Capítulo 3 –Capacidade adaptativa dos sistemas agrícolas locais
3.3. Materiais e Métodos
3.5.2. A capacidade adaptativa das comunidades e agroecossistemas
recursos fitogenéticoslocais
A biodiversidade tem papel funcional de renovação e reorganização na resiliência ecossistêmica após distúrbios. Este assunto é discutido por Folk et al. (2010) que, a partir da análise de observações realizadas em diversos ecossistemas terrestres e aquáticos, sugere que a
biodiversidade, dentro de uma escala espacial ampla, potencializa o recrutamento de espécies, tanto qualitativamente quanto quantitativamente. Os autores concluem que a biodiversidade tem valor de segurança, flexibilidade e dispersão, portanto, relevante diante de situações de incertezas e surpresas. Neste sentido, o papel desempenhado pela biodiversidade em sistemas dinâmicos naturais pode ser equiparado com a agrobiodiversidade dos agroecossistemas.
Ehelers (1999, p.128), baseado em vários pesquisadores, também afirma que ”a estabilidade é função direta da diversidade”, ou seja, a estabilidade de um sistema natural ou agrícola aumenta quanto maior a quantidade de relações tróficas existentes que, por sua vez, é diretamente dependente da diversidade de espécies. Enquanto o aumento da estabilidade tem relação com a maior capacidade de absorção de impactos externos pela dissipação do impacto entre a diversidade que compõe o sistema. Considera-se que o modelo convencional de produção agrícola aumenta a vulnerabilidade do sistema pela simplificação deste e pela lógica de remedição, ao invés de prevenção, que se dá pelo uso de elementos externos ao sistema, como os agroquímicos que, em geral, não agem na causa do desequilíbrio e sim nos efeitos (op. cit.).
Neste sentido, o presente estudo registrou uma grande diversidade de plantas cultivadas e usadas para alimentação que se encontram dentro das unidades familiares, conforme apresentado no capítulo 1. Ao todo foram 114 espécies botânicas identificadas, um número relevante de espécies pensando nesta diversidade como fontes de alternativas e flexibilidade no agroecossistema. Entretanto, a distribuição dessas espécies entre as unidade familiar é bastante desigual (Figura 32).
Apenas 18 espécies registradas na listagem livre de plantas cultivadas nas unidades de produção agrícola são compartilhadas por mais de 40% das unidades familiares (n ≥ 25), enquanto este número decai para 4 espécies na segunda listagem livre. Essa baixa distribuição das espécies entre as unidades familiares pode ser considerada um fator de risco e vulnerabilidade à conservação, principalmente, das espécies cultivadas nas unidades de produção. As motivações que levam os agricultores a cultivarem as espécies devem ser consideradas no intuito de aumentar a distribuição dessas (Tsegaye & Berg, 2007).
Em relação ao uso, das 18 espécies cultivadas que estão mais difundidas entre as unidades familiares, 66,7% (n=12) foram citadas como alimento humano e de animais e com algum tipo de
beneficiamento, indicando que espécies que tem múltiplos usos são mais atrativas para o cultivo. As espécies que tiveram citações de beneficiamento estão sistematizadas no Anexo 20 e sua relevância se deve ao potencial de agregação de valor, aumento no tempo de consumo e por terem valor cultural representando a culinária local.
Figura 32: Gráfico de dispersão das espécies registradas nas listagens livres entre as unidades familiares (n=62).
A soberania alimentar é também considerada uma característica importante na capacidade de adaptação dos agroecossistemas e comunidades (Altieri, 2013, p.99). As espécies cultivadas citadas para consumo humano somam 73, sendo que aproximadamente a metade (49,3%, n=36) foi citada exclusivamente para esta finalidade, e 33 espécies foram citadas por oito ou menos unidades familiares. A baixa distribuição dessas espécies no âmbito comunitário pode ser um indício que as pessoas estão deixando de cultivar alimentos para consumo próprio. Portanto, pode ser também considerada um fator de risco para a soberania e segurança alimentar e nutricional das famílias, assim como, para a economia familiar, pois ao deixarem ser produtores passam a ser consumidores.
