A Associação dos Docentes do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná, em reunião realizada em 3/4/79, em vista dos graves fatos que vêm ocorrendo nesse hospital, já divulgados pela impren-sa, desde a posse do coronel-médico Rubens Passerino Moura, como diretor superintendente, e que culminaram com a demissão sumária através de portarias assinadas pelo Reitor da Universidade Estadual de Londrina, […], dos cinco docentes e médicos de elevado conceito, […], decidiu decretar greve imediata, com suspensão completa das atividades didáticas e parcial das atividades assistenciais aos doentes, até que sejam atendidas todas as condições impostas, entre outras:
a) Readmissão dos docentes punidos;
b) Demissão do diretor-superintendente coronel-médico Rubens Passerino Moura;
c) Demissão do diretor clínico, […];
d) Revogação do ato executivo do vice-reitor em exercício, que apro-vou o Regimento Interno vigente.
Esclarecemos ao público que os docentes continuarão atendendo o Pronto Socorro e dando assistência a todos os pacientes internados, limitando-se a paralisação do atendimento exclusivamente aos casos de ambulatório.
72 O texto foi reproduzido a partir da documentação fornecida pelo professor José Luís da Silveira Baldy (Anexo 87, p. 6).
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Contando com a compreensão e o apoio da Opinião Pública, compro-metemo-nos a mantê-la informada dos desdobramentos desta crise.
a diretoria da Associação de Docentes do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná
O apontamento na ficha do DOPS-PR do professor Higashi, do dia 11 de se-tembro de 1979, oriundo da ASI, de nº 117, do dia 13 de agosto de 197973 chama atenção para três aspectos distintos: 1) também é fornecido pela universidade; 2) menciona atividade partidária no MDB, no entanto, apesar do regime de exceção que vigia, a legenda MDB não se encontrava enquadrada na ilegalidade; 3) refere-se ao professor Tsutomu Higashi como “ex-docente da FUEL (demitido por prática de sabotar no Laboratório Clínico do HU) […]”, tese já tratada anteriormente. O apon-tamento seguinte segue a mesma abordagem de vinculação a atividade partidária.
Dos apontamentos constantes nas fichas mencionadas, destacam-se ainda mais três aspectos: 1) aqueles que se referem à negativa de emissão de atestado de antecedentes para fins de emprego e renda, o que certamente causaram prejuízos importantes não só para o professor Tsutomu como também para toda a sua famí-lia, conforme seu testemunho à CEV-PR;74 2) vários apontamentos continuaram a ser fornecidos pela Reitoria e pela ASI ao DOPS-PR e demais órgãos de informação do regime militar em períodos sobre os quais a instituição não mais detinha a prer-rogativa funcional do contrato de trabalho que havia sido rescindido muito antes;
3) comparando as fichas do DOPS-PR75 do professor Tsutomu com as do professor Baldy, nota-se que várias das anotações são idênticas e oriundas da mesma fonte (geralmente ASI ou Polícia Militar), o que revela uma sincronia de registros que visavam atingir várias pessoas ao mesmo tempo.
73 Anexo 93, p. 4.
74 O professor Tsutomu Higashi solicitou certidão negativa de antecedentes políticos e sociais para fins de emprego por duas ocasiões, em 2 de março e em 27 de abril de 1978, negados respectiva-mente em 22 de março e em 28 de abril do mesmo ano. Essas negativas o impediram de exercer a atividade profissional pretendida à época (Anexo 93, p. 7-12).
75 Fichas da DOPS-PR de Tsutomu Higashi e José Luís da Silveira Baldy, respectivamente Anexos 93 e 94, apontamentos dos dias 31 de março de 1977, 24 de julho de 1978 e 22 de agosto de 1979.
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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN Tsutomu Higashi relata ainda que, depois de sua demissão e até
aproximada-mente 1976, recebia semanalaproximada-mente ligações de um então tenente do Exército de Apucarana, que o ameaçava e o ridicularizava.
A repercussão do caso Higashi na imprensa e a proporção que alcançou aca-bou por expor uma crise muito maior.76 O jornal Panorama do dia 2 de dezembro de 1975 estampa a chamada de matéria “Professor demitido pela Universidade vai depor na CPI”. No corpo da matéria, consta:
A CPI da Educação instalada na Assembleia Legislativa para apurar irregularidades no setor educacional do Paraná, analisando nesta fase o setor universitário, convocou por solicitação do deputado Antonio Del Ciel,77 para a reunião de amanhã o professor Tsutomu Higashi, que foi vítima de polêmica demissão da Universidade Estadual de Londrina por decisão do reitor Oscar Alves.
