6.2 Segunda dimensão: o funcional
6.2.3 As marcas da gestão
6.2.3.2 Os excessos das prescrições
Ainda dentro da categoria de análise que intitulamos como “as marcas da gestão”, apareceram os excessos das prescrições. Os estudos sobre o trabalho prescrito e o trabalho real aproximam o primeiro da tarefa e o último da atividade. O trabalho prescrito refere-se ao que é esperado em determinado processo de trabalho, incluindo suas particularidades. Tem dupla vinculação: às regras e objetivos determinados pela organização do trabalho e às condições dadas. É tudo aquilo que
deve ser feito em um processo de trabalho. Para Brito (2009a), as prescrições podem contribuir para o desenvolvimento das atividades ou serem ineficazes e funcionarem como perturbadoras.
Inicialmente, o conceito de trabalho prescrito foi atrelado à concepção taylorista de organização do trabalho, que preconiza a predição do controle sem limites do processo de trabalho, levando a uma visão negativa de seu sentido.
Entretanto tal concepção foi se modificando a partir de três constatações: existem diferentes modos de prescrição do trabalho; a prescrição é uma forma de antecipação necessária; e ela é encontrada em todos os processos produtivos. Isso leva a entender que o trabalho prescrito é fundamental para descrevermos uma das faces do trabalho, que se articula com a atividade, ou seja, o trabalho real. O que pode ser considerado penoso para o trabalhador é uma organização do trabalho que compreende prescrições rígidas ou demasiadas, limitantes ou impeditivas para que o sujeito consiga desenvolver, com autonomia, sua atividade.
Os estudos sobre o trabalho com a abordagem da Psicodinâmica do Trabalho apontam que não são raras as situações em que se observa a existência de prescrições contraditórias, como vimos nos relatos de alguns entrevistados. As narrativas trazem as imposições para seguirem normas cada vez mais rígidas e, ao mesmo tempo, terem de dar conta da tarefa em um período cada vez mais escasso.
Essas duas faces do trabalho, a tarefa e a atividade, não se opõem, mas, ao contrário, articulam-se.
Ao identificar o trabalho prescrito e o trabalho real, esses estudos demonstraram que é pertinente falar em “compreender” o trabalho, com suas diferentes faces, considerando que se trata de algo complexo e sempre enigmático para o sujeito (BRITO, 2009b; DEJOURS, 2004).
Em sua entrevista, Janaína fala como as novas regras definidas após a crise pioraram suas condições de trabalho:
Eu acho que piorou, não vejo nenhum ganho. Porque foram criadas regras internas que só geraram mais demora. Olha a contradição! Você deixa de usar uma regra que é uma regra boa, primeiro porque é transparente, essa é fácil de fiscalizar, vamos usar essa simplificada, que nós temos a necessidade de contratar rápido, mas eu aí crio internamente procedimentos que dificultam, que levam mais tempo, quer dizer, só piorou! (Janaína)
Na percepção de Janaína, as medidas adotadas pela empresa para evitar os desvios ocorridos no passado somente dificultaram o trabalho das pessoas. A
entrevistada considerava que as regras anteriores cumpriam bem seu papel, pois davam transparência ao processo e agilizavam a contratação dos serviços.
Entretanto, para aumentar o controle dos processos, foram elaboradas novas regras que, além de piorarem a organização do trabalho, gerou morosidade e, consequentemente, insatisfação e frustração para os operadores desse processo de trabalho.
O excesso de prescrições ou de regras é considerado por Gaulejac (2011) como característico do contexto paradoxante, que pode gerar o que o autor chamou de “moral do assédio”. Ainda que os estudos sobre o assédio moral (HIRIGOYEN, 2008) possam ser considerados como um progresso notável, pois reconhecem legalmente a violência feita aos trabalhadores, o autor alerta para a necessidade de se levarem em conta as condições organizacionais nos estudos sobre o assédio. Tal consideração é necessária para que as violências não fiquem apenas no âmbito individual, sendo responsabilidade única dos gestores, restrita às suas atitudes. Uma organização pode pôr em ação modos de gerenciamento que favorecem o cerco moral, ou seja, relações de violência, de exclusão, de ostracismo.
Walquíria traz em seu relato a impossibilidade da prescrição total:
É interessante que, na nossa área de relação, não existia muita prescrição, porque as normas internacionais têm a ISO 2600, mas ela não dá conta de toda a abrangência que a gente faz! Ela tem os direcionadores internacionais de direitos humanos, de igualdade racial, equidade de gênero, tudo isso. Mas são os grandes conteúdos. Então muita coisa do que está acontecendo a gente está normatizando. Então é interessante, mas é muito difícil normatizar tudo! E engessa um pouco (Walquíria).
A entrevistada relata que a empresa optou por normatizar todos os processos, o que, além de ser algo impossível, gera desgastes e amputação do poder de agir para os trabalhadores:
Hoje em dia, o que mais me incomoda é a centralização. Por conta do que aconteceu, então está tudo muito normatizado para o sentido burocrático né?
