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PARTE II – 1947/2-1948/1

3. A PRESENÇA DA VISÃO DE ASPECTO NO TS-232

3.1 Dos métodos de Wittgenstein nesse contexto

A gramática dos conceitos psicológicos muitas vezes reitera certas ilusões de homogeneidade que nos fazem tomar conceitos distantes como similares, assim como termos análogos como dessemelhantes. Isso já havia sido evidenciado nas RPPi e trabalhado por meio de diversas abordagens distintas, como a criação de jogos de linguagem hipotéticos, com a atenção voltada ao nosso aprendizado dos termos, assim como para a comparação das características dos usos envolvidos nesses conceitos. Todavia, cabe agora a pergunta: qual modo de análise Wittgenstein propõe para o tratamento dos conceitos psicológicos nos RPPii?

Se retornamos aos manuscritos iniciais de Wittgenstein sobre a filosofia da psicologia, encontraremos lá, por exemplo, a indicação de Wittgenstein que nos orientava a “direcionar nosso interesse para os jogos de linguagem” em que os conceitos estão inseridos (MS 130, p. 151). Nas RPPii, o filósofo continua adotando esse direcionamento como norte – a comparação entre os conceitos de pensar e falar, presentes logo no início do TS-232, evidencia isso:

Agora imagine que alguém tenha de construir algo, com pedras ou com “Meccano”.72 Ele testa diferentes peças, tenta encaixá-las, talvez faça um esboço etc. E agora se diz que ele pensou durante essa atividade! – Certamente, dessa forma se distingue esse fazer de um outro tipo bem diferente. Mas é uma boa descrição dessa diferença dizer que num dos casos há ainda uma outra coisa acompanhando o fazer manual? Será que poderíamos isolar essa outra coisa e fazê-la acontecer sem o restante da atividade?

Não é verdade que pensar é uma espécie de fala, como eu um dia disse. O conceito de “pensar” é categorialmente distinto do conceito de “falar” (RPPii, §7).

O que o caso acima inicia é uma série de comentários de Wittgenstein sobre o conceito de “pensar” (RPPii, §§7-35). Nesses comentários, o filósofo busca evidenciar as várias confusões conceituais que surgem quando tomamos um conceito de forma distante de nossas práticas. Para desfazer algumas dessas confusões, Wittgenstein faz uso de uma série de abordagens distintas sobre o conceito de pensar. Numa dessas abordagens, ao comparar termos psicológicos (“pensa”, “sente”, “deseja”...) com outros conceitos distintos (desenha, pinta, modela...), Wittgenstein busca reiterar a necessidade de retorno à razoabilidade de nossas práticas linguísticas.

“O homem pensa, sente, deseja, crê, quer, sabe.” Isso soa como uma sentença razoável. Assim como: “O homem desenha, pinta, modela”. Ou: “O homem conhece instrumentos de corda, de sopro...”. A primeira sentença é uma enumeração de tudo aquilo que o homem faz com seu espírito. Mas da mesma forma como se pode fazer a pergunta “e o homem não conhece também instrumentos feitos com ratos chiando?”

72 O termo “Meccano”, aqui, refere-se a uma marca de brinquedos britânica muito comum a época de Wittgenstein e que consistiam de peças metálicas que se juntavam para formar uma série de objetos (carros, trens, etc.).

relativamente à sentença sobre os instrumentos musicais, e a resposta a isso seria “Não” –, também teria de existir, com relação à enumeração das atividades do espírito, uma pergunta desta espécie: “e os homens não podem também...? “ (RPPii, §14)

Ao comparar o sentido prático da pergunta sobre a possibilidade de um instrumento com ratos chiando para com casos relacionados ao pensar, o que Wittgenstein busca é um retorno ao solo áspero da linguagem, que serve de limite para a exigência de algumas questões relativas aos conceitos psicológicos. Para Wittgenstein, devemos retornar em nossa investigação à linguagem cotidiana, pois é dali que tiramos os conceitos que analisamos e dos quais o uso é bastante complexo, o que pode ser dito a respeito de todos os conceitos psicológicos (RPPii, §20). Logo, se alguém se propõe a compreender a natureza dos conceitos psicológicos e desfazer proximidades enganosas entre os termos, então deve considerar os diferentes contextos nos quais os verbos e conceitos em questão são utilizados. Observar o comportamento com o qual a palavra se entrelaça e a ocasião na qual a utilizamos nos auxilia a discernir os parentescos e as diferenças entre os variados conceitos psicológicos: podemos dizer algo rápido ou devagar, mas não significar algo de forma rápida ou lenta. Da mesma maneira, podemos interromper um estado de concentração, mas não faz sentido dizer que o conhecimento ou a crença de alguém foi interrompida (e.g. “ele sabia matemática, mas agora que comecei a falar ele deixou de saber”; “ele acreditava em Deus, mas agora que está almoçando sua crença foi “interrompida”). Essas observações gramaticais servem como exemplo de como podemos traçar o “perfil” do uso de alguns conceitos psicológicos. Noutros termos, por meio da atenção às nossas práticas, seria possível traçar um quadro comparativo dos termos psicológicos – e é exatamente isso que Wittgenstein faz, por exemplo, ao traçar o “perfil” do conceito de “estado de consciência” e “disposições” e aproximá-los do conceito de visão:

Quero falar de um “estado de consciência”, e chamar assim a visão de uma determinada figura, a audição de uma nota musical, uma sensação de dor, uma sensação de sabor, etc. Quero dizer: acreditar, entender, saber, pretender e outros não são estados de consciência. Se por um instante chamo estes últimos de “disposições”, então uma importante diferença entre disposições e estados de consciência é que uma disposição não é interrompida por uma interrupção ou um desvio de atenção (RPPii, §45).