No seu depoimento, o professor Tsutomu Higashi deverá contestar o ato do reitor e o desrespeito total à hierarquia e espírito universi-tário, assim como “o abuso do poder que tem sido uma constante na atual administração que fabrica crises e as debita ao corpo docente da Universidade”, segundo Del Ciel.
O professor Higashi recebeu no dia 31 de outubro de 1975 o grau de comendador da Cruz do Mérito Cultural, registrado no Ministério da Educação e Cultura pelos relevantes serviços prestados a cultura e num reconhecimento a sua intelectualidade, honra e amor a humanidade […].78
Outra demissão traumática naquele período foi a do professor Vanoly Acosta Fernandes, secretário de Cultura na gestão do reitor Ascêncio Garcia Lopes e di-retor do Centro de Comunicação e Artes da universidade, que foi fechado pelo reitor Oscar Alves como parte das ações repressivas. O caso é relatado nos testemu-nhos do professor Tsutomu Higashi, Mário Seki, Júlio Takeuki Higashi, José Luís da
76 O substantivo acervo de matérias divulgadas na imprensa foi cedido à CEV-PR pelas testemu-nhas e também obtido pela comissão ao longo da investigação.
77 Antônio Del Ciel, já citado anteriormente, à época era deputado pela legenda do MDB.
78 O registro da audiência da CPI e o depoimento do professor Tsutomu Higashi na Assembleia Legislativa foram publicados em matéria do dia 4 de dezembro de 1975 do jornal Panorama e está disponível no acervo da versão digital deste relatório (Anexo 95, p. 1).
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Silveira Baldy (que trabalhou na universidade de 1971 a 2008 e, portanto, percorreu uma jornada de 37 anos de vida na instituição) e Nits Jacon.
Esse episódio se soma ao conjunto das ações da ditadura que não por acaso cuidou de reprimir, censurar e impor o silêncio sobre o campo das artes, área em que a UEL atuava com bastante vitalidade e era reconhecida nacionalmente, exer-cendo a função de provocar o diálogo e a reflexão com a comunidade sobre os pro-blemas do Brasil daquela época.79 O jornal Panorama do dia 2 de novembro de 1975 registrou alguns dos acontecimentos daquele conturbado ambiente com a chamada de capa “Reitor extingue o Centro de Comunicações” e complementa: “Primeiro o reitor da Universidade de Londrina suspendeu o professor Vanoly Acosta e depois extinguiu o Centro de Comunicações e Artes”.80 No corpo da matéria, lê-se:
O professor Vanoly Acosta Fernandes, diretor do Centro de Comunicações e Artes da Universidade Estadual de Londrina, foi suspenso pelo reitor Oscar Alves, por 20 dias, no último dia 31, vés-pera da reunião do Conselho Universitário, que aprovou entre outras coisas, a extinção do Centro de Comunicações e Artes, transforman-do-o em simples Departamento.
[…] O clima de tensão e medo é, segundo professores e alunos, uma constante em quase todos os centros da Universidade de Londrina, onde seus funcionários não podem emitir qualquer declaração, sem antes passar pelo crivo de Oscar Alves.81
O próprio reitor, em outra matéria do mesmo jornal, justifica a suspensão de Vanoly Acosta da seguinte maneira:
[…] suspenso por vinte dias por suas constantes atitudes indiscipli-nadas, não compatíveis com a posição de um diretor de centro […].82
79 Uma das pastas do arquivo do DOPS-PR contém 91 páginas sobre o XIV Festival Universitário de Teatro de Londrina – Mostra Estadual de Peças da FITAP, evento que homenageava Nelson Rodrigues, ocorrido entre os dias 3 e 11 de abril de 1982. Nessa pasta, é possível identificar o agente Zenório Valdemiro Medvid e os investigadores criminais Moacir Bora e Renato Ferreira de Souza que foram infiltrados para monitorar os participantes, conforme registrado em vários relatórios e despachos. Anexo 97, p. 4, 5, 51-54, 69, 71 e 78.
80 Anexo 95, p. 12-13.
81 Idem, p. 13.
82 Idem, p. 29.
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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN No dia 18 de novembro de 1975, o professor Vanoly Acosta, após ser suspenso
e destituído da direção do Centro de Comunicação e Artes, foi desligado da univer-sidade. Segundo sua declaração:
Minha restituição [retorno ao órgão de origem como consequência de seu desligamento da UEL] foi feita em nome de uma sindicância cujos resultados só eles sabem e na qual sequer fui ouvido.
