2 O DIREITO À CIDADE E SUA INTERCONEXÃO COM O DIREITO À MORADIA
2.2 A cidade e a efetivação dos direitos humanos
O direito à cidade vem sendo discutido sob o viés dos direitos humanos, haja vista que a Constituição Federal de 1988, nos artigos 182 e 183, garante este direito
ao conceder aos municípios a implementação de uma política de desenvolvimento urbano a fim de garantir, principalmente, o desenvolvimento das funções sociais da cidade. A norma constitucional garantiu aos municípios, por meio de lei municipal, competência legislativa para organizar o espaço urbano com a instauração do Plano Diretor, que visa dar maior ensejo aos princípios constitucionais, como a gestão democrática da cidade e a participação popular para o crescimento do espaço urbano. Ademais, o inciso VIII, art. 30 da CF/88 estabelece que compete aos municípios promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano5.
Pode-se afirmar que a Constituição Federal de 1988 possibilitou a participação das pessoas nas decisões coletivas, enquanto o Estatuto da Cidade regulamentou as possibilidades de participação por meio do Plano Diretor, cabendo aos cidadãos buscar conhecimento dos projetos que estão por acontecer em sua cidade. É preciso, porém, intervir nos programas e projetos voltados a qualificar a vida no meio urbano, isso porque se está propiciando a efetivação dos direitos humanos básicos, como o direito à moradia, ao trabalho, ao lazer e à mobilidade no meio urbano, os quais também não deixam de ser funções da cidade.
A participação da população é de suma importância nesse processo, visto que colocar em prática as normas constitucionais que dizem respeito aos direitos fundamentais do cidadão é sinônimo de transformar a cidade num local propício para que direitos humanos saiam da teoria e sejam efetivados. Infelizmente, porém, grande parte da população ainda não compreendeu a importância da participação popular.
No entendimento de Elenise Felzke Schonardie e Jéssica Zimmermann (2013, p. 3):
As cidades são o reflexo dos processos sociais que transformaram o espaço geográfico natural em um ambiente físico construído. Atualmente as cidades constituem um local de acumulação de capital, apresentando-se, como um centro econômico. No entanto, não se pode classificar a cidade como um espaço destinado apenas ao comércio, pois a cultura possui papel ímpar no espaço urbano em razão de sua influência e contribuição na organização espacial.
5 Art. 30. Compete aos municípios:
VIII - promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano; [...].
Desse modo, a cidade não pode ser caracterizada apenas pelo comércio que nela se instala ou pelo capital de giro acumulado, mas deve agregar todos os segmentos e priorizar o bem-estar coletivo dos seus citadinos. Sabe-se, outrossim, que a cidade é um conjunto de complexidades, pois,
Nesse contexto, o espaço urbano é um dos elementos que compõe o conjunto de complexidades, ultrapassando o mero limite geográfico, alcançando indubitavelmente o desenvolvimento socioeconômico- cultural de uma comunidade. A complexidade, portanto, é dado de realidade que caracteriza as sociedades modernas, o que exige, cada vez mais, a presença de regras, com padrões preestabelecidos pela própria coletividade, a fim de garantir um razoável bem-estar para todos, e é nesse ponto que o direito à liberdade no espaço urbano encontra seus limites (DE CARLI, 2009, p. 24).
A liberdade, portanto, no interior de um sistema, deve seguir as coordenadas da Constituição Federal e das demais legislações infraconstitucionais, as quais devem estar em concordância e no mesmo sentido do princípio da dignidade da pessoa humana e dos direitos humanos fundamentais. Nessa linha de raciocínio, De Carli (2009, p. 26) aduz que:
Na concepção de liberdade, expressão natural do ser humano, encontra respaldo a noção de desenvolvimento urbano que, se não gerenciado pelo Poder Público, pode trazer consequências prejudiciais para a sociedade. Aliás, tais consequências já são claramente observáveis no cotidiano do homem urbano, como por exemplo: falta de estrutura básica de água e esgoto, especialmente nas áreas em que residem comunidades de baixa renda; ausência de regras específicas para facilitar a construção de casas para a população pobre; o uso descontrolado do espaço urbano; e a deficiência nos serviços de transporte coletivo.
