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Capítulo 2 – Ofícios

2.1. A carpintaria e o carpinteiro

Adágio português do carpinteiro:

Quando o carpinteiro tem madeira que lavrar E a mulher pão que amassar Não lhe falta pão que comer Nem lenha que queimar.

BLUTEAU: 1712, T. IX, p. 202

A palavra “carpintaria” ou “carpentaria” provém do latim carpentum, que resulta da palavra composta “carro” e o sufixo “aria”84. Assim como a carpintaria, a palavra

“carpinteiro” (carpenteiro) advém do latim carpenterius, homem que fabrica carros, e de carpentum, carro85. Segundo Domingos Vieira, por extensão nas línguas românicas, o carpinteiro de carros tornou-se o nome do carpinteiro em geral e foi definido como o “nome dos artífices que trabalham em madeiras para construções de terra ou para navios”86. O dicionário de Moraes Silva, de 1789, define carpinteiro como um oficial que trabalha em madeira de construção civil ou náutica, sendo estes últimos também conhecidos como “da Ribeira”. Em francês, o carpinteiro é designado por charpent, charpentier ou carpentier e era atribuído aos artesãos que cortavam, erigiam, montavam e colocavam em prática as obras estruturais de uma edificação.

Os ofícios de carpinteiro e de pedreiro sendo aptos na execução de plantas, em calcular os gastos e em dirigir os oficiais na execução das obras terão estado na origem da profissão de arquiteto. Segundo Eduardo Faria, a palavra “architécto” provém do grego arkhitekton, construtor ou edificador (capataz dos carpinteiros e capataz dos pedreiros), derivado das palavras archi (chefe ou superior) e tektòn (carpinteiro), por sua vez tektòn terá derivado de teukhô (trabalhar em madeira, fabricar)87. Este último termo (teukhô)

parece ter origem na palavra egípcia takteoul (“cerca de muros, o que exercita a

84 VIEIRA, 1871: T. II, 117 85 VIEIRA, 1871: T. II, 117 86 VIEIRA, 1871: T. II, 117 87 FARIA, 1850: T. I, 510

architectura, o que dá ou fórma os desenhos dos edifícios, faz as plantas, calcula os gastos, e dirige os oficiais para a execução”88).

Desde os primórdios da civilização, as construções edificadas de carpintaria são as mais antigas. Os primeiros homens, alheios aos inúmeros materiais que a terra dispunha, cortavam a madeira das florestas para construir as primeiras cabanas89.

Segundo Henry Havard, a carpintaria consistia na arte de cortar e montar a madeira destinada às estruturas de uma edificação, mas, além do desempenho na construção civil, também se prestava a um papel significativo na decoração. A arquitetura, pela elegância da sua carpintaria, adquiria um grande carater de beleza, através do vigamento dos andares, das escadarias e dos sótãos.

Os principais trabalhos da carpintaria eram estruturais tais como: telhados; muros; “escadas de saída”, executadas por norma nos edifícios alugados90; pisos; claraboias, etc.

A este tipo de trabalho era designado de “moldura de uma casa” (la charpente d’une maison91). Para além da estrutura dos edifícios, os carpinteiros também construíam maquinaria capaz de levantar pesos para a construção de pontes, diques, etc.

Apesar destes aspetos positivos, os edifícios construídos totalmente em madeira corriam sérios riscos em caso de incêndio. Por este motivo, nos edifícios de grande importância, era evitado o uso integral em madeira sendo aplicada em áreas específicas do edifício, onde à partida estaria isento de acidentes que provocariam o incêndio92.

Gradualmente, a arte da carpintaria foi obtendo progressos devido ao empenho por parte dos empreiteiros e dos operários em adquirir conhecimentos matemáticos. Outras especificidades e métodos da carpintaria eram igualmente importantes como: evitar peças de assemblagem complicadas para não retirarem à madeira parte da força que lhe era imposta; perceber o melhor método em cortar, colocar e montar a madeira; e ter conhecimento das características e comportamentos da madeira após o corte (durabilidade, dureza, resistência aos elementos, etc.)93.