Então, professores universitários, como somos, fundadores desta instituição, médicos, advogados, engenheiros, jornalistas e as mais variadas profissões que além da formação específica ainda têm que se gabaritarem para o magistério do nível superior, estamos sendo julgados unilateralmente, sem direito de defesa, sem conhecimento de nossas “culpas”, sem a elementar comissão de inquérito adminis-trativo ou disciplinar para esses casos […]83
Em meio ao ambiente já conturbado e conflituoso, no começo do mês de setembro de 1975, atendentes, serventes e auxiliares de enfermagem do Hospital Universitário protestaram contra a política salarial. A resposta pública do rei-tor ficou registrada nas páginas da Folha de Londrina com a chamada de capa
“Reitor dá explicações e diz que ‘culpados serão punidos’”84 e o título da matéria
“Universidade aciona seus órgãos para enquadrar funcionários do HU”85 (edição do dia 6 de setembro de 1975).
Fato que também marcou aquele período foi a invasão do DCE. José Luís da Silveira Baldy86 atesta que a invasão foi coordenada pela ASI, relatando que os es-tudantes haviam organizado um evento com a participação do deputado federal
83 Anexo 95, p. 26.
84 Idem, p. 20.
85 Idem, p. 21.
86 O professor José Luís da Silveira Baldy foi ouvido na audiência pública realizada em Londrina, no dia 7 de agosto de 2014 (Anexo 87). Em seu relato, registra que foi intimado a comparecer ao DOPS-PR em Curitiba, cuja sede funcionava naquela época na rua João Negrão, por três ocasiões. Foi localizado no acervo DOPS-PR uma anotação feita à mão (Anexo 100, p. 1) sobre o professor Baldy, Lúcio Tedesco Marchese e José Ivan Cipoli Ribeiro. Essa anotação gerou um pedido de busca emitido pelo delegado Ozias Algauer da DOPS-PR ao delegado Tácito Pinheiro Machado da DOPS-SP, transmitido no dia 8 de junho de 1973 (Anexo 101).
Possivelmente, esses documentos estão associados a um dos interrogatórios a que o professor Baldy foi submetido no DOPS-PR.
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Aliomar Baleeiro.87 Quando o deputado chegou, foi cercado e arrastado pela polícia para local desconhecido e o evento não aconteceu. O jornal Folha de Londrina pu-blicou matéria intitulada “Debate dos estudantes é impedido pela polícia”.88
Baldy relata também que logo que o reitor Oscar Alves assumiu a Reitoria, mudou o nome do Hospital Universitário de Londrina para Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná, numa estratégia de autopromoção junto aos prefeitos da região. Isso causou um impacto muito negativo para o hospital, uma vez que não houve nenhuma mudança no sentido de preparar o nosocômio, que atendia apenas à demanda local e passou a receber uma demanda regional muito maior, para a qual não estava preparado.
Relata também que os agentes que monitoravam a comunidade acadêmica eram contratados e o faziam de maneira aberta, intimidadora. Ressalta inclusive que a ASI tinha um quadro de agentes contratados muito grande. O advogado Roberto M. Morita,89 à época aluno da universidade, relatou que eram constantes as invasões nas aulas de direito por agentes da ASI e que ele mesmo e vários outros alunos foram fisicamente agredidos por esses agentes dentro do campus.
O movimento estudantil na então FUEL, bem como os atingidos pelo IPM Norte do Paraná, especialmente a repressão sobre o Partido Comunista e depois o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), entre outros, são temas que conservam estreita relação com a história daquela universidade, que a partir de 1974 assume, da parte da administração central da instituição, papel fundamental como membro integrante da estrutura de repressão, atingindo não só a sua comu-nidade interna, mas também, e em extensa medida, toda a comucomu-nidade da região norte do Paraná.
Dessa forma, é necessário registrar que a ASI, desde o início de seu funcio-namento no Gabinete da Reitoria, sempre cumpriu a missão de vigiar e informar aos demais órgãos do sistema de inteligência e repressão do regime militar acerca de atividades não só da comunidade interna, como também de cidadãos comuns que dela não faziam parte, muitos deles oriundos e/ou residentes em outros mu-nicípios da região.
87 Aliomar de Andrade Baleeiro (Salvador, 5 de maio de 1905 – Rio de Janeiro, 3 de março de 1978) foi jornalista, advogado, professor, jurisconsulto, político brasileiro e deputado federal pela Bahia e pela Guanabara. Foi também presidente do Supremo Tribunal Federal de 1971 a 1973.
