CAPÍTULO 1 – “Eu prefiro morrer lutando”: da ocupação de Heliópolis ao Bairro Educador
1.1.3 A Caminhada da Paz e a educação na favela
Não basta pedirmos por paz A paz nascerá de cada ação Na nossa rua, bairro, cidade, país Em cada ato de solidariedade
Na ajuda e no amor ao colega, ao vizinho, ao semelhante Assim nascerá a paz
A paz não virá de governos ou leis. Crescerá na escola que acolhe e educa
Nos grupos que unem. No bairro que organiza (...) Contra a mesquinharia, a exploração.
A paz pede para ficar (...) E deixar de lado as violências
Uma paz criada assim será nossa, de todos!
Quem será capaz de ir contra construção tão poderosa? (“A Paz Pede Passagem” - Movimento Sol da Paz )
A história da Caminhada da Paz marca a relação entre a UNAS, a EMEF Presidente Campos Salles e o Bairro educador. No começo dos anos 90 a Campos Salles68 era conhecida como uma escola muito violenta, as brigas eram frequentes, o diálogo, muito difícil, e a sensação geral era de medo e tensão. A partir de 1996, a equipe iniciou, articulada com a comunidade, um processo de transformação da escola e de sua inserção no bairro.
Em 1999, a violência era bastante presente dentro e fora da escola. Os moradores que se lembram da época69 contam sobre toques de recolher, assassinatos, mandos e desmandos de traficantes. A situação culminou com o assassinato de uma aluna na saída da escola à noite. Leonarda foi assassinada com tiros no rosto. A garota havia rejeitado um rapaz e a resposta dele foi o feminicídio. Essa tragédia abalou o Heliópolis e acabou gerando um sentimento de que esta tinha de ser a gota d´água. A situação era insustentável e algo precisava ser feito, e assim se deu um dos processos de articulação entre a comunidade escolar da Campos Salles e a UNAS, em torno da construção de uma
68 A Escola foi inaugurada em 1957, originalmente com o nome de Escola de São João Clímaco, em dois galpões com cinco salas no total. O prédio de alvenaria onde a escola funciona hoje, que suporta até 1000 estudantes, foi inaugurado em 1967 (CEU EMEF PRESIDENTE CAMPOS SALLES, 2017).
Caminhada pela Paz, com a constituição do que viria a ser o Movimento Sol da Paz: Eu estava com o Braz no velório dela e ouvimos que o assassino estava tomando cerveja num bar lá perto, se vangloriando do assassinato. Ficamos indignados e o Braz me perguntou se eu toparia iniciar um movimento, uma caminhada pela paz, para construir uma cultura de paz na comunidade. É claro que eu topei. Procuramos o João Miranda, que na época era o presidente da UNAS, e ele também topou. Naquele momento, nasceu o Movimento Sol da Paz (Orlando)70.
O professor Orlando, da EMEF Campos Salles, relata os primórdios da caminhada e explica que a questão inicial da Caminhada era romper o ciclo de violência que havia se instaurado. Contudo, explica o professor, rapidamente ficou evidente que para isso
acontecer, muitas outras ações eram necessárias. Assim, a comunidade foi se envolvendo e acabou constituindo o Movimento Sol da Paz, com os objetivos de motivar uma nova postura nas relações estabelecidas na comunidade, gerar espaços de escuta e de diálogo, tratar de problemas que acirram as situações de violência como o tráfico, e o abuso de álcool e drogas e reivindicar políticas públicas, em torno de uma noção de que toda a sociedade deve ser “educadora”:
Já nos primeiros anos da Caminhada, a comunidade reivindicou um movimento que fosse além de uma caminhada anual. Nasceu assim o Movimento Sol da Paz de Heliópolis e a noção de Bairro Educador, onde todos podem educar e ser educados, através da solidariedade e
70 Depoimento do professor Orlando, da EMEF Campos Salles, disponível em: https://www.unas.org.br/single-
post/2016/04/11/Professor-Orlando-fala-Sobre-o-Surgimento-e-a-Import%C3%A2ncia-do-Movimento-Sol-da-Paz- em-Heli%C3%B3polis
Figura 10: 20ª Caminhada da Paz, 2018 Fonte: UNAS
da consciência coletiva, e a percepção de que o Estado não é formado apenas por um conjunto de parlamentares que definem o destino e as prioridades de uma nação, mas por todos os cidadãos e cidadãs que fazem parte dela. Por isso, o tema das últimas caminhadas tem sido:
Consciência Comunitária + Políticas Públicas = Sociedade
Educadora71 (MOVIMENTO SOL DA PAZ, 2017).
