CAPÍTULO 3 IMIGRAÇÃO E INSEGURANÇA NA ITÁLIA:
3.3 A representação do imigrante na mídia italiana
Segundo Corte (2002), os meios de comunicação italianos desenvolvem um papel importante na criação e divulgação de estereótipos. Umas das categorias mais recorrentes da mídia no uso desses estereótipos são os imigrantes. Na maioria das vezes, os meios de comunicação relacionam os imigrantes somente a casos de crimes, sem espaço para o aprofundamento da questão, transmitindo unilateralmente a mensagem de conotação negativa sobre o fenômeno migratório. Uma vez ignorados, os imigrantes não tem “voz”, ou seja, os problemas que dizem respeito à imigração nunca são narrados pelo próprio imigrante. Ao final, a imigração ganha visibilidade somente em casos de “emergência”, quando constitui um problema, uma ameaça à ordem publica, suscitando medo e hostilidade nos cidadãos italianos. A imagem predominante apresentada na mídia, percebida por Corte (2002) ao analisar alguns programas televisivos, é aquela ligada à criminalidade (conhecida na Itália como “cronaca nera”).
O autor enfatiza, com base em suas pesquisas, que diante dos cidadãos imigrantes os jornais revelam uma mentalidade provinciana, verdadeira preguiça intelectual, preferindo a ilusão da segurança a um aprofundamento crítico das grandes mudanças sociais. A narrativa jornalística se baseia no relato, no “ouvir dizer”, sem investigação dos fatos, limitando o tratamento dos eventos quotidianos sem reflexão sobre os problemas. Na maior parte dos casos, as notícias se concentram na imigração irregular ou clandestina, sendo pouquíssimas as notícias que falam dos imigrantes presentes de forma regular no território. Talvez porque, como diz Corte (2002), estes últimos não dão audience, não suscitam o interesse da população.
Outra maneira de representar os imigrantes é através da forma monolítica, isto é, como se todos os imigrantes de determinado país fossem iguais ou o mesmo sujeito. No caso dos “albaneses” e dos “marroquinos”, por exemplo, acontece assim. Esses imigrantes, representados como um bloco homogêneo, não têm nem mesmo uma identidade, e a eles são atribuídos uma série de adjetivos como “pobrezinho”, “sujo”, “perigoso”, “bom” (quando morrem), “malvado”, e “o estrangeiro” (CORTE, 2002:
123 A notícia é reportada no site do jornal. Disponível em
http://mattinopadova.gelocal.it/padova/cronaca/2015/06/25/news/immigrati-in-pattuglia-insieme-ai-vigili- urbani-1.11674092 (Acesso em 21/09/2016).
106). Quando não é delinquente, o imigrante é a vitima, mas nunca no mesmo nível que os italianos. E mesmo quando os meios de comunicação exaltam o trabalho feito por imigrantes, é quase sempre como “trabalho que os italianos não querem fazer”. Por isso eles são úteis enquanto produzem riqueza para o país.
