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A Chacina do Parque Nacional do Iguaçu (1974)

No documento DA VERDADE (páginas 52-68)

ilha das flores 8 de dezembro de 1969

1.4 A Chacina do Parque Nacional do Iguaçu (1974)

Essa foi uma operação militar realizada no ano de 1974 com o objetivo de eliminar cinco brasileiros e um argentino pertencentes à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).8 Também conhecida como “Massacre da Estrada do

8 A VPR surge em 1966 a partir da união de dissidentes da organização Política Operária (Polop) com militares remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Sua opção de resistência à ditadura brasileira é pela via armada. Essa opção em certa medida está ligada à ori-gem de vários integrantes que eram militares expulsos das forças armadas por não concordarem com o golpe de 1964. O filme de Silvio Tendler Militares da democracia: os militares que disseram não constitui importante registro da história deste grupo de brasileiros que tentaram resistir ao

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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN Colono”, “Massacre de Medianeira”, ou ainda “Massacre do Parque Nacional”, foi

executada no Parque Nacional do Iguaçu, na região de fronteira da cidade de Foz do Iguaçu, estado do Paraná.

Nessa operação, seis militantes, entre eles um argentino, foram atraídos por Alberi Vieira dos Santos (agente colaborador da repressão infiltrado nos movimen-tos de resistência ao regime) para retornarem ao Brasil a partir de Buenos Aires, Argentina, onde os brasileiros viviam como refugiados políticos. Eles entraram por Santo Antônio do Sudoeste (PR), na fronteira seca do Brasil com a Argentina, sob a promessa de que haveria uma estrutura muito bem montada para a retomada da resistência à ditadura brasileira, com a formação de um grupo de guerrilha, no oeste do Paraná. Essa operação foi coordenada pelas forças da repressão no Brasil e tinha como objetivo eliminar os militantes, especialmente Onofre Pinto, ex-militar, participante do Movimento dos Sargentos em 1964 e que mantinha liderança entre os exilados políticos.

Os cinco brasileiros e o argentino foram conduzidos por Alberi e Otávio Rainolfo da Silva, agente do Centro de Informações do Exército (CIE) também in-filtrado entre os militantes, em uma Rural Willys dirigida por Otávio, no dia 13 de julho de 1974, para o Parque Nacional do Iguaçu, para serem executados em uma emboscada preparada pelo Exército brasileiro. Otávio Rainolfo da Silva prestou de-poimento à CNV e à Comissão Estadual da Verdade do Paraná – Teresa Urban, em 28 de junho de 2013,9 em oitiva reservada, durante a audiência pública de Foz do Iguaçu e relatou os fatos que constam neste relatório.

1.4.1 Antecedentes

Nos primeiros anos da década de 1970, a ditadura brasileira, por meio dos braços armados, a exemplo dos famigerados Comandos de Caça aos Comunistas (CCC), intensificou um conjunto de operações de busca, captura e extermínio de oposito-res ao regime militar.

Nos inúmeros depoimentos colhidos por este Grupo de Trabalho e na vasta documentação existente da época, constata-se que essas operações foram levadas a termo completamente à margem do próprio regime oficial de exceção da aparente

“legalidade” estabelecida na Lei de Segurança Nacional e dos Atos Institucionais,

golpe dentro das fileiras das forças amadas e, a partir dos testemunhos, ajuda a compreender o caminho, em certa medida natural, desses militares para os grupos de resistência armada.

9 A transcrição integral do depoimento de Otávio Rainolfo da Silva consta no Anexo 17.

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visto que nem mesmos estes instrumentos permitiam a execução sumária de pes-soas sem o devido processo formal e consequente julgamento.

Os instrumentos de exceção até então utilizados, como os Inquéritos Policiais Militares (IPM),10 muito comuns naquela época, já não atendiam satisfatoriamente à necessidade do regime de eliminar toda e qualquer resistência civil. Para além disso, era necessário eliminar a simples possibilidade de sua existência, por menor, mais remota e distante que fosse.

