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CAPÍTULO II A INVISIBILIDADE DA MULHER NA HISTÓRIA

2.2 Os movimentos sociais urbanos e o empoderamento das mulheres

A presença feminina nos movimentos sociais populares na década de 1980 também nos pareceu um aspecto importante nas análises realizadas do período. Singer (1983, p.109)

18 SOHIET, R. História das mulheres e relações de gênero - Artigo acessível em http://www.comciencia.br/reportagens/mulheres/16.shtml

afirma que “[...] nas reivindicações por creches, postos de saúde, água ou melhoria do serviço de ônibus, é frequente que a liderança seja exercida por mulheres.”

Para o autor, essa participação de mulheres da classe trabalhadora em movimentos reivindicatórios nesse período na cidade de São Paulo era no mínimo “pouco usual”, pois as organizações consideradas “femininas” até então envolviam mulheres das classes média e alta cujo caráter era extremamente assistencialista para com as classes populares. O fenômeno que ocorreu na periferia dos grandes centros urbanos e, especialmente, na cidade de São Paulo na década de 1980, colocou nas ruas milhares de mulheres, historicamente provedoras dos cuidados com a família, para o campo da política. Por serem mães, donas de casa e encarregadas de administrar o orçamento familiar, viviam as dificuldades econômicas e sociais do modelo econômico da década de 1980.

Campos (1989) e Malta (1982) relatam, em seus trabalhos, como as demandas escolares cotidianas recaem muito mais sobre as mães: os cuidados com as crianças em relação à frequência à escola, ao material escolar, o uniforme, as reuniões com professores, o rendimento escolar são “naturalmente” parte da jornada de trabalho das mulheres

A naturalização dessas tarefas como femininas resultou da inserção dos valores culturais do patriarcado ocidental que, a partir das especificidades físico-corporais das mulheres, definiu o feminino como antagônico do masculino determinando o espaço social que o sujeito feminino deve ocupar.

A década de 1980 apresentou inúmeros exemplos de como a coletividade rompeu com as determinações do cotidiano em relação ao poder, a participação popular e em relação à participação política das mulheres. Elas eram maioria em todos os movimentos e mesmo assim tinham pouca ou nenhuma visibilidade como mulheres, por isso a importância dos clubes de mães nesse período como espaços para a desconstrução e desnaturalização do cotidiano. Essas mulheres “do lar”, ao lidarem com esses problemas cotidianos, puderam refletir sobre a condição de exclusão na qual estavam inseridas e compartilhar essas experiências com outras mulheres Além de esses movimentos sociais explicitarem as contradições das estruturas capitalistas, tinham a “[...] capacidade de gerar embriões de uma individualidade social da mulher, nova tanto no conteúdo quanto na consciência” (JOAQUIM, 2013, p.31)

Os cuidados com a casa, com os filhos, com o marido, as dificuldades econômicas, a saudade dos parentes distantes, tornava o cotidiano dessas mulheres, além de cansativo, muito

solitário, por isso, antes de tornarem-se espaços de reflexão política, os clubes de mães ofereciam às mulheres possibilidades de socialização com suas iguais: ali podiam falar de problemas comuns, das dificuldades, dos sonhos etc. Para as mulheres pobres da periferia de São Paulo, cercadas por um cotidiano sem perspectiva de mudança, a motivação primeira para frequentar os clubes de mães, na maioria das vezes, vinha das necessidades subjetivas dessas mulheres. Sader (2001) cita “três ordens de razões” para a participação nesses espaços:

Em primeiro lugar, para muitas tratou-se simplesmente de achar um lugar onde se encontravam com outras donas de casa, podendo conversar, comentar a novela, os filhos, o caminhão de lixo que não passou, o vizinho que andou bebendo, o namoro da filha, o vestido que pretende fazer. Trata-se da extensão do mundo feminino, tal como constituído no espaço familiar. As distancias da cidade grande, as separações da família extensa, o esvaziamento da vida doméstica pelas jornadas de trabalho tornam o cotidiano da casa às vezes solitário. O clube de mães aparece aí como uma extensão das relações de vizinhança. (SADER, 2001, p. 205).

