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A cidade e sua história

No documento Próximos dias... (páginas 31-40)

– “E há esperança quanto ao teu futuro, diz o Senhor, porque teus filhos voltarão para os seus termos. Jeremias 31:17” – Entoou o padre Anselmo, ao fim da missa. O pároco deu a benção e a igreja, com seus míseros paroquianos, iam saindo devagar.

– Herculano, preciso lhe falar. – Disse o padre.

– Pois não, meu caro.

– Estamos numa seca maior do que de costume. A cidade está perdendo sua última capacidade de água. Não chove há três anos e desde que você chegou sua missão tem sido realizar campanhas e expedições nos arredores em busca de água.

– Padre, sinto não ter conseguido nos últimos meses.

– Não é culpa sua. Quero propor uma força tarefa para cavarmos um poço.

– Como? Estes homens não possuem força suficiente. Estamos fracos, desnutridos. Não sequer alimentos básicos, frutas...

– Eu sei. Mas precisamos encontrar forças.

– Temos ferramentas, sim, não temos é vigor físico.

– Eu sei, mas estou disposto a ajudar.

– E quando o senhor pretende chamar o povo?

– Amanhã, depois do terço. Os homens devem estar todos na cidade Aí falamos do plano.

32 – Como queira.

Herculano deixou a igreja e foi encontrar-se com Vânia e as crianças. A cidade era um fiasco de povoado. Das igrejas evangélicas que existiam, todas fecharam as portas.

Muitos fiéis fugiram para rumos incertos e os que ficaram retornaram ao catolicismo ou a ele se aliaram. Nem todos estavam na igreja de Cristo por convicção, mas a esperança de se agarrarem a algo que os mantivesse vivos. Nos tempos de crise, a igreja Católica foi estocando alimento e água. Todos os dias. Durante os últimos dez anos.

Pelas ruas, casas e casebre se mantinham de pé. Ruas esburacadas, paredes caindo, poucas ainda mantinham um vigo original. A energia elétrica era raríssima e o comércio não sobreviveu. Cada um se virava como podia e a única salvação era o alimento estocado na igreja. A ração do governo, com validade infinita, e a água que conseguiam pegar, em chuvas sem ácido. As praças vazias, o céu sempre sem luz e o cheiro de podre soprando.

– Está quase no fim.

– O que disse, querido?

– O alimento está quase no fim. E nem sinal de água.

– Acredito que teremos uma saída. Tenha fé.

– Eu tenho.

– O que o padre queria com você?

– Organizar uma reunião amanhã, após o terço. Quer cavar um poço.

– Como?!

– Isso mesmo. Cavar um poço.

– Como? Com que forças? Nossos vizinhos mal conseguem se segurar. A ração é pouca.

A água é pouca.

– Precisamos disso. As buscas já não nos dão esperanças. Percorremos longos trechos e nem uma gota. Tudo o que temos vem dos estoques da igreja e de chuvas não ácidas que caem vez por outra.

– Espero que vocês encontrem outra solução. Pois um poço neste solo deve ser muito fundo. Os riscos são enormes.

– E o que temos a perder?

– Eles eu não sei, mas eu tenho você.

– Vamos tentar. É o único jeito.

Herculano saiu da presença da esposa e foi caminhar pelos arredores da chácara.

Gostava de perambular pela terra seca e observar nos galhos retorcidos uma certa

33 poesia. Contemplava o lugar como se ali fosse Canaã, a terra do leite e do mel.

Conhecedor da história e leitor assíduo de tudo, lembrou-se do enredo que fora criado em torno de Brasília, o sonho de dom Bosco. Pensou que ali também poderia acontecer o mesmo com ele.

_ O que você tanto procura, meu filho? – Quis saber Matias, o velho dono da casa.

– Nada meu amigo, nada. Gosto de pensar que aqui vai acontecer um milagre.

– Sua fé me espanta.

– Por quê?!

– Você a pratica com tanto entusiasmo. Minha Rosa acha isso bonito em você.

_ Bonito são vocês. E a propósito, obrigado pela acolhida. Somos gratos eternamente.

– Nós é que agradecemos. Vocês nos trouxeram luz.