Bello (2013, p. 238) relembra a sistematização feita por Norberto Bobbio e afirma que é preciso fazer uma transformação dos tradicionais direitos fundamentais e adequá-los ao atual contexto do meio urbano e das cidades.
Recordando a sistematização de Bobbio em A era dos direitos, os direitos humanos surgem em uma evolução histórica, assumindo diferentes significados e abrangência em cada período e contexto geográfico. Da mesma forma como ocorreu com a formulação das sucessivas gerações (ou dimensões) de direitos de cidadania – individual e política, social e transindividual – faz-se necessário na atualidade promover uma transposição do caráter abstrato dos direitos fundamentais tradicionais para o contexto do cenário urbano.
Nesse contexto, diversas demandas adquirem maiores graus de especificidade, o que exige melhoramentos de acordo com as suas peculiaridades, como é o caso do direito à moradia, à saúde, ao transporte e aos demais serviços públicos. Assim, tendo em vista os reflexos da urbanização que a sociedade perpassa e a necessidade de aprimoramento dos direitos fundamentais tradicionais, surge a necessidade de pensar em novos direitos urbanos.
Primeiramente, tem-se o chamado direito à cidade, que funciona como uma espécie de direito guarda-chuva. A cidade constitui-se como um elemento multifacetário, figurando como espaço geopolítico, bem jurídico tutelado como direito fundamental e, inclusive, ator político (CASTELLS; BORJA, 1996, pp. 152-166).
Percebe-se, assim, que a essência da cidade é que ela seja ao mesmo tempo um espaço político, democrático, de lazer, de exercício de direitos fundamentais, de respeito, de convivência, de igualdade e justiça, ou seja, um local em que sejam efetivados os direitos humanos.
Nesse diapasão, Borja e Muxí (2003, pp. 124-129) compreendem a reinvenção da cidade cidadã como o advento de uma cultura política, na qual a prática cidadã dos movimentos sociais pode transformar demandas ilegais ou legais em novos direitos urbanos de cidadania, representados pelo direito ao lugar, moradia, espaço público, monumentalidade, identidade coletiva, beleza, conversão da cidade marginal em cidade cidadã, com direito ao acesso, ao uso de tecnologias, de usar a cidade como refúgio, direito à proteção pelo governo, ao emprego, ao salário cidadão, ao meio ambiente equilibrado, à segurança, à cidade metropolitana ou plurimunicipal, à informação, a uma cidade sustentável, enfim, direito à centralidade e acessibilidade das cidades.
São inúmeros os ordenamentos jurídicos que têm incorporado essa acepção dos novos direitos urbanos de cidadania, o que representa a renovação da ideia de cidadania, bem como a ampliação da participação política dos cidadãos na busca por seus direitos. O acesso à cidade é um direito de todos, sem discriminação de raça, condições de saúde, cor, gênero, renda, nacionalidade, orientação religiosa ou política. O direito à cidade é interdependente de todos os direitos humanos nacional ou internacionalmente reconhecidos, concebidos integralmente, portanto, local propício e adequado para a efetivação dos demais direitos humanos.
Nesse sentido, no caso brasileiro, a Lei n. 10.257/2001, comumente chamado de Estatuto da Cidade, constitui-se num importante instrumento de efetivação dos
direitos humanos na cidade. Ermínia Maricato (2010, p. 5) comenta os méritos do Estatuto da Cidade:
O Estatuto da Cidade (EC), lei federal brasileira nº 10.257, aprovada em 2001, tem méritos que justificam seu prestígio em boa parte dos países do mundo. As virtudes do EC não se esgotam na qualidade técnica ou jurídica de seu texto. A lei é uma conquista social cujo desenrolar se estendeu durante décadas. Sua história é exemplo de como setores de diversos extratos sociais (movimentos populares, entidades profissionais, sindicais e acadêmicas, pesquisadores, ONGs, parlamentares e prefeitos progressistas) podem persistir muitos anos na defesa de uma ideia e alcançá-la, mesmo num contexto adverso. Ela trata de reunir, por meio de um enfoque holístico, num mesmo texto, diversos aspectos relativos ao governo democrático da cidade, à justiça urbana e ao equilíbrio ambiental. Ela traz à tona a questão urbana e a insere na agenda política nacional do país, até pouco tempo, marcado pela cultura rural.
