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Capítulo 1: Cacos de cerâmica e fazendas camponesas: a geografia da vida social

3. Hierarquia social e hierarquia dos tipos de assentamentos

3.3. A visibilidade arqueológica das estruturas camponesas

Dominic Rathbone sugere também que uma parte significativa dos camponeses romanos viveriam em edifícios rurais tão pequenos, rudimentares e de curta ocupação que dificilmente seus exíguos vestígios materiais poderiam ser apropriadamente reconhecidos pelos levantamentos de superfície231. Ele acredita, portanto, que uma quantidade

significativa de estruturas camponesas não é identificada pelos levantamentos de superfície e pensa também que aqueles sítios tradicionalmente identificados como vestígios das menores estruturas do assentamento rural podem representar estruturas um tanto maiores e mais robustas do que costumamos pensar. Isso teria consequências diretas sobre as categorias de classificação dos sítios rurais: aquilo que se identificam como “Fazendas” poderiam ser, em muitos casos, estruturas maiores e boa parte das verdadeiras fazendas simplesmente não seria identificável por essa metodologia de pesquisa arqueológica.

Obviamente esta é uma afirmação dificilmente comprovável pelos dados arqueológicos, porque lida justamente com a questão do silêncio das fontes. Por outro lado, não seria razoável simplesmente usar esse silêncio contra a proposição de Rathbone. A máxima de Carl Sagan de que “a ausência de evidência não é evidência da ausência” poderia operar aqui: isto é, não podemos fundamentar toda a crítica a uma perspectiva no

apelo à ignorância de dados que a confirmem232. Mesmo que apenas para criar um modelo

hipotético, a possibilidade aventada por Rathbone de que boa parte do campesinato viveria nesse tipo de estrutura rudimentar, arqueologicamente pouco visível, deve ser levada em consideração.

Rathbone tenta respaldar esta hipótese em alguns dados empíricos ainda que esparsos – até porque se a “ausência de evidências” não pode ser usada como “evidência da ausência”, muito menos o pode ser usada como evidência da presença. Em primeiro lugar, ele lista uma série de referências literárias que sugerem a ideia de camponeses vivendo em cabanas rústicas.

A primeira dessas referências é uma passagem em que Varrão diferencia pastores que vivem no edifício da uilla àqueles que levam os animais para pastar nas montanhas e precisam se proteger de chuvas mais pesadas em casae233. Para além do fato de Varrão claramente ter em mente pastores escravos nessa passagem234, o termo casa nessa passagem, como o próprio Rathbone reconhece, certamente se refere a um tipo de estrutura muito específica: cabanas usadas sazonalmente no pastoreio extensivo. Não é propriamente de estruturas domésticas habitadas por famílias camponesas que Varrão trata, mas sim de estruturas possivelmente similares àquelas escavadas pelo Roman Peasant Project em San Martino e Poggio della’Amore235.

Estruturas de aspecto bastante rudimentar utilizadas para residência camponesa são citadas por Ovídio em duas obras diferentes, mas contando basicamente a mesma história. Em Metamorfoses236, Filémon e Baucis, um casal de camponeses extremamente

humildes, abrem suas portas para os deuses Júpiter e Mercúrio, que disfarçados de camponeses haviam sido rejeitados por outras mil casas. Nas Fasti, Hirieu é representado como um camponês humilde que também abre suas portas para Júpiter e Mercúrio, que em troca lhe presenteiam com um filho, Órion237. O caráter moralizante é óbvio em ambas as histórias, e a caracterização dos personagens pios como os mais humildes possíveis desempenha um papel crucial na construção desse caráter moralizante. Ainda que se possa reivindicar o princípio da verossimilhança dessas passagens – isto é, Ovídio

232 SAGAN, Carl, O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, [s.l.]: Companhia das Letras, 1999, cap. 12.

233 Varrão, Sobre as coisas do campo, 2.10.6.

234 KNUST, José Ernesto Moura, Senhores de escravos, senhores da razão: Racionalidade Ideológica e

a Villa Escravista na República Romana (séculos II-I a.C.), Dissertação de Mestrado, Universidade

Federal Fluminense, Niterói, 2011, p. 214–216. 235 Ver seção 1.2. deste capítulo, acima. 236 Ovídio, Metamorfoses, 8.629-688. 237 Ovídio, Fasti, 5.499-522

provavelmente usava em algum nível imagens do mundo camponês real para caracterizar o mundo camponês que criava em seus poemas – usar essas passagens para elucubrar que parte substancial dos camponeses da Itália viviam nesse tipo de residência rudimentar é, no mínimo, arriscado.