88 FARIA, 1850): T. I, 510

89 DIDEROT; D’ALEMBERT, 1778: Vol. V, 498 90 DIDEROT; D’ALEMBERT, 1778: Vol. V, 499 91 HAVARD, 1887: T. I, 771

92 DIDEROT; D’ALEMBERT, 1778: Vol. V, 499 93 DIDEROT; D’ALEMBERT, 1778: Vol. V, 499

Em França, segundo Henry Havard, o título de carpinteiro era reivindicado pelos artesãos que trabalhavam a madeira com instrumentos afiados (du tranchant em merrin94). Dos artesãos que trabalhavam com instrumentos afiados, Étiene Boileau, especialista sob a bandeira dos carpinteiros, enumerou os seguintes ofícios: os carpinteiros propriamente ditos; os huchiers (fabricantes de arcas e cofres); os huissiers (fabricantes de portas); os tanoeiros; os charrons; os couvreurs; os cochiters (fabricantes de carros); os feseurs de nez (nefs) (construtores de barcos); os tourneurs (torneiros); os lambrisseurs (construtores de lambris), etc. Estes ofícios tão heterogéneos permaneceram unidos sob a mesma jurisdição e sujeitos aos mesmos regulamentos até ao século XV95. Os estatutos dos carpinteiros franceses obrigavam os artesãos a interromperem o trabalho ao sábado a partir das três horas e a retomarem na manhã de segunda-feira, exceto quando as estruturas necessitavam de ser consolidadas. Estes artesãos estavam proibidos de trabalhar durante a noite, mas obtinham autorização quando estavam ao serviço do rei e da rainha. Os estatutos corporativos franceses foram sucessivamente revistos nomeadamente nos anos de 1404, 1454, 1467 e 151496 (os “estatutos do carpinteiro” em Portugal serão apresentados no caso português). Uma das maiores alterações na Comunidade dos carpinteiros franceses consistiu na divisão dos “carpinteiros do grande machado” (les charpentiers de la grand Cognée97), artesãos que

executavam as obras da carpintaria propriamente dita, destinadas à construção civil, e os “carpinteiros do pequeno machado” (les charpentiers de la petite Cognée98) que a partir

do século XV foram nomeados por menuisiérs (marceneiros em português) devido à execução de obras mais delicadas e de proporções mais modestas. Apesar da distinção entre as duas profissões, por orgulho ou por um sentimento legítimo de superioridade dos seus trabalhos, os menuisiérs (marceneiros) permaneceram até ao final do século XVI unidos à qualificação profissional do “grande machado”. No século XVII, a separação entre as duas categorias - “grande machado” e “pequeno machado” - findou e foram concedidos novos estatutos aos carpinteiros em 1649, pela regente Ana de Áustria. Foram

94 HAVARD, 1887: T. I, 771 95 HAVARD, 1887: T. I, 771 96 HAVARD, 1887: T. I, 771 97 HAVARD, 1887: T. I, 771 98 HAVARD, 1887: T. I, 771

registados no Parlamento Francês, a 22 de janeiro de 1652, com o título de Statuts, Articles et Ordonnances des Jurés du Roi, ès oeuvres de Charpenterie de la Ville, Pévoté et Vicomté de Pris, et des Maîtres Charpentiers des fauxbourgs et banlieue d’icelle99.

Os autores Diderot e d’Alembert de facto confirmam, na Enciclopedie, a cisão entre os ofícios, referindo que os carpinteiros pertenciam ao “grande machado” e os marceneiros ao “pequeno machado”100, como pode ser confirmado na seguinte

transcrição: “On distingoit autrefois les charpentiers des menuisiers, par les noms de charpentier à la grande coignée, qu’on donnait aux premiers; & de charpentiers à la petit coignée, qu’on donnoit aux seconds”101. No entanto, não foi tecido nenhum

comentário sobre os marceneiros se considerarem parte integrante do “grande machado” nem tão pouco acerca do término das categorias do “grande machado” e do “pequeno machado”.

Figura 14 - Símbolo dos carpinteiros de França, século XV (HAVARD, 1877: T. I, 773).

