CONSTITUIÇÃO DOS MODELOS
3.1.1. A cidade a reformar
O que Engels descreve em 1844, sobretudo no capítulo “As grandes cidades” do livro A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, dando ênfase a largas zonas insalubres e infames, era comum à maioria das cidades ocidentais que sofrerão processos de industrialização.
As casas são habitadas das caves aos telhados, são tão sujas no interior como no exterior e tem um tal aspecto que ninguém aí desejaria habitar. Mas isto ainda não é nada comparado com os alojamentos nos pátios e vielas transversais onde se chega através de passagens cobertas, e onde a sujidade e a ruína ultrapassam a imaginação; não se vê, por assim dizer, um único vidro inteiro, as paredes estão leprosas, os batentes das portas e os caixilhos das janelas estão quebrados ou descolados, as portas - quando as há – são feitas de pranchas velhas; aqui, mesmo neste bairro de ladrões, as portas são inúteis porque não há nada para roubar.178
Estes “bairros de má reputação” londrinos não são um exclusivo da situação inglesa, apesar da discrepância dos valores quando se compara a sua população urbana e rural (cerca de metade) e, por exemplo, a francesa ou a alemã, onde a sociedade era ainda maioritariamente rural. Quer a densificação e ampliação dos assentamentos medievais, quer os aglomerados ex nuovo onde a fábrica ou a torre de elevação substituíam a catedral, foram fenómenos globais ligados aos recursos naturais disponíveis e à tenacidade dos industriais. Lewis Mumford apelidou-os de “infernos paleotécnicos” ao estudar esses territórios da Revolução Industrial.179
Se não forem atendidas possíveis diacronias provocadas pelas arritmias da industrialização é fácil deambular entre geografias distintas verificando nessas palavras os sintomas dos fortes saltos demográficos e a simultânea desadequação das estruturas urbanas. Por exemplo, em alguns documentos coevos portugueses verifica-se que as condições de habitabilidade das classes populares residentes em Lisboa e no Porto são qualificadas recorrentemente com os seguintes termos: “colmeia humana”, “estrumeira”, “cloacas”, “odor nauseabundo”, “exército de vermes”, “multidão solitária”, “alienados”. São adjectivações retiradas de textos que usam as mesmas descrições elucidativas divulgadas internacionalmente.
Mas não é unicamente a face sanitária e higiénica que preocupava. Nesses antros de miasmas germinava outro tipo de perigo potenciado na aglomeração de massas revoltosas cuja organização ideológica podia constituir uma séria ameaça às elites dirigentes. Anunciavam-se insurreições tal era o contraste entre o quadro de miséria 178 ENGELS, Friedrich – A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra. Porto: Edições Afrontamento, 1975 [1845], p. 60
105 e de exploração infra-humana e a ostentação do luxo permitido àqueles que detinham os proveitos da alta rentabilidade da produção industrializada e os dividendos dos negócios especulativos. A pobreza e a riqueza tinham geografias próprias no espaço urbano. A ascensão da burguesia industrial acabou por caracterizar a face brilhante da moeda correspondente ao lado cosmopolita e frívolo que Charles Baudelaire (1821-1867) retratou em 1863 no Pintor da Vida Moderna. À parte a precariedade do alojamento, as classes operárias sofriam constrangimentos relativos às condições de trabalho, à precariedade das remunerações, à inexistência generalizada de um sistema de protecção social que garantisse o acesso à saúde e à educação.
Os dois factores recíprocos - emergência higiénica e harmonização social – foram tomados como divisas nas diversas frentes da batalha protagonizadas entre reformistas e progressistas, para onde convergia um amplo espectro de intervenientes: filósofos, políticos, sociedades industriais, movimentos sindicais e cooperativos, legisladores sanitários, engenheiros, economistas sociais. Todos ajudavam a tecer uma complexa rede doutrinária que contribuía para a transformação da cidade industrial, em geral, e da habitação operária, em particular.
Para dotar a análise de um quadro mínimo de referência político-social, tomando todas as fragilidades de uma síntese impossível, evoca-se alguns incidentes relevantes do processo histórico recuando ao século XVIII e às teorias económicas do liberalismo e do individualismo de Adam Smith (1723-1790) e, consequentemente, às formulações posteriores na sua estreita relação com os modelos de habitação que haveriam de resolver um dos mais reivindicados direitos do proletariado.
