Capítulo 2 – Ofícios
2.2. Marcenaria e o marceneiro
2.2.1. A marcenaria no Concelho de Gondomar
A palavra “marceneiro” surge frequentemente indicada nas profissões registadas nas fontes estudadas e já citadas204.
Segundo o que conseguimos apurar através de conversas informais com o marceneiro aposentado Vitorino Guimarães, os marceneiros executavam a estrutura dos móveis e as ensamblagens. Na oficina onde iniciou a sua aprendizagem – na oficina de João David, o “Rolhas” – raramente eram autorizados a usar pregos ou taxas para unir a estrutura do móvel. Por este motivo, os marceneiros tinham de ser obrigatoriamente competentes na execução das ensamblagens. Para além da parte estrutural, o marceneiro também era apto em folhear o mobiliário de acordo com várias técnicas existentes (espelho, espinha de peixe, diamante, etc.). Contudo, no município, as oficinas que executavam ambos os serviços, a estrutura e o folheado no mobiliário, eram escassas. No decorrer do século XX a aprendizagem do marceneiro sofreu alterações. Enquanto na primeira metade do século os aprendizes ou “moços” começavam a trabalhar sensivelmente com seis anos, na segunda metade era mais tardio. Expomos, a título de exemplo, o testemunho de Vitorino Guimarães, marceneiro, Manuel Oliveira, aprendiz de marceneiro durante 2 anos, e de José Pereira, entalhador que teve contato com oficinas de marceneiro, naturais de Gondomar que visitamos várias vezes e com quem dialogamos.
Vitorino Guimarães iniciou a sua aprendizagem aos 6 anos de idade. A sua principal função consistia em preparar a cola. A idade não era impedimento para ser o primeiro a entrar ao serviço às 7 horas da manhã, uma hora antes dos oficiais marceneiros. A preparação atempada da cola era crucial para o desenvolvimento do serviço, uma vez que sem a cola pronta a ser utilizada toda a produção ficava atrasada.
A preparação da cola consistia em colocar a panela da cola em lume brando – a panela era constituída por dois recipientes, um interno e outro externo. No recipiente interno, o mais pequeno, era depositada a gordura e as vísceras de animal. No recipiente
externo, o maior, era colocada água. A água permitia que a gordura e as vísceras derretessem em banho-maria. O “moço” tinha a responsabilidade de mexer o conteúdo, até este se tornar em pasta, e manter o lume brando. Este processo era mais exigente no inverno. Para além deste serviço, também executava os trabalhos mais simples que lhe eram solicitados pelos oficiais marceneiros. Aos poucos, Vitorino Guimarães iniciou os primeiros passos na aprendizagem como marceneiro.
Figura 27 - Panela de cola constituída pelos dois recipientes, interno e externo, e o fogão a gás portátil.
Panela do marceneiro Vitorino Guimarães. Fotografia de: Renato Castro (2018).
Na atualidade Vitorino Guimarães, marceneiro aposentado, dispõem na sua oficina algumas peças de mobiliário em “quinane”205. Para além das peças de mobiliário
205 Em Gondomar, entre os marceneiros e entalhadores, foi adoptado o calão “Quinane”, talvez por se tratar
mais fácil de verbalizar do que o termo em inglês “Queen Anne”. A designação “Queen Anne” é aplicada ao estilo artístico de mobiliário.
evidenciamos o vasto espólio em ferramenta, maquinaria e, principalmente, desenhos e catálogos do mobiliário do século XX (figs. 28 à 32).
Figura 28 - Banco de marceneiro e espólio de desenhos. Oficina de Vitorino Guimarães, marceneiro.
Fotografia de: Renato Castro (2018).
Figura 30 - Ferramentas e utensílios do ofício de marcenaria. Oficina de Vitorino Guimarães, marceneiro.
Fotografia de: Renato Castro (2018).
Figura 31 - Breve explicação da execução do corte da folha antes de ser aplicada no mobiliário. Oficina de
Figura 32 - Desenhos de mobiliário em grande formato. Oficina de Vitorino Guimarães, marceneiro.
Fotografias de: Renato Castro (2018).
Manuel Oliveira, antes de enveredar para o ofício de entalhador, iniciou-se aos 8 anos como “moço” de marceneiro ou “moço de recados”. No primeiro ano de serviço, a sua principal função era fazer recados – comprar a merenda para os marceneiros, levar recados e peças ao torneiro para tornear, etc. –, varrer o serrim e limpar a oficina. Posteriormente, os marceneiros aperceberam-se que Manuel tinha uma certa habilidade e colocaram-no no banco a lixar e a desenvolver trabalhos ligados ao fabrico. Durante dois anos, a maioria do serviço que desenvolveu foi lixar madeira. No terceiro ano iniciou o seu percurso como aprendiz de entalhador.
O horário de trabalho normal numa oficina de marcenaria iniciava-se às 8 horas da manhã e terminava às 18 horas. Porém, como havia muito serviço, os funcionários trabalhavam 2 horas extraordinárias diariamente. O serviço para os “moços” era em conformidade com o horário escolar, se tivessem aulas de manhã trabalhavam de tarde ou vice-versa.
