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3 A SEGUNDA GUERRA SINO-JAPONESA E SUAS CAMPANHAS: O NÍVEL

3.3 AS OPERAÇÕES NA CHINA CENTRAL: CAMPANHA DE WUHAN E O

3.3.2 A Campanha de Wuhan (Junho – Dezembro de 1938)

Após a queda de Xuzhou os japoneses se voltariam para a ofensiva contra Wuhan. A operação possuía dois objetivos. O primeiro objetivo era a captura da cidade de Wuhan e de todos os pontos estratégicos ao longo do rio Yangtze, garantindo a principal linha de comunicação entre o litoral chinês e o seu interior. A partir deste objetivo os japoneses esperavam garantir o controle de todas as principais cidades chinesas e das conexões entre elas. O segundo objetivo era cercar e destruir as forças chinesas responsáveis pela defesa da região (TOBE, 2011, p. 210). Wuhan era a última grande cidade chinesa ao longo do Yangtzé que permanecia sobre o controle chinês. Esperava-se que sua captura, em conjunto com Guangzhou (Cantão), no litoral sul, eliminaria a capacidade dos Nacionalistas de governar e a sua vontade de lutar. Se isto não ocorresse imediatamente, ao menos permitiria a constituição de um governo concorrente nos territórios ocupados, o que minaria o apoio chinês a Jiang Jieshi (TOBE, 2011, p. 210).

Para a ofensiva contra Wuhan os japoneses reuniram uma força de 400 mil homens no 11º Exército e no 2º Exército sob o comando do general Hata Shunroku, com o apoio da 3ª Frota, que disponibilizou 120 navios, incluindo o porta-aviões Soryu e mais 300 aeronaves, embarcadas e baseadas em terra (MACKINNON, 2011; TOBE, 2011; VAN DE VEN, 2003; WILSON, 1983). O plano era realizar um ataque em duas colunas e cercar Wuhan e suas defesas. Devido a enchente provocada pela destruição dos diques do rio Amarelo, o 2º Exército progrediria no sentido norte-sul atravessando as montanhas Dabie, enquanto o 11º Exército avançaria pelo rio Yangtze com o apoio da Marinha. A ação da Marinha foi fator chave para a

progressão do 11º Exército, atuando como uma força Panzer alemã, seguia a frente das divisões de infantaria quebrando as defesas ribeirinhas e realizando desembarque na retaguarda e flanco inimigos (VAN DE VEN, 2003).

Os chineses reuniram 800 mil homens para a defesa de Wuhan e do vale do Yangtze sob o comando do general Chen Cheng (MACKINNON, 2011, p. 196). O seu plano era o posicionamento das tropas nos pontos mais importantes ou defensáveis no caminho japonês. No norte, o objetivo era impedir o avanço japonês no difícil terreno ao norte e ao sul das montanhas Dabie e evitar a interdição da ferrovia Beijing-Hankou ao norte de Wuhan. No sul, as tropas foram posicionadas ao longo de posições defensivas e fortalezas ao longo do rio Yangtze com o objetivo de bloquear o avanço japonês após Jiujiang e empurrar o adversário em direção ao lago Poyang (MACKINNON, 2011, p. 197).

Na operação de defesa de Wuhan, os chineses puderam aplicar em toda a extensão o seu conceito operacional do chijiuzhan, as linhas inimigas encontravam-se largamente estendidas, havia a vantagem do terreno, houve tempo para preparar defesas e posicionar os elementos de artilharia e armas anti-tanque que os chineses ainda possuíam. Contudo, o verão úmido de 1938 trouxe para ambos os lados o obstáculo das doenças como disenteria, cólera e malária (MACKINNON, 2011, p. 197; WILSON, 1983, p. 123–124). Os chineses tinham consciência de que em algum momento cederiam em Wuhan, mas esperavam ser capazes de resistir até um ano, provocando o máximo de desgaste aos japoneses e, ao fim, preservando o núcleo de suas forças. Contudo, os chineses estavam prestes a enfrentar a maior operação ofensiva já executada pelos japoneses até aquele momento (WILSON, 1983, p. 125, 131).

