3. Crise da cidade, organização e reprodução do Espaço: planejamento urbano e direito à cidade no
3.6. A cidade, o planejamento e a vida cotidiana
O planejamento urbano, realizado sob o modo de produção capitalista acaba por destituir os habitantes da cidade de uma atuação política, social, e também por lhe impor uma vida cotidiana bastante sofrida. Observemos ao nosso redor. Nosso olhar, fixo no horizonte, visualiza na paisagem um quadro de uma desigualdade gritante, talvez único em nossa história. Centros financeiros envidraçados, com prédios que brilham sob o sol como pedras preciosas que se alinham sobre a cidade. Complexos de transporte, vias rápidas, revitalizações de zonas degradadas são alguns dos elementos que mobilizam a vida em cidades no Brasil e no mundo. Vive-se hoje, na humanidade, um fato inteiramente novo e sem precedentes na história conhecida: vive-se sob um modo de produção majoritariamente urbano, com a maior parte da população humana vivendo em cidades que crescem sem cessar, sendo enorme o número das que já ultrapassaram seu primeiro milhão de pessoas, quadro impensável no início do século XX (DAVIS, 2006). Na outra face temos a exclusão e a miséria na qual vive grande parte da população nos vastos rincões rurais, bairros pobres e nas ruas. Às margens da cidade e do urbano encontramos uma massa de pessoas que vivem em
Tabela 4: porcentagem das ações da família Gulin entre as vencedoras de licitação de transporte público do município de Curitiba do Edital de Concorrência n.o 005/2009, Processo no. 100/2009 – ALI/DTP da URBS. Fonte: COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO CRIADA NOS TERMOS DO REQUERIMENTO 049.00003.2013. p. 97
habitações precárias, montadas com materiais improvisados, ou dormem nas ruas, destituídas dos direitos mais básicos que o Estado promete universalmente sob o capitalismo. A produção do urbano é, ao mesmo tempo, a produção do seu avesso. A intensificação do urbano e da vida urbana, como aquela que dá todas as possibilidades culturais, políticas e econômicas a indivíduos e a alguns grupos sociais, produz simultaneamente o seu avesso.
A década de 1970 é um ponto marcante na expansão da fronteira urbana no Brasil, pois a partir dela colocam-se as metrópoles no centro do processo de reprodução do Capital, a nível nacional e internacional. A partir de então, é necessário atualizar um debate envolvendo os pressupostos da produção capitalista do Espaço e até que ponto a questão da renda da terra em Marx é, ainda, relevante para a compreensão da questão urbana. É necessário entender os conteúdos por trás da crise da cidade que se expressa de maneira cada vez mais radical nos conflitos de classe na cidade e no campo e no processo total de nosso modo de produção.
A produção do Espaço urbano é, para a classe capitalista, um negócio rentável na medida em que acompanha o processo geral da produção de mercadorias. Na passagem do capitalismo industrial ao capitalismo financeiro – processo que, no Brasil, toma corpo a partir da década de 1970, quando a produção social do espaço urbano adquire novos conteúdos. A produção da cidade – assim como sua obsolescência – vai acompanhar um processo especulativo de capital fictício que é, a cada dia que passa, mais frenético e intenso. Daí, talvez, a natureza dos grandes projetos urbanos contemporâneos. Para Harvey:
A produção do espaço em geral e da urbanização em particular tornou-se um grande negócio no capitalismo. É um dos principais meios de absorver o excesso de capital. Uma proporção significativa da força de trabalho total global é empregada na construção e manutenção do ambiente edificado. Grandes quantidades de capitais associados, geralmente mobilizados sob a forma de empréstimos a longo prazo, são postos em movimento no processo de desenvolvimento urbano. Esses investimentos, muitas vezes alimentados pelo endividamento, tornaram-se o epicentro de formação de crises. As conexões entre a urbanização, a acumulação do capital e a formação de crises merecem análise cuidadosa. (HARVEY, p. 137)
A circulação de capital, a nível geral, busca ser acompanhada por um lastro material, uma mercadoria que possa ser mobilizada em favor do lucro de determinado grupo de investidores que injetaram capital em um ou outro pedaço do planeta. A terra, que não pode circular por navios e aviões entre os países, é uma contradição enquanto mercadoria no capitalismo contemporâneo. Esta, por si só, não possui um valor de troca por não ser fruto de trabalho humano, mas possui um valor de uso e é meio de produção, já que é a base material necessária à produção de mercadorias. O mercado de terras se constitui, portanto, do monopólio que o proprietário possui sobre o uso, a exploração, a localização, entre outros elementos, da propriedade fundiária (MARX, 2013).