Herculano se afastou e continuou sua caminhada em direção a parte alta da chácara. O caminho era um pedregulho claro, que por aqui chamavam de seixo. Foi subindo a ladeira e foi se afastando cada vez mais da pequena casa. Parou, e olhou para trás como quisesse ser visto ou avistar algo. De longe viu Matias e sua Rosa na varanda e retornou seus pensamentos a dom Bosco. ““Entre os graus 15 e 20 havia uma enseada bastante longa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: – Quando vierem escavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, de onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.” O ano era 1883, no mês de agosto.

Mas ali, em 2029, Herculano não cria neste milagre e sua caminhada pela terra de Matias terminou ali, no tronco de um angico-branco. Olhou em volta e notou que existia, em tempos remotos, uma pequena poça de água. O solo rachado escondia o que um dia foram palmeiras, talvez de buriti, planta que só brota em nascentes. Herculano verteu uma lágrima e fixou o olhar naquele pequeno espaço circular.

– “Meu Deus, o que será de nós”?

O homem culto e de palavras fáceis sempre tinha uma resposta científica para explicar tudo aos seus alunos e aos seus pares, mas jamais deixou que a ciência inundasse sua fé com fraquezas. Ao mesmo tempo em que cria na explicação científica, atribuía a ela uma manifestação de Deus. E para explicar sua “dicotomia” usava sempre a expressão:

“Deus não é mágico.”

A gota que rolou do seu rosto fez uma marca no solo árido. Um pequeno rosto de mulher, uma pequena silhueta disforme. Rezou e voltou para casa.

34 Cristalândia tinha, em 2018, cerca de dez mil habitantes entre a população rural e urbana.

A cidade, encravada no sul do Piauí não tinha produção agrícola de exportação e vivia basicamente dos benefícios do governo e da agricultura familiar. Sua população, pobre, contentava-se como pouco e lá cuidava da vida, dos filhos e da terra. A cidade tinha como riqueza a água do Rio Parnaíba e ficava próxima a estado ricos como Bahia, no oeste, do Tocantins, ao norte, e, claro, o Piauí, ao sul.

– Meus irmãos, vamos tratar de assunto grave, mas urgente.

O Padre iniciou sua fala olhando os homens do lugar. Não tinha mais do que cinquenta homens. A maioria, já velha e fraca, nem se dispunha a ir a reunião. Aqueles que ali estavam criam que as palavras do velho sacerdote pudessem lhes trazer algo como um milagre. Mas o milagre seria às custas de muito suor. Em 2029 aquilo era impossível aos olhos daqueles homens.

– Precisamos cavar um poço.

O murmurinho, o falatório e as lamentações foram ecoadas. Padre Anselmo e Herculano, ambos à frente da plateia, entre olharam-se e deixaram que todos resmungasse e murmurasse. Aquilo demorou mais de trinta minutos e os dois não ousavam interromper.

– Cavar como? Mal temos forças para falar. Sem água, sem comida...

– Padre, o senhor está brincando.

– Achamos que tinha uma notícia boa. Um enunciado de Deus.

– Vamos morrer. É isso que vai acontecer quando começarmos a cavar.

E assim a reunião foi virando um muro de lamentações, enquanto os dois homens de frente ouviam a tudo. Lá pelas tantas, o sacerdote resolveu intervir e batendo forte na mesa disse:

– Eu sei que vocês estão fracos. Sei também que não temos comida, água. Sei de tudo isso. Mas também seis que vamos morrer se não tentarmos. Herculano não achou mais água? Vocês foram com ele? Vocês viram?

– Padre, cavar não adianta. Não acharemos. Se existir água estará muito profunda. Não teremos forças.

– Compreendo. Acredito que seja verdade, mas precisamos ter fé.

– Fé?! O senhor fala de fé. Precisamos de comida.

– Deus nos abandonou. Deus nos odeia.

– Não digam isso. Como podem pensar assim e estar na missa aos domingos?

– Vamos porque precisamos nos agarrar em algo, mas quando o senhor nos diz que temos de cavar um poço, nossa fé escorre pelos dedos.

35 – Não podemos desistir. E não vamos desistir. – Insistiu o padre.

