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CAPÍTULO III MULHERES CONSTRUINDO UM BAIRRO E SE

3.1 A cidade grande e o sonho da casa própria

Vilma chegou ao Bairro em 1971, acalentando o tão sonhado projeto da casa própria e nos relata que após o casamento morou por uns tempos em outro Bairro da região Leste, sempre tendo em mente o sonho da casa própria:

Conheci ele lá e fui morar numa casa ali no Carrão e ali nasceram meus três filhos Ricardo, Márcia e Marcelo, eu não queria pagar aluguel, pra mim era um tormento pagar aluguel, fazia todas as economias da vida... Eu queria minha casa eu evitava economizava tudo eu não tinha mais nada chegou um tempo que eu não tinha dinheiro para um chinelo de dedo porque a preocupação era com os filhos alimentação enfim pra eles tivemos também problemas pagar aluguel fiquei devendo três aluguéis quando ele se acidentou realmente não tinha reserva nenhuma mas foi receber o dinheiro do seguro a gente pagou eu ficava mais eu queria mais depressa a minha casa é muito difícil pagar aluguel eu não me conformava com isso... (VILMA, 03/13)

Na busca por um lugar onde fixar a tão sonhada moradia, muitas das famílias passavam por várias experiências frustrantes, era comum a aquisição de um terreno que, para tornar-se adequado à construção da moradia, necessitava de muitos outros investimentos como terraplenagem, muros de arrimo etc. Tudo isso encarecia ainda mais o projeto da casa própria o que levava a muitas tentativas frustradas e a desperdício dos poucos recursos financeiros das famílias. Vilma novamente nos relatou as várias tentativas de obtenção da casa própria até chegar ao Parque Boa Esperança:

Saí pra ter o primeiro bebê peguei essa indenização guardei todo esse dinheiro pensando no futuro em um terreninho ou em uma casa aí compramos uma casa compramos um terreno no Jardim Brasília, mas aí era morro contrata máquina meu marido queria fazer a casa de tijolinho comprou dez mil tijolinhos, planou a terra aquela coisa toda mais depois ele tava sem trabalhar perdeu-se todo novamente não tinha casa e continuava naquela casa lá e o dono pedindo a casa lá no Carrão. Depois disso foi mais um tempinho minha irmã era solteira trabalhava também em casa de família e ela falou pra te ajudar eu vou comprar o teu terreno e me pagou três mil ali já era cruzeiro ainda devia ser três mil cruzeiros por esse meu terreno e a gente pensou então em comprar aqui, soube desse loteamento e comprô aqui no Parque Boa Esperança e o Bairro tava no começo as ruas eram vazias tinha dois cômodos (VILMA, 03/13)

Antônia, nordestina, chegou a terras paulistas no ano de 1955, foi primeiro para o interior de São Paulo, “[...] viemos pra trabalhar na roça no interior de São Paulo”. Sua família chegou à capital em 1964 e foram morar também em casa alugada na zona Leste de São Paulo. Seu relato pessoal corrobora com os acontecimentos econômicos ocorridos no Brasil a partir da década de 1950. Nesse período, o Governo brasileiro fez opção por um modelo de desenvolvimento econômico que priorizou principalmente o crescimento da região Sudeste. A cidade de São Paulo se tornou um grande polo de atração de imigrantes de diversas regiões do Brasil, especialmente do Nordeste. A indústria automobilística e a construção civil absorveram uma grande quantidade dessa mão de obra disponível e barata. Expulsos pelas privações dos seus locais de origem, esses imigrantes ocuparam as periferias da cidade alargando por sua conta e risco as fronteiras da cidade de São Paulo.

