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PARTE II – 1947/2-1948/1

3. A PRESENÇA DA VISÃO DE ASPECTO NO TS-232

3.3 A cegueira para aspectos [Aspektblindheit]

Nas RPPi, em sua discussão sobre a visão de aspectos, Wittgenstein menciona o caso do “cego para significados” para evidenciar uma dificuldade surgida no contexto de seus comentários críticos à solução introspeccionista. Como dissemos anteriormente, o tema da visão de aspecto continua central nas anotações dos RPPii e o filósofo retoma o tema da cegueira para significados em suas revisões feitas nos MSS 135-137.

Encontramos vários parágrafos nas RPPii que, ao que tudo indica, são revisões pontuais de parágrafos das RPPi. Não podemos ter certeza se com estes novos parágrafos Wittgenstein estava a revisar o conteúdo dos RPPi ou apenas se servindo das anotações anteriores como base para sua nova reflexão. Porém, uma análise dessas “anotações de revisão” nos servem, ao menos, para dois motivos pontuais: 1) notar a mudança de terminologia utilizada por Wittgenstein para se referir a alguns problemas presentes desde o começo de seus escritos sobre psicologia; 2) entender como suas novas considerações

77 Numa dessas retificações, presente no §462 das RPPii, notamos a intenção do filósofo em retomar ao modo como expõe o problema do “ver-como” ainda nas primeiras anotações dos MS-130.

sobre o problema são, de fato, acréscimos importantes às considerações anteriores. Dito isso, partimos para a análise do caso específico da cegueira para o significado.

Wittgenstein retoma literalmente o problema da cegueira para o significado no dia 19 de fevereiro de 1948. Em sua tentativa de revisão do §168 das RPPi, ele tece o seguinte comentários:

(Parágrafo 168 do TS 229). A questão se insinua: poderíamos imaginar pessoas que nunca vissem algo como algo? Estariam elas perdendo um sentido importante, mais ou menos como se elas fossem daltônicas ou não tivessem ouvido absoluto? Chamemos essas pessoas de “cega para formas” [gestaltblind] ou “cega para aspectos”. (RPPii, §478)

A primeira coisa que podemos notar na citação acima é a inserção de uma nova terminologia para se referir à cegueira. No TS 229, Wittgenstein jamais fizera menção a algo como uma “cegueira para aspectos”. Diferente disso, o que o filósofo mencionava era uma “cegueira para significados” relacionada a hipotética falta de uma vivência específica em pessoas que não notariam a mudança de significado, ainda que pudessem usar ou descrever corretamente os termos envolvidos na mudança. Como afirmamos anteriormente, no contexto em que estava inserida nas RPPi, a ideia de uma “cegueira” estava diretamente conectada com a crítica de Wittgenstein à saída introspectiva para o problema do ver-como. Porém, as intenções do filósofo com sua revisão do problema nas RPPii parecem ser outras, a saber, reiterar a relevância de nossas aplicações práticas para a solução de questões como as da visão de aspecto:

É claro que pode ser imaginado que alguém nunca veja uma mudança de aspecto; o aspecto tridimensional de toda figura sempre permanecendo estável para ele. Mas esta suposição não nos interessa. Mas é concebível, e para nós até importante, que as pessoas pudessem ter uma relação bem diferente da nossa para com as figuras (parágrafo 170 do TS 229).

Desse modo, nós poderíamos imaginar uma pessoa que visse apenas um rosto pintado como rosto, mas não um que consistisse num círculo e quatro pontos. Que, portanto, não visse a figura do pato-lebre como uma figura da cabeça de um animal, e por isso também não visse a mudança de aspecto que conhecemos.

[...] Diríamos de alguém que ele agora vê assim, agora assim, apenas se ele é capaz de fazer todo tipo de aplicações da figura com perfeição (RPPii, §§480-484).

O conjunto de anotações acima é explícito sobre o teor revisional e os novos alvos da abordagem. Como podemos notar, as possíveis incursões introspectivas ou vivenciais próprias do indivíduo não fazem mais parte do norte da discussão – para facilitar nossa compreensão de nossas práticas relacionadas à visão de aspecto, devemos esquecer momentaneamente que nós mesmos temos essas vivências (RRPi, §531). Porém, ao nos distanciarmos das vias introspectivas relacionadas ao ver como e à cegueira de aspecto, não devemos partir para hipóteses gestálticas que relacionam a cegueira com uma suposta limitação da “organização visual”. Afinal, normalmente relacionamos a limitação de uma pessoa que não percebe a alteração do aspecto a sua incapacidade interpretativa ou imaginativa, não à visão (RPPii, §490). Logo, o que Wittgenstein busca evidenciar é a importância dos casos práticos nos quais fazemos uso de noções relacionadas ao “ver-como”, ou seja, as situações nas quais somos capazes de dizer e aplicar termos como “vejo agora assim... vejo agora assim...”. Como evidencia o filósofo, a visão de aspecto é um fenômeno específico construído sobre outros jogos de linguagem afins (RPPii, §541).78

A reinserção do tema da “cegueira para significados” pode dar a impressão de que, nesse conjunto de escritos, Wittgenstein apenas retoma e fundamenta os argumentos presentes já em escritos anteriores. Noutros termos, muitos podem ser levados a interpretar as anotações presentes nas RPPii como se não houvesse ali nada de novo. Porém, isso é apenas uma falsa impressão. Se olharmos de forma mais atenta, veremos que nesse conjunto de escritos problemas relacionados aos conceitos psicológicos surgem. Por exemplo, é exatamente nesse contexto de revisão e retomada de tópicos anteriormente

78 É no cenário da discussão sobre a cegueira para significados que Wittgenstein, nas duas únicas menções que faz sobre a “cegueira para significados”, lança o exemplo clássico do sujeito que não percebe a diferença entre usos distintos da palavra “banco”. No dia primeiro de maio de 1948, quase dois anos após aparecer pela primeira vez nos escritos sobre filosofia da psicologia (MS-130, 252[1]), Wittgenstein retoma o exemplo do indivíduo que não seria capaz de notar mais de um uso da palavra “banco” (vide RPPii, §571). Novamente, Wittgenstein torna a destacar o caráter prático para a diferenciação entre os possíveis usos de um mesmo termo ou de termos similares, tentando demonstrar a falta de sentido em apelar para uma “instância interior” para a resolução dos problemas dos significados psicológicos.

discutidos que Wittgenstein começa a se debruçar mais enfaticamente sobre um problema clássico para muitos comentadores da filosofia tardia de Wittgenstein, a saber, a “imagem do interior”. Debrucemos sobre ela na sequência.