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A CENTRALIDADE ESPACIAL NO FINAL DA COLONIZAÇÃO

No período que se seguiu à ocupação primeira do território brasileiro as atividades econômicas cresceram em torno da cidade e, cada uma ao seu modo, fortaleceu a sua centralidade administrativa, dando início à formação de um mercado interno. Nesse período as cidades traçaram os limites da sua ocupação, definindo sobre o imenso território brasileiro, coberto por matas e ocupado por uma população indígena autóctone, a área de influência da sua centralidade.

A mineração, talvez, tenha sido a primeira modificação territorial do interior central do Brasil. Ao demandar o abastecimento de alimentos e o transporte do ouro extraído para os portos de exportação, obrigou a abertura de novas ligações terrestres com a região pecuária do

interior do Nordeste e, depois, com a região Sul (ROMERO, 2004, p. 130; SCHIFFER, 2004, p. 78).

Com o declínio da extração mineral, os mineiros – trabalhadores livres – transformaram-se em pequenos produtores e criadores de gado para subsistência, potencializando-se como mercado regional, com uma força maior do que a produção açucareira nordestina, baseada no trabalho escravo.

À medida que os conquistadores dos primeiros momentos da colonização brasileira se extinguiam, desaparecia o desinteresse em criar raízes e se estabelecer, de forma definitiva, na colônia; sumiam os fidalgos que só tinham interesse em acumular riqueza e voltar para a metrópole. Dessa forma, formava-se uma nova geração, muito maior que os comerciantes e burocratas portugueses. Era uma geração que sabia que não estava de passagem. Ela era herdeira de direitos e privilégios, submissa à autoridade dos funcionários coloniais e era orgulhosa do poder da metrópole (ROMERO, 2004, p.146).

Foi essa geração de brasileiros que se sentiu compromissada com sua cidade e sua região, assumindo o papel de elite. No século seguinte seus membros participariam do processo de Independência do Brasil. Na verdade, ao longo do século XVIII, não ocorreram mudanças importantes na forma de produção econômica colonial, entretanto, ocorreram mudanças significativas no desenvolvimento mercantil.

O amadurecimento da nova geração foi acompanhado do crescimento dos mercados internos nas cidades. Ao mesmo tempo em que se criou uma expectativa de aumento das importações, formou-se também, em contrapartida uma expectativa do crescimento das exportações. O que contrariava profundamente o regime de monopólio português e ampliava a cobiça dos países que estavam se industrializando na Europa no momento.

O incremento da atividade comercial modificou a centralidade das cidades. Foco da civilização, elas passaram a ter um papel importante como centro de zona e de comando da vida e das atividades rurais. Nas últimas décadas do século XVIII, o pensamento Iluminista, o liberalismo, a Independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789), haviam sido incorporados à burguesia emergente, ilustrada e reformista, certo de que a partir das cidades comandariam o crescimento da região, apoiado na agricultura e no comércio.

Houve modificação na aparência, melhoria no funcionamento e ordenamento das cidades. O saneamento básico foi melhorado, com a implantação do abastecimento d’água por meio de fonte pública, e melhoria também no sistema de esgotamento sanitário; a forma de

ocupação da cidade e os espaços públicos foram mais bem definidos; as edificações foram submetidas a certo controle.

3 A CENTRALIDADE ESPACIAL REGIONAL: 1809 – 1945

Após a independência política do Brasil Colonial, as ilhas produtivas, ligadas diretamente à metrópole portuguesa, independentes uma das outras, integraram-se à divisão internacional do trabalho, comandada pela Inglaterra, especializando-se na exportação para a Europa e Estados Unidos de artigos vegetais tropicais, produzidos por mão-de-obra escrava, importada da África.

O Brasil era um país essencialmente agrícola e tecnicamente atrasado, voltado para fora, dependente de bens de consumo exportados da Europa, juntamente com as idéias e os capitais que construíram, na singularidade da cultura colonial, a infra-estrutura e os serviços urbanos bem como expandiram e consolidaram as regiões em torno das qual se organizou a rede urbana brasileira e, junto a ela, a rede urbana sergipana.

Com o final da colonização e a integração do Brasil ao capitalismo concorrencial emergente, na Europa, a centralidade colonial das cidades e vilas, conectadas em rede com a metrópole portuguesa, deu lugar a uma crescente polarização urbana regionalizada, fiel à Geografia das capitanias hereditárias e à distribuição sesmarial das terras brasileiras. Teve fim, em Sergipe, a frágil rede urbana, formada por vilas e cidades embrionárias, criadas para a defesa e ocupação do território colonial, situado entre as capitanias de Pernambuco e da Bahia de Todos os Santos.

As nucleações urbanas do período colonial eram centralidades urbanas virtuais dependentes da capitania da Bahia de Todos os Santos, criadas pelas Ordenações Régias Portuguesas. Desenvolveram-se com a tensão entre a exploração colonial mercantil e as formas primárias locais de produção econômica, baseadas no trabalho escravo e fundamentadas pelo discurso de unidade territorial e pela moral religiosa católica romana.

A nova centralidade regional se consolidou, em todo o Brasil, em um duplo movimento urbano. Inicialmente, as vilas e cidades se fortaleceram comercialmente apoiadas em uma economia agro-exportadora ligada ao mercado internacional. Paralelamente ao fortalecimento e crescimento da centralidade comercial foram sendo criadas as condições para a implantação de uma indústria manufatureira de base local. Assim, simultaneamente à formação dos núcleos comerciais, foi desencadeado um movimento industrializante, voltado para o mercado interno, que deu início à criação de uma nova centralidade para os núcleos urbanos.

O movimento de centralidade espacial regional teve início com a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional, em 1808, momento que marcou o fim da economia colonial. As velhas cidades coloniais se consolidaram e se dinamizaram apoiadas pela economia agrário-exportadora, como núcleos urbanos com funções predominantemente comerciais, que rapidamente tomaram conta da dinâmica das cidades até a Proclamação da República, em 1889.

Nesse período, começou a se desenvolver, no Brasil, uma vida urbana moderna, inspirada na burguesia da Europa Industrial apoiada pela economia de importação de artigos manufaturados e pelo comércio internacional dos produtos agrícolas, produzidos por uma elite aristocrática rural associada ao clero. A concentração urbana, proporcionada pela dinâmica das novas funções comerciais, estimulou a formação inicial de uma indústria nacional que permaneceria dependente da economia agro-exportadora até o ano de 1945.

3.1 A DEPENDÊNCIA REGIONAL DA REDE URBANA DE SERGIPE À ECONOMIA