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CAPÍTULO 4 VERONETTA ENTRE IMIGRAÇÃO E INSEGURANÇA:

4.1 A cidade e o bairro na visão dos imigrantes

Ao perguntar para alguns dos entrevistados o que acham da cidade, do bairro e da região eles expressaram suas percepções e experiências da seguinte forma:

“Um caso clássico de Verona. Na rua não tem muitos mendigos. Tem uma lei em Verona que proíbe dar esmola. Se eles veem te dão multa. Não pode partir do seu critério de caridade e dizer se é certo ou errado. Por exemplo, eles colocaram em muitas praças nos bancos uma coisa de ferro no meio do banco pra evitar que os sem-teto dormissem nos bancos das praças. Se você vê, em muitas praças têm esse ferro no meio e antes não tinha. Tem uma praça atrás da Arena, da Igreja São Nicolò. Ali tem e antes não tinha. Pra evitar que durmam ali. São medidas que têm aqui e não em outras cidades. É sempre a mesma história de preconceito e de generalizar. É como dizer “todo mundo do leste europeu vem pra cá pra formar banda criminosa”. É perigoso porque não estimula as pessoas da cidade a terem mente aberta.” (Acayne, brasileira, 28 anos, a 7 anos na Itália, estudante universitária)

Mary134, do Gana, que atualmente trabalha como faxineira numa associação no bairro, advertiu que Veronetta é um bairro seguro para se viver, e que ela caminha às duas da madrugada e se sente segura. Além do mais, mostrou-me alguns bares no bairro frequentados por italianos onde se ouve música alta até tarde e o consumo de bebida alcoólica é frequente. Como ela mesma pôde verificar, tratava-se de italianos – jovens universitários na maioria – e não de imigrantes. Ela adverte o racismo presente na Itália e como o fato de ser negra é percebido.

“Uma vez eu caminhava aqui na rua e uma senhora me viu e fez o sinal da cruz. Outra vez no ônibus reclamaram que eu sentei ao lado.”

Perguntei então porque a senhora fez o sinal da cruz ao vê-la. Ela respondeu: “não sei (risos) talvez pensou que eu fosse o diabo”. E continuou “a situação melhorou em comparação ao período que cheguei. Agora já se vê mais negros, mais brancos junto com negras e pessoas negras trabalhando em bares. Antes não tinha. Não te davam trabalho por causa da sua cor. Agora é diferente. Vejo tantos casais adolescentes onde um é negro e o outro é branco (...) O bairro é muito seguro, é uma cidade segura. Muito segura. Eu não sinto essa insegurança que dizem.” (Mary, 45 anos, a 27 na Itália, natural do Gana)

Em outra ocasião em que encontrei Mary ela me perguntou o que significava um cartaz que ela viu em uma loja de roupas infantis de frente a Igreja de San Fermo, um dos pontos turísticos mais visitados de Verona e que está no limite entre o centro e o bairro de Veronetta. O cartaz, segundo Mary, dizia “procura-se pessoas normais para trabalhar”. Ela disse que até pensou em se apresentar para a vaga, mas se sentiu inibida, pois não sabia se era uma pessoa “normal”. Esse fato que Mary narra, aparentemente banal, demonstra muito sobre o ambiente da cidade do qual os imigrantes estão inseridos. Dizeres como esse para anunciar uma vaga de emprego coloca em dúvida a “normalidade” de imigrantes como Mary: mulher, negra, africana, com dificuldades em falar italiano.

Outro jovem senegalês, que faz um curso de percussão africana no bairro, aponta como é a mentalidade na região e as formas de racismo presente na sociedade.

