2 A DINÂMICA ENTRE LINGUAGEM E TRABALHO: PRÁTICAS
2.3 ERGOLOGIA, LINGUAGEM E TRABALHO: PRÁTICAS SIMULTANEAMENTE
É fundamental reconhecermos, com base em Sousa-e-Silva (2002a), que a atividade de linguagem e a atividade de trabalho são práticas indissociáveis e que, no Brasil, a partir do século IX, influenciadas também pela revolução industrial, foi necessário, devido aos avanços tecnológicos e as possibilidades de o trabalhador articular a linguagem em seu trabalho, aprofundar estudos acerca de pesquisas científicas multidisciplinares que explicitariam a dinâmica do trabalho e da linguagem em cada setor.
Na França, tais colaboradores começaram a aparecer na década de oitenta, por meio da formação de grupos de pesquisa ± Analyse Pluridisciplinaire des Situacions de Travail (APST) e Langage et Travail (L&T). No Brasil, a preocupação em se estabelecer essa ponte materializa-se na década de noventa no âmbito de alguns programas de pós-graduação via grupos de pesquisa (LAEL- PUC-SP/ Grupos Atelier e Direct; pós-graduação em Letras- PUC-Rio/Coppe-UFRJ) e/ou de acordos bilaterais: Brasil/França, Brasil/Inglaterra, Brasil/Portugal.
Mediante os avanços tecnológicos, portanto, a linguagem no trabalho encontrou-se numa progressiva importância de considerar a participação plena do sujeito na atividade, que antes era vista, através dos estudos ergonômicos, como práticas fundamentadas nas organizações tayloristas, que implicavam, segundo Souza-e-Silva (2002a, p. ³XPWUDEDOKR nas linhas de montagem que se acreditava repetitivo pressupunha-se a crença na racionalização dos processos de produção por meio do controle do tempo e do ritmo do trabalho´ R que explica a diferença entre o que era prescrito (tarefa) e o que era real (realizável).
Ampliando os estudos sobre a importância da maior participação do sujeito na atividade de trabalho, concomitante, surgem os estudos ergológicos, que já não pensam só o sujeito na sua atividade, mas que levam em conta esse sujeito e sua forma de se comunicar, sua linguagem. A partir dessas teorias, abrem-se debates e espaços através de colaboradores e pesquisadores, segundo Souza-e-Silva (2002), para a linguagem no trabalho, ou seja, ³a dimensão linguageira em situações de trabalho´, o que remete-nos à ideia da total interação desse sujeito que se comunica na atividade de trabalho por meio de seus saberes.
Assim, é fundamental considerarmos que, em qualquer tipo de atividade, mesmo que desenvolvida basicamente entre trabalhador e máquina, a linguagem está presente e, com certeza, em algum tipo de interação verbal, o que nos permite maior compreensão do trabalho e suas facetas. Conforme Noël e Faïta (2010, p. 167, grifo nosso),
[...] comunicar significa compreender. Dizer, mas também compreender. E a própria compreensão do que o outro diz, a compreensão do discurso do outro não é uma mera operação de elucidação, não é aplicação de regras simples. É também trabalhar no sentido de compreender. Em parte, é tentar se colocar no lugar do outro, é em parte reconstruir, a seu modo, aquilo que o outro construiu, em matéria de relação com as coisas, com as pessoas. Em suma, comunicar é reconstruir o sentido das palavras. [...] Em mim reside um conjunto de valores, de referencias, de
saberes dos quais eu não sou autor. Trata-se de referências, de valores, de saberes
que estão em mim, dos quais eu sou naturalmente beneficiário, os quais eu recebi e posso transmitir aos outros ou debater sobre eles.
Portanto, não há trabalho sem linguagem, ou melhor, não há sujeito sem linguagem. Prova disso é que o sujeito na atividade de trabalho, além de ter de expressar suas experiências, precisa suprir às necessidades mais básicas de fome, dor e, para fazê-lo, necessita se comunicar ± através da linguagem, seja ela gestual, verbal, de sinais, não importa, o homem se comunica.