Em 2017, na 19ª edição da Caminhada da Paz, observamos que o ideal de paz que se busca na comunidade foi ampliado e engloba muitos outros fatores. Além da campanha de não-violência, segurança e boa convivência entre as pessoas, o movimento luta por justiça social e politização das questões relacionadas aos direitos sociais das classes populares e da política nacional:
O Movimento Sol da Paz é um dos instrumentos que nossa comunidade tem para se posicionar e fazer suas reivindicações, principalmente nos dias atuais, em que estamos à beira de um golpe e com a sombria nuvem do nazismo pairando sobre nossas cabeças. Por isso, é preciso que não apenas o nosso movimento, mas todos os movimentos sociais deste país resistam ao golpe e se fortaleçam cada vez mais para que os direitos conquistados pelas classes populares sejam respeitados (Orlando)72. Nesta edição, como de costume, a Caminhada foi adornada com girassóis de papel feitos pelas crianças, assim como muitos desenhos do Sol. Pudemos ver as faixas, já tradicionais, com as palavras de ordem do movimento: “A paz é de todos ou não é de ninguém”, “Movimento Sol da Paz transformando Heliópolis num bairro educador”. Havia camisetas, faixas e cartazes com frases de líderes negros africanos conhecidos pela defesa do pacifismo, como Desmond Tutu e Nelson Mandela. Contudo, além do tema central da caminhada, houve manifestações contra a reforma da previdência, contra a reforma trabalhista, pedindo inclusão educacional a pessoas com deficiência, e com as palavras de ordem atuais dos movimentos sociais em todo o país, como “nenhum direito a menos” e “Fora Temer”. Além disso, encontramos pautas relacionadas a minorias e a uma militância externa à política institucional, como o respeito pela população LGBT, pelas vidas da população negra e pelo fim dos feminicídios, assim como pela Libertação de Rafael Braga.73
71 Trecho de material educativo produzido pelo movimento Sol da Paz.
72 Disponível em: https://www.unas.org.br/single-post/2016/04/11/Professor-Orlando-fala-Sobre-o-Surgimento-e-a-
Import%C3%A2ncia-do-Movimento-Sol-da-Paz-em-Heli%C3%B3polis
73 Preso em 2013 por portar um produto de limpeza, Rafael Braga, então morador de rua, negro e pobre, tornou-se símbolo do movimento contra o encarceramento em massa, e o genocídio do povo preto. Ver mais em: https://libertemrafaelbraga.wordpress.com/about/.
A 20ª Caminhada, em 2018, seguiu a mesma linha, mantendo o tema tradicional de “Consciência Comunitária + Políticas Públicas = Sociedade Educadora”, mas também dando mais espaço à luta pelo fim do genocídio da população preta e dos feminicídios. Marielle Franco74 foi homenageada e traçou-se uma relação entre seu assassinato e o de Leonarda75. Também se manteve a defesa de que a educação é instrumento essencial para o combate à violência, como Marília Santis, gestora do CEU Heliópolis, afirma:
Embora a gente saiba que o nosso trabalho é 'de formiguinha', um trabalho de convencimento, é essencial e importantíssimo, pois sem ele é barbárie completa mesmo. A gente acredita que é função da educação travar um embate direto para desconstruir o discurso de que a violência é algo natural, porque não é natural.76
74 Marielle Franco foi ativista e vereadora executada em 14 de março de 2018. Era mulher negra, carioca, oriunda da favela da Maré e entende-se que foi assassinada como retaliação pelo seu trabalho nas favelas cariocas e sua denúncia dos abusos policiais. Até o momento desta escrita não havia sido solucionado seu assassinato, mas é amplamente entendido entre os movimentos sociais que tratou-se de uma execução de cunho político, para silenciar a ativista. Marielle tornou-se uma figura internacional contra a violência policial e em defesa da vida das mulheres.