“Aqui em Veneto é uma região muito racista, esta é a verdade. E na parte aqui rural, entendeu? Aqueles que moram na área rural. Eles são acostumados só a trabalhar na terra, tem em mente só trabalhar. Se você fala com um típico vêneto ele fala só de trabalho: “eu levei a bosta da vaca”, “eu arei o campo”. Falam somente disso e quando você encontra os filhos desses aí na discoteca e eles te vêem, dizem: “negro”. Você se

134 Nome fictício.

ofende, entendeu? Eu tive um período que realmente eu não sou um tipo que caça briga, mas me aconteceu de estar no meio de uma. Eu até denunciei uma pessoa porque tudo começou na discoteca e eles nos ofenderam e chegamos aos socos e meu amigo se machucou muito. Fomos parar no hospital com a ambulância. Para denunciar os médicos te examinam. Ele estava muito mal, bateram muito nele. Somente porque você é negro. No final isso nunca tinha me acontecido. Jogaram em nós até uma grade de ferro. Coisa louca! Quando eu fui contar ao advogado ele me disse que não era pela agressão física, mas se podia fazer algo pela ofensa. Se você for diante de um juiz a ofensa é mais considerada que a surra que você levou. Se alguém disser “negro” isso conta mais do que a agressão física. Mas no final, eu, essa denúncia não levei adiante, porque os advogados, a polícia... se você denuncia não acontece nada no final. Isso foi um dos motivos. Eu vejo todo dia racismo ao redor de mim. Não tem nada que se possa fazer. Isso tem, no trabalho, eu trabalho numa oficina mecânica. Somos em seis. Trabalho ali há 10 anos entendeu? Meu chefe é como um irmão pra mim. É italiano. Seu pai é o chefe. E em 10 anos sempre me ajudaram. Tem também coisas boas aqui, como qualquer outro lugar. Eu digo que aqui os venetos são racistas porque já andei pela Itália e aqui tem uma grande ignorância.

Os veroneses... é uma zona da “pianura padana”. Aqui as pessoas... se você vai em Rimini é um outro tipo de mentalidade. Aqui são assim porque são fechados. Não aceitam ver mudanças. Como em Rimini tem muito mais centros sociais ou como em Bologna. Tem muitas festas multiétnicas. Coisas que fazem aproximar as pessoas, todos, não só quem é mulçumano ou protestante. As pessoas passam a estar juntas. Aqui, ao contrário, essas coisas não fazem. Talvez em Verona algumas vezes tem a “Festa dos Povos”135 e às vezes tentam fazer festa, mas são Bonifacio onde eu moro essa festa não existe. Tem só festa da cidadezinha. Não tem nunca uma coisa nova. Mas também para os jovens não tem mais nada. Não tem mais centro de juventude. Eu cresci num centro de juventude. Agora não tem mais nem na zona vizinha. Não fazem mais nada para os jovens, sempre a mesma festa local, para os italianos. Tantos grupos que existem, poderiam deixar tocar todos, mas é sempre os mesmos, entendeu? Porque nós negros estamos aqui, a mistura tem e isso dá medo neles, eu vejo isso. Eles têm medo de perder a cultura deles. Eu não vejo neles grande apego à cultura deles como os brasileiros, os africanos. Eles não têm vontade de abrir-se e nem de manter a própria cultura.” (Bayde, 26 anos, desde os 6 anos na Itália, natural do Senegal, músico e operário em uma oficina mecânica)

Uma jovem de Guiné-Bissau, estudante universitária, adverte como percebe o bairro.

“Me mudei em 2003. Fiz 12 meses de Erasmo. Eu vivi antes na Província. Via Veronetta pela televisão e eu vinha comprar extension para meu cabelo. Quando se falava daqui era sobre droga, esfaqueamento. Eu sinceramente tinha medo. Eu caminhava durante o dia. Depois vivendo aqui todos os dias, conhecendo as pessoas, acabei por não preocupar-me. Eu tinha um namorado que vivia no 52, eu terminava a

135 A “Festa dos Povos” (Festa dei Popoli) em Verona é uma festa anual criada pela Arquidiocese de Verona e associações de imigrantes com o intuito de “sensibilizar à mundialidade” como explica o site da festa. É um momento de encontro entre diversos povos, troca de experiências, danças típicas, comidas de vários países, além de um ato político de denúncia contra o racismo, a xenofobia e a discriminação.

universidade e ia para lá. Eu não me sinto em perigo aqui em Veronetta. Eu me identifico. Vejo as pessoas de dia, vejo que são pessoas, que estão bêbadas.

