• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 2 – Redes de troca da vida agrícola

2.2. Objetivo geral

Investigar o papel das redes de troca de sementes na conservação da diversidade das espécies e variedades listadas, visando conhecer a dinâmica do fluxo dessa diversidade e os tipos de relações sociais envolvidas na rede.

a) Investigar o sistema de sementes local e formal.

b) Analisar a dinâmica temporal e espacial do fluxo das sementes. 2.3. Materiais e métodos

A análise da rede de trocas foi realizada a partir dos dados gerados nas listagens-livres que se referem a diversidade agrícola, aos atores, aos locais, ao tempo de origem e a circulação das sementes. Os atores envolvidos na circulação das sementes e as relações que permeiam esta circulação (ganho, doação, compra, venda, etc.), foram analisados no intuito de investigar padrões de relações, medidas de centralidade, assimetrias, distribuição das sementes e conservação da agrobiodiversidade (Pautasso et al., 2012).

Neste trabalho, as redes sociais são concebidas como um conjunto de relações aplicadas a um conjunto finito de atores (Souza et al., 2008), incluindo informações adicionais sobre os atores e as relações (Prell, 2011, p.31). A rede de troca de sementes é caracterizada como uma rede multimodal, pois é formada por diferentes tipos de relações estabelecidas entre os atores, como parentesco, vizinhança, institucional, comercial, etc. (Souza et al., 2008).

A abordagem utilizada para investigação da rede é caracterizada como rede ego-centralizada sem “alter” conexão, por focar nos nós individuais sem considerar as conexões estabelecidas pelos “alters”, que são elos secundários, identificados através dos nós individuais (Souza, 2008). Neste estudo, os nós individuais são as comunidades estudadas (nós primários) e os outros locais citados (nós secundários) de onde as sementes advém. As redes egocêntricas, segundo Hanneman & Riddel (2005), são úteis para entender como as redes podem afetar os indivíduos e, ao mesmo tempo, proporcionam a visualização, mesmo que parcial, da estrutura da rede como um todo.

As fronteiras da rede não foram pré-estabelecidas, de modo que surgiram durante o desenvolvimento da pesquisa através da inclusão de

novos atores pelos entrevistados. No entanto, trata de uma comunidade geográfica específica, pois os critérios de seleção explicitam “agricultores ativos conhecidos na região”.

Os dados de concessão e recebimento de sementes entre os atores foram analisados, em parte, no programa Pajek 126 (Batagelj & Mrvar, 2010), que permite visualizar os fluxos de trocas dentro das redes e calculadas métricas de rede.

2. 4. Análise dos dados

Os métodos de análise dos dados utilizados foram escolhidos com o intuito de que sejam visualizados diferentes tipos de comportamento possíveis dentre os elementos da rede, como a frequência temporal das trocas, as espécies, os tipos de relações sociais envolvidas, a extensão geográfica abrangida pelas trocas e o fluxo das sementes.

Os relatos de circulação das sementes foram agrupados, conforme o tipo de relação envolvida na origem destas, nas seguintes categorias: compradas, ganhadas, doadas, locais e origem não identificada. Parte das sementes ganhadas foram subcategorizadas como legado familiar, reunindo os relatos nos quais a origem da semente foi vinculada à transmissão através de gerações e há tempo imemorial.

Tratam-se de categorias éticas, não êmica, pois foram criadas para representar os padrões encontrados nos registros feitos no âmbito da pesquisa (Harris, 1976). Estas categorias são generalizações coesas dentro da grande diversidade de situações nas quais ocorre a circulação das sementes. A categorias foram analisadas através de estatística descritiva e também subdividindo os resultados entre os grupos de unidades familiares orgânicas e convencionais visando perceber influências que a adoção do sistema agrícola orgânico pode exercer na rede.

