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A casa comum e a matriz urbana na mouraria

4 Os materiais e as técnicas de construção, sua aplicação direta na arquitetura

5. A casa comum e a matriz urbana na mouraria

Procuramos saber a matriz (do latim matrix, -icis), o molde, o primeiro elemento gerador, estruturador e formador do espaço urbano na mouraria da cidade que consideramos ter sido constituído pela “casa”, espaço de estar, habitar, abrigo, a célula mais reduzida.

A fonte de informação deste trabalho é a que consta da documentação recolhida maioritariamente dos contratos de emprazamento206 e nos tombos de propriedade. Na documentação, identificamos um espaço - a casa; um lugar - a rua; um homem - o locatário. Os contratos ou transações, na propriedade, podem ser de diferentes tipos: aforamento, compra, doação, encampação e, possuírem uma das duas modalidades, serem em perpétuo ou hereditário que, neste caso, vai limitar o contrato a um número variável de vidas, uma a quatro vidas. “Com efeito, a enfiteuse representa, não apenas uma subordinação aos parâmetros económicos maioritários, como também contribui para uma interiorização dos valores da sociedade dominante.”207 No contrato, encontramos designado o nome individual ou duplo (marido e mulher), podendo também os filhos ser referidos. Em alguns casos vem citado a especificação da categoria social referida à pessoa contraente, seguida do nome no caso de este agir na qualidade de procurador ou testamenteiro. Ver no anexo 2 - Base Documental e Quadro C, tomemos por exemplo: Jufez Cigarro, mouro forro e sua mulher Aazom (ref.nº14); Azmede filho de Adella de “ceirta” sapateiro mouro forro (ref.nº12) Aixa

moura forra mulher que foi de Catoto (ref.nº19) Na localização do bem, são também

por vezes identificadas as suas confrontações, os encargos e obrigações do seu foreiro, as autorizações, mas ”nunca é revelada a sua altura, desconhece-se muitas vezes se é

térrea ou sobradada, raramente se faz menção do número de portas e janelas, dos materiais de construção ou dos tipos de cobertura e pavimento a que se recorreu, omitem-se as particularidades da casa, exceto aquelas que o redator do testemunho considera mais singulares.”208

Como nos disse Menéndez Pidal, a reconstrução da vida quotidiana nas sociedades medievais oferece-nos uma série de dificuldades pelo caráter das fontes documentais escritas, sobretudo em âmbito urbano, que visam a interesses e temas de grupos sociais abastados, com poder, tornando-se imprescindível os testemunhos arqueológicos.209 Para além de que todos os autores são unânimes em referir que “os

traços da vivência quotidiana relevados pelas fontes são escassos“210, que os exemplos são incompletos e, por isso se torna necessária a observação e o confronto resultante da multidisciplinaridade (geografia, etnologia, arquitetura, história da arte,

206 “Dá-se o contrato de emprazamento, aforamento ou enfiteuse, quando o proprietário de qualquer prédio transfere o seu domínio útil para outra pessoa, obrigando-se esta a pagar –lhe anualmente certa pensão determinada a que se chama foro ou cânon”, artigo 1653º do Código Civil.

207 M. Filomena Barros, 2007,p. 463 208 M. Sílvio A. Conde, 1997, p. 107 209 Menéndez Pidal, 1997, p. 385

210 M. Sílvio A. Conde, 1997, p. 259; Ibidem, 2012, p. 55; M. Hermínia Vilar, 1988, p. 27; B. Vasconcelos e Sousa, Falta 1990, p. 66; Rita C. Gomes, 1987, p. 70, entre outros

59 arqueologia) para o conhecimento da casa corrente.211 A descrição do espaço da casa é pouco frequente, razão que pode ser atribuída, segundo Hermínia Vilar, à semelhança de configuração e “organização do espaço, conjugada com a exiguidade de dimensão e

de porte, tornando-se supérflua a especificação das características das habitações. A descrição apenas se impunha, quando se impunha, nos casos dos edifícios que se salientavam dessa mole de construções que constituíam as bases do núcleo urbano. Daí que as construções correntes, paralelamente habitação, tenda ou oficina de artificie, fossem designadas por noções generalizantes, como casa ou casas, indicando esta uma diferente compartimentação do espaço em relação à primeira”.212 Os prédios urbanos são fundamentalmente de dois tipos; casas que se destinam ao uso habitacional e tendas em número mais restrito, entendendo-se esta designação por oficina-loja, e também morada, do mesteiral, onde este exercia a atividade artesanal ou comercial.213Na mouraria de Évora, a tenda aparece referenciada em 1390, no Talho do Mouro, e depois em 1494, 1496 e 1497 na Porta da Mouraria como casa tenda e tenda de duas portas.214

Casa “pode ser empregue num sentido genérico, englobando todo o espaço da

habitação e até algumas dependências, mas também pode designar apenas uma divisão ou o conjunto de divisões que constituem a construção principal.”215

5.1. A casa urbana comum

No prefácio do inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa Nuno Teotónio Pereira refere a ausência de traços de ligação entre as marcas deixadas pelas várias culturas (coeva, romana, visigótica, muçulmana, e da reconquista) o que levou os autores a questionarem se “a habitação resiste ao tempo e às influências, ou será antes de

sustentar que essa persistência é apenas a ilusão, proveniente de destruição, e que a escassês de traços do passado que não deixa ver corretamente os ascendentes dos exemplares atuais? “para de seguida concluir que a habitação no Alentejo é o resultado de uma longa evolução que os séculos foram modelando, cheia de contradições e anacronismos, talvez mais condicionada pelas circunstâncias da exploração da terra, da transação, do mercado, dos rendimentos e da forma como se repartiam, do que por influências de carácter erudito ou técnicas particulares de construir”.216

Como característica comum à casa medieval é identificada a simplicidade formal e o modo estrutural semelhante, como já foi referido. Os edifícios mantinham uma lógica elementar com ligeiras variantes ou conjugavam dois dos tipos básicos. A classificação

211 M. Sílvio A. Conde, 2010, p. 57 212 M. Hermínia Vilar, 1988, p. 27 213 Oliveira Marques,1981, p. 44 214 Ver ANEXO III - Base Documental 215 M. Sílvio A. Conde, 1997,p. 260 216AAVV, 1988, p. 22

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Quadro A

Distribuição Cronológica dos Contratos por Zonas 1. Mouraria; 2. Mouraria (Porta); 3. Rua Direita; 4. Rua do Inferno; 5. Rua Cega; 6. Rua das Fontes; 7.Talho do(s) Mouro(s); 8. Rua das Pedreiras;

9. Outras Localizações.