Antes da Revolução do 25 de Abril, segundo o entalhador José Pereira, a maioria dos ofícios ligados à marcenaria eram independentes. A oficina de marcenaria, por norma, era constituída apenas pelo chamado “desenhista”206 e pelos marceneiros, muito
raramente entalhadores. O desenhista desenvolvia a planta do mobiliário e o marceneiro executava a estrutura da peça que depois era enviada para o entalhador embelezar. O torneiro, oficina separada da marcenaria, produzia todo o serviço que fosse necessário utilizar o torno – a mobília designada do século XVII requeria muito o serviço do torno. O vazador era o artífice que vazava a madeira com recurso à máquina “Tico-tico”. O polidor tinha como função dar cor à madeira, isto é, aplicava o chamado viochene, para escurecer a madeira, e depois encerava. Caso o cliente não quisesse a mobília escura, era aplicada apenas a cera. Para além destes ofícios, existia ainda o artífice que trabalhava os couros e os palheireiros, geralmente mulheres, que aplicavam a técnica da “palhinha”. Ambos elaboravam as aplicações para decorar o espaldar, os assentos das cadeiras, as cabeceiras das camas, etc. Os ferrageiros, através dos moldes executados pelos entalhadores, produziam várias aplicações em metal, as chamadas ferragens, para o mobiliário.
A partir de 1974, segundo o entalhador Manuel Oliveira, as oficinas de marcenaria tinham como funcionários apenas os marceneiros. Por norma, a oficina era constituída por duas seções: a das máquinas e a dos acabamentos. Os funcionários que trabalhavam no banco não se misturavam com quem trabalhava nas máquinas. A oficina tinha por norma entre 3 a 4 “maquinistas”, um para cada máquina a “tirar madeira”, e 4 marceneiros. Estas oficinas por norma eram muito pequenas para os acabamentos finais, como o polimento e a talha. Por este motivo, os marceneiros distribuíam o serviço para as oficinas de entalhadores, polidores, torneiros, marcheteiros, douradores, pintores, palhinha, etc. As oficinas de marcenaria executavam a armação e a montagem do móvel, mas tudo o que fosse serviço extra marcenaria era dado aos ofícios especializados.
Apesar das fábricas serem escassas no município de Gondomar, tinham por outro lado praticamente todos os ofícios incorporados – entalhadores, pintores, polidores,
206 Em Gondomar o “desenhista” é o termo aplicado ao profissional que trabalhava nas oficinas de
torneiros, etc. – e equipamentos condignos a cada ofício – estufas para polir e pintar, entre outras seções.
Dos anos ’80 até ao ano 2000, em Ferreirinha, pertencente à Foz do Sousa, existiam 16 oficinas de marceneiro e duas oficinas de entalhador. Na atualidade, segundo o entalhador Manuel Oliveira, existe apenas um marceneiro que executa apenas colmeias em madeira. Em Jovim existiam cerca de 30 oficinas de entalhadores. Esta freguesia havia crescido muito nas atividades da marcenaria, talha e ourivesaria, mas era em Valbom que se concentrava o maior número de marceneiros e entalhadores, incluindo os grandes mestres destes ofícios, tal como João David da Silva, o “Rolhas”, cuja oficina estava estabelecida entre as freguesias de S. Cosme e Valbom.
João David da Silva, “Rolhas”, segundo Vitorino Guimarães, José Pereira e Manuel Oliveira, era considerado como um dos melhores marceneiros do concelho de Gondomar. O grande objetivo de João David da Silva era fundar uma cooperativa de artes em Gondomar. A cooperativa teria como principal propósito combater a concorrência desleal entre oficinas através de preços únicos para todos. João David estava confiante que a cooperativa seria uma mais valia para o concelho uma vez que todos produziriam para a cooperativa, e esta, por sua vez, é que venderia para o cliente final. Este marceneiro pretendia tornar Gondomar ativo através da cooperativa e com a fundação de uma escola para os ofícios ligados à marcenaria. Apesar dos múltiplos projetos que apresentou à Autarquia nenhum foi avante.
João David, além de possuir a sua oficina de marcenaria, fundou a “Interforma”. Esta fábrica de grandes dimensões iria ser constituída por uma zona de aprendizagem e outra de produção. Os trabalhos executados nesta fábrica eram sobretudo produtos em série, de baixo custo, e a matéria prima utilizada eram os contraplacados (fig. 33).
Figura 33 - Primeira caixa de ferramentas fabricada na Interforma. Segundo o testemunho do marceneiro
Vitorino Guimarães esta caixa de ferramentas terá sido a primeira caixa a ser fabricada na Interfroma e foi- lhe oferecida pelo marceneiro João David da Silva (Rolhas). A partir desta caixa muitas foram fabricadas para venda por todo o país. Caixa de ferramenta pertencente a Vitorino Guimarães. Fotografia de: Renato Castro (2018).
O entalhador Manuel Oliveira teve o privilégio de conhecer o marceneiro João David da Silva. Segundo Manuel, João David executava esboços e desenhos com recurso à geometria, sem dificuldade, e quando explicava o método, com paciência, por muito leiga que a pessoa fosse sobre o assunto, facilmente o apreendia. Apesar do pouco tempo que usufruiu na companhia e dos ensinamentos de João David, Manuel não encontrou nenhuma dificuldade em aprender. João David era um profissional muito perfecionista, que sem recurso ao esquadro conseguia detetar se uma peça estava fora de esquadria. A talha, no mobiliário executado na oficina de João David, não podia ser lixada para que o futuro proprietário detetasse, através dos entalhes da talha, as marcas da ferramenta.
Lamentavelmente, João David faleceu sem concretizar o seu sonho em adquirir apoios para formar os jovens nas artes de marcenaria, talha e marchetaria, uma vez que não houve esforço por parte da Autarquia em auxiliar a promover estes ofícios industriais do concelho.