Figura 7 - Batalha de Wuhan

Inicialmente, os japoneses com o apoio da 3ª Frota impuseram um rápido avanço ao longo do Yangtze. O dia 15 de junho abriu o combate no primeiro posto defensivo chinês em Anqing e a cidade caiu em apenas um dia. Em 24 de junho os japoneses avançaram contra a fortificação de Madang. Madang ficava a meio caminho de Jiujiang e suas defesas estavam sendo preparadas há mais de um mês, por isso, os chineses esperavam travar uma grande resistência. Entretanto, falhas de comando e comunicação levaram à queda de Madang em um dia praticamente sem luta, deixando o caminho para Jiujiang praticamente livre. Os chineses posicionaram 200 mil homens na região de Jiujiang, sendo 80 mil na cidade. Comandados pelos generais de Guangzhou Zhang Fakui e Xue Yue, os chineses seguraram o avanço japonês por quase um mês. Entretanto, quando o combate chegou à Jiujiang em 23 de julho, a cidade resistiu apenas cinco dias, caindo no dia 28 de julho (MACKINNON, 2011, p. 197–198).

Apesar do rápido avanço, de fins de julho em diante, o avanço japonês pelo Yangtze perdeu fôlego e passou a ser muito mais custoso. A partir de Jiujiang, as forças japonesas se dividiriam, com uma força avançando ao sul em terreno montanhoso de Lushan em direção à Nanchang para cortar a conexão ferroviária de Wuhan com Guangzhou no litoral sul, o último grande porto sob o controle chinês (MACKINNON, 2011, p. 198; WILSON, 1983, p. 129). As linhas japonesas se tornaram sobreestendidas e a retaguarda passou a ser fustigada por guerrilhas. A partir deste ponto se tornou inviável o envio de reforços de Nanjing e Shanghai, forçando a uma maior dispersão das forças para o combate à guerrilha. O primeiro grande combate deste avanço ao sul foi na cidade de Ruichang e durou cerca de um mês (MACKINNON, 2011, p. 198; WILSON, 1983, p. 127).

Concomitantemente, os comandantes veteranos da campanha de Xuzhou, Sun Liazhong, Zhang Zhizhong e Tang Enbo lideravam as forças responsáveis por segurar o ataque japonês proveniente do norte nas montanhas Dabie. Neste front os chineses foram capazes de conter o avanço japonês de forma mais eficiente; apenas em Taihu, os japoneses foram contidos por 3 semanas, até 25 de julho, e ainda precisariam de mais um mês para alcançar Guangji, que só caiu após 9 de setembro (MACKINNON, 2011, p. 198–199).

A esta altura, no mês de setembro, os japoneses precisaram de três semanas para subir apenas 16 quilômetros no rio Yangtze. Os chineses eram bem-sucedidos em conter seu avanço, organizando ataques ao sul do rio, o que forçava os japoneses a enviarem reforços da coluna principal (MACKINNON, 2011, p. 199). É nesse contexto que ocorreria a última grande batalha no rio Yangtze, na fortaleza de Tianjiazhen. A fortaleza só cairia em 29 de setembro, após o uso de armas químicas por parte dos japoneses (MACKINNON, 2011, p. 199)

Enquanto isso, nas montanhas Dabie ao norte, os japoneses progrediam em direção à ferrovia Beijing-Hankou na altura de Xinyang para isolar Wuhan ao norte. Os chineses atrasaram o avanço japonês em Lu’an, Shangsheng e Huangchuan. Os japoneses atingiram Xinyang apenas em 30 de setembro, mas as forças responsáveis pela defesa da cidade acabaram por fugir sem lutar. A cidade de Wuhan estava cercada e acabaria capitulando em 25 de outubro (MACKINNON, 2011, p. 199–200). Guangzhou cairia após um desembarque japonês em 12 de outubro após nove dias de luta.

Entretanto, os procedimentos para a retirada, incluindo do governo, das universidades, dos museus, das bibliotecas, da população, dos arsenais e da indústria, que já vinham sendo mobilizados desde o início da guerra, já havia iniciado em Wuhan em agosto (EASTMAN et

al., 1991, p. 131). Quando os japoneses adentraram a cidade não encontraram nada de valor, e

todas as instalações estratégicas haviam sido destruídas. A capital chinesa havia sido transferida para Chongqing, de onde a guerra de resistência continuaria a ser comandada até 1945 (MACKINNON, 2011, p. 200; WILSON, 1983, p. 131–132).