A verdadeira dimensão da violência das operações, como a que resultou na do Parque Nacional do Iguaçu, pode ser compreendida como uma forma de superação das limitações dos IPM e, ao mesmo tempo, como uma extensão deles próprios. Note-se que esses inquéritos, desde o início (nos primeiros anos do golpe de 1964) consti-tuíam-se, por si só, em instrumentos de ruptura ao Estado democrático de direito, de negação a todos os tratados internacionais de direitos humanos e, como regra, destinavam tratamento aos acusados e presos que, consideradas as convenções inter-nacionais, a exemplo da Convenção de Genebra, equivaleram a violações de guerra.

Na entrevista publicada na revista Veja de 18 de novembro de 1992,11 cuja chamada de capa é “Exclusivo: Num depoimento dramático, um ex-agente do DOI conta como foram assassinados e enterrados os desaparecidos: ‘eles matavam e es-quartejavam’”, Marival Chaves Dias do Canto, ex-sargento do DOI-CODI de São Paulo, revela detalhes da barbárie praticada contra os que ousavam resistir à di-tadura civil-militar e ajuda a entender o quanto a aparente legalidade da época era apenas uma “fachada” para apresentar à opinião pública. Evidentemente que a prudência da busca da verdade recomenda cautela na leitura da entrevista, haja

10 Os IPM eram realizados sob o manto das prisões arbitrárias e sem provas, muitas delas mais se assemelhavam a sequestros clandestinos do que a atos oficiais de Estado. A imposição da incomu-nicabilidade dos presos estabelecia na prática o cerceamento do direito à defesa. A violência foi adotada como conduta padrão de tratamento aos acusados e, como regra, a tortura se transformou na antessala de preparação dos interrogatórios, cujas confissões não raras vezes eram apenas um capricho de seus algozes num roteiro macabro de eliminação de pessoas. Os IPM nº 709/1964, coordenado pelo coronel Ferdinando de Carvalho, e o nº 574/1971, conduzido pelo major de arma de infantaria Francis de Assis Pinheiro Dias, por exemplo; o primeiro, iniciado muito antes mes-mo do Decreto‐Lei nº 314, de 13 de março de 1967, que transformes-mou em legislação a doutrina de Segurança Nacional e do AI‐5; e o segundo, levado a termo inteiramente na capital do estado do Paraná, somados aos inúmeros depoimentos de vítimas que sobreviveram à repressão, coletados pela Comissão Estadual da Verdade do Paraná – Teresa Urban e matérias divulgadas na imprensa à época; constituem‐se em vasto material que corrobora essas práticas pelo regime militar.

11 Anexo 1.

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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN vista o histórico do entrevistado – não obstante, ele confirmou a maioria de suas

afirmativas em depoimento à CNV no dia 28 de fevereiro de 2014.12

Aprofunda-se sobremaneira nesse período a cooperação brasileira com as de-mais ditaduras do Cone Sul e países aliados como estratégia de hegemonia geopo-lítica (sobretudo dos Estados Unidos), marcada pela busca e pelo extermínio de asilados e clandestinos que se abrigavam principalmente nos países fronteiriços.

Mais tarde, essa cooperação para eliminar seres humanos veio a ser denominada

“Operação Condor”.

A Chacina da Estrada do Colono foi preparada com o destacamento de uma equipe de agentes infiltrados, de “cachorros” e colaboradores dos vários países por onde circulavam, e coordenada a partir de um complexo e extenso sistema de inteligência.

Os registros feitos por Aluízio Palmar no livro Onde foi que vocês enterraram nossos mortos? (PALMAR, 2005) são bastante elucidativos para se entender como os agentes infiltrados e “cachorros”13 atuaram nos países vizinhos ao Brasil em bus-ca de militantes:

[…] com a eliminação de todas as organizações que optaram pela luta armada, a ditadura mandava para o exterior seus agentes infil-trados ou recrutados dentro da própria esquerda. Esses agentes pro-curavam aqueles militantes que estavam propensos a continuar a luta e os convidavam a regressar ao Brasil. O cabo Anselmo e Alberi são os mais famosos desses agentes que, disfarçados de militantes de esquerda, agiram com desfaçatez e atraíram para a morte exilados que estudavam, trabalhavam ou constituíam família no exterior.