O mesmo pode-se dizer do pequeno poema Moretum, atribuído a Virgílio, que narra um dia na luta de um pobre camponês contra a fome – Moreto é um tipo de pão não fermentado sobre o qual se colocava alguns ingredientes, que o personagem produz, não sem alguma dificuldade, para enfrentar seu dia de trabalho. Por duas vezes238 o poema se refere à residência de Símulo, o “cultivador de poucas terras”, protagonista da pequena saga, como uma casula, casebre. A função da caracterização do camponês como um humilde valoroso, que enfrenta os perigos da fome com tão poucos recursos materiais mas com grandes recursos morais, tem o mesmo caráter moralizante. De toda forma, chama muita atenção como essa caracterização de um pobre camponês é feita: fatos como a propriedade de apenas uma escrava239 e de um jugo de bois240 e a necessidade de ir ao mercado vender alguns produtos para conseguir outros241 são citados como mostra da pobreza material desse camponês. Estamos tratando aqui de um camponês pobre muito diferente daquele camponês isolado, vivendo da autossubsistência, que tradicionalmente se imagina como o mais pobre dos camponeses.

De toda forma, essa associação entre camponeses humildes valorosos e residências rudimentares não tem apenas a função de ressaltar sua pobreza. A residência em uma cabana rústica remetia ao passado mítico romano, dos antepassados moralmente superiores. O culto em torno do tugurium romuli, a humilde cabana no Palatino na qual os romanos acreditavam que Rômulo, o primeiro rei de Roma, teria morado242, talvez seja

o maior exemplo disso. Esse topos literário do pobre camponês que emula a realidade dos antepassados moralmente superiores, recorrente na literatura latina243 e visitado por esses autores nessas passagens citadas por Rathbone, se utiliza justamente de uma visão de como eram as casas dos antepassados – e nisso é reveladora a passagem em que Vitrúvio

238 Pseudo-Virgílio, Moretum, 60 e 66. 239 Ibidem, 31.

240 Ibidem, 123. 241 Ibidem, 79-86.

242 Dionísio de Halicarnasso, escrevendo no período augustano, diz que a cabana de Rômulo ainda estava de pé em seus dias, mantida por pessoas que tinham a incumbência de mantê-la na forma original, mas sempre a reparando quando uma tempestade ou o passar do tempo a danificasse. Ver Antiguidades

Romanas, 1.19.11. Dião Cássio, escrevendo entre os séculos II e III d.C., se refere a dois incêndios que

teriam acometido a cabana no Palatino, em 38 a.C. e em 18 a.C., depois dos quais ela teria sido reconstruída. Ver História de Roma, 48.43 e 54.29.

se refere ao teto em sape de outra casa de Rômulo, mantida no Capitólio (possivelmente uma réplica da casa no Palatino), como manifestação das maneiras e hábitos simples dos antigos244. Varrão também faz a mesma associação entre os antepassados valorosos e a

vida nas cabanas245.

Outra passagem citada por Rathbone, que não se enquadra a priori neste caso, tem referência às estruturas rudimentares muito lateral. Ao se referir à melhor maneira de construir uma cobertura para proteger os figos, Columella menciona que esta deve ter um caimento ao estilo dos tetos dos tuguria para escoar a água da chuva246. Do fato que Columella tenha pensado em um tugurium para exemplificar um teto construído de maneira simples para proteger os figos da chuva não é possível inferir a frequência com que camponeses romanos viviam em cabanas rústicas.

A última passagem citada por Rathbone, e a que ele parece dar menor destaque, me parece ser a melhor referência literária para sustentar sua hipótese. Plínio, o velho, em sua História Natural, indica que nos campos se usa a casca de algumas árvores para inúmeros fins, como a fabricação de diversos tipos de cestos e de telhados para cabanas (tugurium)247. De toda forma, esse tugurium não é obviamente associado com o espaço doméstico, e pode estar se referindo a estruturas do mesmo tipo que Varrão, na passagem sobre os pastores escravos, tem em mente.