O relato de Antônia sobre sua chegada ao estado de São Paulo em meados dos anos de 1950 e depois à zona Leste da capital paulista na década de 1960 fez parte desse grande movimento migratório que gerou os bairros e vilas que conhecemos atualmente. Os loteamentos na periferia da cidade não possuíam infraestrutura e por isso tornavam-se “mais fáceis de serem adquiridos pela população migrante que chegava à cidade:

Nós viemos pra aqui em 65, em 55 (pensando) em São Paulo e fiquemo lá até 64 trabalhando na roça em 64 em maio de 64 nós viemos embora pra cidade pra capital e daqui meu marido foi arrumar emprego de operário lá nos moremos 7 anos na Vila Ema, depois apareceu aqui a imobiliária dona disso daqui, venderam esse loteamento e eu acho que nem eu nem a maioria de quem tá aqui veio tudo atrás da oportunidade de comprar esse terreno aqui. E eu mudei pra qui no dia 18 de março de 71, aqui não tinha nada, não tinha luz, não tinha água, não tinha uma padaria, não tinha uma escola, não tinha um mercado, não tinha linha de ônibus, só tinha Avenidinha Ragueb Choff de uma mãozinha um sai e a outra voltando. Tinha ônibus que passava umas três vezes no dia, não tinha nada, nada de nada e aí começou a luta, começou a luta. (ANTÔNIA, 01/14)

Lourdes chegou ao Bairro em 1976, depois de também ter passado por uma breve experiência do aluguel em outro Bairro da zona Leste. Nasceu na Bahia, mas foi criada no Paraná pelos mesmos motivos que suas vizinhas e companheiras de luta, a família mudou-se do Nordeste para o Sul do Brasil em busca de melhores condições de vida:

Então eu nasci na Bahia só que quando eu tinha cinco anos de idade meus pais foram embora pro Paraná, tinha muitos irmãos nós éramos em 12 irmãos e o mais velho já tinha ido pro Paraná, aí ele levou chamou meu pai e minha mãe e nós fomos embora pro Paraná e lá cresci, casei, casei nova com 16 anos aí depois de 2 anos e meio que eu tinha casado não uns 3 anos que eu tinha casado eu vim embora pra cá, porque assim procurando melhor condições de vida, porque lá foi um época que teve uma geada e matou todo o café, ficamos sem colheita, sem nada, então era assim quando precisava de chuva não tinha, aí quando não precisava de chuva vinha chuva demais, foi nessa época que geou sabe, estragou tudo e a gente ficou meio desanimado e veio pra cá né naquela época era mais fácil assim, já era uma ilusão São Paulo só que a gente veio em busca como todas as pessoas que vem em busca de melhores condições de vida (LOURDES, 01/14).

Ela também nos contou das dificuldades encontradas no Bairro em relação à infraestrutura:

Não tinha luz, não, luz tinha já, não tinha água, era poço e às vezes até o poço secava, os poço secava e a gente via o caminhão da Prefeitura trazia água aqui pra gente, tinha o rio, também não era esse rio poluído como é hoje, a água era limpinha naquela época”, o Aricanduva23 era limpinho, tinha

umas bicas d’água bem limpinha que a gente pegava água pra lavar louça até roupa lavava, lá quando os poço secava, aí um secava a gente ia ficava pegando da vizinha que tinha mais água, era assim até que eu lembro que começou o movimento naquela época pra conseguir água, né asfalto também não tinha asfalto, tinha poucas casas, passaram abaixo assinado pra conseguir asfalto e aí começo desde essa época (LOURDES, 01/14)

23 O rio Aricanduva nasce no Distrito Iguatemi, na Subprefeitura de São Mateus, sua nascente apesar da ocupação desordenada do Distrito ainda continua preservada.

