3 A SEGUNDA GUERRA SINO-JAPONESA E SUAS CAMPANHAS: O NÍVEL
3.2 OPERAÇÕES NO NORTE E LITORAL CHINÊS: A “BLITZKRIEG” JAPONESA E
3.2.1 A Campanha do Norte da China (Julho – Setembro de 1937)
Em fins de julho de 1937 os japoneses proclamaram um ultimato, exigindo a retirada das tropas chinesas dos arredores de Beijing e o livre trânsito das forças japonesas no norte da China. Conforme a declaração de Guilin, estes termos eram inaceitáveis para os chineses, e assim, o 29º Exército, comandado pelo general Song Zheyuan, manteve sua posição (WILSON, 1983, p. 18–20). Para a defesa de Beijing permaneceram 10 mil homens. Em 28 de julho o Exército de Guarnição da China, comandado pelo general Katsuki Kiyoshi, cercou Beijing partindo de Fengtian. A batalha durou apenas um dia, 5000 chineses morreram e o restante se retirou para a linha do rio Yongding em direção à Baoding. Após a queda de Beijing, com a recusa de Jiang Jieshi de cumprir os termos japoneses, o general Katsuki declarou que, caso as tropas chinesas permanecessem ao norte do rio Amarelo o Japão prosseguiria com as operações até “esmagar o governo de Nanjing” (WILSON, 1983, p. 25).
No dia 29 de julho, os japoneses avançaram sobre Tianjin com a 5ª Divisão do Exército de Guarnição da China, comandada pelo general Itagaki Seichiro, e apoiados pela 2ª frota da Marinha. A 18ª divisão do 19º Exército chinês foi responsável pela defesa de Tianjin, mas também resistiu apenas um dia; em 30 de julho de 1937 Tianjin havia caído (WILSON, 1983, p. 25). Os remanescentes da 18ª Divisão iriam recuar ao longo da ferrovia Tianjin-Pukou, onde permaneceriam até a Batalha de Taierzhuang, durante a Campanha de Xuzhou, em março de 1938.
O objetivo inicial dos japoneses havia se concluído em menos de um mês, o controle do eixo Beijing – Tianjin. Esse controle permitia a conexão do território ocupado japonês na Manchúria com o norte da China a partir de Beijing e, a partir de Beijing, o controle da ferrovia Beijing – Hankou em direção à Wuhan. Com o controle de Tianjin os japoneses garantiram o principal porto do norte da China, o à época denominado porto de Tanggu, estabelecendo uma linha de comunicação marítima com o Japão e o acesso à ferrovia Tianjin-Pukou em direção à Nanjing e Shanghai. A progressão japonesa em direção ao centro da China se daria a partir destes pontos, tornando estas duas ferrovias e suas conexões com cidades portuárias as principais linhas de comunicação do exército japonês na China, conforme já esperado pelo comando Nacionalista.
Figura 4 - Queda de Beijing
Em 31 de agosto, após a negativa chinesa de retirar suas forças do norte da China, mesmo após a queda das suas duas principais cidades, o Estado-Maior japonês reorganizou suas forças para dar continuidade com as operações na região. O Exército de Guarnição da China e as divisões enviadas à China para o seu reforço foram incorporadas e constituíram o novo Exército Regional do Norte da China, sob o comando do general Terauchi Hisaichi. Este exército foi organizado em 1º Exército, comandado pelo general Katsuki Kiyoshi, e o 2º Exército, comandado pelo general Nishio Toshizo (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 161).
Este novo exército, o Exército Regional do Norte da China, possuía um objetivo operacional claro, estabelecido pelo QG em Tóquio: cercar e aniquilar as forças chinesas em campo no norte da China (o 29º Exército) para forçar o governo chinês a aceitar as demandas japonesas; neste momento não fazia parte dos objetivos ampliar o escopo das operações e ocupar territórios (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 162). Para cumprir este objetivo o 1º Exército japonês avançaria pela ferrovia Beijing-Hankou, para forçar uma batalha decisiva em Baoding, enquanto o 2º Exército seguiria pela ferrovia Tianjin-Pukou, em paralelo ao 1º Exército, para fazer um movimento em direção a oeste e cortar a linha de retirada chinesa (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 162).