75 Nos quase 10 anos que conheço a Campos Salles e sua história, foram raras as vezes em que escutei falar sobre o assassinato de Leonarda como um feminicídio. É evidente que o contexto violento da comunidade no período foi decisivo para que isso acontecesse. Somente em meio a tamanha banalização da violência que alguém assassina uma estudante na saída da escola e sai andando tranquilamente. Desse modo, a atuação do movimento Sol da Paz tem sido transformadora da realidade local e possivelmente, salvou vidas. No entanto, a motivação do crime foi machista. Foi a percepção do assassino de que, por que ele tinha interesse romântico nela, Leonarda era sua propriedade, que fez com que ele agisse. Em sua cabeça, Leonarda lhe pertencia e era sua prerrogativa descartar a vida dela, ainda mais se isso fortalecesse sua imagem de macho. Como fez, ao se gabar do crime, após o fato, tomando cerveja no bar. Deste modo, cartazes de “Fim aos feminicídios” no contexto da caminhada que foi motivada por um, me parecem o começo de uma justiça à memória de Leonarda e das tantas mulheres que morrem no Brasil vítimas de feminicídio todo ano. Ver mais em: https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/brasil-registra-oito-casos-de-feminicidio-por-dia-diz-ministerio- publico.ghtml; e http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2017-08/taxa-de-feminicidios-no-brasil-e- quinta-maior-do-mundo.
76 Disponível em: https://www.unas.org.br/single-post/2018/06/13/20%C2%AA-Caminhada-pela-Paz-de- Heli%C3%B3polis
Figura 11: 19ª Caminhada da Paz, 2017. Fonte: UNAS
O ‘trabalho de formiguinha’ mencionado por Santis, diz respeito à resistência popular em geral, não somente ao que diz respeito à educação. Soares (2010) coletou um relato de Cleide sobre a caminhada que nos mostra como entende-se que a noção de Paz tem pré-requisitos relacionados à luta popular.
A caminhada é importante porque Paz é tudo e se você não tem emprego, educação você vai ter paz? É essa luta que temos na nossa comunidade e é essa questão do direito a educação, moradia. Como teremos paz se você não tiver essas coisas básicas? (Cleide, 2010).77
Atualmente, a leitura do material do movimento Sol da Paz nos informa que o movimento faz uma relação profunda e direta entre: luta popular, luta pela paz e a luta por uma educação de qualidade em Heliópolis. O movimento busca inserir a noção de “cultura de paz” nos currículos das escolas em prol dos objetivos educacionais defendidos na comunidade e criar espaços de participação política para reivindicações de condições materiais, tais como espaços educativos e de organização permanentes. Procura-se ensinar outros modos de lidar com a violência a partir de uma sociabilidade coletiva e não do punitivismo. Assim, percebemos que as pautas da Caminhada da Paz e do Bairro Educador se confundem na declaração de objetivos do movimento:
77 Disponível em SOARES (2010).
Figura 12: 20ª Caminhada da Paz, 2018. Fonte: UNAS
- Integrar escolas e equipamentos educativos da região, fortalecê-los para que se tornem centros de liderança e articulá-los para a inclusão de temas pertinentes à comunidade e à cultura de paz em seus currículos, de modo a desenvolver atividades cotidianas que estimulem respeito ao ser humano, independente de sua cor, religião ou sexualidade; (...)
- Transformar Heliópolis em um Bairro Educador, onde todos se sintam estimulados a ensinar e a aprender, com base em seus cinco princípios: tudo passa pela educação, a escola como um centro de liderança, solidariedade, responsabilidade e autonomia.