Nossa outra entrevistada, Helena, também chegou ao Bairro em 1971, depois de pagar aluguel por quatro anos em outro Bairro da Zona Sul de São Paulo. Helena relata que casou muito jovem e depois de casada veio para São Paulo:

Me casei com 17 anos, casei em um dia, e vim no outro aqui pra São Paulo, e aqui a gente ficou até hoje né, foi uma vida assim muito difícil até na época né, porque viemos pra aqui como se diz os baianos: com uma mão na frente e outra atrás, sem nada, uma situação muito difícil, mais o tempo foi passando a gente foi superando essa dificuldade toda né, veio um filho depois de três anos. Eu vim pra Vila das Mercês, de lá fiquei lá quatro anos pagamos aluguel, depois de quatro anos foi que nós viemos pra qui, compramos aqui nosso cantinho, e aqui tudo muito precário, água de poço, era uma situação muito ruim até comparada aquela que a gente vivia na roça, que apesar de ser na roça tinha água, tinha uma situação melhor e aqui era tudo muito difícil, água de poço, tinha que como que fala aquele negócio “sarilar”, tinha que puxar com “sarilo” então era difícil, e a escola então era de madeira, era um barraco de madeira (HELENA, 01/14)

Também na mesma rota Bahia-São Paulo, encontramos Isabel: ela nasceu e se casou na Bahia e chegou a São Paulo em 1960; o marido veio primeiro, deixando-a com os dois filhos mais velhos e grávida do terceiro. Logo após o nascimento desse, veio para a capital paulista. Assim como suas companheiras de movimentos sociais, morou em outros bairros antes de chegar ao Parque Boa Esperança:

Vim pra cá porque lá na eu nasci na Bahia né e no sertão da Bahia as coisas são muito difícil hoje é mais fácil né mais naquela época era muito difícil tinha muitas dificuldade aí eu resolvi vim meu marido veio primeiro aí depois eu vim com as criança tinha só três filho né, aliás tinha dois (risos) aí eu fiquei esperando uma mais esperei nascer pra puder vim. Eu fui morar em Santo André no Parque Boa Esperança, no Parque Boa não (risos) Parque Erasmo Assunção, aí de lá eu mudei pra Itaquera, é naquela época era só mato onde hoje é o, o Atacado, Atacadão... (ISABEL, 01/14)

Conseguir um local de moradia era apenas resolução de parte dos problemas dos trabalhadores imigrantes que chegavam à periferia da cidade; junto com a precariedade das condições de vida, morar na periferia significava estar em contato frequente com outras formas de violência como nos conta Isabel ainda meio perplexa, uma situação ocorrida 40 anos atrás:

Naquela região e lá naquela época já tinha tiroteio, naquela época. Uma noite a gente acordou com os policiais batendo na porta chamando não sei quem, não sei quem era, a minha irmã sempre foi despachada, a minha irmã ficou comigo uns tempo, aí ela levantou: “aqui não mora ninguém com esse nome não, pode ir embora!” Se é doida falar assim com os policial (risos,) aí foram embora, não voltaram, ai depois de lá, aí eu a gente vendeu, a gente tinha um terreno, tava começando a construí já quando nós compramo, tinha um cômodo só, eu, nós resolvemo voltar aqui pra São Mateus né, aí fomos morar na, o nome da rua agora não lembro, mas era no Bairro de São

Mateus, aí de São Mateus eu fui morar aqui no Boa Esperança mesmo mas lá rua... João Macedo né, e de lá eu aí a gente compro aqui e viemo morar aqui, tem 37 anos que a gente mora aqui. (ISABEL, 01/14).

Quando Isabel chegou ao Bairro Parque Boa Esperança em 1973, encontrou as mesmas dificuldades de sobrevivência que tantas outras famílias. A escola de madeira citada nos relatos das mulheres atendeu à primeira geração de crianças do Bairro e foi inaugurada em 16 de setembro de 1973 tendo um caráter emergencial de atendimento aos moradores locais:

O Bairro era quando eu cheguei tava começando, a escolinha de madeira, um galpão, a escola feita de madeira, aqui não tinha feira, não tinha supermercado, só tinha só mercadinho, não tinha quase nada, tinha um açougue só, aí eu matriculei as criança, os dois mais velho que já tava na data, no tempo de escola, matriculei e daí resolveram, aí ficaram o ano, quantos anos ela ficou nesse galpão de madeira? Eu não me lembro isso aí eu não lembro não agora (ISABEL, 01/14)

