uma coesão e responsabilidade local para com a economia portuguesa. Dá condições de rendimento aos agricultores e comunica isso de uma forma evidente". (SECRETÁRIO-GERAL DO BCSD, ENTREVISTA, 2010).

Na etapa a seguir será detalhado o modo como o Clube existe, a partir das diferentes narrativas.