Veronetta é perigosa porque tem drogas. Veronetta tá cheia de residências universitárias e são os “filhinhos de papai” que podem se permitir de comprar a droga. Existe este giro, essa circulação de droga que os imigrantes conseguem, conseguem dos italianos. Estou segura disso. Sabe-se que a circulação está nas mãos das pessoas que podem. E outra coisa, se fala mais de Veronetta em época de eleição. Essa é a coisa que notamos também. Quando tem eleições regionais se fala de Veronetta. Porque existe partido que é a favor de certa coisa, outro não é. Falam mal e prometem que vão resolver, como “nós somos os que vão vos proteger dos imigrantes”. É isso! Mas eu sei que Veronetta não é um bairro fácil, tem polícia o tempo todo que vai e que volta, mas não é o que querem fazer acreditar.

O bairro é cheio de possibilidades, de coisas positivas que se poderia fazer acontecer. É cheio de culturas diferentes. É uma coisa muito bonita se quisessem dar valor. Fico surpresa, pois Verona como cidade pode fazer isso, mas não existe uma vontade verdadeira. Creio que seja porque se quer fazer uma política e ganhar votos. Sabemos que no Norte se lava o dinheiro sujo do Sul.136 E isso é uma coisa mais grave. Todo o problema de Veronetta está na rua XX de setembro. Essa rua principal. Rua Nicola Mazza é uma rua seguríssima. Eu caminho nessa rua às 2 ou 3 da madruga. Rua San Nazaro não creio que seja muito perigosa. Todo o problema está na XX de Setembro. Não dá pra entender como uma cidade como Verona não resolva o problema de Veronetta. Aqui é cheio de meninos e começando por eles pode-se mudar a mentalidade, se existe uma “má vida” enraizada, eu penso que o problema é muito maior: “eu quero voto e vou aí”. (Cristina, 40 anos, da Guine Bissau, estudante universitária, desde 2002 na Itália).

Carlos, do México, diz como soube do bairro através de uma senhora italiana que, segundo ele, deu “algumas dicas” úteis para sua inserção na cidade:

“Quando eu cheguei aqui na Itália frequentei uma escola para estrangeiros que queriam o diploma do ensino fundamental, à noite. Aqui não tem ninguém que te fala como são as coisas, eu não aconselho ninguém de migrar. Então eu conheci uma senhora que me explicou algumas coisas, ela disse que Veronetta está numa zona de estrangeiros “então fica sossegado” (disse a senhora). E na prefeitura tem os arcos, agora não tem mais e tinha pessoas se drogando, para ela era uma zona pra evitar” (Carlos, 49 anos, natural do México, operário e sindicalista, desde 1998 na Itália).

E Antonio137, da ex-Iugoslávia, explica sobre os imigrantes em Veronetta.

“Todos os bairros da cidade são assim, mas estão mais aqui em Veronetta porque aqui tem o dormitório da Caritas138. Aqui se está bem, o governo dá casa, curso de língua, dá

136 Essa fala de Cristina é devido ao fato de que a população do Norte da Itália enfatiza que a máfia italiana e todos os outros problemas estão no sul do país.

137 Nome fictício dado pelo entrevistado (diferente de seu nome original).

138 Caritas é uma instituição da Igreja Católica presente no mundo inteiro que tem como objetivo o trabalho com as causas sociais e os direitos humanos de grupos mais vulneráveis. Na Itália, é uma das instituições envolvidas com o direito dos imigrantes e refugiados. Inclusive, em 2015 foi alvo de diversos ataques de neo-fascistas que depredaram e picharam a sede da Caritas, como sinal de protesto contra a acolhida de imigrantes pela Instituição.

tudo. Antes eu tinha um açougue, era cheio de africanos. Eu cheguei aqui aos 13 anos. Antes era melhor aqui, por questões de trabalho. Os italianos me admiram porque eu trabalho muito.” (Antonio, ex-Iugoslávia, na Itália há 30 anos)

A imagem de brasileiros sobre o bairro, chamando-o de o “Brooklin” da Itália, foi particular, e mostra também a comparação do contexto italiano com aquele americano, realidade muito próxima aos brasileiros devido à grande imigração para os Estados Unidos e das “vozes” que circulam no Brasil sobre a “América”.

“Aqui é o Brooklin da Itália [se referindo a Veronetta]. Tem o mundo todo aqui. Eu gosto de morar aqui. Tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que tem o mundo inteiro aqui. Tem o mundo inteiro. O lado ruim é que tem aqueles que fazem confusão.” (Jerry, brasileiro de Pato Branco (PR), 28 anos, há 10 anos na Itália).