financeiro apareceria, então, como uma ferramenta no capitalismo para mobilizar – e portanto gerar a capacidade de especular com ela – a propriedade imobiliária, ou seja, age como uma ferramenta para inserir a terra no fluxo de produção e circulação de mercadorias. Ao investir, o investidor espera encontrar uma rentabilidade espacial sob a forma de juros, conforme cita HARVEY (2012) em Os Limites do Capital.
Mas o que faz com que determinadas propriedades sejam mais valorizadas em relação às outras? O capital constante nela incorporado; O que gera este capital? O trabalho Humano; Quem trabalha para a produção deste capital? A classe trabalhadora; Este trabalhador recebe o que por este trabalho? Salário; E o proprietário? Renda; E o capitalista? Lucro; E porque os trabalhadores se submetem a vender sua força de trabalho para outra pessoa? Porque a concentração e o monopólio da propriedade fundiária (no campo e na cidade) destitui boa parte das pessoas do uso, da posse e da propriedade da terra como meio de produção da própria vida através da promoção da escassez desta. Assim, para sobreviver, uma imensa massa de trabalhadoras tem de vender sua força de trabalho a quem detém os meios de produção. Portanto, a propriedade fundiária está no fundamento da exploração do trabalho e do próprio modo de produção capitalista. A renda da terra é a realização da propriedade da terra no capitalismo, e precisa ter seus conteúdos atualizados para um novo contexto.
No movimento da concorrência entre os capitalistas, e a consequente queda tendencial da taxa de lucro apontada por Marx (2013), o capital tende a se expandir e se reproduzir no Espaço a um ritmo cada vez mais intenso. Para realizar este movimento e buscando superar sua crise imanente de produção, o capital passa a incorporar a realização da mercadoria habitação na cidade por meio do crédito. Com isso, a cidade assume a centralidade da produção social capitalista, enviando ordens e organizando a produção global de mercadorias e de mais-valia (SANTOS, 2015).
A fluidez econômica exigida por este processo de financeirização reflete-se no Espaço com a intensificação da crise e da exploração do trabalho. A destituição de uma massa de pessoas de seus espaços de encontro somada a constituição de formas espetaculares nas cidades surge visando, sempre, o consumo de mercadorias e do próprio Espaço como tal. Para Molina:
No sentido conferido por Debord (2005), o espetáculo pode ser considerado como um resultado e, ao mesmo tempo, projeto do modo de produção existente, não devendo ser considerado apenas como um conjunto de imagens, mas também, como relações sociais mediadas por imagens. Trata-se, conforme o autor, do momento em que as imagens são mais importantes que os objetos, exacerbando-se, assim, a publicidade, aliada ao consumo, que, no caso da “cidade espetáculo”, diz respeito à própria cidade, ela mesma, tornada mercadoria. (MOLINA. 2013. p. 133)
Dentro desta lógica não existem, portanto, espaços improdutivos, mas disputas por diferentes usos e apropriações do Espaço. Constituem-se inserções precárias (negativas) no
processo geral de circulação que se refletem na produção do espaço urbano. A cidade capitalista é produzida para que todos sejam, o tempo todo, produtivos de alguma maneira, inclusive em seus momentos de ócio. Mas uma cidade onde se realizam investimentos na tentativa de torná-la socialmente equitativa, o sobre-lucro obtido através da renda diferencial diminui. Podemos afirmar, portanto, como já nos alertava Engels em Sobre a Questão da Moradia (2015), que a cidade é produzida, no capitalismo, para ser desigual. A produção de desigualdades é portanto, um elemento chave para o enriquecimento e manutenção das classes dominantes. Mas este movimento encontra resistências, e nunca se aplica da forma imaginada pelo urbanizador. Ao entrar em contato com a realidade, os planos da burguesia são alterados pela própria realidade em curso, o que gera um terceiro termo, uma contradição. É no cerne desta contradição que se centra a nossa análise: a vida cotidiana.