Ações que estimulem o cultivo de espécies alimentícias podem contribuir para o aumento da capacidade adaptativa das unidades familiares, pois promovem tanto o capital natural quanto econômico. Neste sentido, fatores relacionados a ligação histórica e cultural com
0 5 10 15 20 25 30 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 N º d e e sp é c ie s
Nº unidades familiares que compartilham a espécie
Listagem livre 1
alguns alimentos deve ser considerada, pois contribuem para a conservação de variedades locais (Tsegaye & Berg, 2007; Vasconcelos et al., 2013). A batata-doce e o cará, por exemplo, estão diretamente associados à produção de pão de milho, um artefato culinário local arraigado às raízes culturais e históricas da região e que foi oferecido a pesquisadora em diversas visitas.
“O milho comum dá um pão melhor (em relação ao híbrido)”. (♀42 anos, Rio Veado).
No entanto, nota-se também a perda de diversidade pela desvalorização desses alimentos, que está relacionada ao acesso a mercados de abastecimento doméstico, à substituição de variedades locais por novas “melhoradas” comerciais e a mudanças nos agroecossistemas.
“A única coisa que eu não planto mais é o tal do cará-mimoso. Aquele cará era só pra comer, tipo batatinha, batata-inglesa, né. Aquele não era pra pão. Era pra descascar e punha ele com galinha ensopada. Mas aquele eu não planto mais, por que ele num produzia muito bem. Tinha que achar de uma outra espécie que produzisse melhor. Tipo hoje batata-aipo, a batata-salsa. Eu não tenho, eu parei de plantar por que ela não produzia mais. Hoje já tem novas mudas, que até a Epagri anda distribuindo no ano passado, que ta produzindo de novo. Se eu achar muda pra mim eu vou plantar também.” (♂ 36 anos, Trombudo) Shiva (2003, p. 66) analisa uma série de situações de sistemas de cultivo de arroz na Índia comparando a produtividade de variedades locais e “variedades de alto rendimento” comerciais. A autora conclui que a destruição da diversidade local, causada pela substituição desta pelas variedades comerciais gera uniformidade e ao mesmo tempo cria vulnerabilidade por destruir a estabilidade promovida pela diversidade local. Estudos no oeste de Santa Catarina mostram como agricultores familiares daquela região estão mantendo variedades locais de milho como uma estratégia para o enfrentamento de eventos climáticos extremos, principalmente secas. A diversidade local de milho é considerada importante justamente por apresentar variabilidade e, portanto, por ter o potencial de resistência a eventos climáticos,
garantindo estabilidade na produtividade ao evitar grandes quebras de safra (Vasconcelos et al., 2013).
Portanto, valorizar as variedades locais das espécies cultivadas é importante como fonte de recurso que possibilita desenvolver variedades mais resistentes aos distúrbios que atingem os agroecossistemas com regularidade. Por terem se desenvolvido em sistemas agrícolas antes da chegada do modelo agrícola convencional, podem inclusive representar recursos com alto potencial de adaptabilidade aos sistemas orgânicos, pois, os próprios colaboradores se referem ao manejo orgânico como uma volta ao sistema antigo.
Tratando-se das famílias do grupo orgânico notamos que estas aproveitam maior diversidade tanto para autoconsumo quanto para venda (Figura 16, p.94). Estes são indícios de que o sistema orgânico pode promover a soberania alimentar das unidades familiares e a diversificação dos sistemas de cultivo, elementos importantes para aumentar a capacidade de respostas adaptativas dos agroecossistemas e da comunidade.