Bairro Educador é, portanto, um projeto, assim como um movimento e uma prática. É um apanhado de metas, que orientam a ação educativa em diversos espaços da comunidade, e que parte do princípio de que a Educação é a melhor resposta à violência e que, igualmente, é responsabilidade do conjunto da comunidade, não somente daqueles que são educadores como profissão. Além disso, o projeto supõe uma mudança no sentido da educação que se realiza na comunidade, voltando-a aos interesses e demandas do povo. Seria ainda um espaço para experimentação, segundo João Prefeito “é um bairro onde nós podemos ser um exemplo para outros lugares (...) tipo aqui ser um laboratório de estudos para outros lugares”.
O primeiro objetivo, a articulação de escolas, equipamentos e grupos populares que tratam de educação, saúde, cultura e lazer tem o intuito de responsabilizar a todos pela educação, assim como fortalecer a ideia de que a escola e outros espaços públicos sejam de fato do povo. Entende-se que todas as pessoas da comunidade são educadoras.
Figura 13: Concentração da 20ª Caminhada da Paz, ao lado da EMEF Campos Salles. Fonte: UNAS
Este processo motiva diversos eventos culturais que acontecem periodicamente na favela de Heliópolis78 e impulsionou diversas mudanças em outras escolas da região nestes últimos anos, no sentido de construção de gestões mais democráticas, currículos mais abertos e fortalecimento da relação escola-comunidade. Este princípio de que todos são responsáveis pela educação, contudo, pode ter ramificações contraditórias em relação à busca por uma educação de qualidade.
Ao mesmo tempo que se propõe uma educação para além da escola e construída coletivamente, esse discurso pode desvalorizar professores. Se todos ensinam, qual é a importância do professor? Isso nos remete à ideia do notório saber79. Além disso, a ideia de um bairro educador supõe não depender do Estado, isto é, se este não garante uma educação de qualidade, a comunidade a constrói ela mesma. Por uma perspectiva, isso é libertador, sendo uma educação que emerge da comunidade com objetivos pedagógicos que fazem sentido neste contexto. Por outro lado, esse processo significa, também, desresponsabilizar o Estado em relação à educação, assim como em relação à pacificação, ou seja, à segurança pública, transferindo essas tarefas ao Bairro Educador, ao Movimento Sol da Paz, à UNAS, à população de Heliópolis em geral.
O Movimento Sol da Paz, fala ainda em democracia e direitos humanos, mas o que entende como real força para inclusão e transformação social, é a Educação. Esta perspectiva idealiza a educação, e pode propagar uma ideia de educação salvadora, capaz de resolver todas as desigualdades sociais, mas essa visão coexiste com a crítica da forma escolar, que está presente também na maioria dos textos do Bairro Educador e principalmente, da Campos Salles. É por isso, na perspectiva do movimento, que se faz necessário mudar os processos educativos formais e não-formais que ocorrem na comunidade. Se esta é a ferramenta para transformar o mundo, então é preciso que a Educação seja como este outro mundo que se quer construir, libertadora.
78 Entre estes eventos está o Seminário da Educação em Heliópolis: Bairro Educador que em 2017 teve sua oitava e trata de temas muito variados como educação infantil, ensino médio, políticas públicas para jovens, redução da maioridade penal, políticas de saúde, direito à cidade e ocupação do espaço público, maternidade na juventude, o papel da escola na sociedade etc. Há convidados externos para alimentar os debates, mas para cada tema há sempre um espaço para que as pessoas da comunidade possam debater cada tema a partir da vivência na comunidade.
79 O notório saber é medida incluída na atual proposta de reforma do Ensino Médio que permite que pessoas sem diplomas em cursos de pedagogia e licenciatura lecionem na rede básica desde que comprovem ter ‘notório saber’ no tema que pretendem ensinar. A medida foi apresentada como solução à falta de professores. Além da precarização da categoria docente, pelo abandono da formação, nota-se que a medida atende também a interesses privados, como a criação de empresas, que certificam este suposto ‘notório saber’, ligadas a instituições como Itaú Social e a Fundação Lemann. Ver mais em: https://avaliacaoeducacional.com/2016/09/24/notorio-saber-vire-professor-em-5-semanas/;