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UM COMPLEXO MONÁSTICO URBANO E OS SEUS TEMPOS

1 AVE WIAR1A GRATIA PLENA

9. A casa do capítulo

"Dependência onde diariamente se lia um capítulo da Regra de São Bento, depois da Igreja é a dependência mais importante porque nela se conferem cargos, resolvem negócios, eleições, castigos e sepultam os mais dignos372". Estas são resumidamente as atribuições da sala

369 ASSUMPÇÃO, Lino, o .a,pp. 139/40. 370 Idem, Ibidem, p. 140.

371 GONÇALVES, Flávio,0 vestuário mundano de algumas imagens do Menino Jesus, in Revista de Etnografia, Porto, 1967, pp. 5/34

capitular. Os professos de Cister atribuíam-lhe ainda uma simbologia própria, ao transferir para cada sessão a postura da vida quotidiana monástica. Durante o capítulo os elementos da comunidade colocavam-se por ordem de importância: as do governo da casa e a abadessa do lado oriental ( o lado da capela mor, como responsáveis por aquele pequeno mundo) as outras

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distribuíam-se pelos bancos corridos a parede

Também no Capítulo as postulantes pediam o ingresso na comunidade e se efectuavam as cerimónias prévias da tomada de hábito. A mestra das noviças era nestes pontos o elemento de maior peso, como responsável pelas candidatas. O exame a que eram sujeitas antes incluía uma investigação à limpeza de sangue: não seria aceite se proviesse de família de mouro, herege ou cristão novo. O termo que assinava dava plenos poderes à comunidade para a expulsarem em qualquer tempo em que se descobrisse encobrimento de qualquer daqueles casos374.

Em São Bento de Avé Maria, a sala do Capítulo situava-se no piso térreo (em Lorvão no primeiro andar e em Saint Gall não havia), na ala nascente (propositado ou não), próximo da cabeceira da Igreja, mas do lado norte e por baixo da casa do lavor. Às funções deste espaço tinham acesso unicamente as monjas, porquanto as conversas escutavam tudo o que ali se desenrolava através de aberturas na porta ou aos lado dela. Teve inicialmente 7 braças(12,74m) por 3 braças (5,46m), a largura de todas as oficinas "altas e baixas" (o espaço do vão). No final de 800 crescera ou à custa da rouparia, que lhe ficava antes, ou da sacristia do lado oposto, pois apresentava 15,0m X 6,60m. Era escura, apesar de duas janelas (viradas para leste, local para onde o mosteiro se estendeu em construções caóticas, obscurecendo as dependências do claustro). Dois óculos ladeavam a porta (o que se pode vislumbrar numa das fotografias).

O projecto de D.Manuel ter-lhe-á dado um dos mais bonitos apontamentos arquitectónicos que o edifício possuíra ou possuiu depois; a porta voltada para a face nascente do claustro. Este portal, com 13 palmos de lume (2,47m), tinha dois corpos e uma coluna a meio. Esta coluna, inicialmente projectada igual às do claustro, oitavada, acabou sendo torcida, à boa maneira do gótico/manuelino, com a base e o capitel lavrados "dalgua boa obra que bem pareça". Os umbrais deste portal talvez tivessem também colunelos, igualmente trabalhados a emparceirar com o mainel.

373 Idem, Ibidem.

No século XVII, logo nas primeiras décadas, Violante Botelho procedeu à remodelação do espaço, pois "...fez de novo o Capitulo e adornou a imagem que la estava.375." Num dos triénios de Maria

da Conceição Azeveda (entre 1680/90), forrou-se de azulejo e, além de um arco douro brunido sobre um altar do "Senhor Jesus" e mais dois em duas "capelinhas", foi pintado (painéis entalhados?) com florins dourados376.