Herculano, até então apenas ouvindo, resolveu pedir a palavra. Ergueu o braço e falou com voz forte e altiva:

– Senhores. Senhores. Eu compreendo vocês. Sim, estamos à mercê da sorte e de fato, Deus parece ter nos abandonado. Mas me digam: o que vamos fazer? Nossa água estocada acabou, nossa ração está no fim. Andamos e não achamos. Vamos, respondam.

O quer vamos fazer?

Um silêncio reinou no salão da igreja. Os poucos sobreviventes que ali estavam pareciam querer muito mais do que perguntas. Era uma catástrofe anunciada há pelo menos trinta anos antes e agora estavam vendo tudo se acabar. Arvores caídas, galhos secos, nenhum canto de pássaro e nada de água. Até onde a vista alcançava viam um céu cinza e respiravam um ar quente que soprava pelos cantos. A terra agonizava e levava consigo suas crias. O cheiro da morte beirava as narinas.

– Padre! Padre!

Entrou salão adentro uma jovem, que com a respiração ofegante contando que sua mãe acabara de morrer. Era a fome contemplando nossa ganância e sem olhar culpados ceifava a todos.

– Vamos encomendar a alma.

Saiu com a moça e deixou lá dentro do salão paroquial um misto de espanto, dor e pouca esperança. Aqueles homens não esperavam milagres, esperavam a vida se esvair em minutos. Mas como que por castigo divino, uns queriam tanto que não a tinham e outros, que com fé se resignavam, estes iam ao encontro do criador. A morte tinha suas manias.

– Vamos todos pelo mesmo caminho. Não adianta cavar poços. Cavemos nossa sepultura. – Disse um dos presentes.

36 CAPÍTULO VIII – A morte chegou mais cedo

Vânia levantou mais cedo e foi até a cozinha. Pegou um caneco de água estocada e viu que estava barrenta. Usou um pano e coou um pouco. Foi até a dispensa e pegou um saquinho do governo federal com algum tipo de alimento. Era café, já com açúcar, pronto para diluir na água. Fez o fogo reacender, colocando mais gravetos, que aliás era o que não faltava e pôs a água na fervura. Não podia ser muito, pois é se vaporasse diminuiria a quantidade de café para todos.

_ Bom dia, mamãe. - Disse a pequena Ana.

_ OI filha. Já tão cedo?!

_ Mamãe, sonhei coisa ruim.

– Conte para mim como foi.

– Eu estava com o vovô Matias no quintal e aí a vovó Rosa tinha caído na varanda. A gente veio correndo e ela estava morta.

– Foi apenas um sonho. Acalme-se.

– Não foi. Eu vi de perto.

– Mas era um sonho. Eles estão no quarto, ainda deitados.

– Não estão só deitados. Estão mortos. A vovó apareceu para mim, perto da minha cama.

Ela me deu um beijo e disse que estava indo fazer um passeio. O vovô iria também.

– Ana, pare já com isso. Eles não estão mortos.

Herculano ouviu a conversa e veio ficar com elas. Olhou afetuosamente a pequena Ana e a afagou em seus braços. Vânia os deixou e foi até o quarto. De lá ouviu-se um grito de pânico e dor. Herculano saiu correndo ordenando a Ana que ficasse na cozinha. Ao entrar no quarto viu o casal de idosos abraçados, de lado, e rijos como um poste.

– Santo Deus!

– Estão mortos, Herculano.

– Vou chamar o padre Anselmo.

Saiu para a rua e ao passar pela sala viu a filha sentada num banquinho de madeira chorando baixinho. Voltou-se para ela e mais uma vez a tomou em seus braços. Beijou-lhe a cabeça e alisando seus cabelos e rosto apenas contemplou a criança e sua dor.

Descobriu que nenhuma palavra seria o suficiente para amenizar aquele sofrimento.

– Por que eles morreram?

– Porque estão velhinhos e fracos. Agora vão descansar.

– Deus é muito ruim para a gente.

37 – Não, querida. Deus é apenas justo.

Herculano desceu a ladeira da chácara correndo e foi ter com o padre. A cidade vivia sua monotonia de último suspiro. As pessoas ficavam em casa, até porque andar pelas ruas com os efeitos da radiação não era muito aconselhável. Sempre que saiam estavam muito bem cobertos. Não era só quente, era também cancerígeno.