Em uma conversa com um grupo de brasileiros num bar, na qual também Jerry estava presente, na parte mais estigmatizada do bairro, ao redor da Porta Vescovo, Marcio, um brasileiro há 12 anos na Itália, e que está no país de forma indocumentada, depois que revelei a eles que fui seguida à noite por dois homens italianos dias antes, disse:

“Mas você sabe onde você está? Estamos no Brooklin. Aqui vem muita mulher fácil. Não é culpa do homem. (...) Nós te observamos desde quando você chegou. Te analisamos, mas você foi encontrar um velho [se referindo a Enrico, meu informante italiano], ao invés de falar com nós.”

No ponto de vista dos brasileiros que viviam ali, eu, como também sou brasileira, deveria ter procurado por eles para que me apresentassem o bairro.

Para um jovem brasileiro, que abriu recentemente um bar numa das ruas mais estigmatizadas do bairro, o espaço é visto da seguinte forma:

“Aqui é o Gueto de Verona que eles chamam, né? É uma rua que 20, 30 anos atrás era uma das melhores ruas para se morar em Verona. Quando eu cheguei era pior ainda. Porque tudo quanto é estrangeiro que chegava em Verona vinha morar aqui. O aluguel era barato. Ninguém pedia contrato. Muitos chegavam sem documentos. Então, tinha a senhora que tinha 3, 4 apartamentos e alugava para os estrangeiros. Aqui abriram as primeiras lojinhas africanas, chinesas e brasileiras. Aí o pessoal vem sempre pra cá comprar as coisas. Eles me incomodam. Eu tive problemas com eles dois dias atrás porque eles queriam entrar e queriam vender coisas ilegais aqui dentro, como droga. Eles queriam entrar, deixar no banheiro e sair. Daí a polícia para eles e não tem nada, mas aí eles ligam para outro e dizem “Ai, passa lá no bar do moleque”, e bebem um café e vai ao banheiro porque tá lá atrás do quadro. Eu já saquei isso no primeiro dia. Porque não queria ser racista, eu falei “pode entrar, beber um café, só não pode encher o saco.” Eu respeito vocês e vocês tem que me respeitar. Aí não deu certo. Meu sócio viu e falou

também. Eles me falaram “você é racista porque não posso entrar aqui”. Eu chamei um amigo meu que é da polícia federal italiana. Eles vieram aqui fardados, conversaram com os caras e a partir daí, no dia depois, eles passavam aqui e nem olhavam pra dentro. Eu quero que eles fiquem longe. Senão me queimam, queimam meu bar.” (Caique, Brasileiro, 20 anos)139

Para outro jovem brasileiro:

“É uma zona que se degradou bastante. Hoje em dia eles ficam ali. É dividido por zona. Parece brincadeira, né? Mas é dividido por continente. Por exemplo, aqui na frente da loja ficam mais brasileiros, do lado direito os cubanos, latinos mais do lado esquerdo. Mas a gente conhece todo mundo, mas não é que fica todo mundo misturado. Fica tudo dividido. Mais pra frente, no final, perto da Praça Santa Toscana, ali ficam mais os marroquinos e tunisianos. Essas coisas assim...” (Otávio, 22 anos, há 10 anos na Itália).

Peter, autor de um documentário sobre Veronetta, disse que “Quando eu estava fazendo o documentário sobre Veronetta, muitas pessoas diziam que era um bairro degradado, negativo. Eu, para poder contar, tive que andar nele de dia e de noite, frequentar, sentir o cheiro, o sabor, conhecer. Eu andava sempre de bicicleta, ninguém nunca me tocou” (Peter, 26, da Nigéria, na Itália desde 2004). Seu documentário, “Veronetta, outra face de um bairro”, desmistifica essa imagem negativa de um conflito constante entre imigrantes e autóctones, além dessa fama de “bairro violento” que apontam as “vozes” que circulam sobre esse bairro. No filme ele entrevista tanto imigrantes quanto italianos que falam da riqueza que é morar num lugar onde todas as culturas se encontram. Uma das cenas interessante que Peter filmou e participou, no bairro, foi de um casamento entre uma jovem italiana e um jovem do Sri Lanka em Veronetta. O intercâmbio cultural, de acordo com o documentário de Peter, é muito mais positivo que a imagem que se tenta criar e difundir sobre aquele espaço.