88 Anexo 99.
89 Morita, na década de 1970, era aluno do curso de direito na FUEL. Sua ficha no DOPS-PR, nº 26.850 (Anexo 102), contém dez anotações, todas oriundas da ASI.
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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN Portanto, a atuação desse órgão, uma presença nefasta e cotidiana na região
nor-te do Paraná, ao subsidiar o sisnor-tema de informações da ditadura militar, concorreu intensamente para produzir ao longo do tempo inúmeras violações de direitos hu-manos, entre elas os famosos IPM, a produção de provas falsas e acusações ao sabor e interesses dos mais diversos, as prisões arbitrárias, os mandados de busca e apreensão e na maioria das vezes sequestros, torturas e desaparecimentos forçados. Esse conjun-to substantivo de documenconjun-tos é apenas uma amostra de tudo que precisa ainda ser investigado e que transcende o caso Tsutomu Higashi.
Os arquivos relacionado à FUEL, localizados no acervo do Arquivo Público do Paraná, classificados ou não como “ASI-FUEL”,90 apesar de serem documen-tos originais, pertencem ao conjunto que existia no DOPS-PR, portanto não se constituem no acervo-fonte completo daquela ASI, que certamente são muito mais substantivos em quantidade de documentos e diversidade de focos de interesse do regime ditatorial daquele período.
No mesmo sentido, esses documentos explicitam as mais variadas ações de monitoramento sobre a sociedade civil e de repressão, em consonância com os re-latos coletados, evidenciando que diferentemente de algumas outras ASI instaladas em outras universidades, que se mantinham no restrito espaço da espionagem e
90 Foram localizadas vinte pastas no acervo DOPS-PR sob guarda do Arquivo Público do Estado.
Esses documentos não são os originais oriundos do arquivo da ASI da FUEL, mas apenas os que a DOPS recebia, dava encaminhamento e arquivava em pasta própria da ASI ou ou-tra. São 4.088 páginas de documentos que revelam muito sobre quem eram os alvos de inte-resse de quem comandava a assessoria, o que ela fazia e como operava. O estabelecimento das conexões entre esse arquivo com as fichas individuais e os dossiês de perseguidos políticos da DOPS-PR, com os IPM e outros documentos, constituem-se em um imenso acervo que pre-cisa ser ainda reconstruído a partir da localização do acervo original da ASI, que certamente é muito maior, mais completo e revelador. O acervo da ASI da FUEL aqui referido consta nos Anexos 97, 98 e 99 deste capítulo. 1) pasta nº 679, nominada Centro Acadêmico Sete de Março – Londrina; 2) pasta nº 1584, nominada Festival Universitário de Teatro de Londrina; 3) pasta nº 1665, nominada FUEL – Fundação Universidade Est. de Londrina 1978; 4) pas-ta nº 4633, Universidade Espas-tadual de Londrina; 5) paspas-ta nº 1662, Fundação Universidade Estadual de Londrina FUEL; 6) pasta nº 1666, nominada FUEL – Fundação Universidade Est. de Londrina 1978; 7) pasta nº 1668, FUEL – Fundação Universidade Est. de Londrina – 1978 – pasta nº 3; 8) pasta nº 1669, FUEL – Fundação Universidade Est. Londrina – pasta nº 2/1979; 9) pasta nº 1671, FUEL – Fundação Universidade de Londrina – 1979;
10) pasta nº 1672, FUEL – Fundação Universidade de Londrina 1979; 11) pasta nº 1673, FUEL – Fundação Universidade Est. de Londrina – pasta nº 2/1979; 12) pasta nº 1674, FUEL – Fundação Universidade Est. de Londrina 1979-1980; 13) pasta nº 1675, FUEL – Fundação Universidade Est.
de Londrina 1979-1980; 14) pasta nº 1676, FUEL – Fundação Universidade Est. Londrina – pasta nº 2/1980; 15) pasta nº 1678, FUEL – Fundação Universidade Est. de Londrina – pasta nº 3/1980;
16) pasta sem identificação de capa (ASI – FUEL I); 17) pasta sem identificação de capa (ASI – FUEL II); 18) pasta sem identificação de capa (ASI – FUEL III); 19) pasta sem identificação de capa (ASI FUEL XVI); 20) pasta sem identificação de capa (ASI FUEL XVII).
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delação de alunos, professores e servidores da universidade onde atuavam, a ASI da FUEL também exercia papel de agente de repressão e de inteligência do sistema, organizando informações, produzindo relatórios analíticos/circunstanciais e ações de maior envergadura.