99 HAVARD, 1887: T. I, 772

100 DIDEROT; D’ALEMBERT, 1778: T. VII, 500 101 DIDEROT; D’ALEMBERT, 1778: T. VII, 500

Em Portugal, entre 1712 e 1913102, na definição geral das palavras “carpintaria” e “carpinteiro” foi comum a designação de “ofício de carpinteiro” e “oficial que trabalha em madeira”, respetivamente.

Segundo Raphael Bluteau, a carpintaria (carpenteria, carpenterîa) significava “obra de carpinteiro; arte ou ofício de carpinteiro”103 e a palavra “carpinteiro” foi descrita

como o “oficial que faz obras lizas de madeira”104.

Em 1789, António de Moraes Silva definiu “carpintaria” (carpenteria) como “oficio de carpinteiro; deu-se à carpenteria; obra de carpenteria”105. Definiu “carpinteiro”

(carpenteiro) como o “oficial, que trabalha em madeiras de construção civil, ou náutica, e estes se dizem da Ribeira”106. Luiz Maria da Silva Pinto, em 1832, simplifica

completamente as definições, referindo-se à carpintaria como o “oficio de carpinteiro”107 e o carpinteiro como o “oficial que trabalha em madeira”108. Por sua vez, Eduardo Faria, em 1852, descreveu a carpintaria como o “oficio de carpinteiro; oficina onde trabalham carpinteiros”109, definindo a palavra “carpinteiro” (carpenteiro) como o “oficial que

trabalha em madeiras de construção. – da ribeira, o que trabalha nos estaleiros. Os carpinteiros e calafates do Arsenal não podem trabalhar nas obras dos particulares sem licença da Intendencia da marinha”110.

Em 1871, Domingos Vieira entende a “carpintaria” (carpentaria) como o “Officio de carpinteiro; trabalho de carpinteiro; obra de carpentaria; A carpentaria d’uma casa, a parte da casa feita por carpinteiros”111 e a palavra “carpinteiro” (carpentéiro) foi definida

como o “nome dos artífices que trabalham em madeiras para construcções de terra ou para navios”112.

102 Foram consultados dicionários de Língua Portuguesa, entre 1712 e 1913, para as palavras “carpintaria”

e “carpinteiro”. 103 BLUTEAU, 1712: T. II, 158 104 BLUTEAU, 1712: T. II, 158 105 SILVA, 1789: V. I, 350 106 SILVA, 1789: V. I, 350 107 PINTO, 1832: s/p 108 PINTO, 1832: s/p 109 FARIA, 1852: T. II, 143 110 FARIA, 1852: T. II, 143 111 VIEIRA, 1871: T. II, 117 112 VIEIRA, 1871: T. II, 117

Por seu lado, em 1913 Candido Figueiredo definiu “carpintaria” como “trabalho ou ofício de carpinteiro”113 e carpinteiro como o “artífice, que trabalha em construcções

de madeira, ou que lavra e apparelha a madeira para qualquer obra. Primitivamente, fabricante de carros. O mesmo que carcoma. T. de teatro. Aquelle que arma o scenário no palco. (do lat. carpentarius)”114.

Através dos Estatutos Regimento que o Illustrissimo, e Excelentissimo Senado dá para o regimem do officio de Carpinteiro de moveis e sambragem desta cidade de Lisboa115 (1767) e o Compromisso particular do officio de carpinteiro do Porto116 (1785)

tomamos conhecimento não apenas dos direitos e deveres dos aprendizes, oficiais e mestres, mas também das soluções tomadas para evitar conflitos entre os ofícios de carpinteiro, marceneiro, entalhador e ensamblador.

O Estatuto de 1767, de Lisboa, dá conhecimento que os “carpinteiros de móveis e sambragem” serviam a Bandeira de S. José. Porém, nos acrescentos finais, informam que a corporação dos entalhadores estava anexada à bandeira de Nossa Senhora da Encarnação, encabeçada pelos carpinteiros de móveis. Os autores Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues confirmam e salientam que até à extinção da Casa dos Vinte e Quatro a carpintaria estava dividida em especialidades e com isso estavam sujeitos à sua propria bandeira: os carpinteiros de carruagens à da Senhora da Oliveira, os carpinteiros de casas à de S. José e os carpinteiros de móveis à da Senhora da Encarnação juntamente com os entalhadores e os coronheiros117. Por outro lado, o Estatuto de 1785, do Porto, informa que o ofício de carpinteiro encabeçava na confraria de S. José e S. Brás inserida no Convento de S. Francisco da cidade do Porto e agregados à mesma estavam os ofícios de ensamblador, torneiro, polieiro, escultor, entalhador e violeiro.