– Herculano meu filho, esqueça a história do poço…

– Padre! Padre! Venha comigo, meus bem feitores acabaram de partir. O que mais me pediram é que lhe encomendassem suas almas.

– Meu Deus. Uma pena.

– Penso que estão melhor do que nós.

– Vamos. Vamos depressa.

Vânia tinha feito muito pouco no corpo dos dois. O casal, já velhos e convencidos de que a vida lhes sairia em breve, deixaram tudo pronto. Na noite anterior, eles vestiram suas melhores roupas, fizeram suas orações, rezaram pela humanidade e buscaram lembrar de suas vidas e caminhos que tomaram. Como não tiveram filhos, talvez nas suas meditações de resto de vida tivessem chagado à conclusão de que fora melhor assim, afinal, hoje a terra também se despede de si mesma e leva consigo tudo aquilo que um dia já foi de todos. Matias e Rosa encontraram no casal Elpis a resposta para suas orações, e um dos pedidos a Deus era o de que seus corpos não ficassem esquecidos no leito de morte. O bom e misericordioso Deus lhes mandou dois filhos e dois netos.

– Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

– Amém. – Respondeu o pequeno cortejo.

A cidade parecia reconhecer a morte dos anciãos. Eram queridos por lá e logo que a notícia se espalhou os pouco moradores foram para a chácara enterrar seus amigos. Uma cerimônia simples e sem comidas, hábito típico no Nordeste, pois todos sabiam que aquilo não era só uma morte, mas um alívio aos dias de inferno em que todos estavam metidos. Um choro aqui, outro acolá e no meio das últimas orações desceram os corpos, envoltos em colchas brancas, às sepulturas. Uma do lado da outra, sob o que restou de um jacarandá.

– Quando ele me encontrou pela primeira vez ele pediu que o enterrasse aqui. A árvore ainda existia. Ainda tinha folhas.

– Ela também cumpriu sua jornada. – Resignou-se Vânia.

Aos poucos todos saíram do lugar e por último veio Herculano. Caminhou pelos arredores, como costumava fazer e parou onde existia a antiga mina de água. Ela ficava a

38 exatos 13 metros do local das sepulturas. Os tocos secos das palmeiras pareciam firmes e era como se a seca não os tivesse consumido as finas raízes. Seria uma esperança?

O dia estava mais quente do que nunca. Parecia o final dos tempos e a família Elpis desce para a cidade. Era a missa de sétimo dia do casal de amigos. Não poderiam deixar de lhes render esta homenagem.

– Vamos. Estamos atrasados. – Chamou Herculano.

A igreja estava como sempre. Os poucos devotos ainda visitavam a casa de Deus e rezavam em busca de perdão. A missão não costumava demorar, pois a fraqueza de muitos não permitia muito esforço. Tudo era diferente naqueles dias. A vida parecia ser menos pretensiosa e qualquer tentativa de mudanças esbarrava na desesperança. Mas, mesmo assim, rezavam todos os domingos, numa missa, e na semana tinha também os terços. A lembrança do que dizia o rosário de Fátima lhes fazia crer que o céu era uma porta aberta, estreita, mas aberta, por onde entrariam aqueles que perseveram até o fim.

– Procurai primeiro o Reino e a justiça de Deus, e tudo vos será dado por acréscimo.

Disse o padre Anselmo, recitando Matheus 6:33, e continuou:

– A justiça de Deus é ver nossas famílias reconstruídas. É isso que Jesus diz: “Ora, a vontade dele”.

Aquele que me enviou é que eu não perca nenhum dos que ele me deu”, desta vez usando as palavras de João 6:39.

Eram palavras de conforto aos vivos e de súplicas a Deus pelos mortos, como o casal Matias e Rosa. A esta altura, sete dias depois, conforme a crença católica, adentrariam o paraíso e no encontro com Deus, provavelmente, pediriam pelos amigos de Cristalândia, a última sobrevivente naquele rincão de meu Deus. Padre Anselmo, terminando o rito sagrado, olhou a todos com compaixão e ternura e como se quisesse afagá-los em conforto espiritual deixou escapar um leve sorriso. Aos crentes, aquele gesto era a face de Deus apiedando-se de todos.