O que poderia parecer, para incautos, uma “arapongagem” sem maiores con-sequências pode ser melhor exemplificado no exemplo a seguir, relativo a Ulisses Telles Guariba Netto: em 19 de setembro de 1979, o informe nº 69/1979 da ASI comunica ao SNI que identificou e localizou Ulisses em Londrina, informando também à Divisão de Segurança e Informação da Secretaria de Segurança Pública do Paraná, dando conta inclusive das atividades e pessoas do curso de medicina da FUEL com quem ele teve contato:
O nominado, professor da USP SP e membro da Diretoria da Associação dos Docentes da USP, ADUSP-SP, esteve em Londrina no dia 18 do corrente, na ocasião visitou a sede do DCE LIVRE e mante-ve contatos com as lideranças locais do ME [movimento estudantil], onde tratou de vários assuntos, destacando-se:
• Política Estudantil na USP e PUC-SP.
• Movimento pela Criação de Novas Associações de Docentes
• Movimento para Criação de Novas Escolas de Medicina.
Estiveram com o nominado os seguintes Alunos do Curso de Medicina da Universidade de Londrina:
• Marco Antonio Fabiani
• Carlos Augusto Dias
• Cezar T. Kohatsu
• Gilberto Berguio Martins91
No dia 16 de outubro do mesmo ano, o DOPS-SP emitiu a informação nº 669/79, em atendimento ao pedido de busca nº 42/1979 sobre Ulisses, na qual a última informação listada é exatamente a que havia sido enviada pela ASI da FUEL. Conforme consta da informação nº 450/1979, Ulisses havia sido preso pela Operação Bandeirantes (Oban) em 1969, ocasião em que fora acusado de ter:
91 Disponível em: <http://bit.ly/2vvqVrh>. Acesso em: 29 set. 2015.
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COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO PARANÁ – TERESA URBAN alguma relação com os últimos incêndios de estações de televisões e
com a bomba que explodiu na Caixa Econômica, por ocasião da visita do Governador Rockfeller.92
Ulisses havia sido preso em 1971. Sua esposa, Heleny Ferreira Telles Guariba, foi presa na mesma época no presídio Tiradentes, de onde desapareceu e, segundo testemunhos, foi torturada até a morte na Casa da Morte de Petrópolis.93
Os desdobramentos dessa malha de informações, da qual a ASI fazia parte, so-bre Ulisses e os demais citados no informe original, não foram aqui aprofundados.
De toda forma, permite entender que a ASI alimentava um sistema de inteligência de informações sobre milhares de pessoas que eram monitoradas e perseguidas. Muitas delas, a partir das informações “construídas” nesse sistema, passavam a ser acusadas em IPM, tinham suas casas invadidas por militares munidos de ordens de busca e apreensão, eram presos ou sequestrados e submetidos à incomunicabilidade, sem di-reito a advogado ou habeas corpus.
Interrogados a partir dessas informações que órgãos como a ASI da FUEL produziam, foram torturados, mortos e muitos são hoje desaparecidos políticos, cujos corpos seus familiares jamais tiveram a oportunidade humanitária de sepul-tar dignamente. É exatamente nesse sistema largamente difundido e utilizado pela ditadura brasileira que a Reitoria da FUEL, em especial a sua ASI, aderiu, contri-buiu intensamente e se sustentou a partir de 1974 e pelos anos seguintes.
Para que se tenha uma ideia mais completa da abrangência da atuação da ASI da FUEL, foram incluídos no “Anexo I – Documentação exemplificativa do acervo DOPS-PR relativo à Fundação Universidade Estadual de Londrina” deste relatório, apenas como amostra, algumas das folhas iniciais dos relatórios de informação que eram sistematicamente enviados ao DOPS-PR,94 ao SNI, à Polícia Federal, à 5ª RM
92 Disponível em: <http://bit.ly/2vvqVrh>. Acesso em: 4 mar. 2016.
93 Dossiê sobre Heleny Ferreira Telles Guariba no volume 3 do Relatório da Comissão Nacional da Verdade (2014), p. 642-646. Disponível em: <http://www.cnv.gov.br/images/pdf/relatorio/
volume_3_digital.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016.
94 A propósito do acervo DOPS-PR, vale registrar que a documentação depositada no Arquivo Público do Paraná e digitalizada contém 43.730 fichas individuais, 3.775 pastas individuais e mais 2.377 pastas temáticas digitalizadas, representando cerca de 80% do total do acervo físico.
As pastas temáticas se referem a toda sorte de organizações da sociedade civil, sindicatos,
As pastas temáticas se referem a toda sorte de organizações da sociedade civil, sindicatos,