No prefácio do Estatuto de 1767, de Lisboa, deparamo-nos com a intenção, por parte da Casa dos Vinte e Quatro, em resolver as desavenças entre os ofícios de carpinteiro, chamado da Rua das Arcas, e de marceneiro. Estes ofícios com caraterísticas de trabalho muito similares facilmente apropriavam-se das obras uns dos outros. Com

113 FIGUEIREDO, 1913: 383 114 FIGUEIREDO, 1913: 383

115 CASA DOS VINTE E QUATRO DE LISBOA, 1767 116 CORPORAÇÃO DOS CARPINTEIROS DO PORTO, 1785 117 PEREIRA; RODRIGUES, 1904: Vol. II, 778

esta atitude um dos ofícios terminava sem trabalho gerando conflitos. Para pôr término às desavenças, o Senado da Câmara aprovou que “se unissem estes dois officios (…) ficando ambos denominandose daqui em diante por Carpinteiros de Moveis e Sambragem”118. Foi deste modo que surgiu a denominação “Carpinteiros de Moveis e

Sambragem” que não se trata de uma especialização, mas da unificação de dois ofícios. Para além da discórdia entre os carpinteiros e marceneiros, posteriormente, terá existido desavenças entre os carpinteiros de móveis e samblagem e os entalhadores, isto porque, no final deste regimento foram redigidos capítulos que o Senado da Câmara mandou acrescentar. O primeiro dos quais intitulado “Para se evitarem as contendas que hà entre os Entalhadores e os carpinteiros de Moveis e Sambragem” indica que, quer os entalhadores quer os carpinteiros de móveis e samblagem podiam adquirir obras do seu ofício que contivessem talha e samblagem, respetivamente. No entanto, estes ofícios estavam obrigados a executar apenas a parte da obra que lhes competia, ou seja, o entalhador tinha de mandar fazer a parte de samblagem ao “carpinteiro de móveis e samblagem” e vice-versa.

Ordenaõ e mandaõ que todo o Entalhador que for examinado conforme o seu Regimento, possa tomar as obras de seu officio nas quaes entre samblagem, nam para a poder fazer, mas sim para a dar a fazer a Carpinteiro de Moveis e Samblagem que seja examinado. E pela mesma maneira o Carpinteiro de Moveis e Samblagem, que for examinado conforme o seu Regimento poderá tomar as obras de Samblagem em que entre talha, nam para a fazer esta, mas para a dar a fazer a Entalhador examinado119.

Já o Compromisso do carpinteiro do Porto (1785) procura salvaguardar a obra do carpinteiro do ofício de ensamblador. Todo o ensamblador que trabalhasse obra que pertence-se ao carpinteiro, quer em casa de um particular quer na sua oficina, ou fossem encontradas obras de carpinteiro nas oficinas dos mestres ensambladores (portas, janelas, armários embutidos na parede ou tudo o que se entende por trastes firmes de uma casa

118 Regimento que o Illustrissimo, e Excellentissimo Senado dá para o regimem do officio de Carpinteiro

de moveis e sambragem desta cidade de Lisboa, 1767: 1 frente.

119 Regimento que o Illustrissimo, e Excellentissimo Senado dá para o regimem do officio de Carpinteiro

que não se podem transportar120) era condenado a uma multa. Segundo o “capítulo 20” deste Compromisso, era frequente os ofícios tomarem obras uns dos outros, por isso, de modo a evitar prejuízos nenhum mestre carpinteiro podia tomar obras de outros ofícios agregados à mesma confraria, caso contrário, seria-lhe aplicada uma multa.