Bombardeiros do exército buscaram atacar importantes áreas da retaguarda chinesa em Baoding para impedir uma retirada e em 19 de setembro Jiang Jieshi ordenou a defesa da cidade. As forças japonesas iniciaram uma barragem de artilharia contra as muralhas da cidade em 24 de setembro. Contudo, assim que a artilharia cessou fogo, os comandantes chineses ordenaram a retirada para negar batalha aos japoneses e evitar sua destruição. Com isso, cerca de 90 mil homens do 1º e 2º Exército japonês ocuparam Baoding, na ferrovia Beijing-Hankou e Dexian, na ferrovia Tianjin-Pukou, respectivamente, após sofrerem baixas da ordem de 1500 mortos e 4000 feridos (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 163).
Concomitantemente à constituição do Exército Regional do Norte da China, o Exército Kwantung, sediado no Manchukuo sob o comando de Tojo Hideki, criou o seu próprio exército expedicionário, oficializado em 14 de agosto. O objetivo desta nova força, segundo o QG de Tóquio, era garantir o flanco estratégico do Manchukuo na Mongólia Interior. O objetivo de Tojo divergia do de Tóquio, consistia em ocupar a província de Chahar na Mongólia Interior e constituir um novo Estado fantoche, que formaria o Mengjiang em 1939 (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 164). Se utilizando de reforços do Exército Regional do Norte da China, mais especificamente sua 5ª Divisão do general Itagaki Seichiro, Tojo capturou a capital Datong em 13 de setembro. No dia 18 de setembro, o general Katsuki ordenou que Itagaki se dirigisse a sudoeste para Baoding com o objetivo de cercar as forças chinesas e impedir sua retirada.
Itagaki não chegaria a tempo devido ao encontro com forças chinesas em Pingxingguan (Passo de Pingxing), impedindo os japoneses de eliminar as principais forças nacionalistas no norte da China, seu objetivo principal.
Em Pinxingguan ocorreu a primeira operação conjunta entre Nacionalistas e Comunistas: a 115ª Divisão, comandada por Lin Biao, do 8º Exército de Marcha do PCCh (18º Grupo de Exército na designação do GMD) com 6 mil homens operou em conjunção com a 71ª Divisão do Exército Nacionalista. A batalha transcorreu entre 24 e 29 de setembro, quando a 21ª Brigada, comandada pelo general Miura Keiji da 5ª Divisão japonesa, cruzava a única estrada da região. Os chineses cortaram a linha entre os combatentes e sua base de suprimentos, cercando as forças de Miura. A brigada japonesa sofreu grandes baixas e foi necessário atrasar a progressão da 5ª Divisão (o que a impediu de cercar os chineses em Baoding) e pedir reforços para o Exército Expedicionário de Chahar. Após cinco dias de combate e a chegada dos reforços japoneses, os chineses se retiraram. O resultado foi um total de 3 mil baixas do lado japonês, enquanto as forças chinesas sofreram cerca de 30 mil baixas (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 165–167). Esta foi considerada tanto pelo GMD, quanto pelo PCCh, a primeira vitória chinesa da guerra. A batalha de Pingxingguan e as operações ao longo das ferrovias Beijing-Hankou e Tianjin-Pukou deram uma amostra da lógica que seria recorrente na guerra: batalhas com pesadas baixas de ambos os lados, nas quais os chineses acabariam cedendo território, mas impediriam os japoneses de desabilitar as principais forças operacionais da China. Este seria o padrão tático-operacional do chijiuzhan que seria aperfeiçoado ao longo da guerra.
Quanto ao Japão, apesar de ter atingido os seus objetivos em termos territoriais (o controle do eixo Beijing – Tianjin e Chahar), falhou completamente em seu principal objetivo, o de destruir as forças chinesas, para que o governo de Nanjing se curvasse (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 167). Esta falha levaria, progressivamente, os comandantes japoneses a ampliarem suas operações ao sul, perseguindo as forças chinesas, mesmo com a orientação de Tóquio de suspender operações na altura de Baoding. O QG de Tóquio demarcava um limite territorial para cumprir os objetivos operacionais, mas os seus comandantes em campo, gozando de autonomia e pautados pela doutrina do sokkusen sokketsu, ampliavam o escopo das operações, estendendo as suas linhas de comunicação para cumprir os objetivos operacionais (SATOSHI; DREA, E. J., 2011, p. 168). Esta lógica de engajamento impedia Tóquio de reavaliar as operações e traçar novos objetivos ou engajar em negociações. A falha japonesa em cumprir seus objetivos operacionais e estratégicos no norte da China levaria os japoneses a escalar as operações em Shanghai.