2 CAPÍTULO 1 SOBRE CRIMES E CELAS
2.1 A CIDADE DE JOINVILLE
Joinville é a cidade mais populosa do Estado de Santa Catarina e a terceira do sul do Brasil, atrás de Curitiba e Porto Alegre. Está localizada na região nordeste do estado de Santa Catarina e fica a, aproximadamente, 180 quilômetros de distância da capital Florianópolis. Contava com aproximadamente 515.288 habitantes, segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE11 no ano de 2010. Porém, estimativas recentes realizadas no ano de 2014 pelo instituto apontam para um crescimento significativo da população, chegando a aproximadamente 554.601 habitantes12.
A historiadora Ilanil Coelho, em recente tese publicada sobre a história da cidade, atribui o crescimento às migrações. Através de estudos comparativos de gráficos do IBGE, a autora identifica a década de 1980 como o momento em que Joinville passa a ser reconhecida como a cidade mais populosa do Estado, fato que estaria diretamente ligado às migrações ocorridas, principalmente, entre as décadas de 1970 e 1980. Neste período houve a instalação e desenvolvimento de algumas indústrias locais. Tais indústrias necessitavam de mão-de-obra para o trabalho de “chão de fábrica”, fato que gerou uma demanda estendida para outras regiões através de propagandas, impulsionando assim a vinda de famílias para a cidade, principalmente do Paraná. Estas migrações seriam responsáveis pelos reflexos no aumento populacional
11Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=420910. Acesso
em: 22 ago. 2013.
12 Disponível em:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Estimativas_de_Populacao/Estimativas_2014/estimativa_dou_2014.pdf. Aceso em: 07/02/2015.
nos censos das décadas seguintes, constituindo assim Joinville, uma “cidade migrante” (COELHO, 2010). Optei pelo texto de Ilanil para começar falar sobre a cidade, pois a autora possibilita pensar sobre Joinville como um espaço plural e movediço, principalmente ao denominá-la como “cidade migrante”.
Por muito tempo houve o investimento na história de Joinville como uma cidade de imigrantes, fruto da colonização europeia de meados do século XIX, com destaque para a colonização alemã. Assim como tantas outras cidades brasileiras surgidas neste período em decorrência dos fluxos de imigrantes que vieram para o Brasil com a implementação da mão-de-obra assalariada. A data oficial de 9 de março de 1851 foi escolhida como a fundação da cidade, quando imigrantes alemães, suíços e noruegueses chegaram a então conhecida Colônia Dona Francisca (TERNES, 1993). Esta história obteve a supremacia ignorando a existência de grupos e organizações estabelecidas nesta região anteriormente. O historiador Adriano Denardi chama atenção para as populações que já viviam nesta região como os indígenas, os luso-açorianos e os grupos de afro-descentes que foram por muito tempo silenciados e esquecidos (DENARDI, 2010). Assim como futuramente iria ocorrer com os migrantes.
Segundo Ilanil, a tentativa de manutenção da cidade alemã perdurava, até mesmo na eminência das fortes correntes migratórias. “Até pelo menos a metade da década de 1990, sob o impulso dos fluxos contemporâneos – especialmente os migratórios – e na polifonia da cidade, havia vozes um pouco desafinadas, mas bastante estridentes que buscavam aclamar e identificar Joinville como cidade alemã.” (COELHO, 2010, p. 28).