As relações sociais entre os atores da rede foram categorizadas conforme o tipo de relação social existente entre o doador, ou vendedor, e o receptor das sementes, e a frequência com que as trocas, ou vendas, ocorreram. A frequência foi agrupada em classes de cinco em cinco anos até 20 anos (1-5, 6-10, 11-15, 16-20) e os relatos que remetem há mais que 20 anos (>21 anos) foram agrupados numa única classe. A investigação de aspectos temporais e relacionais na circulação das sementes são importantes para compreendermos como está ocorrendo a manutenção da agrobiodiversidade nas propriedades, ou seja,

conservação in situ on farm (Pautasso et al., 2012; Cavechia et al., 2014).

As sementes referidas como ganhadas e doadas, que representam o sistema local, foram primeiramente analisadas através de uma matriz quantitativa de frequência para visualização da distribuição entre as classes temporais e para análise de quais espécies estão sendo trocadas com maior ou menor frequência, demonstrando centralidade e existência de subgrupos de plantas.

No intuito de buscar variáveis explicativas auxiliares na interpretação da análise de rede foi realizado o teste de correlação linear simples de Pearson (r), no programa R (R Core Team, 2012). Foi testada a correlação entre a idade do colaborador mais velho da unidade familiar e a riqueza de espécies listadas nas unidades familiares, e a correlação entre a idade e o número de trocas de sementes.

A análise da rede de troca foi feita a partir do nível comunitário. Esta escolha se deve ao fato das comunidades estudadas serem formadas por grupos de famílias que compartilham histórico, modo de vida e atividades econômicas semelhantes. Também, se considera que o isolamento geográfico relativo das comunidades confere maior probabilidade de relações entre as famílias que pertencem a uma mesma comunidade.

Foram gerados ao todo quatro sociogramas para visualização do fluxo e intensidade das trocas: dois para os eventos que ocorreram de 2003 à 2013, uma para ganhadas e outro para doadas, e dois para os eventos anteriores à 2003, também separando os eventos de ganhos e doações. A separação dos dados teve como intuito incluir o componente temporal na análise e também perceber possíveis influências da chegada da alternativa agroecológica na região, o que ocorreu em 2003, dez anos antes do período de realização desta pesquisa.

Para auxiliar na interpretação dos sociogramas que representam a interação das comunidades nas redes, foram utilizadas duas métricas para medição de estruturas de centralidade na rede: grau de centralidade e centralidade de intermediação. Estas medidas foram calculadas apenas nos dois sociogramas que representam as trocas realizadas nos últimos 10 anos.

O grau de centralidade é uma medida que representa o número de contatos diretos que um nó tem na rede (Prell, 2011). O grau por si só simboliza o número de arestas que incidem sobre um determinado vértice (Figueiredo, 2014, p.310), neste caso com quantas localidades cada comunidade está diretamente ligada. O alto nível de conexão por

relações estabelecidas pelo ganho de sementes pode indicar envolvimento ou dependência de um nó, enquanto o alto nível de conexão pelo estabelecimento de relações devido a doação de sementes pode indicar popularidade do nó, neste caso das comunidades (Prell, 2011).

A centralidade de intermediação expressa o poder dos nós controlarem o fluxo das informações, neste caso, das comunidades controlarem o fluxo de circulação das sementes, considerando o trajeto que essas podem percorrer. Propicia perceber quais comunidades estão entre diversos caminhos atuando, de certa forma, como pontes ou intermediários podendo, por isso, influenciar na circulação ou estagnação dos recursos na rede (Hanneman, 2014). Por isso, é uma medida que também traz a ideia de poder de transmissão e de recepção das informações e recursos que circulam na rede (Marteleto, 2001). Em determinadas situações, os nós nesta posição tendem a ter uma visão mais holística na discussão de temas que são promotores da rede (Prell, et al., 2009). No caso de redes direcionadas assimétricas, como a do presente trabalho, a centralidade de intermediação relativa é dada pela fórmula CB(x) = cB (x)/(n -1) (n – 2), em que cB (x) é a centralidade de intermediação do vértice x e n é o número total de vértices da rede (Mrvar, 2014).