Em relação aos dados apresentados no capítulo 1 sobre os agroecossistemas da região de um modo geral, evidenciou-se a ampla adesão das famílias na prática do reflorestamento pela presença e tamanho relativo de área nas quais são plantados, sobretudo, eucalipto, constando em 87% das unidades familiares do grupo convencional e 100% do grupo orgânico (Anexo11). Os reflorestamentos ocupam extensas áreas, mesmo sendo um investimento visando lucro a longo prazo e o mercado e retorno financeiro ainda serem incertos para muitas famílias. A predominância das áreas de reflorestamento em relação às demais unidades produtivas é reflexo dos estímulos externos que os agricultores recebem, principalmente, para suprir a demanda de lenha das estufas de fumo.
No entanto, estratégias que visem aumentar a resiliência dos agroecossistemas locais devem considerar sistemas alternativos às monoculturas arbóreas, como por exemplo, sistemas agroflorestais consorciando espécies nativas e/ou adaptadas a região (Altieri, 2013, p.100). A composição de policultivos deve considerar as espécies que tenham uso alimentar nas unidades familiares e com potencial de comercialização. O estudo e publicação Plantas para o Futuro – Região Sul, por exemplo, identificou uma enorme diversidade de espécies da vegetação nativa que apresentam valor econômico real ou potencial (Caradin et al., 2011).
A análise partindo do nível das unidades familiar para o nível comunitário é relevante, pois, os núcleos familiares representam o menor nível de organização no qual ocorre a reprodução do conhecimento ecológico associado ao sistema agrícola, que é baseado em léxicos, fatos, e em um conjunto de conhecimentos específicos e especializados ao microambiente onde efetivamente se dão os usos e interações com o agroecossistema (Netting, 1993, p.62). Estes conhecimentos e experiências se tornam ainda mais importantes quando há diversidade de unidades produtivas e alta variabilidade biológica e ambiental, pois propiciam um retorno mais eficiente do trabalho empregado no manejo do agroecossistema (idem, p.63).
O papel da rede de troca de sementes na adaptabilidade dos agroecossistemas
No estudo da rede de troca de sementes foi identificada uma grande diversidade de espécies cuja origem foi referida diretamente à transmissão familiar e às propriedades. Estas plantas foram reunidas nas categorias legado familiar (50 espécies) e local (55 espécies). Essas categorias apresentaram 37 espécies em comum e a soma da riqueza de ambas totaliza 68 espécies. Além disso, as espécies apresentaram diversas variedades, que resultam do processo dinâmico relacionado com o uso, manejo e história evolutiva da espécie e normalmente apresentam grande variabilidade genética, como têm apontado estudos em diferentes partes do Brasil (Peroni et al., 2007). Os conhecimentos acumulados sobre estas espécies também são importantes fontes estratégicas para adaptação.
O sistema local de troca de sementes correspondeu a 43% dos registros de circulação de sementes e inclui grande parte das espécies da categoria legado familiar (84%) e local (74,5%), indicando também o potencial da circulação das variedades locais através de relações de reciprocidade. Estas, por sua vez, são estabelecidas principalmente entre parentes e vizinhos, indicando haver coesão social no nível das comunidades, o que representa uma característica importante por ser capaz de influenciar na manutenção da diversidade local e do conhecimento associado a estas (Vasconcelos et al., 2013). Também por aumentar a capacidade de resposta adaptativa dos agroecossistemas e comunidade, principalmente por aumentar a resiliência econômica e ambiental (Almeida et al., 2009).
As práticas de reciprocidade envolvidas na circulação das sementes também indicam que ações com foco principal nas sementes são meios para melhorar a integração e fortalecer as organizações locais, sejam elas formalizadas, como os grupos da Rede Ecovida, sejam elas informais. Estudos focados no manejo de etnovariedades de mandioca apontam que no Brasil organizações locais e o cultivo por agricultores familiares são as principais formas de manutenção local e regional de agrobiodiversidade tendo em vista a escassez de políticas públicas favorecendo a conservação dessa diversidade e ressaltam as redes de troca de material de propagação como um relevante mecanismo de acesso a novas variedades (Cavechia et al., 2014). No mesmo sentido, diversas iniciativas no mundo seguindo o método de manejo comunitário de biodiversidade tratam diretamente do manejo e conservação das sementes como, por exemplo, bancos e reservas de sementes comunitários (López & Recinos, 2013; Silva, 2013; Sherestha et al., 2013), registros comunitários de sementes (Subedi et al., 2013) e kits de diversidade (Canci et alii., 2013). Estas experiências são consideradas alternativas para fortalecer a conservação da agrobiodiversidade e ao mesmo tempo fomentar a organização local das comunidades.