– Invista sua vida no Reino e na justiça de Deus e comprove como Ele dará o resto em acréscimo. – Benzeu e despediu-se.

A aglomeração na porta da igreja estava fora do normal. Geralmente, ao fim das missas, todos saiam rapidamente, como se estivessem com medo de uma catástrofe repentina a qualquer momento. Mas neste dia, estavam quietos como se esperassem alguma terrível maldição. De repente, a terra começou a tremer e rajadas de fogo desciam como bombas lançados dos aviões de guerra. A correria tomou conta de todos e de um lado e de outro quem estava na rua começou a ser tragado por enorme rachaduras ou atingidos pelos

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“tiros” que vinham do céu. Era consumador. O desespero e os gritos faziam tudo mais violento e pavoroso.

– Corram, vamos. Venham. - Gritava Herculano pegando os filhos pelas mãos Correram em direção ao carro velho da família.

Pessoas se atiravam no córrego de lama e tentavam apagar as chamas que tomavam seus corpos. Um casal com uma criança passou por eles em um velho caminhão. Quase jogou o carro de Herculano fora da pista. Mas eles tombaram e caíram no córrego. Não deu para saírem e Vânia viu a criança, então com três anos, e foram ajudar. Outros também corriam e se atiravam na lama, outros se desesperavam e se atiravam de pontos altos. Enfim, uma histeria coletiva e pessoas matavam pessoas e se matavam. Todos podiam ter armas, dede 2019, e estavam sempre armados, tendo em vista os saqueadores que viviam perambulando pelas cidades em ruínas em busca de algo que lhe fosse útil ou de valor.

– Meu deus, tem uma criança. – Disse Herculano.

– Não vá Herculano, não vá.

– Não posso deixá-la lá.

– O fogo. O fogo.

– Eu vou pegar. – Insistiu ele.

Saiu correndo em direção ao velho caminhão tombado e ao perceber que os pais da menina estavam mortos, concentrou em tirar a criança dos escombros. A pequena estava assustada. Toda suja de sangue, lama e óleo.

– Ela está bem. Está sangrando, mas está bem.

– Traga ela para cá. Traga logo.

Colocaram a criança no banco de trás e começaram a limpá-la com suas roupas. Tiago e Ana olhavam para a menina e tentavam ajudar também. De repente, Tiago viu que o carro deles estava vazando gasolina e que poderia pegar fogo. Assustados saíram.

– Vamos, depressa. Vai explodir. - Disse Herculano.

Retiraram a criança e o carro deles foi tomado por chamas. Os dois filhos de Vânia e Herculano saíram correndo e se abrigaram próximo a uma barraca. O fogo quase os devorou. Com esforço conseguiram chegar na casa dos velhos protetores. Mas a população não teve a mesma sorte.

40 CAPÍTULO IX – O fim

“E há esperança quanto ao teu futuro, diz o Senhor, porque teus filhos voltarão para os seus termos.” Jeremias 31:17

A cidade está totalmente abandonada e com ruínas de casas e construções. Herculano revive o dia fatal quando ocorreu o grande incêndio na pequena Cristalândia, há três anos, no fim de 2029. No Estado, era ainda uma das poucas cidades que resistiram a grande catástrofe. Olhou para o céu e percebeu que o cinza talvez estivesse dando uma trégua. Ao longe, uma ponta de nuvem branca vinha se arrastando e um azul, tímido, parecia surgir. Ele caminhou pela chácara e foi até o túmulo do casal.

– Que Deus lhes conceda um bom lugar.

Voltou seus olhos para a imensidão seca e caminhou devagar até a antiga mina. O chão parecia úmido. Tocou o solo e percebeu que estava encharcado.

– É água!

Ele pegou um pequeno graveto e cavou um pouco a terra. Uma sangria fina e cristalina começou a brotar. Provou do líquido e viu que era bom.

– É água!

Ajoelhou-se e com o rosto na terra limitou-se a chorar. Seus pensamentos o conduziram aos céus e lembrou de um Deus, que mesmo nas horas em que a fé desaparecia, jamais esteve longe.

No documento Próximos dias... (páginas 31-40)

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