O ex-cabo Anselmo é o responsável por várias prisões e mortes de militantes de esquerda. Ele montou uma armadilha em que, no dia 8 de janeiro de 1973, os membros da VPR Eudaldo Gomes da Silva,

12 Vídeo do depoimento de Marival Chaves à CNV. Disponível em: <http://bit.ly/2pIPAJK>. Acesso em: 3 jun. 2016.

13 Eram denominados “cachorros” pelos militares os ex‐militantes de oposição ao regime conver-tidos em colaboradores e que, a serviço dos militares, eram infiltrados entre os resistentes para ações de espionagem, delação, contrainformação, preparação e execução de operações milita-res de repmilita-ressão. Marival Chaves informou em seu depoimento que a expmilita-ressão “cachorro” foi cunhada pelo delegado Fleury, fazendo alusão à obediência que os convertidos deveriam ter, os quais eram “contratados” com remuneração mensal de 300 dólares.

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OPERAÇÃO CONDOR

Evaldo Luiz Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva, Pauline Philippe Reichstul e Soledad Barret Viedna foram presos, torturados e assassinados. Seus corpos apareceram numa chácara em São Bento, na Grande Recife.

Oito meses após o massacre de Pernambuco, os militares enviaram Alberi para o Chile com a missão de atrair o que havia restado da VPR para uma armadilha no Sul do país. Porém, com o golpe mi-litar que derrubou o governo de Salvador Allende, o recrutador da morte acabou indo parar no México. Nesse país, ele recebeu passa-porte, foi para a Argentina atrás dos exilados e só descansou quan-do os levou para a emboscada armada dentro quan-do Parque Nacional.

(PALMAR, 2005, p. 7-8)

Com efeito, a circulação de infiltrados, como Alberi, cabo Anselmo, Gilberto Giovannetti e Maria Madalena, por vários países da América Latina revelam a fa-cilidade com que transitavam entre fronteiras e uma capacidade “surpreendente”

de escaparem do cerco dos militares. Lamentavelmente, tantos militantes vitima-dos, como os das Chacinas da Estrada do Colono e do Recife, não perceberam a emboscada que os vitimou.

De fato, a Operação Condor, do ponto de vista da cooperação entre as di-taduras do Cone Sul, ao menos no que se refere ao Brasil, é muito anterior ao acordo firmado em 1975 no Chile, conforme já explanado. Vale destacar o papel central do estado do Paraná em razão de alguns aspectos especialmente relevan-tes, sendo que o primeiro é que, em Curitiba, encontrava-se a sede do Comando da 5ª Região Militar e 5ª Divisão de Infantaria (5ªRM/DI), com jurisdição so-bre os estados do Paraná e Santa Catarina e subordinada ao então 3º Exército, com sede em Porto Alegre e jurisdição sobre os três estados do Sul. A 5ª RM/DI tinha em seu território comandos subordinados de artilharia divisionária, bri-gadas de infantaria, regimentos e batalhões de infantaria, grupos de artilha-ria, regimentos de cavalaria e unidades de apoio. Outro aspecto é que a região de Foz do Iguaçu, conhecida como tríplice fronteira, é limítrofe com Argentina e Paraguai e vizinha do Uruguai. Essa configuração geográfica favorecia, de um lado, o trânsito nos vários sentidos territoriais, de militantes perseguidos pe-los regimes de exceção dos vários países do Cone Sul, o que motivava o inte-resse dos militares em seu controle e, de outro, facilitava o trânsito de milícias, agentes infiltrados e informações entre os comandos militares e de inteligência.

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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN E, por último, com o início da construção da usina hidrelétrica (UHE) de Itaipu, a

partir de 1975, e a constituição da Assessoria Especial de Informação (Aesi) dentro de suas instalações, tanto as operações de informação e inteligência do regime na região, incluindo a cooperação entre os governos vizinhos, como o financiamento de operações secretas eram facilitados pelo abundante fluxo de recursos binacio-nais envolvidos na construção da usina.