A identificação nesses textos entre camponeses e moradias muito rudimentares depende de uma boa vontade muito grande com a hipótese de Rathbone. No mínimo deve- se questionar o quanto elas se referem a uma parte realmente significativa do campesinato ou o quanto emulam um modelo específico de camponês estabelecido na tradição literária romana, e que possivelmente pudesse se relacionar com um grupo muito específico e minoritário de camponeses. De qualquer forma, toda essa análise dessas passagens nas fontes literárias serve apenas para desacreditar parte da fundamentação da hipótese de Rathbone, não para refutá-la. Continuamos na armadilha da ausência de evidências.

Quando se volta para o registro arqueológico, por outro lado, o único exemplo que Rathbone foi capaz de identificar de estrutura rudimentar do tipo que ele imagina ser predominante entre os camponeses romanos é uma pequena fundação em pedra, interpretada como base de uma cabana oval, encontrada próxima a Matrice, no Sâmnio,

244 Vitrúvio, Sobre a arquitetura, 2.5. A cabana no Capitólio também é mencionada por Sêneca, o velho,

Controvérsias, 2.1.4.

245 Varrão, Sobre as coisas do campo, 3.1.3 246 Columella, 12.15.1.

ocupada entre os séculos III e II a.C.. Ela foi revelada em níveis estratigráficos inferiores da escavação de uma estrutura mais tardia e bem mais complexa, identificada como uma uilla rustica248. Por si só, este pode ser um dado revelador: sua escavação só foi possível

porque uma estrutura muito maior foi identificada e escavada no mesmo sítio.

Infelizmente, os resultados dessa escavação não foram plenamente publicados. Não temos mais informações sobre esta estrutura do que esta provável datação e uma foto de suas fundações em pedra (ver foto da figura 59)249: não podemos nem mesmo conjecturar sobre o tamanho dessa estrutura, dado que nada sabemos sobre a possibilidade de ela se estender para além da área retratada sumariamente na foto (ainda que Rathbone conjecture um tamanho máximo de 50 m²)250.

De toda forma, Rathbone deixa claro que sua proposição se baseia no rasto das típicas cabanas ovais da Itália pré e proto-histórica. Ele sugere um uso comparativo das escavações que identificaram as estruturas dessas vetustas cabanas, assim como as famosas urnas cinerárias pré-históricas em formato de cabanas (ver representação da figura 60), para termos indícios de como seriam as habitações rudimentares nas quais parte significativa dos camponeses romanos viveria251.

A partir da escavação de um número significativo de exemplares, é comumente sugerido que essas cabanas ovais, de paredes em pau-a-pique construídas sobre fundações em pedra, com o chão rebaixado em terra batida e teto de sape, normalmente medindo entre 15m a 17m por 8m a 9m (ver representação da figura 61), eram a forma básica de habitação entre o final da Idade do Bronze e a Idade do Ferro em toda a Itália central252.

Elas aparecem no registro arqueológico graças a essas fundações de pedra, a esses chãos rebaixados e aos buracos de fundação de estacas. Esses elementos foram identificados em diversas escavações de assentamentos pré- e proto-históricos na Itália central. Sua forma geral, por outro lado, tem sido sugerida a partir das urnas cinerárias em forma de cabanas encontradas em contextos funerários nessas mesmas regiões253.

Seu uso como modelo para as estruturas camponesas da Itália central depois do século VI a.C. como proposto por Rathbone, porém, enfrenta uma série de dificuldades.

248 LLOYD, John, Farming the highlands: Samnium and Arcadia in the Hellenistic and Early Roman Imperial periods., in: BARKER, Graeme; LLOYD, John (Orgs.), Roman landscapes: archaeological

survey in the Mediterranean region, London: British School at Rome, 1991, p. 182–184.

249 Ibid., p. 182.

250 RATHBONE, Poor peasants and silent sherds, p. 310. 251 Ibid., p. 310–311.

252 BECKER, Jeffrey A., Italic Architecture of the Earlier First Millennium BCE, in: ULRICH, Roger B.; QUENEMOEN, Caroline K. (Orgs.), A Companion to Roman Architecture, [s.l.]: Wiley, 2013, p. 7–9. 253 Ibid., p. 8–9.

