2. Sociedade agrária e relação campo-cidade
2.2. Além da “Cidade” e do “Campo”: diversidade e complexidade do assentamento
2.2.1. A “cidade no campo” e o “campo na cidade”
A década de 90 foi um período bastante profícuo em trabalhos sobre o tema da economia da cidade antiga, tendo o debate sobre a Cidade Consumidora como seu eixo. As propostas mais interessantes e inovadoras deste momento apontavam todas para esse caminho de repensar o conceito de Cidade Consumidora através de uma reinserção da Cidade em um quadro mais amplo do assentamento, e não meramente propondo novos modelos com diferentes adjetivações à Cidade. Corroborava esta necessidade a percepção de que a divisão funcional muito dicotômica entre urbano e rural estava equivocada. Isso não significava abandonar totalmente a díade conceitual cidade e campo, mas apontar que setores e agentes do sistema econômico romano não estavam espacialmente contidos no campo ou na cidade.
97 Ibid., p. 14.
98 ERDKAMP, Beyond the Limits of the “Consumer City”. A Model of the Urban and Rural Economy in the Roman World, p. 343.
Todos esses modelos de relação entre cidade e campo assumem, em maior ou menor medida, a imagem de que o campo é o espaço do setor primário (sobretudo agricultura e pastoreio, mas também de extração/produção de matérias primas) e a cidade o espaço dos setores secundário (sobretudo manufaturas) e terciário (serviços diversos). A verdade é que esta divisão espacial não se sustenta frente a um escrutínio mais detalhado da realidade do mundo antigo.
Em primeiro lugar, famílias camponesas investem parte de seu tempo de trabalho em atividades não relacionadas diretamente com sua produção agrícola. Isso pode significar trabalho em outras produções agrícolas: como assalariados em grandes e médias propriedades; como cooperadores em propriedades de vizinhos de mesmo nível econômico ou mais pobres com quem eles tenham algum tipo de relação de reciprocidade; ou mesmo algum tipo de trabalho compulsório para um senhor quando estes camponeses estão submetidos à alguma forma de dependência pessoal. Contudo, isso pode significar também o exercício de outras atividades produtivas, como o transporte e venda de produtos em feiras locais ou fabricação de utensílios diversos, seja para uso próprio, seja para também os vender nessas feiras locais99. Soma-se a isso o fato de as grandes propriedades das classes dominantes urbanas, as uillae, também se dedicarem a diversas outras atividades para além da produção agrícola e pastoril100. Por fim, muitas vezes rotas
comerciais e fluxos de cobranças de taxas e rendas não precisam de cidades como nexos, circulando por zonas rurais diretamente101.
Em segundo lugar, no sentido inverso e complementar, o meio urbano não está apartado do setor primário. Em uma primeira direção, havia hortas e outros cultivos intensivos possíveis em pequenos lotes de terra dentro do próprio setor urbano e havia áreas agrícolas “dentro dos muros da cidade”. Ademais, muitas vezes as cidades de maior porte eram caracterizadas por “subúrbios extensos”, áreas nas quais a densidade do assentamento declinava lentamente em relação à distância do centro urbano, criando uma zona “peri-urbana” com espaços significativos para a atividade agrícola102. Por fim,
99 Ibid., p. 352–353; ERDKAMP, Paul, Agriculture, underemployment, and the cost of rural labour in the Roman world, The Classical Quarterly (New Series), v. 49, n. 02, p. 556–572, 1999.
100 MARZANO, Le villae rusticae romane e la loro dimensione economica: uno sguardo alla penisola italiana, in: RIZAKĒS, Athanasios D. (Org.), Villae rusticae: family and market-oriented farms in
Greece under roman rule, [s.l.]: National Hellenic Research Foundation, Institute of Historical Research
= Kéntron ellinīkīs kai romaïkīs archaiotītos, Ethnikon Idryma Ereunōn, 2013, p. 14–16.
101 WHITTAKER, Do theories of the ancient city matter?, p. 19–22; ERDKAMP, Beyond the Limits of the “Consumer City”. A Model of the Urban and Rural Economy in the Roman World, p. 342, 345.
102 PURCELL, Nicholas, Town in country and country in town, in: MACDOUGALL, Elisabeth (Org.),
muitas dessas cidades poderiam ter uma população significativa de agricultores que se deslocavam rotineiramente, conforme as necessidades do ano agrícola, para suas terras nas imediações da cidade a fim de cuidar de seus cultivos “fora dos muros”103.
