6.3 A terceira dimensão: o relacional
6.3.2 A centralidade do trabalho
Um ingrediente importante na análise das entrevistas foi a centralidade do trabalho na vida dos entrevistados. O trabalho aparece como uma categoria que constrói laço social, propicia melhores condições de vida e traz realização para eles, propiciando uma forma de produção identitária.
O sr. Jurandir acredita que seu trabalho lhe proporcionou crescimento pessoal e econômico, além de ter sido no trabalho que conheceu sua esposa, com quem está casado há mais de 40 anos:
Meu trabalho me deu a minha família. Eu costumo dizer isso. Porque eu conheci a minha esposa no elevador da companhia. Isso há 1500 anos atrás (risos). Então eu brinco assim, que primeiro foi o trabalho e depois veio a família, que ele que me deu. E eu sou o pai do bolsa família, sabia? Porque, com o meu salário, eu sustento muita gente da minha família também. Salário da minha aposentadoria, do meu trabalho de anos lá (sr. Jurandir).
O entrevistado faz uma sequência em sua vida, reconhecendo a esfera do trabalho como a propiciadora das demais, casamento, constituição de sua família e sustento da família de origem.
Outra entrevistada reconhece a importância do trabalho para ela e para a sociedade em geral:
Olha, eu já percebi que, se meu trabalho está bem, eu vou bem. Humor, disposição, tudo, né? Em casa, eu mudo, com amigos, com tudo. Mas eu acho que não sou só eu não. É todo mundo. E por vários motivos. Tem a sobrevivência, e você é responsável por outras pessoas também, se tem família, filhos. Mas também pela realização que te dá ter um trabalho que é bom, importante (Graziela).
A entrevistada considera que o trabalho tem várias funções em sua vida, desde o sustento material até a regulação do humor, sendo uma variável que interfere em sua vida familiar. Essa fala de Graziela traz centralidade do trabalho em sua vida, ilustrando como o trabalho é uma categoria central na vida das pessoas.
O trabalho é considerado nuclear para os sujeitos, independentemente das diversas formas da sociedade, sendo um elemento principal para compreender a atividade concreta dos homens em sua interação com o mundo. Segundo Leda Freitas (2013), é pelo trabalho que o homem conseguirá sua superação, sendo então uma categoria ontológica. A autora destaca ainda o caráter social do trabalho, visto que ele depende da interação do sujeito com os outros.
A Psicossociologia parte da premissa da centralidade do trabalho, considerando que sua ausência leva à perda da identidade para o sujeito. Para Enriquez (1999), a nova mentalidade sobre o trabalho gera uma mobilização geral dos homens para o labor, o que dá a ideia de uma civilização do trabalho e dos trabalhadores. Não são apenas os grandes empreendedores e empresários que se interessam pelo trabalho. Igualmente os operários, ainda que explorados, também reivindicam o trabalho como um elemento constitutivo e fundamental de sua personalidade.
Para a Psicodinâmica do Trabalho, a centralidade do trabalho também é essencial, uma vez que ele é construtor de identidade dos sujeitos trabalhadores.
Sendo o trabalho uma atividade dirigida a outras pessoas, ele não só transforma o sujeito que trabalha, mas também produz sua realização no contexto social (DEJOURS; ABDOUCHELI; JAYET, 1994).
Graziela ilustra a centralidade do trabalho em sua vida, ao contar que pode sair da empresa, mas não se imagina sem um trabalho:
Eu fico me imaginando fora da empresa, mas não sem um trabalho. Antes o trabalho significava para mim esta empresa. Mas agora não. De toda forma, eu vou estar fazendo alguma coisa, algum trabalho. Porque você sabe, né?
Não dá pra ficar sem trabalho. A gente não consegue ficar sem trabalho não.
É importante por vários motivos. Mas agora eu já me permito pensar até o que antes para mim era impensável, como essa história de fazer geleia, e pode até ser que eu goste, quem sabe? Já pensou? De trabalhadora de uma grande empresa para fazedora de geleia? (risos da entrevistada) (Graziela)
A entrevistada modifica sua relação com a organização a partir da crise instalada, mas não abre mão de ter um trabalho, mesmo que seja algo impensável antes da crise. Fazer geleia aparece em sua fantasia como uma alternativa, caso não suporte permanecer na empresa em crise. Sua identidade pode mudar, caso ela mude de trabalho. Ela poderá ter uma nova identidade, mas, ainda assim, determinada pelo trabalho. Graziela, ao comentar que poderá vir a fazer geleias, refere-se ao conjunto de suas outras competências. Mostra que, se sair do emprego atual, conseguirá manter-se trabalhando. Na fala dessa entrevistada, há uma distinção entre emprego e trabalho. Os dois no momento coincidem, mas se forem dissociados no futuro, ela construirá outro trabalho.