Aplicar, contudo, as disposições do Estatuto da Cidade na sociedade de hoje não é tarefa simples, principalmente porque nessas sociedades o poder político e social está associado à propriedade patrimonial, sendo a efetivação dos direitos na cidade uma condicionante da eficácia social do Estatuto da Cidade.
Quando se fala em uma cidade idealizada e para todos, entra-se de forma incidental na discussão sobre a inclusão social, pois as cidades devem priorizar o interesse público, definido coletivamente, garantindo o uso socialmente justo e ambientalmente equilibrado do território. É preciso, pois, garantir uma cidade sustentável, e foi justamente pensando nisso e objetivando criar um mecanismo que garanta aos citadinos uma cidade nesses moldes que surgiu a Carta Mundial pelo Direito à Cidade.
Segundo o que dispõe a Carta Mundial pelo Direito às Cidades, o direito à cidade é interdependente a todos os direitos humanos internacionalmente reconhecidos, inclusive os direitos civis, políticos, sociais, econômicos, ambientais e culturais, todos já regulamentados em documentos internacionais e, também, no âmbito interno e jurídico legal brasileiro.
O exercício desses direitos deve ser operado nos espaços urbanos e rurais que integram o território das cidades. Saule Júnior (2007, p. 68) afirma que o direito à cidade inclui o “direito ao desenvolvimento, a um meio ambiente sadio, ao desfrute e preservação dos recursos naturais, à participação no planejamento e gestão urbanos e à herança histórica e cultural.”
Segundo Henry Lefebvre (1991, p. 115), é preciso aliar crescimento com desenvolvimento, ou seja, ir em direção à sociedade urbana. Implica afirmar, também, que as novas necessidades devem ser prospectadas, pois são descobertas no decorrer da emergência.
As cidades devem adotar todas as medidas necessárias até o máximo de recursos de que disponham para alcançar progressivamente, por intermédio de todos os meios apropriados e com a adoção de medidas legislativas e normativas, a plena efetividade dos direitos econômicos, sociais, culturais, ambientais e, acima de tudo, os direitos humanos.
A Carta Mundial pelo Direito às Cidades enfatiza que as cidades devem ser um espaço de realização de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, a fim de assegurar a dignidade e o bem-estar coletivo de todas as pessoas, em condições de igualdade, equidade e justiça, assim como o pleno respeito à produção social do habitat. Todas as pessoas têm o direito de encontrar nas cidades as condições necessárias para a sua realização política, econômica, cultural, social e ecológica, assumindo o dever de solidariedade (SAULE JÚNIOR, 2007).
Além disso, as cidades devem propiciar que seus citadinos façam uso dos seus recursos, pois todos têm direito a um território urbano dentro de parâmetros democráticos, de justiça social e condições ambientais sustentáveis, em que o interesse social e cultural coletivo prevalece sobre o interesse individual.
Para garantir que os direitos humanos sejam efetivados, as cidades devem assumir compromissos que visem à implantação de políticas públicas a fim de garantir a igualdade de oportunidades, sem distinções ou discriminações. As cidades devem propiciar que os agentes do setor privado participem de programas sociais com vistas a desenvolver a solidariedade e a plena igualdade, bem como promover condições políticas para garantir programas de Economia Solidária que assegurem uma justa distribuição de recursos.
Para que os direitos humanos urbanos sejam efetivados, é cediço que os cidadãos devem participar ativamente do planejamento, da produção e da gestão das cidades. Assim, as cidades precisam implantar espaços para participação direta e democrática dos cidadãos, tanto para opinarem no processo de planejamento, produção e gestão, quanto na avaliação das ações já desenvolvidas.
