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A CENOGRAFIA NO AMBIENTE EDUCACIONAL: O DISCURSO DO

No documento 2015SusimaraPassamani (páginas 47-50)

3 SEMÂNTICA GLOBAL NA ORDEM DISCURSIVA DA ATIVIDADE

3.1 A CENOGRAFIA NO AMBIENTE EDUCACIONAL: O DISCURSO DO

No contexto educacional, é possível percebermos a pertinência de relacionar a semântica global aos conceitos de cenografia e de ethos discursivo, tendo em vista que permitem depreender sentidos na atividade docente, observando normas, como esse docente as renormaliza, gerindo seu trabalho (uso de si) e sendo gerido por outro (coordenação/direção). Mas é importante pontuarmos, também, que o sujeito docente situa-se num espaço e tempo implicados sob a forma EU-TU-AQUI-AGORA, pois, segundo Maingueneau (1997, p. 42, grifo do autor  ³D GrL[LV discursiva consiste apenas em um primeiro acesso à cenografia de uma formação discursiva.´ Maingueneau (1997, p. 44) destaca que

deixar-se-á de lado aqui tudo o que depende das coerções genéricas14 e das coerções da formação discursiva considerada, para observar unicamente como o sujeito constrói a cenografia de sua autoridade enunciativa. A partir daí, ele determina para si e para seus destinatários os lugares que esse tipo de enunciação requer para ser legítima [...]. E tal forma que a legitimidade deste lugar de destinatário se funda, por sua vez, em um outro lugar, designado pelo texto.

Além de o sujeito linguístico, o docente, estar localizado na esfera educacional e em determinado momento, esse sujeito está, também, envolvido em determinado gênero do discurso. Conforme Maingueneau (1997, p. 34, JULIRGRDXWRU  ³RVHQXQFLDGRVGHSHQGHQWHV da AD se apresentam, com efeito, não apenas como fragmentos de língua natural desta ou

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Segundo Maingueneau (1997, p. 35-36), em se tratando de coerção genérica, depende do analista do discurso querer conhecer as coerções dos gêneros, tendo em vista que elas são indeterminadas e variam de acordo com os lugares, a época, H DV FRHUo}HV GH FDGD XP ³SDVVDQGR GH XPD FRQFHSomR GR JrQHUR FRPR FRQMXQWR GH características formais, de procedimentos, a uma concepção µLQVWLWXFLRQDO¶ [...] Isso não significa, evidentemente, que o aspecto formal seja secundário, mas apenDV TXH p SUHFLVR DUWLFXODU R ³FRPR GL]HU´ DR conjunto de fatores do ritual enunciativo.´

daquela formação discursiva, mas também como amostras de um certo gênero do discurso´ Maingueneau converge na direção dos estudos de Bakhtin, à medida que este filósofo em seus estudos sobre os gêneros do discurso FRPHQWD ³TXDOTXHU HQXQFLDGR FRQVLGHUDGR isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gênero do discurso.´ (BAKHTIN, 2003, p. 280, grifo do autor).

Desse modo, é fundamental concebermos que o caráter discursivo docente vai além da comunicação em si, pois não se limita e não se fecha no enunciado propriamente dito, isso porque o ambiente de sala de aula nunca é o mesmo, há momentos em que os alunos estão dispersos ou simplesmente não estão entendendo o conteúdo proposto, o que demanda a reformulação no discurso no intuito de atingir o seu discente para que esses enunciados se efetivem na comunicação. Portanto, é fundamental que todos envolvidos na sala de aula reconheçam e compartilhem um conjunto de ideias que vão desde a cenografia e do ethos discursivo, da interação verbal até o gênero do discurso.

Em relação à cenografia, Maingueneau (2002, p. 87-88, grifo do autor) ressalta que

[...] a cenografia é ao mesmo tempo a fonte do discurso e aquilo que ele engendra; ela legítima um enunciado que, por sua vez, deve legitimá-la estabelecendo que essa cenografia onde nasce a fala é precisamente a cenografia exigida para enunciar como convém segundo o caso, a política, a filosofia, a ciência, ou para promover certa mercadoria [...]

No intuito de elucidar essas considerações, no domínio da teoria de Maingueneau (1997, 2002, 2008a, 2008b), é preciso explicar que o sujeito está inscrito em determinada posição discursiva, o que define a noção do ethos desse sujeito, bem como as três cenas em que circunscrevem esse discurso. A primeira é a ³FHQD HQJOREDQWH´ em que predomina o domínio dos discurso e que constitui o tipo de discurso: publicitário, administrativo, filosófico, etc., e que está inserida em determinado espaço e tempo, além de surgir de uma função social que, neste estudo, situa-se no contexto educacional. De acordo com Maingueneau (2006, p. 111),

quando recebemos um panfleto na rua, devemos ser capazes de determinar se se trata de algo que remete ao discurso religioso, político, publicitário, etc., ou seja, devemos ser capazes de determinar em que cena englobante devemos nos colocar para interpretá-lo, para saber de que modo ele interpela seu leitor.