Outro fenômeno muito explorado pelos meios de comunicação italianos é a chegada de refugiados pelo mar Mediterrâneo. Todos os dias os jornais mostram, incansavelmente, barcos superlotados de refugiados dentro de uma narrativa de “invasão”. Essas pessoas nem sequer têm nome e muito menos país de origem: sabe-se somente que são uma massa homogênea de corpos negros rumo à Itália e à Europa. Essa imagem da invasão é formada pela ausência, como disse Corte (2002), de uma narrativa das causas estruturais sobre o problema. Quando, por exemplo, morreram 366 pessoas em um naufrágio no mar Mediterrâneo, o que se viu nos telejornais foram corpos mortos privados de nome e história. São recorrentes, ainda nesta mídia, títulos como “cidade invadida por refugiados” e “onda de imigrantes”. A seguir, algumas manchetes recentes dos principais jornais italianos:
a) “Chegando uma invasão de imigrantes da Líbia” (Il Giornale d’Italia, 16/09/2016);
b) “Como, invasão de imigrantes expulsos na fronteira com a Suíça” (Il Giornale.it, 11/07/2016);
c) “Imigração: onda de desembarque na Sicília: socorridos quase 1.500 imigrantes” (TGcom24, 25/07/2015);
d) “Imigrantes, ainda emergência no Mediterrâneo: socorridos mais de três mil, além de 20 corpos” (La Repubblica, 22/10/2016);
e) “Emergência Imigrantes: Itália pede ajuda também aos Estados Unidos” (La Stampa,18/10/2016);
f) “Isis, alarme do ministro líbico: ‘Terroristas chegam à Itália nas embarcações com os imigrantes” (Il Messagero, 15/05/2015).124
124 Tradução livre: a) “In arrivo un’invasione di migrante dalla Libia” (in: http://www.ilgiornaleditalia.org/news/primopiano/881072/In-arrivo-un-invasione-di-migranti.html); b)
“Como, invasione migranti respinti della frontiera dagli svizzeri” (in:
http://www.ilgiornale.it/news/cronache/como-invasione-migranti-respinti-frontiera-dagli-svizzeri-
1282386.html); c) “Immigrazione, ondata di sbarchi in Sicilia: soccorsi quasi 1.500 refugiados” (in: http://www.tgcom24.mediaset.it/cronaca/sicilia/immigrazione-ondata-di-sbarchi-in-sicilia-soccorsi-quasi- 1-500-profughi_2124568-201502a.shtml); d) “Migranti, ancora emergenza nel Mediterraneo: soccorsi più
di tremila, oltre 20 i morti” (in:
http://www.repubblica.it/cronaca/2016/10/22/news/emergenza_migranti_nave_vibo_valentia_cagliari_lib ia-150362779/?ref=search); e) “Emergenza migranti, l’Italia chiede aiuto anche agli Stati Uniti” (in: http://www.lastampa.it/2016/10/18/italia/cronache/emergenza-migranti-litalia-chiede-aiuto-anche-agli- stati-uniti-au45Ch2F0WpejaqXnjLVKL/pagina.html); f) “Isis, allarme del ministro libico: ‘Terroristi
arrivano in Italia sui barconi dei migranti” em
http://www.ilmessaggero.it/PRIMOPIANO/ESTERI/isis_terroristi_arrivano_barconi_migranti_ministro_l ibico_allarme/notizie/1349387.shtml (acesso em 21/10/2016).
A mídia italiana criou essa metáfora da “invasão” e contribuiu para a criação da imagem do imigrante como causa de perigo, medo e insegurança social, a princípio, com a chegada de barcos albaneses na costa italiana em 1991 (ENAUDI, 2007). Na análise do autor, o problema foi a espetacularização da segunda embarcação, em agosto do mesmo ano. A imagem de um barco que trazia de 10 mil a 12 mil pessoas, inclusive nas pontes do barco, sob o teto e em todos os ângulos possíveis, foi a imagem decisiva para aquela que muitos opositores da imigração chamaram de “invasão” da Itália. O espetáculo midiático explorou a tragédia humana nos terríveis detalhes e, dessa vez, todos eles foram mandados de volta à Albânia, e os que se opuseram foram algemados como criminais. Enaudi (2007) diz que, na época, a maior parte da população italiana apoiou a expulsão dos albaneses. E a partir daí os partidos políticos de direita instrumentalizaram o episódio e começaram a fazer da bandeira da “invasão” e “anti- imigração” o principal mote de suas campanhas.
Figura 6.Foto do jornal “La Repubblica” (13.08.1991) mostra a chegada de barco com albaneses no porto de Bari
Fonte: Jornal “La Repubblica” (acesso em 17/02/2016)
No caso das atuais chegadas de imigrantes pelo mar Mediterrâneo, a metáfora da “invasão” é ainda mais intensa e frequente. Despolitiza-se tal movimento de pessoas causado por diversas guerras em que, geralmente, a própria UE participou com ajuda militar, tendendo à apresentação desse “êxodo” de pessoas como um problema isolado dos países de origem. As fotos (abaixo) demonstram como imagens expostas cotidianamente na mídia italiana, tanto escrita quanto televisiva, pode construir à imagem da imigração como uma invasão de massa.