Os aprendizes de “carpinteiro de móveis e sambragem” (1767), tal como os oficiais, tinham de ser registados pelo escrivão. No livro tinha de ser declarado o nome do mestre e a data do início da aprendizagem. O mestre só podia ter um aprendiz ao seu encargo, mas a faltar um ano para o término da aprendizagem, que havia sido acordado, o mestre podia ter o segundo aprendiz. Em 1785, no Porto, ao mestre de carpinteiro era permitido ter a seu encargo os oficiais que necessitasse, porém, não lhe era permitido ter mais de dois aprendizes nem adquirir o terceiro nem o quarto enquanto o primeiro não tivesse completado a sua aprendizagem, que não era inferior a dois anos. Ainda referente ao aprendiz, nenhum mestre estava autorizado, segundo o mesmo Compromisso, a aceitar um aprendiz de outro mestre sem que este lhe desse o seu consentimento por escrito. Após os dois anos de aprendizagem, ou mais, o mestre tinha de dar conhecimento do término da aprendizagem aos Mordomos e ao Escrivão da confraria para registar no livro e para pagarem a esportula da entrada121. Na comparação entre os Estatutos de Lisboa (1767) e Porto (1785) salientamos o facto de no primeiro caso o mestre só podia ter um aprendiz enquanto no segundo era permitido ter dois. Relativamente ao tempo de aprendizagem no primeiro caso não é exigido um período mínimo, ao contrário do segundo que era obrigatório a aprendizagem mínima de dois anos.

No que respeita aos oficiais de “carpinteiro de moveis e sambragem” (1767), ao fim de seis anos como oficial podia requerer um exame para obter o título de mestre. Esse exame teria lugar em casa de um dos juízes onde lhe seria exigida a execução de um retábulo (com as medidas impostas pelo juiz, normalmente com sete palmos, e tinha de cumprir os preceitos da arquitetura), uma caixa de malhete (com sete palmos ou inferior), e um tamborete ou uma cadeira (mediante o uso ou o que o examinado tivesse aprendido).

120 Regimento que o Illustrissimo, e Excellentissimo Senado dá para o regimem do officio de Carpinteiro

de moveis e sambragem desta cidade de Lisboa, 1785: Capítulo 6, 12 verso-13 frente.

121 Regimento que o Illustrissimo, e Excellentissimo Senado dá para o regimem do officio de Carpinteiro

No caso de as obras serem reprovadas, o examinado não poderia concorrer a um novo exame durante os seis meses seguintes. Aos juízes era proibido examinar os seus filhos, parentes ou oficiais que com eles haviam aprendido o ofício. Por outro lado, no Compromisso de 1785, as exigências eram distintas. Através do “capítulo 10” verificamos que existiam casos em que o oficial conseguia dos seus mestres um atestado onde constava que tinha atingido os anos exigidos de aprendiz e de oficial. Deste modo fraudulento o individuo podia requerer o exame antecipadamente. Porém, esta ação causava prejuízos aos que cumpriam o tempo estipulado pelo Compromisso. Para evitar esta situação existia um livro de matrícula para os aprendizes, onde eram registados o dia, mês e ano que entravam para o ofício, bem como, o nome do pai, a freguesia onde nasceu e o nome do mestre122. Aquando o exame, os juízes conferiam a certidão do oficial, onde teria de constar os anos de aprendiz e os quatro anos exigidos como oficial. Só depois da confirmação dos registos o oficial teria a permissão para executar o exame. O exame teria lugar em casa de um dos juízes, à semelhança do anterior, e passava por várias fases: a primeira era apresentada uma casa e o examinado teria de executar o risco da armação; a segunda, tinha de fazer o risco de uma porta de almofadas (com a altura e a largura adequadas para uma porta interior e exterior com as devidas guarnições); a, terceira, tinha de desenhar uma escada de volta com pátio no meio, tudo na sua devida proporção; na quarta fase, tinha de responder a todas as perguntas da Arte, as regras gerais do ofício, como riscar um oitavado e um ovado, como repartir uma casa ao uso no tempo presente, entre outras perguntas123. Caso o examinado fosse reprovado, este teria de continuar a trabalhar como oficial até adquirir conhecimentos e habilidade no ofício. Como pudemos constatar, os exames e as exigências são diferentes de 1767 para 1785, enquanto no primeiro é exigido uma sinopse dos ofícios de carpintaria e de marcenaria, mais dedicada à decoração de interiores e de mobiliário, na segunda situação estamos perante um exame de um carpinteiro de construção civil.