Posterior à primeira interpretação da cena englobante, a segunda coQVWLWXtGDpD³FHQD JHQpULFD´TXHHVWiOLJDGDDRIDWRGHFRPRRVFRHQXQFLDGRUHVDVVXPem seus papéis sociais, ou seja, associada a um gênero de discurso, portanto, com que os sujeitos se deparam a partir dos gêneros que já lhes são conhecidos, elege-se um gênero que já lhes são inerentes para interagirem socialmente. Esses gêneros são atribuídos às coerções genéricas, tendo em vista que eles são de ordem ilimitada e considerados parte do dia a dia do falante porque circundam seu cotidiano em diversos formatos de textos e gêneros textuais. Esse falante telefona, manda mensagens, lê jornal, relaciona-se amorosa ou hostilmente, enfim, convive com fenômenos históricos sociais que são parte da sua sociedade, e no ambiente educacional, os sujeitos falantes convivem numa interação verbal em que há troca de saberes.

Depois de instauradas as primeiras cenas nos discursos, emerge a terceira cena, a cenografia, que ³só se manifesta plenamente se puder controlar o próprio desenvolvimento, manter uma distância em relação ao coenunciador.´ 0$,1*8(1($8S Assim, para o autor, as cenografias apoiam-se em cenas validadas por fazerem parte da memória coletiva ou estereótipos que são comuns a todos; nesse caso, que não precisam ser explicadas. A esse respeito, Souza-e-Silva (2001, p. 134) evidencia que

[...] a cenografia não deve ser entendida como um quadro preestabelecido, mas como uma espécie de enlaçamento paradoxal, no qual a enunciação, por seu modo mesmo de desvendar seus conteúdos, deve legitimar a situação de enunciação que a torna possível, isto é, os protagonistas do discurso - enunciador e coenunciador- e sua ancoragem espacial e temporal, isto é, topografia e cronologia.

Dentre as três cenas, a cenografia é a terceira e situa-se numa dimensão criativa do discurso. Isso porque é construída a partir de cenas validadas, ou de falas que o sujeito já tem internalizadas na memória e que podem ser compartilhadas. No ambiente de trabalho, essas cenografias emergem à medida em que os sujeitos se reconhecem discursivamente. Assim, conforme Maingueneau (2002, p. 92), essas cenas validadas ³Mi LQVWDODGDV QD PHPyULD coletiva, seja a título de modelos que se rejeitam ou de modelos que se valorizam.´ 'HVVD forma, a cenografia é construída no momento em que se enuncia. Segundo Maingueneau (2008b, p. 114),

[...] ela legitima um enunciado que, retroativamente, deve legitimá-la e fazer com que essa cenografia da qual se origina a palavra seja precisamente a cenografia requerida para contar uma história, para denunciar uma injustiça etc. Quanto mais o co-enunciador avança no texto, mais ele deve se persuadir de que é aquela cenografia, e nenhuma outra, que corresponde ao mundo configurado pelo discurso.

Visto a elucidar melhor a cena validada, Maingueneau (2008b, p. 82) assim explica:

a cena validada é ao mesmo tempo exterior e interior ao discurso que a evoca. É exterior no sentido de que lhe preexiste, em algum lugar no interdiscurso; mas é igualmente interior, uma vez que é também produto do discurso, que a configura segundo seu universo próprio: muitos escritores religiosos situaram sua enunciação no rastro da de Cristo, mas, sempre de acordo com grande quantidade das interpretações que se fazem dela, a exploração semântica dessas cenas de referência varia em virtude do posicionamento de quem as evoca.

Portanto, para se chegar à cena validada e ou a cenografia explicada por Maingueneau (2008b), passar pela cena englobante e a cena genérica faz-se fundamental, já que essas duas cenas iniciais são o ponto de partida para reconhecer nos enunciados produzidos a cenografia instaurada. Nesse sentido, é importante concebermos que a cenografia é construída a partir dos discursos que se desenvolvem e que é eficaz porque por entre esses discursos perpassam, também, categorias que vão desde os planos constitutivos da semântica global, as cenas constitutivas do discurso, até se chegar à cenografia propriamente dita.

É a partir da manifestação discursiva, através da cenografia, portanto, que se constrói um ethos discursivo, no conteúdo desse discurso, que é validado esse ethos. Desde Aristóteles foi criado o conceito de ethos e reformulado para a análise de discurso, conforme Maingueneau (2008ab), o que é comentado na seção seguinte.

3.2 O ETHOS CONSTRUÍDO: MANIFESTAÇÃO DISCURSIVA DO PROFESSOR NA

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