Em oposição ao empirismo geográfico que considera as explicações de causa e efeito das expressões fenomênicas dos fatos como satisfatórias para o entendimento da realidade, o conhecimento do mundo geográfico como totalidade intelectual procura compreender as mudanças espaciais que ocorrem em função da forma como os seres humanos se relacionam e se localizam territorialmente para sobreviver e manter a espécie (SANTOS, 1999, p. 97).
Assim, a compreensão espacial das mudanças que acontecem na realidade geográfica em movimento se revela a partir do entendimento das formas espaciais geográficas como totalidades dialéticas produzidas pelas relações sociais em tensão. São as relações sociais que modelam as formas espaciais geográficas. Esse entendimento é uma representação intelectual que ganham sentido com as especificidades históricas promovidas pelas relações sociais que
se desenvolvem a partir das necessidades e desejos históricos de reprodução da riqueza social e da vida social.
As especificidades históricas promovidas pelas relações sociais que conectam os núcleos urbanos em rede e que se manifestam através das formas espaciais geográficas podem ser percebidas e concebidas pelas transformações que ocorrem na forma, na função e ordem da rede urbana.
A rede urbana, portanto, percebida e concebida como uma forma espacial geográfica de ocupação e uso do território pelo homem permite explicar o seu movimento na história. Uma forma espacial geográfica só existe de fato na história como uma realidade material em movimento. O seu conhecimento é sempre uma representação intelectual da sua manifestação empírica, portanto, uma relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento no sentido de explicitar a sua singularidade na história dos homens. Essas singularidades, na verdade, são aspectos particulares únicos e não acidentais que ocorreram na rede. Nessa perspectiva, o conhecimento se torna conhecimento da realidade histórica em transformação.
A rede urbana enquanto realidade social é uma forma espacial geográfica, resultado das relações sociais que se estabelecem para ocupação e uso do território na história. Essas relações espaciais se desenvolvem a partir das diferentes necessidades e desejos de produção e reprodução da vida que necessitam do território para se realizar. Nesse sentido, a forma espacial geográfica é sempre uma coalizão entre os diferentes interesses sociais em torno da ocupação e do uso do território.
Assim, existe uma razão de ser que explica a constituição manutenção das formas espaciais geográficas da rede urbana. São as representações sociais que se formam junto às necessidades e desejos de ocupação e uso do território que provocam as relações sociais e que modelam e mantém a rede configurada na história. Destarte, a rede urbana, concebida como uma forma espacial, é uma unidade dialética que decorre da tensão entre relações sociais que lhe configuram.
3 A REDE URBANA COMO RECORTE DA REALIDADE
A rede urbana, percebida e concebida como uma categoria dialética materialista triádica, é um recorte na realidade geográfica histórica. Trata-se da unidade e dos termos em tensão que conservam e mantém o movimento da realidade geográfica empírica em um determinado momento. É uma categoria geográfica com especificidades históricas. Na verdade, é uma representação intelectual que revela o descompasso da rede urbana.
Ao se recusar a existência de princípios racionais gerais ou de pontos de partidas sensíveis, absolutos para a formulação do conhecimento científico, reconhece-se a dúvida como princípio para a expressão do conhecimento geográfico. Trata-se da dúvida geográfica, diante de um problema percebido junto à realidade empírica em movimento, cuja explicação ainda não tenha sido elaborada, ou mesmo, as explicações que existam não sejam satisfatórias.
O reconhecimento da dúvida geográfica, por sua vez, vai exigir um recorte na realidade empírica em movimento, abrangendo, esse recorte, uma extensão, na qual as perguntas relativas às questões ligadas ao problema enunciado possam ser esclarecidas. Para a delimitação do campo do recorte que vai se tornar objeto do conhecimento geográfico se faz necessária a concepção de qual realidade geográfica se está falando e como conhecer cientificamente essa realidade.
Com uma compreensão que rejeita uma teoria prévia dotada de princípios racionais, sensíveis e absolutos, a partir da qual é possível a construção de um entendimento que avança em linha reta na direção de uma explicação universal do mundo da Geografia, adota-se a opção alternativa pela concepção da realidade geográfica como realidade em movimento na história. De acordo com Lefebvre (2004, p. 16), essa realidade pode ser concebida a partir da elaboração de uma prospecção racional lógica na direção do futuro, a partir da percepção e concepção da realidade empírica em movimento, com um olhar no passado que permita explicar o presente.