Em segundo lugar a motivação para participar nos clubes de mães “era uma

alternativa a uma rotina opressiva”:

Antigamente a minha vida era chorar, ficar nervosa, irritada com um mundo de coisas. Porque há um certo tempo na vida da gente que parece que a gente se anula. Fica muito naquela vida rotineira, é só criar filhos. Depois às vezes o casamento da gente não está muito seguro e a gente pensa que está. Isso aí deu uma pane na minha cabeça. Eu estava precisando mesmo sair de casa para ver o mundo lá fora. Durante o crescimento das minhas meninas eu só criei filho. Aquela vidinha chata. O marido chegando tarde, dizendo que eram horas extras, né? E você ficando dentro de casa, se anulando. Então, de repente, tem que descobrir quem é você e quem é o mundo. Eu acho que partiu disso aí (SADER, 2001, p. 206).

A terceira motivação para a participação das mulheres nos clubes, segundo o autor, é

de ordem instrumental: “[...] o simples interesse em um curso de gestantes, ou de crochê, ou

outra atividade qualquer promovida por um clube de mãe e que atrai moradoras do Bairro, que, a partir daí, permanecem mais ou menos vinculadas” (SADER, 2001, p. 206).

Notamos, nos relatos do autor, que os motivos que levavam as mulheres a se encontrarem nesses espaços específicos eram extremamente subjetivos, não havia, a priori, teorias políticas ou emancipatórias que orientassem sua prática. O primeiro critério de uma identidade comum a essas mulheres da periferia de São Paulo foram as afinidades pessoais, o surgimento das afinidades políticas (visão de mundo, questionamento das injustiças sociais etc.) produziram-se a partir da reflexão à “luz do evangelho”.

Muito já se escreveu sobre a importância da Teologia da Libertação e as mudanças internas na Igreja, principalmente na América Latina, a partir das reformas encaminhadas pelo

papa João XXIII19 que colocaram as injustiças sociais como causa das desigualdades entre os homens cabendo aos cristãos assumir o compromisso de transformação das estruturas injustas da sociedade.

Vale a pena lembrar que essa nova reorganização eclesiástica menos hierarquizada possibilitou a valorização do leigo nas atividades cotidianas das paróquias e das comunidades distribuídas pelas periferias da América Latina, tornando esses espaços religiosos centros de organização e participação política. Como no Brasil, outros países da América Latina nas décadas de 1970 e 1980 viviam sob regimes ditatoriais tornando quase que impossíveis canais de participação e organização da sociedade civil. Nesse sentido, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são o primeiro exercício de participação e democracia de homens e mulheres das camadas empobrecidas do Brasil.

Ressaltando o fato de que a religião, e não a Igreja, foi (e ainda é) uma representação social historicamente destinada às mulheres, foram essas mulheres, como leigas, que ganharam importância e visibilidade nas suas comunidades religiosas, associações de bairros etc. Assim, os clubes de mães no caso foram importantes para o empoderamento de um determinado grupo de mulheres até então invisíveis à sociedade brasileira.

Não nos estamos referindo às mulheres burguesas, pois elas, desde o século XIX, lutavam pelo reconhecimento dos direitos das mulheres. Embora existam questões que perpassam o universo feminino, não podemos negar que o pertencimento social e a origem étnico/racial continuam sendo fatores determinantes da emancipação feminina e da conquista da cidadania. Ser mulher, negra e moradora da periferia de São Paulo impõe alguns enfrentamentos para a conquista da emancipação feminina que, provavelmente, uma mulher branca, de classe média não precise enfrentar.

A naturalização do machismo faz com que as próprias mulheres incorporem a visão de mundo que as desqualifica para algumas tarefas em detrimento de outras. Mesmo nos dias atuais, apesar dos avanços significativos aos direitos das mulheres, encontramos mulheres que reagem com certa desconfiança ao protagonismo feminino em determinadas situações.