Figura 7. Chegada de imigrantes na costa italiana
Fonte:Foto do jornal “La Repubblica”, de 22/07/2004.
Figura 8: Imigrantes recém-chegados na Ilha de Lampedusa (sul da Itália)
Fonte: Sky TG24 (30 de abril de 2011).
Imagens como essas são tão corriqueiras quanto semelhantes na televisão e nos jornais italianos. A narrativa que as acompanha, também constante, é aquela em que a Itália está sendo “invadida” por africanos, mulçumanos, albaneses, e assim por diante. Com efeito, o discurso é idêntico àquele visto no caso da Albânia no início dos anos 90. Porém, o momento atual é extremamente alarmante devido a aspectos até então inéditos neste contexto migratório, a começar pelas milhares de vidas perdidas durante a travessia, à política europeia – sobretudo no caso italiano – de militarização dos mares e das fronteiras e à restrição aos pedidos de asilo político. De fato, aqui vale a pena ressaltar o recorrente descaso da política italiana para a acolhida de refugiados, cujas “manobras de Estado”, algo entre o irresponsável e o adiável, se mostram incapazes de
resolver o problema; pelo contrário, tendem a acentuar ainda mais as condições de precariedade em que há tempos vivem os refugiados nesse país.
A Comunidade Europeia repassa ao governo italiano grandes somas para garantir o sustento dos refugiados no país, sendo da responsabilidade deste repassar a quantia de 35 euros por dia, por cada pessoa, a entidades e cidadãos italianos que acolham certo número de refugiados. Muitas são as entidades e os indivíduos que se inscrevem para receber refugiados: ONGs, associações, conventos católicos, hotéis ou mesmo famílias. A quantia, porém, é totalmente administrada pela entidade ou pessoa que a recebe, ou seja, não vem a ser repassada diretamente ao refugiado. Em Verona, por exemplo, em março de 2016, dois refugiados acolhidos no Hotel Rizzi (na região de Bussolengo) morreram por causas pouco claras. Alguns jornais noticiaram a provável causa das mortes como o uso de cremes para “branquear a pele”, trazidos da África. Na mesma época, no Ostello della Gioventù, ainda em Verona, viviam 90 refugiados políticos e, segundo um deles, a cada oito dias cada indivíduo recebia 20 euros para suas despesas pessoais. Fazendo as contas, a instituição recebe por dia do governo italiano o total de 3.150 euros, ou ainda 94.500 euros por mês. É verdade que os refugiados vivem, almoçam e jantam no local, porém existe um lucro aqui, e que é bastante alto.
A Amnesty International denunciou também o acordo secreto feito entre Líbia e Itália para conter o fluxo migratório que chegava à costa italiana, através da Líbia, em agosto de 2008. Ainda que os termos do acordo não tenham sido divulgados publicamente, sabe-se que ele prevê que a Itália ressarça por 20 anos a Líbia por “danos causados pelo colonialismo”. O papel da Líbia no acordo é de não deixar os imigrantes chegaram à Itália através da prisão dos mesmos, prisão essa que, segundo a Amnesty, fere os direitos humanos em termos de asilo político, pois não considera a situação de guerra e de fuga dos países africanos. As prisões líbicas foram denunciadas como verdadeiros campos de concentração onde muitos africanos se encontram a anos sem nenhum julgamento, e onde a tortura e todos os tipos de violência são corriqueiras. Diversas mulheres que conseguiram chegar à Itália depois de períodos nas prisões líbicas chegaram grávidas e relataram a rotina de estupros e torturas que eram submetidas diariamente.