A referência de origem alemã se faz presente na história da cidade, definindo os de Joinville (de origem alemã) e os de fora. Divisão presente não somente nos discursos, mas no espaço geográfico da cidade. O historiador Apolinário Ternes ao descrever o processo de formação da colônia cita duas principais ruas construídas inicialmente para ligar a região central à zona norte e outra para ligar à zona sul. O caminho para o norte, Nordstrasse – atual Rua Dr. João Colin, e o caminho para o sul, Deutschstrasse – atual Rua Visconde de Taunay, eram e ainda são um dos principais pontos de acesso que ligam o centro da cidade às zonas norte e sul. Na Zona Norte da cidade residiam os imigrantes de origem germânica, enquanto os descendentes de luso- açorianos e negros ficavam na Zona Sul. Esta divisão também se fazia presente em clubes e práticas culturais (TERNES, 1993). Desta forma, historicamente, os bairros localizados na zona norte da cidade se
construíram como os mais nobres e valorizados, enquanto a zona sul da cidade concentra a periferia, que se intensifica com a chegada dos migrantes. Os primeiros migrantes vindos na década de 1970, durante o crescimento das indústrias locais, conseguiram melhores resultados ao migrar para a “Manchester Catarinense”13, no entanto, migrantes seduzidos pela propaganda de outrora, que aqui chegaram nas décadas de 1990 já não encontraram o mesmo cenário. Com isso, surgem ocupações irregulares nas áreas periféricas da cidade que futuramente dão origem a novos loteamentos e bairros.
A industrialização impulsionou o crescimento da cidade, no entanto, com ele uma série de problemas sociais, decorrentes da falta de estrutura e planejamento. Estes problemas vão ser atribuídos diretamente aos “forasteiros” que aqui chegaram para abalar a “ordem da cidade”. Este discurso está presente, antes mesmo dos fluxos migratórios da década de 1970, como demonstra a historiadora Iara Andrade Costa, ao falar sobre meados do século XX e a constituição da cidade, que vai adquirindo a característica de ordeira e em contraponto tem que lidar com práticas que fogem a esta ordem como a pobreza, assaltos e a ausência de policiamento para controlar estas práticas dissidentes (COSTA, 2005).
Jornais da década de 1970 mencionam o crescimento da criminalidade na “cidade do trabalho honesto” que agora se via ameaçada com o chamado “vírus da malandragem”. Esta crise apresentada na matéria é atribuída aos migrantes como demonstra o fragmento a seguir: “[...] a fama de nossa inquestionável riqueza e produção, teria motivado a polarização para aqui de inúmeros forasteiros nem sempre bem intencionados em trazer a sua quota de trabalho ou capital.”14. Já na década de 1980 a estes “forasteiros” e criminosos é atribuído um lugar na cidade, a Zona Sul. Nesta outra matéria, na declaração do delegado Adhemar Grubba, fica evidente a segregação geográfica e a imagem de uma Zona Sul marginal ocupada por criminosos e “forasteiros”:
Efetivamente a zona sul da cidade foi sempre a região que mais registra a presença de marginais, e viciados em drogas. Acresce o fato de que sendo uma zona populacional de famílias de baixo poder
13 Título que a cidade recebeu nesse período fazendo menção a cidade industrial inglesa. É
recorrente jornais do período trazerem esta referencia.
14 OLIVEIRA, Moacyr Gomes de. “Cidade Desprotegida”. Jornal de Joinville, 30 out. 1970, p.
aquisitivo e com uma extensa área onde o marginal encontra possibilidade de fugir à ação policial, a grande maioria dos fora-da lei a tenham como reduto mais seguro contra a ação da polícia. Diariamente temos problemas com elementos de toda a espécie residentes aqui mesmo e na maioria, das vezes marginais que vêem de fora para ‘marcar ponto’ em nossa cidade. [...] Cerca de noventa por cento dos marginais do Itaum, Fátima, Guanabara e Nova Brasília.15
Através da notícia é possível perceber que a criminalidade passava a ter cara, nome e endereço. Medidas higienistas são tomadas para a manutenção da imagem de cidade ordeira, sendo que o planejamento urbano reforça esta ideia, acentuando a divisão entre a cidade da ordem e do trabalho e as regiões periféricas onde permanecem as pessoas e práticas indevidas, os indesejáveis. Inseridos nesse contexto está à história do PRJ, que não é por um mero acaso construído na Zona Sul da cidade.
2.2 O PRESÍDIO REGIONAL DE JOINVILLE E A ALA FEMININA