Os movimentos sociais urbanos que insurgiram nas décadas de 1970 e 1980 oriundos das camadas empobrecidas da população da periferia de São Paulo trouxeram como protagonistas mulheres que, a partir das reivindicações por melhores condições de vida,

19 Durante o papado de João XXIII ocorreu o Concílio Vaticano II (1965) que teve como preocupação ampliar a ação evangelizadora alargando a participação dos leigos dentro e fora da Igreja. No Brasil a CNBB incorporou as mudanças propostas pelo Vaticano II e intensifica sua ação pastoral nas comunidades periféricas pelos vários cantos do território brasileiro. A Arquidiocese de São Paulo, a partir dos cursos de evangelização iniciados em 1969, caminha em direção ao fortalecimento das CEBs e aos seus métodos de reflexão e ação. (SINGER, P.; BRANT, V.C. (org.) São Paulo: o povo em movimento, Vozes, 1983, pp. 59/82).

começaram a refletir sobre sua condição feminina imposta pelo machismo tão naturalizado nas suas relações cotidianas.

Até antes da Constituição de 1988, o atendimento dedicado as crianças de zero a seis anos pela creche, além de insuficiente em relação à demanda de crianças que necessitavam desse equipamento público, sofria uma distorção em relação a função desse atendimento. Durante um longo período de sua existência, a instituição teve características assistencialistas, ou seja, suprir as deficiências econômicas, sociais e principalmente culturais a que os filhos das classes trabalhadoras estavam submetidos.

A História nos revela que enquanto a creche esteve vinculada à ideia da falta da família, seguiu modelos de funcionamento de acordo com os padrões de família e de maternidade que foram sendo propostos pelo serviço social, medicina higienista, psiquiatria, psicologia e pedagogia, entre outras. (HADDAD, 1993, p.26)

Embora a Educação de zero a seis anos apareça como direito educacional somente na Constituição de 1988, no final da década de 1970 já encontramos uma crescente reivindicação desse direito social, que passa a ser prioritário para a vida das mulheres das classes populares urbanas. A inserção das mulheres no mercado e trabalho exigiu condições de atendimento aos filhos dessas trabalhadoras que encontraram na solidariedade de vizinhas, comadres e parentes, a solução para com o cuidado com os filhos enquanto aumentavam a massa de trabalhadores urbanos. Gohn (1985), ao relatar a luta por creche na periferia sul da cidade São Paulo, ressalta elementos que considera importantes no movimento de mulheres por creche nesse período.

A atuação da Igreja Católica por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que durante os tempos sombrios da ditadura militar funcionaram como espaços de socialização e reflexão para inúmeros grupos populares e especialmente das mulheres da periferia da cidade de São Paulo. Os clubes de mães, embora já existissem antes da CEBs (SINGER; BRANDT, 1983), foram locais onde as mulheres além dos trabalhos de artesanato, costura, culinária etc. podiam, sempre à luz do evangelho, falar de suas necessidades cotidianas e refletir sobre as condições de exploração a que eram submetidas como moradoras da periferia e como mulheres.

A luta por creche nesse momento específico das reivindicações das mulheres da periferia da cidade de São Paulo representava um avanço na consciência de que eram sujeitos de direitos e o quanto o Estado lhes devia nesse quesito; para o movimento feminista, o direito à creche era caminho para a autonomia das mulheres. Atualmente, feministas e outros

setores da sociedade civil compreendem que a autonomia das mulheres passa pela corresponsabilização dos pais pelos cuidados com os filhos, garantindo a legislação que ambos (mães e pais) se flexibilizem nos cuidados com os filhos, contando, para isso, com períodos maiores de licença maternidade e de paternidade.