Para outro entrevistado, o trabalho absorve seu tempo, concorrendo com as outras esferas de sua vida:
Ah, tenho feito mais. Pelo contrato, 40 (horas de trabalho semanais). Mas a gente trabalha para caramba, né? Até foi engraçado… Estava até brincando com uns colegas lá em cima que, quando apareceu o convite para eu trabalhar em uma unidade mais perto de casa, a minha esposa falou: “Ah, onde eu assino? Você vai voltar né?!” Aí tudo bem, mudei. Quando no primeiro dia que cheguei em casa ela me disse: “Mas, peraí, você está chegando no mesmo horário, ou até mais tarde em casa?” (riso) É, estou compensando o horário que ficava na estrada (riso). E realmente! Olha eu estou chegando em casa o mesmo horário ou mais tarde às vezes do que quando eu trabalhava mais longe. E a verdade assim: sendo bem sincero!
Chego em casa muito, muito sem vontade de mais de nada. Então se chegar em casa sentar e comer qualquer coisinha, vai querer assistir qualquer coisa, aí o seu ânimo, o seu ânimo já diminui, diminui bastante! Aí vamo ver, se Deus quiser, eu hei de conseguir (risos) (Wilmar)
Nesse trecho da entrevista, aparece a centralidade e também um superinvestimento no trabalho. Para Gaulejac (2014, p. 124), esse superinvestimento, ou tenacidade no trabalho, é uma maneira de “eliminar as diferenças culturais, mas também de compensar as feridas narcísicas que estas provocam”.
Por ter tido uma infância pobre, Wilmar conta que não mediu esforços para dar aos seus filhos outras condições de vida e estudo. Ele quer garantir que seus filhos e sua esposa tenham conforto e nunca passem as necessidades que ele passou nos primeiros anos de vida. Hoje ele tem uma casa com piscina, seus filhos estudam em escola particular, o que está muito distante da vida que ele teve antes desse trabalho. É como se o superinvestimento que ele faz no trabalho protegesse ele e sua família de seu passado com privações materiais.
Wilmar conta também como se exige no trabalho. Ele se avalia constantemente para que o seu trabalho saia com qualidade:
Porque a gente acaba se envolvendo. A gente tem um ritmo que, às vezes, as avaliações que nós fazemos de que não está legal, vamos melhorar isso!
A gente fica em muita reunião. Essas reuniões acabam tomando o seu tempo para você pensar na gestão, para você ficar com a equipe. De, sei lá, pensar uma coisa diferente. Então a hora que você sai da reunião, você ainda quer sentar na frente do computador passar os correios do dia que que chegaram, pra ver se não está passando nada ali e tudo, e isso faz com que você fique muito tempo trabalhando […] e sem falar que a gente fica com essa bola de ferro do smartphone do lado. Toda hora você está vendo. Toda hora você fica até viciado, abrindo para ver se tem alguma coisa. Tem hora que eu já percebi que a gente fica até meio viciado. Então, assim, isso faz com que nossa jornada acaba, acabe tomando aí… um tempo. É, eu não acho bom (Wilmar).
O entrevistado relata uma necessidade de ter controle sobre suas atividades na empresa. Demonstra também uma autoexigência para que seu trabalho esteja sempre excelente. Faz avaliações constantes e não mede esforços para uma melhoria contínua de suas atividades. Wilmar é concursado de nível técnico e hoje ocupa um cargo de gerência, que é de nível superior. Foi o reconhecimento de seu desempenho superior que lhe proporcionou promoções, o que reforça sua necessidade de se dedicar tanto ao trabalho. Ele precisa controlar todos os processos, além das mensagens que chegam de diversas formas, seja pelas redes sociais ou pelo correio eletrônico, confessando sentir-se um prisioneiro do e no próprio trabalho.
Ele sente que não pode perder esse cargo de gerência, e a crise da empresa está deixando-o mais inseguro.
A ascensão social conseguida pelo trabalho se torna uma armadilha para Wilmar. Se, por um lado, ele reconhece que ascendeu socialmente graças ao que conseguiu com o trabalho na empresa, por outro, ele não pode perder essa posição, o que lhe faz dedicar cada vez mais tempo à empresa. Um tempo que não volta mais.
O tempo para o convívio com a família, que lhe cobra mais presença em casa, o tempo
para o autocuidado e a preservação da saúde, o tempo para o ócio e a contemplação;
enfim, o tempo para viver.
A questão da crise empresarial e o receio que tem em perder o cargo comissionado, assim como sua origem humilde, por um lado, causam angústia e sofrimento para o entrevistado, mas, por outro, esse mesmo sofrimento corrobora para que o trabalhador trabalhe mais. O sofrimento é, então, um capital que ajuda a fortificar a empresa.