Em primeiro lugar, essas cabanas provavelmente não são estruturas camponesas. Sugeriu- se que se tratavam de habitações de certo status social, entre outros motivos, pelo fato de as urnas cinerárias em forma de cabana estarem justamente associadas com a elite das comunidades pré-históricas italianas254. Soma-se a isso o fato de a localização de algumas dessas cabanas coincidir com o de posteriores templos do período arcaico (em Velletri, Sátrico e Ardea, por exemplo), o que fez alguns estudiosos conjecturarem a possibilidade de algumas dessas cabanas terem sido o locus dos primeiros cultos comunitários, nos primórdios do processo de urbanização e formação dos estados na Itália central255.

Em segundo lugar, essas cabanas também não são exatamente estruturas rurais. Ainda não é possível fazer uma verdadeira distinção entre campo e cidade no período da história da Itália central no qual elas predominam no registro arqueológico256. Mais do que isso: essas cabanas foram prioritariamente escavadas no que viriam a ser, posteriormente, os grandes centros urbanos da Itália central arcaica257. A gradual transição da habitação nessas cabanas para a habitação em estruturas mais robustas construídas em pedra, identificada a partir do século VII a.C. em regiões como o Palatino em Roma258 e Marzabotto259, colônia etrusca na Itália setentrional, é apontado por vários estudiosos desse período como um dos elementos fundamentais do processo de urbanização dessa região260.

Seria possível conjecturar que esse processo cria uma forma eminentemente urbana de construção, baseada em técnicas mais avançadas, enquanto as cabanas construídas de maneira rudimentar passam a ser uma forma predominantemente rural – e ainda perdida no registro arqueológico, dado a contumaz ênfase das escavações arqueológicas, por motivos diversos, nas áreas urbanas. Contudo, a relação entre as arquiteturas urbana e rural não parece ter sido divergente nesse nível.

254 Ibid.; BARTOLONI, Gilda, La cultura villanoviana: all’inizio della storia etrusca, Roma: Carocci, 1989, p. 69–70.

255 FULMINANTE, Francesca, The Urbanisation of Rome and Latium Vetus: From the Bronze Age

to the Archaic Era, Cambridge: Cambridge University Press, 2014, p. 224.

256 BECKER, Italic Architecture of the Earlier First Millennium BCE, p. 9; GUARINELLO, Ruínas de

uma paisagem, p. 87.

257 BECKER, Italic Architecture of the Earlier First Millennium BCE, p. 7–8.

258 CARANDINI, Andrea, Domus et insulae sulla pendice settentrionale del Palatino, Bollettino comunale

archeologico municipale di Roma, v. XCI, n. 2, p. 262–278, 1986, p. 436.

259 STACCIOLI, Romolo Augusto, Sulla struttura dei muri nelle case della città etrusca di Misano a Marzabotto, Studi Etruschi, v. 35, 1967, p. 113–126.

260 BECKER, Italic Architecture of the Earlier First Millennium BCE, p. 11; CORNELL, Tim, The

Beginnings of Rome: Italy and Rome from the Bronze Age to the Punic Wars (c.1000–264 BC),

A escavação de duas estruturas no platô de Centocelle, em Roma, pode ter a chave para essa questão. Em ambas foram identificadas fundações em pedra que provavelmente sustentavam estruturas construídas em materiais perecíveis (ver representações da figura 62). Os arqueólogos conjecturaram uma estrutura em madeira, terra e alguns tijolos, técnica conhecida nos estudos sobre a arquitetura romana clássica por opus craticium (ver representação da figura 63). A partir dos achados de cerâmicas, a ocupação de ambas as estruturas foi datada para o período entre o final do século VI e o início do século V a.C.. Os arqueólogos que escavaram essas estruturas próximas a Roma afirmam, precisamente, que elas representariam uma espécie de tipo intermediário entre as cabanas pré-históricas e os pequenos edifícios construídos em pedra, que já existiam nesse período (como o edifício escavado em Podere Tartuchino, analisado acima)261. Ainda que o número de pequenos sítios rurais escavados na Itália central ainda seja escasso para sustentar afirmações peremptórias sobre sua evolução histórica – e um estudo sistemático nesse sentido se faça necessário –, é possível conjecturar justamente um processo de transformação no padrão de como essas pequenas estruturas eram construídas entre o período arcaico e o início do período romano na Itália central tirrênica.