As mulheres, em especial das classes populares, sempre estiveram presentes na luta diária pela sobrevivência e por melhores condições de vida. Mesmo nos momentos de grandes rupturas políticas da História brasileira e do mundo, a presença feminina pode ser notada, embora a historiografia tradicional tenha privilegiado apenas a sujeito político homem. Tal concepção também tem origem em uma concepção de política e de poder, como uma atividade institucional e partidária que a partir dos estudos de Foucault (1979) foi relativizada. Segundo esse filósofo, o poder também está presente nas relações entre os indivíduos em sociedade, dessa forma é parte constitutiva do cotidiano.

Os movimentos sociais populares dos anos 1980 estavam inseridos em outra concepção de política, de democracia e de cidadania. Como muitas abordagens já explicaram, durante o período ditatorial brasileiro, muitos dos canais institucionais de participação política foram esvaziados ou cerceados, partidos políticos, sindicatos e associações científicas haviam sofrido dura perseguição política e ideológica. Nesse quadro, as lutas sociais que ocorrem por demandas cotidianas materiais (água, luz, saneamento básico, escola) têm um caráter revitalizador das forças democráticas da sociedade civil brasileira da época.

No cenário dessas lutas urbanas, as mulheres aparecem como força e número significativo. São elas que, a partir do enfrentamento diário das dificuldades econômicas a que os trabalhadores da periferia de São Paulo estão submetidos, traçaram estratégias de sobrevivência e de superação daquelas dificuldades.

A complexa e desafiadora situação – a falta de creches, de escolas, de posto de saúde e, além disso, o desemprego na família (dos maridos, dos filhos e dos irmãos) – resultou cada vez mais na necessidade de uma reorganização do cotidiano dessas mulheres.

Reorganizar esse cotidiano significava, além de estabelecer contatos com outras mulheres da mesma classe social para “remediar” uma situação conflituosa, criar vínculos identitários entre essas mulheres. As trocas de experiências no bairro, na igreja, na associação de moradores, no clube de mães, na reunião de pais da escola, proporcionavam o sentimento de pertencimento a uma coletividade com interesses comuns.

As demandas por condições melhores de sobrevivência trouxeram à cena atores sociais que historicamente não eram vistos como protagonistas de transformação social. O espaço doméstico, os cuidados com a prole, a vizinhança etc., que durante muito tempo foram considerados atividades alienantes da condição das mulheres, passaram a ser espaços de formação e de exercício da cidadania. A atuação das mulheres nos movimentos populares trouxe inúmeros significados à sociedade brasileira dos anos 1980: ao reivindicarem melhores condições materiais de existência, os movimentos populares questionavam, na prática, o modelo brasileiro de desenvolvimento econômico da década, afinal esse modelo deixava as classes trabalhadoras à margem dos níveis mínimos de sobrevivência.

Também é importante ressaltar que a participação desse grupo específico de mulheres de um Bairro da Zona Leste de São Paulo que lutavam pela construção de uma nova escola para o Parque Boa Esperança, ampliou a concepção de feminismo, porque as demandas consideradas feministas sempre tiveram como protagonistas mulheres de classe média que sentiam na pele muito mais a desigualdade do gênero do que a desigualdade social.

As reivindicações das mulheres da periferia de São Paulo por creche, escola, saúde e outros bens e serviços públicos, embora tivessem presentes em demandas históricas do movimento feminista e tenham encontrado, nesse movimento, apoio e certa ressonância, fundamentalmente, foram as vivências no e do movimento que despertaram as mulheres para a sua condição de classe e de gênero e suscitaram os desdobramentos que essa condição acarretou individual e coletivamente.

Dessa forma, parece-nos importante pensar que, para esse grupo específico de atores sociais, ou seja, as mulheres do Parque Boa Esperança, a vivência dos movimentos sociais representou muitos outros significados, para além da carência material de um equipamento escolar. Apesar das dificuldades objetivas de participação no movimento social por escola pública, o que unia essas mulheres em torno desse objetivo? Qual a concepção de política dessas mulheres? Como se processou a consciência política das participantes do movimento? Como se dava o exercício da religiosidade dessas mulheres? Como as mulheres do movimento por escola veem os movimentos sociais atualmente? O que esse grupo de mulheres pensa sobre sua atuação nos movimentos sociais.