Morgens Hansen, criticando o uso do conceito de Cidade Consumidora para a maior parte das poleis gregas, chama atenção para esses “citadinos agricultores”. Segundo o estudioso dinamarquês, o fato de parte significativa da população dessas cidades serem formadas pelo que Weber identificou como ackerbürger, agricultores assentados na cidade, as distinguia completamente daquelas para as quais o conceito de Cidade Consumidora poderia dar conta104. Ainda segundo Hansen, o próprio Sombart já previa essa realidade em sua análise, definindo um modelo de Landstädte, distinto da Cidade Consumidora e ignorado por Finley e outros estudiosos que seguiram sua trilha105. Assentamentos aglomerados de significativa densidade populacional cujos habitantes são prioritariamente envolvidos com a atividade agrícola são um tema bastante conhecido da geografia humana e da antropologia dos povos mediterrânicos, conhecidos na literatura especializada anglo-saxã como agro-towns – e as quais voltarei dentro de poucas páginas. Para entender a relação campo e cidade no mundo romano, portanto, é preciso complexificar nossas noções de quais eram as estruturas do assentamento e de suas relações entre si. “Cidade” pode ser um enquadramento conceitual muito amplo, enevoando diferenças importantes entre tipos distintos de assentamentos. Em um extremo, cidades gigantescas como Roma (sobretudo no período imperial, mas mesmo séculos antes) poderiam ter tipos de relações muito amplas e impactos muito complexos sobre um hinterland muito disperso106. No outro extremo, pequenos assentamentos nucleares, acerca dos quais a distinção conceitual entre aldeia e cidade é muito difícil de ser feita, tinham outro tipo de relação com seu hinterland, provavelmente funcionando como pequenas agro-towns. Entre um extremo e outro, temos outras realidades que possivelmente vão além do mero “meio termo” – isto é, não são apenas uma mistura de elementos dos dois casos extremos, mas possuem singularidades próprias.
Ademais, cidades não são “ilhas isoladas”. Elas precisam ser entendidas em sua relação com o assentamento como um todo107, seja inserindo-as em relações com outros
103 HORDEN; PURCELL, The Corrupting Sea, p. 110.
104 HANSEN, Mogens Herman, The concept of the Consumption City applied to the Greek Polis, in: NIELSEN, Thomas Heine (Org.), Once Again: Studies in the Ancient Greek Polis, [s.l.]: Franz Steiner Verlag, 2004, p. 16–18.
105 Ibid., p. 18–21.
106 MORLEY, Metropolis and Hinterland.
centros urbanos, de maior ou menor porte, de tipos diferentes ou similares, seja identificando o quadro geral da hierarquia de assentamentos e a relação entre as cidades e os outros tipos de assentamento na região, sejam os nucleares de pequeno porte – como aldeias e centros locais (minor centers) –, sejam os assentamentos dispersos (fazendas camponesas ou grandes propriedades da classe dominante, ou outros tipos de estruturas de função produtiva, social ou religiosa). No final das contas, qualquer tentativa de criar um modelo geral sobre a relação entre Campo e Cidade no mundo antigo precisa dar conta dessa série de complexidades em cada um dos fatores em questão.
É nesse sentido que acredito que se fundamenta a proposta do controverso capítulo de Horden e Purcell – e que já estava presente nas melhores contribuições ao debate sobre a Cidade Consumidora nos anos anteriores à publicação de Corrupting Sea. Horden e Purcell fizeram um grande esforço retórico nessas páginas para combater a noção de “variável urbana”, isto é, de que as cidades difeririam qualitativamente de outros tipos de assentamento no sentido de terem em si um elemento explicativo fundamental para os processos históricos em que estão inseridas108. No final das contas, este desenvolvimento argumentativo acabou por levá-los a minimizar a importância da urbanização – e William Harris estava certo ao destacar a necessidade de um caminho mais equilibrado frente à abordagem ruralizante de Corrupting Sea.
De toda forma, mantém-se o fato de que a crítica de Horden e Purcell ao conceito de Cidade Consumidora109 assim como à noção de cidades “autárquicas”, com a
identificação do que eles chamam de hinterlands dispersos110 (isto é, o supracitado fato
de as cidades não se relacionarem economicamente apenas com o campo imediatamente ao seu redor) converge com uma linha historiográfica importante que se desenvolvia na década de 90 e que me parece extremamente profícua para o estudo da economia e da história agrária romanas. Esta é a trilha que pretendo seguir.
2.2.2. O assentamento camponês na Itália central tirrênica: uma introdução