Nas suas diversas configurações, a harmonia social que os regimes perseguiam entroncava na ideia que a criação de riqueza dependia de uma forte produção industrial. A presença mínima do Estado deixava ao livre funcionamento dos mecanismos de concorrência o papel detonador das dinâmicas comerciais e
financeiras geradoras de riqueza. A confiança na auto-regulação dos agentes e instituições ligadas à indústria fez extrapolar, para a organização do espaço físico e social, racionalidades geradas no interior de lógicas da rentabilidade produtiva. Assim, tendo a máquina como motor e símbolo de progresso, numa sociedade fortemente liberalizada, a oposição entre patrão e operário prolongará a secular relação de vassalagem entre senhor e servo. Os défices de representatividade e os desequilíbrios na distribuição da riqueza gerada e, em geral, todos os conflitos de interesse entre o trabalho e o capital, deram sentido às lutas travadas no período. No caso francês, a data charneira de 1848, que corresponde à denominada Primavera dos Povos,180 simboliza a ascensão do proletariado industrial como força política representativa, ainda que sob o efeito dominador das elites burguesas. Nesse ano, através do Manifesto Comunista, Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels denunciavam no sentido revolucionário do combate da burguesia contra o poder religioso e monárquico o continuado atropelo dos direitos dos trabalhadores. A eficácia da mecanização industrial combinada com a divisão científica do trabalho e a exploração da mão-de-obra foram preponderantes na rentabilização máxima do capital. Apesar da aceleração económica, o operariado continuou afastado do processo de redistribuição de riqueza mantendo-se o seu estatuto amorfo e neutro na rigorosa orgânica que envolvia a optimização do processo produtivo.
A luta social contra a subjugação aos interesses dominadores da burguesia abastada no contexto da industrialização importa ser referida, em primeiro lugar, às concepções utópicas de mecânicas sociais orientadas pela racionalidade da máquina. Estas visões mecanicistas e materialistas, inspiradas nos Enciclopedistas de Setecentos, foram acolhidas pela média e pequena burguesia emergindo como alternativas para a criação de sociedades comunitárias, protectoras e ateístas, recolhidas em estruturas urbanas destacadas de desenho inédito. A sua autonomia 180 Denominação dada às Revoluções de 1848: conjunto de revoluções ocorridas simultaneamente na Europa central e oriental. A crise económica continuada conduziu a revoltas organizadas que procuraram combater a presença de regimes governamentais autocráticos e o deficit de representatividade política das classes médias. O carácter liberal, democrático e nacionalista dessas rebeliões foi promovido quer por membros da burguesia e da nobreza que exigiam governos constitucionais, quer pelo campesinato e pelo operariado que lutavam contra um capitalismo escravizador.
107 permitiria corrigir a presença de um Estado dominado pelos interesses do capitalismo burguês enérgico, responsável principal pela desregulação do sistema económico e asfixia das reivindicações operárias.181 Deste rápido cenário traçado destaca-se a figura do conde Henri Saint-Simon (1760-1825) e a fé depositada na construção de uma sociedade ordenada segundo uma hierarquia industrial em cujo topo estariam os engenheiros, cientistas e artistas, e os trabalhadores na base. Da sua doxa, sublinha-se a confiança depositada no avanço da ciência e a definição de um poder patriarcal para regulação dos princípios sociais e morais com o objectivo de conduzir o proletariado à sua consciência histórica. O saint-simonismo, enquanto proposta de comunidade tecnocrática, socialista e positivista, inspirou outras doutrinas políticas referentes à propriedade colectiva, particularmente, o socialismo utópico de Robert Owen (1771-1858) ou de Charles Fourier.
Quanto ao problema específico do alojamento operário, Engels acabará por rebater estas utopias colectivistas afirmando que a sua solução devia ser considerada no âmbito da cidade existente e formulada no interior dos temas reivindicativos da luta proletária; isto é, no quadro da transformação da sociedade capitalista e, por inerência de referente espacial, no contexto das estruturas físicas preexistentes considerando-as na relação com o campo para harmonizar desigualdades:
In present-day society just as any other social question is solved: by the gradual economic adjustment of supply and demand, a solution which ever reproduces the question itself anew and therefore is no solution. How a social revolution would solve this question depends not only on the circumstances which would exist in each case, but is also connected with still more far-reaching questions, among which one of the most fundamental is the abolition of the antithesis between town and country.182 A dualidade cidade – campo permite referenciar a discussão sobre a validade das soluções dos socialistas utópicos na estruturação de uma nova sociedade. Ao 181 Em França, o Decreto d’Allarde (Março de 1791) anula a tradição corporativa dos ofícios e a Lei de Le Chapelier, de Junho 1791, interdita a livre associação dos trabalhadores, nomeadamente, a formação de sindicatos e a reivindicação através das greves.