Marta chegou ao Bairro nos anos 1980, embora tenha chegado a São Paulo ainda adolescente, também na década de 1960. Sua família instalou-se primeiramente no Bairro Quarto Centenário, bem próximo do Parque Boa Esperança, e as razões que justificam a imigração de sua família do interior para a capital de São Paulo, são as mesmas dos demais imigrantes da região Norte e Nordeste, ou seja, buscar melhores condições de vida:

Eu vim pra São Paulo né, eu tinha 14 anos de idade quando a gente chego aqui né, eu vim porque a minha irmã veio na frente, lá no interior é uma vida muito difícil né, e a minha irmã trabalhava com uma família lá e eles gostavam muito da minha irmã né, então eles trouxeram minha irmã pra São Paulo; ai ela começou a escreve carta pro meu pai, pro meu pai vende a nossa casa que tinha no interior né, que era uma vida difícil, que a gente morava na roça e pra vim pra São Paulo, que era melhor pra trabalha e a gente veio, veio meu pai, minha mãe, minhas outras irmãs né? (MARTA, 07/14).

O relato de Marta nos coloca frente a frente com desamparo econômico e legal a que as crianças e adolescentes das classes trabalhadoras estavam expostas nesse momento do chamado desenvolvimentismo econômico brasileiro. A industrialização e a urbanização de cidades como São Paulo compreendia ampliar cada vez mais os níveis de exploração dos trabalhadores e de seus filhos menores de idade. Nessas condições, a escolarização das crianças e adolescentes, embora fosse um desejo dos trabalhadores, tornava-se uma realidade distante e dura de concretizar, pois conciliar trabalho infantil e escolarização impunha aos filhos das classes populares rotinas diárias extenuantes, como o relato a seguir que a nossa protagonista fazia aos quatorze anos de idade:

[...] meu pai não se deu muito com o clima, fico muito doente, faleceu né, e a gente tinha que estuda e trabalha, e era tudo muito difícil né, que nem eu por exemplo, quando meu pai compro minha casa era ali no Quarto Centenário e a gente estudava lá no Sapopemba, sabe...ali perto da igreja da Nossa Senhora de Fátima, uma escola que tinha lá e a gente saia do serviço né que eu trabalhava lá na 25 de março, ai eu saia do serviço ia pra escola, ai chegava em casa 10, 11 horas da noite, e a gente vinha a pé porque não tinha condução, não tinha assim ônibus né, pra vim tinha até o Grimaldi, mas a gente não tinha dinheiro pra tá pagando condução, então a gente pegava um até a 25 de março descia no Sapopemba, e estudava né e depois voltava a pé pra casa. Ai no outro dia de manhã cedinho a gente ia trabalha e era esse roteiro que a gente fazia pra...ir, saia daqui do...é Quarto Centenário pra pega ônibus lá, no Jardim Grimaldi a pé porque não tinha ônibus na época pra gente pode ir trabalha novamente porque aqui na região só tinha aquela linha de ônibus mesmo (MARTA, 07/14)

Na década de 1980, Marta mudou-se para o Parque Boa Esperança. Segundo ela, o Bairro ainda não tinha água encanada nem asfalto e a única escola ali existente já funcionava precariamente. Foi ali que sua filha mais velha, já em idade escolar, foi matriculada:

Era aquela escola de madeira né, que chovia dentro tudo... maioria das telhas tudo quebrado, o chão tudo podre sabe, tinha vários buracos onde as crianças caia, os professores mesmos que iam que dá aula ali né, por exemplo, se eles saíssem na sala de aula que vinha até a direção da escola, tinha que passa pela chuva, que era tudo barro, tinha barro também na escola, nessa escola de madeira, não era tudo assim cimentadinho, só tinha um pedacinho de cimento né do lado de fora ali, era tipo uma calçadinha pequenininha o resto era barro (MARTA, 07/14)