Em períodos de crise, a propriedade imobiliária emerge como o “investimento mais seguro”. É possível pensar que o capitalismo faz sua transição ou virada do capital produtivo ao capital fictício no mesmo momento em que deixa de utilizar um lastro de valor palpável – como o ouro, durante o período mercantilista, ou os escravos como fonte de crédito no Brasil colônia e Imperial – para adotar a terra como reserva de valor, como nos aponta MARTINS em O Cativeiro da Terra (2012). Isso significaria dizer que o lastro de capital fictício está, quando se trata da renda fundiária, dando a possibilidade de se pensar que quanto maior o volume de capital fictício em circulação, maior será a exploração do trabalho, pois quem controla e monopoliza a terra, controla e monopoliza o trabalho.
A ideologia da cidade como caos, como desordem, vem para legitimar o ordenamento urbano visando o lucro obtido pelo mercado financeiro através do mercado imobiliário e, do ponto de vista político, criar centros e periferias que viabilizem a fluidez do capital legitimados por uma racionalidade científica (GARNIER, 1976). O Estado, por meio de seu poder burocrático e do montante de capital que mobiliza na forma de crédito, vai viabilizar e articular diferentes agentes – empresas, força de trabalho, investimento em estradas, etc. - para que o Espaço se torne fluido o suficiente para garantir a rentabilidade exigida pelos capitalistas investidores. O lucro destes é mais importante que a garantia de direitos básicos para a maioria da população.
Portanto, a lógica do capitalismo é a de produzir cidades cada vez mais desiguais. Se a produção do Espaço, de maneira geral, é desigual e violenta, – como podemos observar cotidianamente nos conflitos urbanos e rurais – admite-se que as cidades produzidas sob este modo de produção reproduzam a mesma desigualdade e violência do processo geral de acumulação de capital. O planejamento urbano é segregador na medida em que tenta organizar uma (des)ordem que
é o produto do próprio modo de produção em que vivemos, mas que se impõe como um processo “natural” de uma urbanização “sem controle” (LEFEBVRE, 2008). O urbanismo serve, portanto, para amortecer os conflitos cada vez mais intensos e violentos gerados na luta de classes no campo e na cidade. Os moradores da ocupação Tiradentes, que vivem às margens de um rio mal cheiroso contaminado por um aterro sanitário gerido pela empresa privada Essencis, não vivem a “capital ecológica” em seu cotidiano, e nem são vistos como parte desta.
Tal fato nos coloca uma questão importante: até que ponto uma cidade que, através do planejamento urbano e que recria a segregação – condomínios fechados, favelas, guetos, etc. - pode- se dizer uma “cidade modelo”, ou mesmo uma “cidade global”? A resposta talvez esteja na afirmação de que um planejamento que não intervém na estrutura social capitalista não é capaz de organizar cidades a não ser para garantir a obtenção de lucro para os rentistas e proprietários fundiários. Existem fissuras que expõem as contradições gerais da sociedade vigente e encontram a resistência dos grupos que são afetados de maneira negativa por esses projetos. A resistência mais radical vêm daqueles que necessitam resistir pra sobreviver, dos que não tem outra alternativa. Para Ribeiro:
Chegamos ao século XXI com as cidades brasileiras estampando a desigualdade que marca a história de nossa urbanização. Por um lado, temos centralidades de riquezas interligadas com as mais dinâmicas economias mundiais e, por outro, morfologias que revelam a plena exploração dos moradores das cidades. Em 2010, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – apontava que 6% da população do país estava vivendo em favelas, isto é, mais de 11 milhões de pessoas ocupavam áreas que juridicamente não lhes pertenciam e viviam em condições precárias. Esse dado sinaliza a constante relação entre a impossibilidade de acesso ao solo urbano e o ato cotidiano da transgressão para (sobre)viver por meio da posse da terra (RIBEIRO, p. 173).