Nesse contexto, Nouroudine (2002, p. 21-22) explica:
No exame das situações de trabalho, não se analisa a linguagem unicamente como discurso pré e/ou pós-experiência, mas, sobretudo, como parte da atividade em que constituintes fisiológicos, cognitivos, subjetivo, social etc., se cruzam em um
complexo que se torne ele próprio uma marca distintiva de uma experiência específica em relação a outras.
Percebemos, a partir das afirmações de Nouroudine (2002), que o sujeito no ambiente de trabalho não se configura somente como alguém estático, sem histórias. Trata-se aqui de um sujeito considerado socialmente e que dialoga com seus conhecimentos e saberes, bem como com saberes sociais. Reage, inclusive, em detrimento ao preestabelecido ou ao prescrito, condicionando-o ao seu modo. Contudo, para isso, precisa movimentar-se, e é na comunicação efetivamente estabelecida que isso acontece.
De acordo com Freitas (2010), referindo-se ao trabalho no sentido ergológico, devemos levar em conta o sujeito e toda sua subjetividade. É preciso considerar linguagem e trabalho FRPRXP³ELQ{PLR´IXQGDPHQWDOTXHVHFRPSOHWDPHVHPDQLIHVWDPQDDWLYLGDGH
Pensar é operar muitas linguagens, afirma Faitá (2002), e a atividade de linguagem é sempre uma operação a posteriori. Ela acompanha, comenta, projeta a atividade de trabalho e, como afirma Bakthin (2003), é uma arena das lutas sociais; reflete e refrata as menores mudanças sociais. A palavra é arena das lutas sociais porque se forja na dialética entre o estabelecido e o vir a ser. A palavra é sensível à mais ínfima mudança social, porque é como unha e carne da atividade de trabalho. (FREITAS, 2010, p. 176, grifo do autor).
As práticas linguageiras11 nas situações de trabalho, nesse sentido, reforçam a lógica de que não há sujeito sem linguagem, pois qualquer manifestação na atividade de trabalho comunica, fala por si só e, ainda, sofre tensões, pois o sujeito, ao se manifestar por meio do prescrito que lhe é apresentado, discute consigo mesmo, com o outro, faz escolhas, mobiliza
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Quanto às práticas linguageiras, HP VLWXDo}HV GH WUDEDOKR 1RURXGLQH S H[SOLFD TXH ³>@ p pertinente o questionaPHQWRDFHUFDGHµTXHPIDOD"¶µGHRQGHHOHHODIDOD"¶µTXDQGRHOHHODIDOD"¶SDUDTXH VHFRPSUHHQGDRQGHVHVLWXDRFDPSRGHYDOLGDGHGHSHUWLQrQFLDGDµOLQJXDJHPVREUHRWUDEDOKR.´
seu saber-fazer, enfim, suas particularidades. Desse modo, o indivíduo interage em qualquer situação comunicativa, o que, nas concepções de Bakhtin (2003, p. 265), reside na esfera do GLDORJLVPR SRLV ³D OtQJXD SDVVD D LQWHJUDU D YLGD DWUDYpV GH HQXQFiados concretos (que a realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua.´
Seguindo os estudos sobre análise das práticas linguageiras em situação de trabalho, e respondendo às suas próprias indagações sobre como explorar essas práticas, de maneira falada ou escrita e seus efeitos na atividade, entre outras, Daniel Faïta (2002, p. 49) salienta que
A interação entre médico e paciente, professor e aluno ou entre trabalhadores de uma fábrica pode ser apreendida sob o ângulo da materialidade das formas linguísticas e de seus agenciamentos, essas configurações podem ser correlacionadas às características mais sutis das situações.
Assim, diante dessas considerações, é possível observar que qualquer situação linguageira na atividade de trabalho terá uma representação ou um formato específico baseados nas práticas discursivas. Se for num contexto de comunicação educacional, por exemplo, que está fortemente marcado neste estudo, os agentes daquele determinado espaço irão comunicar-se numa prática linguageira que convirja com aquela situação; caso contrário, a interação discursiva não teria sentido, não seria coerente.