Trata-se de uma hipótese teórica que o pensamento científico tem o direito de formular e de tomar como ponto de partida. Tal procedimento não só é coerente nas ciências, como necessário. Não há ciência sem hipóteses teóricas. Destaquemos desde logo que nossa hipótese, que concerne às ciências ditas ‘sociais’, está vinculada a uma concepção epistemológica e metodológica. O conhecimento não é necessariamente cópia ou reflexo, simulacro ou simulação, de um objeto já real. Em contra partida, ele não constrói necessariamente seu objeto em nome de uma teoria prévia do conhecimento, de uma teoria do objeto ou de ‘modelos’. Para, nós, aqui, o
objeto se inclui na hipótese, ao mesmo tempo em que a hipótese refere-se ao objeto. Se esse ‘objeto’ se situa além do constatável (empírico), nem por isso ele é fictício. Com esse entendimento, compreende-se que a realidade geográfica é um espaço
virtual12 em movimento na história, concebido como um método com uma extensão
epistemológica e metodológica, ou seja, é o universo geográfico teórico do conhecimento possível e potencial, que é colocado em ação de forma contingente na história. Esse mundo geográfico virtual, contingente e histórico, só se torna real e ganha validade epistemológica quando se reconhece o seu nascimento e desenvolvimento, relacionando-o a uma práxis.
A totalidade geográfica em movimento é, em primeiro lugar, a resposta lógica racional à pergunta: o que é a realidade geográfica? E em seguida, como conseqüência da primeira questão, ela se torna um princípio epistemológico e uma exigência metodológica do conhecimento da realidade. Kosik (2002, p. 43) contribui para o entendimento da totalidade como realidade, quando confirma a precedência da definição de realidade como caminho para a sua concepção. Para ele “O conhecimento da realidade, o modo e a possibilidade de conhecer a realidade dependem, afinal, de uma concepção da realidade, explícita ou implícita. A questão: como se pode conhecer a realidade? É sempre precedida por uma questão mais fundamental: o que é realidade?”
A aceitação da existência de um mundo geográfico como realidade representa, para o sujeito do conhecimento, a necessidade primeira da concepção racional lógica desse mundo como uma totalidade que permite situar e fundamentar o recorte e a definição dos procedimentos de investigação da realidade.
A totalidade, portanto, é a realidade, ou seja, uma concepção racional lógica de como um segmento qualquer do mundo empírico pode vir a ser concebido e compreendido como um todo. Nesse sentido, o conhecimento da totalidade, na Geografia, passa a depender do entendimento do significado do Mundo Geográfico. Da imago mundi, como resposta ao questionamento de qual realidade está se reportando, de modo a possibilitar ao sujeito do conhecimento realizar os recortes nos acontecimentos do mundo como totalidades geográficas em movimento.
Assim, uma vez respondida à questão o que é a realidade geográfica? A questão que se segue, será: qual é a lógica racional e quais são as representações que colocam e mantêm
o ser humano geográfico no mundo? Essa lógica servirá como princípio epistemológico e
metodológico para o conhecimento da realidade geográfica e das representações sociais. Por outro lado, a concepção de qual realidade se está tratando, elaborada como hipótese teórica, historicamente motivada, só se revelará como método com uma extensão epistemológica e metodológica que permita conhecer essa realidade, quando explicitar a lógica racional, que faz da Geografia uma realidade empírica em movimento, como lógica de inteligibilidade do mundo.
Nesse ponto, é Sartre (2002, p. 156) quem vai esclarecer, contrapondo-se à lógica formal, a condição para que a realidade da Geografia em movimento se torne uma epistemologia e uma metodologia da ciência. Nesse sentido, ele coloca que, para a realidade empírica se tornar uma totalidade e ser eficaz como método, é necessário que essa realidade seja compreendida como “a experiência permanente de cada um [ser humano]: no universo da exterioridade da sua relação de exterioridade com o universo material e com o Outro”.
A realidade geográfica, sob esse ponto de vista, é compreendida como o movimento de existência do ser humano no espaço e tempo históricos. É a experiência da unidade dividida do ser no mundo que revela o método da totalização do mundo. É dessa forma que a relação geográfica e histórica dos homens com o mundo exterior se torna uma totalidade geográfica. O movimento da experiência da unidade dividida do ser se estabelece com uma lógica específica e é essa lógica que faz da realidade empírica uma totalidade e, ao mesmo tempo, oferece os meios para o seu entendimento.
Conseqüentemente, o pensamento-ação em seu movimento dialético materialista triádico é, ao mesmo tempo, método e objeto do conhecimento da Geografia. Logo, o movimento da vida é compreendido enquanto construção teórica geográfica, uma vez que o conhecimento é representação da realidade e é, também, o movimento do sujeito social na direção da sua existência material no mundo.
Ao por em movimento a vida, o pensamento-ação cria as formas geográficas de reprodução social da vida. São padrões que se configuram quando o pensamento ação é estimulado pela tensão entre o existir e o ser. Esse pensamento-ação geográfico é a realidade que se expressa pelas relações sociais que modelam as formas geográficas da vida. É a realidade que produz a imago mundi que pertence, historicamente, ao domínio do saber geográfico.
Uma das formas de compreensão desse mundo geográfico – como um mundo construído pelos homens, formado por um território juntamente com suas relações e suas representações sociais – é o entendimento da lógica das relações que esses homens mantêm entre si e o meio para a existência desse mundo, num determinado momento da sua história. É uma lógica que permite reconhecer um segmento da realidade geográfica em movimento como uma totalidade cujas representações sociais permitem explicá-la. São as representações que motivaram e sustentaram tais relações, com uma unidade que mantém a totalidade geográfica configurada e em movimento na história.