Em junho de 2009 Gaddafi, o ex-presidente da Líbia, proferiu um discurso público na Universidade “La Sapienza” de Roma e, questionado por um dos presentes sobre a violação de direitos de refugiados no seu país, respondeu que os africanos não são políticos, não entendem de política ou de partidos, e são selvagens que vivem nas
florestas, afamados e pobres, que estão em rumo à Europa para roubar a riqueza que eles retêm ter sido roubada anteriormente pelos europeus.125
Ainda em matéria de asilo político, a mídia italiana trata os refugiados não como sujeitos de direitos, mas como se a Itália prestasse um favor ou uma caridade aos seus requerentes. Em uma reportagem do jornal “La Repubblica”, cujo título era “Os refugiados limpam Turim: por três meses 27 refugiados varrem voluntariamente”126, é dito na matéria que através de um projeto entre a prefeitura e uma organização, tais refugiados limpam a cidade “voluntariamente” como forma de agradecer a acolhida recebida na cidade. Este é um exemplo claro de como a questão dos refugiados na Itália não é vista como política ou como direito, mas como um “favor” prestado, enquanto entidades lucram com essas vidas e o governo “desperdiça” dinheiro com medidas nada eficazes, sem nenhum projeto a longo prazo.
Sobre a imagem do Islã na mídia italiana, Bruno (2011) enfatiza que a representação dominante coloca em termos de “choque de civilização” entre o Ocidente e o Mundo Islâmico toda a questão da relação entre europeus e o povo mulçumano. Existe, segundo o sociólogo, uma associação “natural” entre os termos “fundamentalismo”, “terrorismo”, “guerrilha” e o adjetivo “islâmico” (BRUNO, 2011: 152-153). As imagens mais recorrentes que ele analisou foram: imagens de guerra, carnificina e atentados; multidão em revolta e homens que portam armas; multidão em oração e fora do contexto; manifestações anti-islâmicas no ocidente; mulheres com o véu; imagens de contraste entre o Islã e o ocidente; imagens exóticas e de sensualidade. (BRUNO, 2011: 168/169).
Também a representação da categoria “badanti” (cuidadoras de idosos), tão necessária a um país com alta taxa de pessoas idosas em sua população, é precária e distorcida, ainda que esta função se refira a um trabalho de cuidado especial que requer muita confiança, pois reduzido ao âmbito doméstico, as mulheres cuidadoras de idosos, na sua maioria imigrantes, têm acesso à vida da família e permanecem ali até que o idoso venha a falecer. Mesmo diante disso, a mídia representa essas mulheres muitas vezes como perigo, ameaça e causa de desconfiança (VACCARI, 2015). A autora reporta algumas manchetes de jornais, tais como: “Modena, ex-cuidadora se torna
125 O discurso de Gaddafi pode ser visto em um vídeo, através do link
http://fortresseurope.blogspot.com.br/2006/01/il-discorso-di-gheddafi-alla-sapienza.html (Acesso em 29/04/2016).
126 In:
http://torino.repubblica.it/cronaca/2016/04/23/news/i_profughi_puliscono_torino_per_tre_mesi_27_rifugi ati_spazzini_volontari-138276867/?ref=HREC1-7 (Acesso em 01/05/2016).
esposa, bate no marido. Presa” (La Repubblica, 13/01/2012); ou “Cuidadora jovem e bela depena um homem de 50 anos, sacristão, e faz ‘desaparecer’ 300 mil euros” (Il Gazzettino. Vicenza, 17/02/2013). Tais notícias supostamente escondem uma violência diária que as “badanti” enfrentam no dia a dia, incluindo os riscos de assédio e de violência física, mas, sobretudo, de exploração no trabalho, como mostra um anúncio publicado em site italiano de empregos (em 26/11/2014): “Procura-se badante para idosa de cama para assistência dia e noite. Ofereço comida e alojamento mais uma quantia mensal a ser negociada.” (www.jobindex.it apud VACCARI, 2015).
3.4 A percepção dos italianos sobre a imigração e a recepção do discurso da