No geral, o primeiro Estatuto (1767) procura conciliar os ofícios de carpintaria e marcenaria, pois ambos conseguem dar resposta com muita facilidade à execução dos

122 Compromisso do officio de carpinteiro, 1785: Capítulo 10. 123 Compromisso do officio de carpinteiro, 1785: Capítulo 12.

serviços de um e de outro, enquanto no segundo Estatuto (1785) deparamo-nos com o início da especialização entre os ofícios de carpinteiro e de ensamblador, este último também designado por marceneiro.

A partir das definições dos dicionários e da informação dos Estatutos podemos tirar as seguintes elações em relação ao ofício do carpinteiro:

- Executavam trabalhos de construção e obras lisas como portas, janelas, estruturas de interiores e exteriores como muros (tabiques), forros e pavimentos, etc. Recordemos as palavras de Bluteau“oficial que faz obras lizas de madeira”124. Quando o

autor se refere à “obra lisa” está a indicar que a obra é sem ornamento e consequentemente sem trabalho de escultura;

- Quando Domingos Vieira refere que os carpinteiros “trabalham em madeiras para construcções de terra” entendemos que se refere às construções de tabique. O tabique é uma técnica construtiva económica e sustentável constituída por uma estrutura em madeira revestida por um material terroso125. Normalmente, a armação de madeira é constituída por tábuas dispostas na horizontal e na vertical, contudo, pontualmente, surgem armações com tábuas de madeira na diagonal, estruturas modulares duplas, ou com o formato em cruz de Santo André126. Os materiais usados são a madeira maciça, terra (simples ou misturada com cal) e pregos metálicos127. As madeiras utilizadas na estrutura dos tabiques eram: pinho (Pinus pinaster), castanho (Castanea sativa), choupo (Populus sp) e a tília (Tília cordata). As dimensões (altura, largura, espessura) das paredes de tabique variam de edifício para edifício. As construções em tabique, especialmente as paredes divisórias, são vulneráveis ao ataque de agentes biológicos, particularmente as térmitas e o caruncho, e à água128.

- Parte da estrutura das edificações era da responsabilidade dos carpinteiros. A palavra “carpintaria” era igualmente utilizada para nomear a oficina onde os carpinteiros trabalhavam – o vocábulo “oficina” correspondia aos estaleiros localizados junto dos edifícios e das embarcações em construção;

124 BLUTEAU, 1712 : T. II, 158

125 PINTO, CARDOSO, CUNHA, CRUZ, VIEIRA, LOUZADA, VARUM (s/d): 27 126 PINTO, CARDOSO, CUNHA, CRUZ, VIEIRA, LOUZADA, VARUM (s/d): 28 127 PINTO, CARDOSO, CUNHA, CRUZ, VIEIRA, LOUZADA, VARUM (s/d): 28 128 PINTO, CARDOSO, CUNHA, CRUZ, VIEIRA, LOUZADA, VARUM (s/d): 32

- O carpinteiro, para além de executar as estruturas em madeira de uma edificação, também montava o cenário nos teatros e executava e aparelhava a madeira para qualquer obra.

- Através dos Estatutos do “carpinteiro de móveis e samblagem” de 1767, como já referido, conseguimos apurar que se tratou da união dos ofícios de carpinteiro e marceneiro, para evitar conflitos na cidade de Lisboa. Porém, não conseguimos apurar se os mesmos foram aplicados na cidade do Porto na mesma época. Já os Estatutos do carpinteiro de 1785, após duas décadas do Estatuto de 1767, denotamos a procura pela especialização do ofício de carpinteiro na construção civil no Porto.

2.1.1. Carpintaria no Concelho de Gondomar

No caso especifico de Gondomar, para compreendermos as profissões existentes