Apesar dos japoneses terem executado a maior operação ofensiva de sua história até então, mais uma vez, não conseguiram cumprir os seus objetivos estratégicos. Wuhan havia caído e após 10 meses uma linha de comunicação havia sido estabelecida com o litoral e o norte da China, mas as forças chinesas não foram destruídas e nem perderam a sua capacidade de combate, o governo de Jiang Jieshi não capitulou, e conseguiu se transferir para o interior do território, onde permaneceria até o fim da guerra.

As baixas para ambos os lados em Wuhan foram pesadíssimas. De acordo com estimativas chinesas, foram 257 mil baixas japonesas e 400 mil chinesas, totalizando 657 mil baixas na campanha (LIU, 2015). Para os japoneses, o resultado de Wuhan levou a uma revisão da estratégia e das operações da guerra. Suas forças estavam sobreestendidas, o território ocupado era imenso e o custo humano e econômico para conquistá-lo havia sido quase insuportável. Uma nova operação das mesmas dimensões só seria repetida em 1944, com a operação ICHI-GO. Como resultado, o Quartel General Imperial avaliou que nenhuma nova ofensiva ou captura de pontos estratégicos levariam a China a se render e que a melhor forma de atingir os seus objetivos estratégicos seria a constituição de um novo governo concorrente ao de Jiang Jieshi (TOBE, 2011, p. 215). Os japoneses deveriam consolidar e pacificar os territórios ocupados. Apenas a região entre Wuhan e Guangzhou continuaria sendo considerada uma zona operacional ativa e somente o 11º Exército, uma força composta por 200 mil homens distribuídos em 7 divisões, seria mantido como uma força operacional ativa. O seu objetivo seria garantir um cerco de longo prazo ao território nacionalista, prevenir ataques chineses e

destruir forças chinesas em caso de oportunidade, esta estratégia ficou conhecida como ‘Paz e Ordem Primeiro’ (TOBE, 2011, p. 215–216).

Além disso, os japoneses planejavam reduzir o efetivo estacionado na China de 750 mil para 400 mil homens, como forma de reduzir o custeio e dar prosseguimento aos seus projetos de modernização (TOBE, 2011; VAN DE VEN, 2003). Após a derrota japonesa no incidente de Nomonhan com a URSS e o início da guerra na Europa, Tóquio via a possibilidade de uma guerra contra a URSS dentro de uma mudança de conjuntura no cenário internacional. Devido a este fator e a percepção de que a guerra na China não poderia ser mais resolvida rapidamente, era necessária uma retirada parcial e a estabilização e consolidação de posições no território chinês (TOBE, 2011, p. 221)

Quanto à China, a estratégia de guerra prolongada havia surtido efeito. Jiang Jieshi havia negado ao Japão a obtenção de seus principais objetivos estratégicos: desabilitar a capacidade de combate chinesa e garantir a rendição chinesa ou a aceitação de suas demandas. O chijiuzhan havia neutralizado a doutrina japonesa do sokkusen sokketsu, forçando o Exército Imperial a utilizar toda a sua capacidade, estender suas linhas ao interior da China em uma campanha ininterrupta de 15 meses, sendo os últimos 6 apenas na campanha de Xuzhou/Wuhan, sem nenhum tipo de definição. Na conferência militar de Nanyue em fins de novembro de 1938, Jiang observou que a guerra até aquele momento havia se desenrolado conforme o planejado, ele afirmou que: “de acordo com a estratégia que determinamos antes da guerra, nós forçamos o inimigo em uma situação de crise que o levará à sua derrota e da qual ele não será capaz de se livrar sozinho” (VAN DE VEN, 2003).

Entretanto, apesar do sucesso estratégico, para os chineses os custos também haviam sido imensos. Parte da elite civil do GMD não aceitaria os custos da guerra de resistência e desertaria após a campanha de Wuhan, inclusive Wang Jingwei, que aceitaria as demandas japonesas e em 1940 se tornaria o líder do governo fantoche nos territórios ocupados da China, o Governo Nacional Reorganizado da República da China (MACKINNON, 2011, p. 205).