Ultimamente estava também forrado de azulejo (em silhar?) e tinha cinco altares (este número confere com os números do AHMF e do cronista): Ecce Homo, Santa Gertrudes, Cristo Morto, Cristo Cruxificado e Senhora da Soledade. O Inventário Geral atribuiu-lhes os números de 8 a 12, respectivamente: 9, 10, 12, 8. Quanto ao último destes números temos alguma perplexidade, porque o Cristo Crucificado377, actualmente na capela do cemitério de Agramonte, no Porto, tem com ele duas imagens, uma da Senhora da Soledade e outra de São João, que nos parece terem feito parte do mesmo conjunto (reproduzimos em fotografia) e não de um altar separado . Assim, sobra o altar n°11 que, segundo aquele índice, era o do Senhor dos Passos e não da Senhora da Soledade. A imagem do Cristo Morto, várias vezes referenciada na documentação, porque para Ele as madres doavam tensas e faziam panos de veludo com aplicações de prata, encontra-se nos arrumos de Cedofeita. Julgamos que em breve encontrará lugar mais condigno. Em tempos, possuiu "hum preciozo tumulo", encomendado por Vitória Maria da Cunha, no segundo triénio (já século XVIII), talvez como o de Arouca de madeira preciosa com aplicações de latão. Se seguiu para Cedofeita com a imagem do Senhor, hoje ninguém sabe o caminho que tomou; ficou apenas uma ténue lembrança de por lá ter estado378 . Com Ele e em situação também precária, o Senhor dos Passos, despojado das suas vestes cerimoniais, mantém-se de pé, mas curvado ao peso, não só dos pecados do mundo, mas dos objectos que o tempo lhe foi colocando por cima. Procurámos captar as imagens possíveis, que talvez numa oportunidade não muito distante possam ser admiradas de forma adequada. Esta imagem da Paixão é de Roca, tal como outras duas, mais pequenas, de Noss^a Senhora (provavelmente também do extinto mosteiro do Porto), que tristemente aguardam vez de serem vestidas e toucadas (perderam o cabelo, também de "vestir"). Pedro Vitorino acreditava que aquela dependência fosse abobadada de tijolo, "do contrário não resistiria ao incêndio de 1783, que principiou nas habitações que lhe eram

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sobranceira, alastrando para o claustro, coro e igreja ."

375 BNL, Códice 8395, fl. 18v°. 376 BNL, Códice 8424..

377 A que lá esteve antes era do século XVII, encomendada e paga por Isabel de Sousa, sobrinha de Brites de Távora, também ali professa e deve ter-se consumido pelo fogo. BNL, Códice 8395, fl. 76v°.

378 Não podemos esquecer que o incêndio de 1783 começou precisamente na Casa do Capítulo ou muito próximo dela. 379 VITORINO, Pedro, o . c.,p. 188.

Na entrada da casa capitular, ocupando uma área de 19,20m2, situava-se o "carneiro", destinado às abadessas. No século XVI, todo o revestimento do rés-do-chão do mosteiro era de ladrilho "iorquo", com excepção do refeitório, capítulo e sacristias (de dentro e de fora) que era "roçado". As 8 lajes de pedra que surgiram quando nos finais do século XIX se levantou o soalho, já de madeira, deveriam ser de fabrico posterior, até porque o nome mais antigo ali gravado era de Ana d'Athaide, abadessa-que foi em 1623/26(1 "triénio) e depois de 1632/35. Como as datas não conferem com os nomes, atribuímos isso às sucessivas inumações ali efectuadas e não actualizadas. O cronista observa, de resto, que havia vestígios de mais do que uma data, apagadas a picão. Por curiosidade, registamos aqui dois nomes: Bemardina de Senna, abadessa do mosteiro do Salvador de Braga, e Quitéria Rita de Mello, religiosa do Real Mosteiro de Lorvão. Aquelas pesadíssimas pedras, com as dimensões de 1,98mX0,94, tinham, além das inscrições várias vezes re-escritas, um báculo distintivo da prelada e um S (Ramos diz que indicava sepultura, por ter encontrado idêntico sinal nas lajes de seculares e criadas). Habitualmente destinava-se à inumação das abadessas o referido carneiro, situado na Casa Capitular, como sinal privilegiado da sua função. No entanto, no mosteiro da Encarnação isso não aconteceu, não sabemos se porque nada lhes dizia tal distinção ou se por falta de espaço. O relato da cronista do século XVII refere sepultamentos no Capítulo de religiosas que nunca foram abadessas, mas que tiveram laços de parentesco com elas (tias, sobrinhas ou irmãs de sangue). Noutros casos algumas, foram ali colocadas junto de suas amigas (acrescentado que foi o nome da preferida). Isto é tanto mais interessante quanto, no "Directório", o beneditino seu autor adverte para que em caso algum haja qualquer laço de amizade, dentro dos mosteiros, tanto entre as monjas como entre o pessoal auxiliar e secular. Também a Regra atenta contra isto no cap. LXIX: "que nenhum monge seja a que pretexto for, ouse defender a outro no mosteiro ou tomá-lo como que sob a sua protecção, mesmo que estejam ligados por qualquer laço de parentesco". Previa-se castigo severo para os transgressores. Mas vidas enclausuradas, algumas no sentido literal da palavra porque entravam ali na infância, dificilmente sobreviveriam sem algum afecto palpável e isto é tão verdadeiro como a indiferença com que a cronista registou esses casos.

Além do claustro e da casa do capítulo, os enterramentos fizeram-se em outros locais, tais como proximo do "cárcere" como ficou dito e "defronte da caza das moças380", que não sabemos onde

era, mas de certeza no rés-do-chão.