De acordo com Nouroudine (2002, p. 21-22),
No exame das situações de trabalho, não se analisa a linguagem unicamente como discurso pré e/ou pós-experiência, mas, sobretudo, como parte da atividade em que constituintes fisiológicos, cognitivos, subjetivo, social etc., se cruzam em um complexo que se torne ele próprio uma marca distintiva de uma experiência específica em relação a outras.
No intuito de dar ênfase à linguagem para que os profissionais desenvolvam senso crítico e reflexivo no ambiente educacional e que sejam capazes de relacionar seus conhecimentos teóricos às práticas de ensino-aprendizagem em sala de aula, Magalhães (2004) contribui com seus estudos à medida que, a partir dessa criticidade e reflexão, o professor consiga observar sua própria prática e fazer ajustes necessários para reformular e repensar sobre sua atuação e seu verdadeiro papel na docência, considerando os agentes envolvidos no processo.
Agir no sentido de possibilitar que os agentes participantes tornem seus processos mentais claros, expliquem, demonstrem, com objetivo de criar, para os outros participantes, possibilidades de questionar, expandir, recolocar o que foi posto em negociação. Implica, assim, conflitos e questionamentos que propiciem oportunidades de estranhamento e de compreensão crítica. (MAGALHÃES, 2004, p. 75).
Nesse sentido, uma prática docênte que leva em consideração o cuidado com seu
educando, mediante o saber-fazer através do prescrito, possibilita trocas de saberes numa ação crítico-reflexiva aos alunos e professores e oportuniza ³>@LJXDOSRVVLELOLGDGHGHnegociação GHUHVSRQVDELOLGDGHVDWUDYpVGHP~WXDFRQFRUGkQFLD´0$*$/+(6S Na perspectiva de elucidar que o indivíduo ao se comunicar no trabalho leva em conta três modalidades que se interligam descritas: como, no e sobre, Nouroudine (2002, p. 22) DILUPDTXH³Hnquanto a linguagem como trabalho é expressa pelo ator e/ou coletivo dentro da atividade em tempo e lugar reais, a linguagem no trabalho seria, antes, uma das realidades constitutivas da situação de trabalho global, na qual se desenrola a atividade.´ Em relação ao sobre, o autor revela que essa modalidade está condicionada à percepção do outro na atividade de trabalho, ou seja, ³SRLV R TXH HVWi HP MRJR QD WHQWDWLYD GH GHVFULomR H interpretação da experiência do outro não provém unicamente do método utilizado, mas também dos valores éticos PDQLIHVWRV´ 128528',1( S Nesse sentido, a atividade sobre o trabalho requer reconhecer que o sujeito movimenta-se na atividade em razão do outro, condicionado ao diálogo estabelecido e organizado entre parceiros que se reconhecem na atividade.
Assim, temos um sujeito que se manifesta através da linguagem, e toda a atividade requer seu uso numa dinâmica que se realiza na interação verbal; nesse caso, relacionada à dinâmica da linguagem do docente, como interesse especial desta pesquisa, porque suas falas são materiais que demonstram toda essa dinâmica linguageira para renormalizar o prescrito. Essas falas revelam todos esses aspectos de manifestação discursiva, interligando as modalidades descritas de como, no e sobre o ambiente de trabalho sob forma dialógica. As concepções de Bakhtin vão ao encontro das situações linguageiras no trabalho à medida que este não reconhece um sujeito no mundo sem se comunicar, mas um sujeito que, para se comunicar, necessita interagir, e é no e através desse diálogo que os enunciados ativam sentidos.
Para aprofundarmos os estudos até agora explanados, em relação à atividade/trabalho e linguagem/ trabalho, com ênfase na interação verbal, os princípios teóricos bakhtinianos para esses procedimentos serão melhor detalhados na sequência.
2.4 INTERAÇÃO VERBAL: UMA DINÂMICA LINGUAGEIRA NA ATIVIDADE DO