1.4.2 As vítimas

A Chacina do Parque Nacional do Iguaçu objetivava o extermínio de mili-tantes sobreviventes, em especial da VPR, refugiados nos países vizinhos (Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai) que alimentavam ainda a esperança de retomar a luta contra a ditadura brasileira:

Éramos revolucionários e imaginávamos que o Chile seria apenas uma estação até a volta ao Brasil para continuar a luta. Tomados pela ideia fixa de voltar ao Brasil e retomar a luta armada, alguns com-panheiros chegavam ao cúmulo de recusar assistência dentária. No meu exílio chileno, convivi com alguns militantes que me respon-diam quando eu queria saber o porquê de não tratarem os dentes:

“Pra quê? Quando a repressão me pegar vai ter um cadáver de dentes podres”. (PALMAR, 2005, p. 25)

Os militares brasileiros, cientes desse sonho libertário, dele tiraram proveito lançando mão de agentes infiltrados e “cachorros” que se movimentam desde os primeiros anos da década de 1970 entre os vários grupos de brasileiros asilados, principalmente no Chile, entre 1970 e 1973, onde o curto período de liberdade democrática instaurada pelo presidente Allende14 serviu como ponto de refúgio e encontro de muitos asilados políticos brasileiros. Aluízio Palmar relata fatos signi-ficativos para a compreensão dos antecedentes da chacina:

Eu morava no casarão que a VPR mantinha no Paradero Deciocho, da Avenida Santa Rosa, em Santiago, quando o cabo Anselmo chegou ao Chile em outubro de 1971. Nós estávamos reunidos e de repente

14 Salvador Allende Gossens, eleito democraticamente pelo povo chileno, governou entre 1970 e 1973.

Foi deposto por um golpe de Estado liderado por seu chefe das Forças Armadas, Augusto Pinochet.

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houve um alvoroço. Era Ubiratan Vatutim procurando o José Duarte para ir reconhecer alguém importante que havia chegado do Brasil.

Mais tarde, eu soube que a agitação foi causada pelo aparecimento do cabo Anselmo. Porém, eu estava longe de desconfiar, tal como os de-mais companheiros, que o mítico líder da Revolta dos Marinheiros de 1964 era o mais recente “cachorro” da repressão e peça-chave de uma operação conjunta do Centro de Informação da Marinha (Cenimar) e do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Estava sendo inaugurada uma nova estratégia da repressão que até então punha os seus agentes para seguir os militantes de esquerda esparramados pelo mundo. Agora se tratava de atraí-los para a volta clandestina ao Brasil e matá-los.

Anselmo foi a isca para a repressão localizar, atrair, prender, torturar e matar todos aqueles que caíssem na armadilha.

O ex-marinheiro chegou a Santiago em outubro de 1971 e foi posto em contato com a ex-dirigente da VPR Maria do Carmo Brito, por intermédio de Angélica Fauné, militante do MIR – Movimiento de Izquierda Revolucionária.

O plano da repressão poderia ter sido abortado naquele encontro, pois alguns dias antes Maria soube que Anselmo havia sido preso por uma amiga que conseguiu visitar na prisão, a também ex-dirigente da VPR Inês Etienne Romeu.

Aquela informação seria o suficiente para o cabo cair do cavalo, pois pela lógica se alguém como ele tinha sido preso, continuaria preso ou morto, e não circulando livremente por Santiago […]. (PALMAR, 2005, p. 12)

Nos dias que antecederam a chacina, os cinco brasileiros estavam na capital ar-gentina Buenos Aires, hospedados no Cecil Hotel, localizado na Avenida de Maio, nº 1.200, onde o alto comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) abri-gava os exilados brasileiros.

A peregrinação do infiltrado Alberi naqueles países resultou no convencimen-to de cinco brasileiros e um argentino a reconvencimen-tornar ao Brasil para a reconvencimen-tomada da resis-tência democrática pela via da VPR. São eles:

Daniel José de Carvalho

Filho de Ely José de Carvalho e Esther Campos de Carvalho, Daniel José de Carvalho nasceu no dia 13 de outubro de 1945, no município de Muriaé, estado de

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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN Minas Gerais.15 Metalúrgico e torneiro mecânico, foi executado aos 29 anos junto

com seu irmão Joel José de Carvalho.

Casado com Maria Aparecida da Silva Carvalho, teve dois filhos: Magda Cristina de Carvalho, nascida em 25 de janeiro de 1968, e Magno Castro de Carvalho, nascido em 26 de agosto de 1965. Os irmãos tinham respectivamente seis e nove anos de idade quando ficaram órfãos. Sua esposa faleceu em 13 de de-zembro de 1987, aos 42 anos de idade, no pronto-socorro de Diadema (SP), sem deixar bens de herança aos filhos.16

Membro de uma família de operários de esquerda, militou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), na Ala Vermelha, no Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e, por ocasião de sua morte, na VPR.