Caminhando pelas duas ruas indicadas como as mais “perigosas” (Rua XX de Setembro e San Nazaro) ou frequentadas por “vagabundos e “drogados” percebi uma grande presença de homens de diversas nacionalidades que param de frente a alguns locais para beber, fumar e, segundo alguns comerciantes, para usar drogas e também para vender. A necessidade de chegar até esses homens para poder conversar foi grande, pois os outros imigrantes apontavam esses espaços frequentados por eles como maior zona de insegurança. Na primeira vez que fui sozinha, não consegui falar com nenhum deles. Como já exposto anteriormente (Capítulo 1), o corpo de uma mulher é suscetível a cantadas e, em outros casos, até mesmo de violência. Aqui vale recordar que não se

139 Nome fictício.

trata do fato de serem imigrantes, mas sim de serem homens a ocupar o espaço público da rua, para eles um dado natural. Também citei o caso dos dois senhores italianos que nos seguiram, a mim e a outra jovem imigrante. Na segunda vez eu abordei um deles e perguntei se poderia conversar, mas percebendo depois que estava bêbado, desisti. Existem muitos africanos no bairro que pedem esmolas, principalmente na frente de supermercados. Fui abordada por um deles que disse “Eu preciso, querida” (“Ho bisogno amore”) e ouvi um italiano que respondeu “Eu também preciso, vai trabalhar você também”.

São esses comportamentos apontados como causa de perigo e ameaça no bairro, como uma zona a ser evitada. O conceito de degrado está associado à questão da segurança (MANERI, 2001), como um problema que foi “securitizado” (LEONARD, 2010) e ligado à presença de certos grupos, como os imigrantes, que para o imaginário coletivo são os responsáveis pelo deterioramento da paisagem urbana, portadores da desordem social e da ameaça à segurança. Essas políticas modernas, porém que reproduzem velhas lógicas, como da “cirurgia social”, buscam estabelecer um confim nítido entre o que as sociedades consideram por “classes trabalhadoras” e as presumidas “classes perigosas” (SIMONCINI, 2012). Aqueles que cumprem essa função hoje, segundo esta autora, são os imigrantes, os islâmicos sobretudo, e os ciganos, as populações de periferia, os movimentos sociais e políticos mais radicais que são construídos diariamente como categoria “desviante”.

Como bem notaram Elias e Scotson (1990) sobre o bairro que estudaram na Inglaterra, também uma zona estigmatizada, motivo que levou os pesquisadores a realizar um estudo sobre as relações sociais produzidas ali. As opiniões de cada um sobre o próprio bairro e os bairros vizinhos, nesse contexto, como em muitos outros, não eram inicialmente formadas por cada indivíduo para si mesmo; formavam-se no âmbito de uma troca de ideias continuas dentro da comunidade, no decorrer da qual os indivíduos exerciam considerável pressão sobre os outros, para que todos se conformassem à imagem coletiva da comunidade na fala e no comportamento (ELIAS; SCOTSON, 1990: 54-55). A maioria dos imigrantes do bairro com que conversei reproduz a mesma ideia geral que se ouve dentro e fora do bairro. Dentro e fora dele, ou seja, na sociedade que encontra os adjetivos e a linguagem para se falar do espaço em que vivem.

Como Veronetta está muito próximo do centro de Verona, ainda que “fora dos muros”140, não se pode dizer que essa significativa quantidade de imigrantes está “empurrada” para as periferias da cidade. O abandono para com o espaço público e, consequentemente, em relação às interações sociais é um problema muito particular do Estado italiano que vem sendo colocado como um problema de imigração, e não como descaso das autoridades locais.

Quando perguntei a algumas pessoas o que levou os imigrantes ao bairro, alguns apontaram que o aluguel das casas era baixo. Ficou claro que não foram os imigrantes que fizeram com que a área abrangida por Veronetta se tornasse degradada, mas sim o degrado previamente presente nos apartamentos velhos e sem reformas (extensivo à “paisagem” de quase todo o bairro), cujo menor custo do aluguel atraiu e continua