Você tem que estar muito comprovado hoje, eh… Tudo passa por uma questão de conformidade. Então qualquer decisão passa por instâncias assim, e isso dificulta o dia a dia porque você vai cumprir a norma, mas só que você vai passar por vários portais. Então é um portal da ideia, depois é um portal de quanto custa, depois é um portal de como contrata, depois é um portal de como faz até o dia que você vai fazer e tem um delay muito grande, então você perde um pouco da credibilidade, você negociou uma coisa e, às vezes, ela só vai acontecer com seis meses ou um prazo muito dilatado, aí desgasta né? (Walquíria)
Vimos aqui mais uma repercussão da crise institucional na subjetividade dos seus trabalhadores. Ficar comprovando se o que se faz está em conformidade com as regras denota falta de confiança no trabalhador, que se sente tolhido para exercer seu trabalho. São muitos portais, um significante que nos remete a portas que precisam ser abertas para que o trabalho aconteça. Um cerceamento da liberdade para se trabalhar dentro da empresa. O que antes era prescrito agora passa a ser
“hiperprescrito”, ou seja, passa-se da prescrição para a “hiperprescrição”. São prescrições além do necessário, limitadoras da atividade. Pode-se observar aqui um efeito da crise, relacionado à confiança dentro da organização. O contexto da hiperprescrição, que visa a aumentar os controles sobre as ações dos trabalhadores, traz implícita a ideia de que eles passam a ser suspeitos. Como um efeito cascata, a confiança da sociedade na organização é posta em xeque e, por conseguinte, a organização passa a desconfiar de seus trabalhadores.
Walquíria revela um sofrimento no trabalho consequente da amputação do poder de agir. Por mais que ela queira realizar seu trabalho, a necessidade de comprovar tudo, devido ao excesso de normatizações, impede sua concretização.
Essa fala nos remete ao sofrimento no trabalho advindo da atividade contrariada, como descrito por Clot (2008). Para esse autor, o trabalho somente produz saúde quando há atividade. Ao contrário, quando ela é impedida, emerge um sofrimento para o trabalhador. Nas situações relatadas por esses entrevistados, a atividade impedida é gerada pelo excesso de prescrições. Eles se referem ao hiato existente entre o trabalho que lhes é prescrito e o efetivamente realizado. Sabemos que esse hiato sempre existirá. O trabalhador sempre mobilizará sua inteligência, subjetividade e colocará algo de sua libido em seu trabalho para dar conta do que lhe fora prescrito.
Isso faz a prescrição total ser da ordem de uma ficção. E quanto maior a distância entre o prescrito e o real, maior a parcela invisível do trabalho e geradora de sofrimento para o trabalhador.
Destacamos aqui outro trecho da entrevista de Walquíria que remete à impossibilidade da prescrição total:
Vai ter sempre uma observação, e nessas não cabem fórmulas. São pressões, são contextos, né? É a subjetividade. Muito grande! Aí derruba a fórmula, a fórmula vem, vem e, quando bate na observação, derruba a fórmula. Aí tem uma incógnita aí que tem que ser resolvida de forma reflexiva, de forma contextualizada (Walquíria).
Brito (2009a) considera que o trabalhador sempre colocará em debate as diversas fontes de prescrição, estabelecerá prioridades entre elas e, muitas vezes, não poderá segui-las simultaneamente. Por poderem ser contraditórias, as prescrições implicam uma permanente tensão entre princípios, regras, modelos, formação técnico-científica, recursos disponíveis.
A entrevistada nos fala da dificuldade que enfrenta quando decide proceder diferentemente do que lhe foi determinado:
É registrar tudo! Dizer por que tomou a decisão, que descumpriu o padrão, mas mostrar uma possibilidade dentro do padrão de cumprir a legislação, porque, quando a gente lida com pessoas, então você nunca sabe quando vai para o conflito. Claro! Você tem as suas situações de contorno. É uma caixinha de surpresa. Quando você está em uma situação de crise, tem os dois lados, e aí você tem que mediar, então… É sempre assim. Quando um vai para um dos extremos, nós acionamos os advogados, a gente sempre…
Se tiver uma situação de crise que tenha compensação, alguma situação dessa, a gente chama os advogados, ou os de meio ambiente ou da área civil (Walquíria).
Aqui aparece uma dicotomia: de um lado, a entrevistada percebe que precisa ser criativa, pois sempre lidará com surpresas em seu trabalho. Mas, por outro, precisa registrar tudo, precisa justificar-se e tentar cumprir o padrão. Quando chega a um extremo, ela opta por se proteger com a ajuda de advogados.
As análises das narrativas dos entrevistados desta pesquisa permitem a identificação dos arranjos que eles fazem para dar conta das restrições impostas pelo excesso e pelas contradições das prescrições, como veremos na terceira dimensão, denominada por Barus-Michel (2004) de relacional.