Em relação aos parâmetros da estrutura da rede formada pela troca de sementes, ficou evidente que as famílias envolvidas com sistema orgânico são capazes de estabelecer relações diretas com maior número de nós da rede, pois a comunidade que apresentou maior grau de centralidade representa apenas uma pequena parte dos colaboradores da pesquisa (n=4) e todos em transição ou com sistema totalmente convertido para agricultura orgânica. Os nós da rede, localizados nesta posição central, são considerados importantes por desempenharem um papel crítico em situações em que é necessário realizar adaptações no manejo dos recursos naturais. Nesta posição os nós têm acesso a uma grande gama de saberes, técnicas, recursos e diferentes modos de vida. Têm também maior potencial de encontrar novas formas de se adaptar a diferentes situações, em momentos distintos, numa paisagem em constante transformação (Bodin et al., 2006).
A medida de centralidade de intermediação das comunidades Trombudo e Rio Veado, em relação à circulação das sementes, evidenciou que a posição geográfica tem influência na circulação das sementes. Neste sentido, é interessante considerar as comunidades com maior grau de intermediação para o desenvolvimento de estratégias que aumentem a resiliência comunitária e dos agroecossistemas locais por
estarem situadas numa posição que propicia a circulação de recursos e informações, com capacidade de otimizar esforço na difusão de alternativas de adaptação.
A investigação da rede de troca de sementes também evidenciou como fator de risco, apesar de incipiente, a presença e difusão de sementes transgênicas de milho.
“Eu plantei um pouquinho transgênico, né, mas só pra fazer um teste. Esse ano. Tá bonito, só que ainda não foi colhido, ta na roça ainda, né. Eu ganhei um pouquinho de semente e plantei só pra fazer um teste, pra ver se ele produz bem. Mas ta bonito. ... Ganhei, recebendo de um amigo ai, ele é da Nova Galícia. (...) Ele (semente milho transgênico) é caro, mas no final sai mais barato por que eu posso passar o Roundup em cima pra matar o mato.”(♂ 67 anos, Tifa Rio das Flores, Pinheiral)
A ausência de esclarecimento aos agricultores por parte de instituições públicas que atuam na área agrícola em relação à natureza tecnológica envolvida no desenvolvimento dessas sementes, somado a ideia difundida de que estas são de “alta tecnologia”, promovem o uso de variedades aderindo compulsoriamente a um pacote tecnológico de alto custo econômico, ambiental e dependente de insumos externos, perpetuando a dependência dos agricultores aos princípios do sistema convencional e suas consequências socioambientais (Almeida et al., 2009; Caporal, 2013). Além disso, há o risco de contaminação com outras variedades e, por isso, também representa uma ameaça ao sistema de produção orgânica (Heinemann, 2012b).
No sentido oposto, as práticas de reciprocidade promovidas pela troca de sementes locais aumentam a autonomia da comunidade e também a sua capacidade de enfrentamento a distúrbios nos agroecossistemas (Vasconcelos et al., 2013). Em suma, destacam-se como elementos importantes para o aumento da capacidade adaptativa dos agroecossistemas locais tanto a valorização de elementos socioculturais e ambientais da região, como as variedades locais e espécies com diversos usos, quanto o desenvolvimento do sistema orgânico, pois este representa um modelo agrícola que promove o acesso à recursos e informações alternativos.
3.5.3. Motivações e dificuldades enfrentadas pelas famílias