O objetivo de Wittgenstein com traçar uma distinção entre disposição e estados de consciência na citação acima é, certamente, ter um perfil de ambos para que seja possível notar com qual dos dois a visão de aspecto mais se aproxima. Independente dos pormenores dessa aproximação (que serão devidamente discutidos no capítulo posterior), o que queremos reiterar aqui é que Wittgenstein traça uma série de perfis de uso de conceitos gerais que nos servem de norte para a abordagem dos conceitos psicológicos. Apesar dessa estratégia de análise já estar presente nas RPPi, fato é que ela se torna ainda mais frequente nas RPPii. Tanto o é que a tentativa mais elaborada de traçar um perfil de conceitos psicológicos gerais se dá com seu “plano para o tratamento dos conceitos psicológicos”, presentes nos §§ 63 e 148 das RPPii.

Longe de pretender servir como uma “tabela definitiva”, as classificações e perfis traçados por Wittgenstein nas RPPii buscam demonstrar a aproximação e distanciamento dos conceitos por meio de um paralelo dos usos. Percebemos, por meio delas, que existem emoções dirigidas e não-dirigidas, comportamentos característicos, assimetrias entre o uso na primeira e a terceira pessoa, etc. Para o caso específico do “ver-como”, o plano oferece uma descrição de algumas diferenças relacionadas aos dois conceitos-chave inseridos na questão, a saber, a visão e a interpretação. Dessa forma, a ideia de uma “duração genuína”, da diferença entre “sensação” e “pensamento”, dentre outras comparações e características relacionadas, servirá posteriormente de base para as considerações de Wittgenstein para a aproximação e distanciamento do conceito de “ver-como” tanto para o conceito de ver, quanto em relação ao conceito de interpretar. Além da observação dos contextos nos quais os termos são utilizados e da classificação comparativa de alguns conceitos psicológicos, Wittgenstein oferece também outra estratégia para a obtenção de uma visão mais abrangente sobre os termos psicológicos: averiguar as maneiras pelas quais um determinado conceito pode ser ensinado. Podemos ver esse tratamento da questão em uma passagem um pouco anterior à classificação presente no §148 das RPPii. Nela, o filósofo reitera que termos como “ver”, “olhar” e “imaginar” são apreendidos pelas crianças de maneira diferente para, só mais tarde, serem classificadas em um conceito mais abrangente (como “ações voluntárias”, e.g.), ainda que preservem suas diferenças particulares.

As palavras “imaginar é algo voluntário, ver não”, ou semelhantes, podem levar uma pessoa a enganos.

Quando aprendemos, quando crianças, a usar as palavras “ver”, “olhar”, “imaginar”, ações voluntárias e ordens entram em jogo nisso. Mas de maneira diferente para cada uma dessas três palavras. O jogo de linguagem com a ordem “Olhe!” e o jogo com a ordem “Imagine...!” – como é que devo compará-los? – Se quisermos treinar alguém para que reaja à ordem “Olhe!” e se quisermos treiná-lo para entender a ordem “Imagine...!”, é evidente que teremos de ensinar-lhe coisas bem diferentes. Reações que fazem parte deste jogo não fazem parte daquele. Tudo bem que haja uma estreita conexão entre os jogos de linguagem, mas uma semelhança? – Partes de um são semelhantes às partes do outro, mas as porções semelhantes não são homólogas (RPPii, §139).

Para Wittgenstein, há uma conexão sistemática entre as possíveis maneiras de ensinar um termo e de significá-lo. Por exemplo, se alguém está intrigado com o modo pelo qual o termo “sonhar” ganha significado em nossas práticas e suas possíveis relações com outros conceitos, então é de grande valia que examinemos como alguém pode ensinar uma criança a fazer uso da sentença “eu sonhei” como uma descrição. Da mesma maneira, se alguém está buscando uma compreensão sobre o modo como uma pessoa pode demonstrar suas “intenções”, então que investiguemos como alguém pode ensinar a uma criança o uso de expressões como “eu quero”, “eu gostaria”, “eu desejo”, etc. Cabe dizer que a aprendizagem desses conceitos aqui exemplificados não são o fundamento de uma teoria do significado, como se buscássemos revelar uma maneira natural de significação dos termos. Diferente disso, a aprendizagem desses termos serve como “polos de uma explicação”, ou seja, como indicativos das fronteiras nas quais um termo surge em seus distintos modos de aplicação.73

O que fica claro com esse conjunto de indicações metodológicas é que, além de propor em determinado momento de seus escritos uma classificação para os termos psicológicos, Wittgenstein também indica outros meios para a análise dos conceitos a fim de nos protegermos das ilusões gramaticais. A comparação dos usos de termos particulares, o olhar atento para nossas práticas e para o modo como aprendemos as palavras são maneiras eficazes de obtermos nitidez sobre nossos termos psicológicos e desfazermos confusões gramaticais envolvidas em questões filosóficas – e serão elas que continuarão

73 Vide RPPi, §633.

a dar o tom nas análises sobre a visão de aspecto presentes nas RPPii e permitirão que novas revisões sejam feitas e novos problemas despontem, como veremos agora.