182 ENGELS, Frederick – The housing question. London: M. Lawrence, 1887 [1872], p. 10.
Note-se que em 1971 Carlo Aymonino usa este texto de Engels para reafirmar para a contemporaneidade esse mesmo posicionamento.
contrário do autismo dessas comunidades rurais, a revolução dos socialistas científicos fundar-se-ia na cidade existente. Engels afirmaria que a questão do alojamento operário não podia ser isolada da restante “questão social” da classe laboriosa no espaço produtivo urbano. Na sua proposta, a cidade constitui-se como estrutura válida e suporte disponível porque aí já “existem suficientes casas para se resolver de imediato a real penúria de alojamento com a condição de se utilizarem racionalmente essas casas”.183 Esse aproveitamento seria tanto mais vantajoso quanto mais rapidamente se procedesse às expropriações para aí se instalarem de imediato os trabalhadores precariamente alojados. Quando o poder político estivesse nas mãos do proletariado o processo seria acelerado e ditado o interesse público para a requisição desses edifícios.
Conforme adverte Henri Lefebvre, os textos de Engels e Marx, apesar de tratarem com insistência o tema da cidade, não se podem considerar como constituindo um corpo doutrinário sobre a resolução dos problemas urbanos de Oitocentos.184 Os melhores exemplos que, segundo o debate da época, deveriam ser implementados excluem a hipótese de adaptar o parque habitacional existente. Nessa base afirmam dois modelos que irão ser sistematicamente testados: os blocos comunitários e os conjuntos de casas unifamiliares. Estes dois tipos de solução apresentam-se como paradigmas maiores do desenho ideal do alojamento do operariado na segunda metade do século XIX. A sua possibilidade prática foi marcada por duas obras distantes quinhentos quilómetros construídas em 1853, respectivamente, pela Société Industrielle de Mulhouse e pelo industrial Jean-Baptiste André Godin (1817- 1888). A coincidência no tempo e no espaço expressa bem uma dualidade histórica estruturadora que permite estabelecer as principais linhas orientadoras da resolução do alojamento do operariado para além de 1900. Enquanto na primeira se opta por um regime de propriedade individualizada aliada à regularidade da
183 AYMONINO, Carlo – La Vivienda Racional. Ponencias de lo Congresso CIAM 1929-1930. Barcelona: Gustavo Gili, 1973 [1971], p.11
109 família, a segunda aproxima-se daquilo que eram as soluções fundamentadas na utopia falansteriana.
São duas correntes históricas de genealogia oposta: uma tradição socializante, enraizada no saint-simonisme; e outra, social-cristã, alicerçada, sobretudo, na ética religiosa de Frédéric Le Play (1806-1882). 185 Se na primeira se verifica que a urgência em elevar o estatuto do operário e o valor do trabalho, nas relações de poder, conduziu a uma reforma das instituições e produziu mecanismos dúcteis de regulação social, na segunda, encontramos o paradigma progressista das comunidades rurais autónomas de propriedade colectiva. Do ponto de vista do pensamento sobre a cidade podemos encontrar nestes dois exemplos a problemática lançada por Françoise Choay quando nas primeiras linhas da antologia L’urbanisme, utopies et réalités186 refere a relação consequencial: a sociedade industrial é urbana, a cidade é o seu horizonte. Ora, a dialéctica entre campo e cidade estruturará de base o pensamento sobre a cidade criando dois paradigmas urbanos e habitacionais dominantes no século XX: a cidade-jardim de Ebenezer Howard e as unidades de habitação de Le Corbusier.
185Henry Desroche citado em FREY, Jean-Pierre – Le rôle social du patronat : du paternalisme à l'urbanisme. Paris: L'Harmattan, 1995, p. 87