As cidades devem criar condições para a segurança pública, a convivência pacífica, o desenvolvimento coletivo e o exercício da solidariedade. Para tanto, devem garantir o pleno usufruto da cidade, respeitando a diversidade e preservando a memória e a identidade cultural de todos(as) os cidadãos(ãs) sem discriminação alguma.
Os serviços essenciais prestados pelo Poder Público e também aqueles realizados pelo setor privado devem ser supervisionados, visando garantir a qualidade dos serviços em prol das cidades. No que se refere aos serviços privatizados, estes devem garantir que as tarifas cobradas sejam de valor acessível a todas as classes sociais, e que estejam de acordo com o serviço prestado.
Ademais, as cidades devem garantir que as habitações reúnam condições de habitabilidade e que estejam localizadas em local adequado. Devem garantir, também, subsídios e financiamentos para aquisição de terras e imóveis, regularização fundiária e de melhoramento de bairros precários e ocupações informais. Os inquilinos devem ser protegidos da usura e dos despejos arbitrários. Os grupos vulneráveis e as mulheres têm direito e prioridade no que se refere às políticas e programas de habitação (SAULE JÚNIOR, 2007, p. 77).
Os grupos vulneráveis da sociedade, como idosos, crianças, pessoas portadoras de necessidades especiais, vítimas de desastres naturais, pessoas portadoras de HIV e, também, as mulheres, devem ter acesso à moradia adequada, mediante leis e políticas públicas que priorizem o seu atendimento. É de suma importância que as políticas habitacionais levem em conta as necessidades dos diferentes grupos, especialmente das mulheres menos favorecidas, idosas, viúvas, chefes de família, mães solteiras, vítimas de violência doméstica, imigrantes, entre outros (ROLNIK, 2011).
No que se refere ao trabalho, as cidades têm o dever de contribuir na consecução do pleno emprego, promovendo cursos de qualificação ou requalificação para os trabalhadores que se candidatem às vagas, visando à formação profissional do trabalhador. Ademais, o trabalho infantil deve ser uma bandeira de combate das cidades, e as mulheres chefes de família devem ter igualdade de acesso ao emprego e vagas garantidas em creches onde possam deixar os seus filhos e dependentes enquanto cumprirem jornada de trabalho.
Quanto ao meio ambiente sadio e sustentável, Saule Júnior (2007, p. 79) anuncia que:
As cidades devem adotar medidas de prevenção frente à contaminação e ocupação desordenada do território e das áreas de proteção ambiental, incluindo a economia energética, gestão e a reutilização dos resíduos, reciclagem, recuperação de vertentes e ampliação e proteção dos espaços verdes.
O Estado é um dos responsáveis pelo efetivo cumprimento dos direitos humanos, estabelecidos no Estatuto da Cidade e também garantidos na Carta Mundial pelo Direito às Cidades. A não implementação dos direitos descritos nesta seção, no entanto, acarretará em violação ao Direito à Cidade, haja vista que a cidade é vista como local de efetivação dos direitos humanos. Pode-se afirmar, assim, que enquanto os demais direitos não são efetivados, o direito à cidade também não é atendido.
Ressalta-se, ainda, que o Estatuto da Cidade e a Carta Mundial pelo Direito à Cidade foram criados para transformar a cidade num local de efetivação dos direitos humanos. É inegável, porém, que no avançado processo de urbanização e, principalmente, de urbanização desordenada em que as cidades se encontram, cada vez é mais difícil transformar a cidade neste local ideal de efetivação de direitos humanos. Destaca-se, porém, que apesar de ser uma tarefa bastante árdua, ela não é impossível. Nesse sentido, objetivando dar continuidade ao tema debatido nesta seção, passa-se a discorrer, a seguir, sobre o fenômeno da urbanização, da exclusão social e da negação ao direito à moradia.
2.3 A urbanização e os direitos da cidade: exclusão social e negação do direito