Foi preso e torturado violentamente em 1970 pela Operação Bandeirantes (Oban), no Presídio Tiradentes, e banido do país em 1971, junto com outros presos políticos, em troca do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.17

Daniel José de Carvalho consta da relação do Anexo 1, sob o nº 23, da Lei nº 9.140/1995, que “reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de par-ticipação, ou acusação de parpar-ticipação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979, e dá outras providências” (BRASIL, 1995).18

Fichado pela Delegacia de Ordem Política e Social do Paraná no ano de 1970,19 os registros feitos dão conta de que Daniel vinha sendo monitorado no Paraná a partir do Chile e da Argentina nos anos de 1972 e 1973, pela Central de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública (Cisesp) e pela 5ª Região Militar.

15 Certidão de nascimento no Anexo 2.

16 Certidão de óbito no Anexo 3.

17 Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964 (ARAÚJO, 1955) e Anexo 4.

18 A Lei nº 9.140/1995 (BRASIL, 1995) foi criada a partir do movimento dos familiares de mortos e desaparecidos políticos para permitir que eles pudessem dar consequência aos vários aspectos legais relativos às questões decorrentes da certeza de que eles não voltariam. Este ato formal da lei não configura a decretação de morte para os efeitos prescricionais tipificados no código penal brasileiro, de modo que, em face da não localização dos corpos e de não haver esclarecimento sobre as circunstancias dos desaparecimentos, todos configuram ainda crimes continuados, por-tanto não prescritos, conforme Anexo 5. Ver também o Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964 (ARAÚJO, 1995).

19 Ficha DOPS‐PR (Anexos 6 e 7).

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Joel José de Carvalho

Nascido no dia 13 de julho de 1948, na cidade de Muriaé, em Minas Gerais,20 Joel José de Carvalho era irmão de Daniel José de Carvalho.

Trabalhador no ABC paulista, era operário gráfico. Sua trajetória política é contemporânea e similar à de seu irmão Daniel.

Fichado pela Delegacia de Ordem Política e Social do Paraná em 1970,21 os re-gistros feitos dão conta de que Joel, em 1969, era monitorado pelo Serviço Nacional de Informação (SNI) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo.

Como seu irmão, também foi torturado pela Oban e, em seguida, preso no Presídio Tiradentes. Lá, permaneceu até janeiro de 1971, quando Joel com seu ir-mão e mais outros 68 militantes foram banidos do Brasil em troca da libertação do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, que havia sido sequestrado pela VPR em 7 de dezembro de 1970.

Joel tinha 26 anos quando foi morto. Deixou esposa, Maria das Graças de Souza Alves, e um filho, Jocimar Souza Carvalho, nascido em 12 de julho de 1973.

Por ironia do destino, o filho completava aniversário de nascimento de um ano na véspera e o pai na madrugada do dia de sua execução. A partir de então e para sem-pre, para o filho Jocimar, comemorar aniversário é também reviver o luto da perda daquele que sua tenra memória à época sequer pôde registrar. Um luto insepulto, sem corpo, sem lembranças, sem rito de despedida, sem referência de espaço, sem um local para onde depositar a dor da ausência, a saudade e a paz que para a maio-ria das pessoas o tempo acolhe.

Joel José de Carvalho também consta da relação do Anexo 1, sob o nº 66, da Lei nº 9.140/1995 que “reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979, e dá outras providências” (BRASIL, 1995).22 Enrique Ernesto Ruggia

Nascido em 25 de julho de 1955, na cidade de Corrientes, capital da província de Corrientes, Argentina,23 filho de Atílio Carlos Ruggia e Ana Violeta Bambula,

20 Certidão de nascimento no Anexo 10. A Ficha DOPS‐PR registrou erroneamente o mês de nas-cimento como ocorrido em junho.

21 Ficha DOPS‐PR (Anexos 8 e 9).

22 Anexo 5.

23 Certidão de nascimento no Anexo 11.

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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN Enrique Ernesto Ruggia foi um estrangeiro executado por militares brasileiros em

solo brasileiro, com apenas 18 anos de idade. Completaria aniversário pouco mais de uma semana após sua morte.

solo brasileiro, com apenas 18 anos de idade. Completaria aniversário pouco mais de uma semana após sua morte.

No documento DA VERDADE (páginas 52-68)