Um sítio escavado próximo à porta noroeste de Veios talvez nos ofereça o exemplo paradigmático desse processo – ainda que mais uma vez estejamos correndo o risco de identificar um processo geral a partir de um número muito pequeno de sítios escavados. No nível estratigráfico mais profundo foram encontrados buracos para fundação de estaca escavados na rocha e interpretados como vestígios de uma típica cabana circular, de ocupação datada para o século IX a.C. (ver representação A da figura 64). No nível estratigráfico seguinte, datado para o século VI a.C., essa estrutura circular parece ter sido substituída por uma estrutura de técnica construtiva similar, identificado por novos buracos para fundação de estacas, mas muito mais amplo, em formato retangular, com divisão interna dos ambientes, e provavelmente um pórtico (ver representação B da figura 64). Por fim, essa estrutura foi mais uma vez substituída, entre o final do século VI e início do V a.C por um edifício de tamanho e forma similar, mas construído sobre uma fundação em pedra e com nova organização interna (ver representação C da figura 64)262.

261 VOLPE, Rita et al, Contesti di VI Secolo a.C. sul pianoro di Centocelle (Roma), in: Atti del Convegno

Ceramica, abitati, territorio nella bassa valle del Tevere e Latium Vetus, (17-18 febbraio 2003), Roma:

École Française de Rome, 2009, p. 131–132.

262 POTTER, The changing landscape of South Etruria; GUARINELLO, Ruínas de uma paisagem, p. 86.

Assim, uma posição cética frente à hipótese de uma quantidade substancial de casas camponesas rudimentares perdidas pelo registro arqueológico não é um mero apelo à nossa ignorância determinada pela sua possível invisibilidade arqueológica. É provável que uma parte significativa das estruturas rurais de pequeno porte, até o período arcaico, sejam de fato mais rudimentares e arqueologicamente silenciosas263. Porém, a ainda incipiente escavação de pequenos sítios rurais, somada às melhores informações que temos sobre o processo similar que ocorre no meio urbano em formação, nos dá a impressão de que a partir do século V a.C., e crescentemente ao longo do período republicano, há uma mudança nesse quadro.

Talvez mesmo por influência das estruturas urbanas, as pequenas estruturas construídas no campo, muitas delas ligadas ao campesinato, passariam a ser construídas cada vez mais com técnicas de construção mais avançadas e usando materiais arqueologicamente mais visíveis, como telhas, tijolos e pedras. A presença desses materiais nos pequenos sítios isolados identificados nos levantamentos de superfície realizados nessa região – e sobre os quais falarei com mais detalhe no capítulo três – é um grande indício disso. Essa transformação só foi possível graças a uma série de inovações técnicas que ganharam espaço na Itália central deste período. O desenvolvimento de instrumentos de ferro, como serras, enxós e cinzéis, que possibilitaram o trabalho com a madeira que servia de estrutura para telhados, assoalhos e paredes, assim como as técnicas de construção de paredes mais robustas, feitas em madeira, tijolos ou pedra, que podiam sustentar telhados mais complexos e pesados, que utilizavam telhas264.

Isso implica em questões importantes para a avaliação dos dados quantitativos dos levantamentos de superfície, como argumentarei no capítulo três265. Todavia, nesse momento importa contestar em parte o cenário concebido por Rathbone, de camponeses vivendo majoritariamente em estruturas arqueologicamente invisíveis. Se de fato parte das estruturas camponesas podem assim ser imaginadas, parece possível estabelecer que

263 J.B Ward-Parkins e sua equipe acreditavam justamente que os pequenos sítios isolados etruscos identificados no território de Veios fossem cabanas simples, “provavelmente possuíssem uma considerável semelhança com as habitaçõse que os pastores das montanhas ainda constoem quanto passam o inverno da Campagna romana” KAHANE, Anne; THREIPLAND, Leslie Murray; WARD-PERKINS, John Bryan, The “Ager Veientanus”, North and East of Rome, Papers of the British School at Rome, v. 36, 1968, p. 71 Vale destacar que eles estão comparando essas “fazendas etruscas” com abrigos fazonais construídos por pastores que fazem transumância.

264 ULRICH, Roger B.; LANCASTER, Lynne, Materials and Techniques, in: ULRICH, Roger B.; QUENEMOEN, Caroline K. (Orgs.), A Companion to Roman Architecture, [s.l.]: Wiley, 2013, p. 160– 161.

existe um processo de aumento da visibilidade arqueológica dessas estruturas. Os motivos que levaram a esse processo, para além de um mero mimetismo da arquitetura urbana e