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Quer para F Chueca Goitia, 1982,p.63 como para A Hoteit

2.4 A «alma» das urbes

72 Quer para F Chueca Goitia, 1982,p.63 como para A Hoteit

73Ver ANEXO I-E - A mensagem islâmica, o Corão ou Alcorão e ANEXO I C - A casa islâmica 74 Ver ANEXO I-B - Al-Fiqh

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As regras religiosas-civis expressam-se em todas as culturas muçulmanas e operam ao nível das unidades elementares; indivíduo, parcela, casa e as suas combinações geram infinitas soluções mediante decisões conscientes ou inconscientes de caráter binário (liberdade expressiva /repressão restritiva) a sua análise permite aferir que estas são invariáveis universais e geradoras da configuração do espaço físico das cidades75. O cumprimento dos deveres religiosos influenciou o desenho e o funcionamento das cidades. Vejamos que a prática e o respeito pelo momento específico de oração deu lugar à construção de minaretes em algumas cidades e observatórios astronómicos. O estado de pureza ritual obtido nas abluções (maiores ou menores) obrigou aos sanitários (latrinas), tanques, fontes e banhos públicos “hammams”. A existência de um lugar amplo para acomodar todos na oração comunitária de sexta, a Mesquita76, determinou não só a necessidade de um grande edifício, mas como este devia ser construído segundo a orientação para Meca, com uma grande sala de oração, como um pátio para abluções. “A combinação e a interação destas regras ao nível social,

económico e ideológico gera uma enorme diversidade de respostas durante os processos da morfogénese urbana.”77

Na cidade, a lei distingue a rua aberta da rua sem saída. A rua aberta, de passagem ou caminho público “nāfid’, é um espaço que todos têm o direito de percorrer ou atravessar, é definida por ser um bem comum, de uso e domínio público, de todos os muçulmanos “al-muslimi” da comunidade de crentes “Umma”, cuja largura mínima varia entre os 3,23m a 3,50m. A rua sem saída ou beco é designada por “gayr nāfid”,

“darb” ou “zuqāq” e é, na sua maioria, considerada pelos juristas como um espaço

semiprivado pertencente às propriedades circundantes, que podem ser apropriadas por grupos familiares ou tribais e congregações artesanais que tenham o acesso a partir delas formando uma unidade espacial. Apresentam-se com dimensões entre o 1,84m e os 2,00 m.78

A ‘fina’ é uma noção da propriedade complementar não edificada pública ou privada, representada por um espaço ao redor do edifício que, na opinião da maioria dos juristas muçulmanos, é considerado como parte da própria propriedade. Também nós nos apropriamos do espaço exterior, vemos na Rua do Inverno, por exemplo, a roupa estendida ou a gaiola do pássaro pendurada na parede. 79 A tradição do Profeta diz que “quem se apropria sem direito de um palmo de terra será castigado”80. Nas ruas principais, corresponde ao espaço em redor da porta da casa que se não deve estender

75J. García-Bellido e G. Diego, 1997, p. 59 76Ver Parte III – Mesquita p. 115 77J. García-Bellido e G. Diego, 1997, p. 60

78 “A pavimentação de um adarve ou rua principal seguia o modelo de terra batida e de perfil ligeiramente côncavo.”, Santiago Macias, 1996, p.61

A intervenção dos legisladores fazia-se sentir no enquadramento de questões e resolução de problemas como por exemplo quando as ruas deviam ser regadas ou, por exemplo, quais os jogos, nomeadamente o de dados, e as brincadeiras que não eram permitidos nesse locais públicos. Ibidem, 1996, p. 62

Ver ANEXO I - C - A casa islâmica 79 Ver fotografias Parte III 80 Santiago Macias, 1996, p. 21

29 para mais da metade da largura da rua e nos becos cobre quase todo o espaço diante da porta, estendendo-se a toda a largura.

As construções salientes, balcões que se projetam sobre as ruas em segundo piso

(“ayyina- plural de yana”), são comuns e não são impedidas desde que não causem

danos e não perturbem a circulação, segundo os juristas Ibn al Rami, Malik e Ibn al Qasin. Mas, segundo o legislador Malik, não existe o direito a reservar o espaço para uso próprio nos espaços de pouca largura, onde a menor coisa impediria a circulação; no entanto quando a largura não impede nem incomoda a circulação, não provoca danos, não vê razão para que os proprietários do bairro não os utilizem para as suas próprias necessidades.

A lei é muito flexível no uso da ‘fina’ e há diferentes opiniões com respeito à invasão de espaços públicos (ruas/espaços públicos; becos/espaços semi-privados), podendo ocorrer ainda a ausência ocasional de um executor público, ‘el muhtasib’, ou a falta do seu poder. No entanto, nos becos, os juristas são unânimes “... no intervienen en las

acciones tomadas com respecto a estos callejones mientras que todos os proprietários circundantes e ellos estuvieran de acuerdo en lo concerniente a su uso y no se formulara ninguna queja.”81

Podemos considerar que na forma física da cidade, simples ações como a abertura de portas e janelas, a ampliação dos edifícios e o tratamento das açoteias/terraços, as soluções diferem, mas todos têm em conta as mesmas regras e convenções para garantir a privacidade e não causar danos. A escola Maliquita, nesse sentido proíbe que a porta seja colocada em frente à do seu vizinho, mas nas aberturas para entrada de ar e luz os juristas Ibn Wahb e Ashhab parecem compreensivos desde que não permitam a intrusão na intimidade do vizinho.82

Ao observar dentro de cada bairro tradicional, podemos constatar que as alturas dos edifícios são sempre similares, todos com dois, três ou quatro pisos, é muito raro encontrar alturas diferentes, sendo o ponto mais alto da cidade sempre o minarete, de função religiosa.83

O uso de açoteias ou terraços ocorre com maior incidência em zonas urbanas com raros espaços abertos. Aqui, entram em discussão duas questões, o seu acesso e a sua utilização, ambos terão de estar rodeados por muros de proteção para não causar danos aos vizinhos. Para Ibn al-Rami, sete palmos eram suficientes.

Ao nível da segurança no imobiliário como muros/paredes demolidos sem reparação sabemos que, segundo a escola Maliquita, o seu dono terá de reconstruir para não causar dano ao seu vizinho, se tiver suficientes recursos; mas, no caso de não os possuir, então ficará dispensado e o vizinho terá de construir uma parede para se proteger na sua propriedade, diante da parede demolida. No entanto a perspetiva não é unânime, pois, para Sahnun Ibn al-Majishun, o dono deve ser obrigado à sua reconstrução em ambos os casos, porque a proteção é um direito que têm entre si os

81 Aida Y. Hoteit, 1993, p. 24, p. 32