A cidade é considerada ordenada e racional quando serve de maneira funcional aos interesses econômicos de famílias oligárquicas, e considerada desordenada quando os pobres aparecem subvertendo o uso do espaço quando, por exemplo, dormem em uma praça projetada para o encontro de famílias de classe média. Para a burguesia só existe ordem quando seus lucros estão garantidos e a pobreza gerada por seu modo de vida longe de suas vistas. Para BENVENUTTI (2016) em Curitiba:
Nos anúncios e campanhas de marketing imobiliário, esta problemática e contradição apareceu simplificada, como uma mera questão de “escolha” envolvendo Estado, construtoras e usuários consumidores. Nesta perspectiva, as administrações públicas teriam a responsabilidade com relação ao tipo de planejamento urbano adotado, enquanto as construtoras contribuiriam em oferecer edificações com “estética e conforto”. Os consumidores, por sua vez, “orientados” para o “bom gosto” pelas “construtoras, incorporadoras e vendedoras de imóveis” e também pelas “administrações municipais e os órgãos de divulgação” (GAZETA DO POVO, 20/06/1976), poderiam, então, distinguir as vantagens existentes entre o projeto de habitação personalizado e o projeto massificado, entre o espaço “saudável” e o espaço insalubre, entre o transporte público eficiente e o uso de automóvel no trânsito “caótico”, entre o bairro com “ótima localização” e o bairro desprovido de melhorias e equipamentos, entre a região arborizada e uma área desprovida de cuidados
paisagísticos etc. Porém, como “mercadorias, no caso – imóveis” (GAZETA DO POVO, 31/08/1975), essas opções concernentes com a melhor qualidade de vida, estavam disponíveis apenas àqueles dispostos ou em condições de pagar pelo preço de monopólio.” (Op. Cit. p. 210)
A luta social, que a princípio pode evocar a um reformismo (direito à moradia, mobilidade urbana, reforma agrária, educação, etc.), desenvolve, no próprio processo de resistência, uma consciência política que transcende a luta por direitos e muda seu sentido para uma luta por outra vida, um outro projeto de sociedade, onde enxerga-se mais claramente a luta de classes, e busca-se mudar a vida cotidiana. Pudemos observar isso claramente nas entrevistas realizadas no acampamento Herdeiros da Luta, em Porecatu. A luta por uma casa, por escola, por alimentação tem o seu valor no momento em que, no próprio processo de luta por direitos, rompe-se com o cotidiano totalmente envolvido com a lógica do trabalho. Os participantes de coletivos e movimentos sociais constroem processos autogestionários interessantíssimos que são pedagógicos para que se almeje uma luta mais ampla de superação do capitalismo e do modo de produção. Para Harvey (2014):
Para muitos na esquerda tradicional (o que para mim significa principalmente partidos políticos socialistas e comunistas e a maioria dos sindicatos), a interpretação da geografia histórica dos movimentos políticos urbanos vem sendo prejudicada por suposições políticas e táticas apriorísticas que conduzem a uma subestimação e incompreensão da potência desses movimentos para deflagrar uma mudança não apenas radical, mas revolucionária. Os movimentos sociais urbanos são constantemente vistos como algo, por definição, separado ou subordinado às lutas de classe e anticapitalistas que têm raízes na exploração e alienação do trabalho vivo na produção. Se é que os movimentos sociais urbanos chegam a ser, de fato, levados em consideração, são tipicamente interpretados como meros desdobramentos ou desvios dessas lutas fundamentais. Na tradição marxista, por exemplo, as lutas urbanas tendem a ser ignoradas ou repudiadas como desprovidas de potencial ou importância revolucionária. Essas lutas são interpretadas como algo mais voltado para questões de reprodução do que de produção, ou sobre direitos, soberania e cidadania, e, portanto, não sobre classe (Op. Cit. p. 217).
O ano de 2013 foi no Brasil, emblemático na exposição das contradições de classe presentes na sociedade em que vivemos e em nos colocar quais são os limites da cidade e da resistência aos grandes projetos do Estado e das empresas. A questão do transporte público, central para toda a classe trabalhadora e em especial os mais pobres, foi negligenciada como pauta importante pela esquerda e foi apropriada pelos meios de comunicação que diluíram manifestações que debatiam o direito à cidade em questões dispersas, desmobilizadoras e reacionárias, o que pode estar no centro do processo político que vivemos hoje no Brasil. Neste sentido, a idéia de fenômeno urbano, em LEFEBVRE (1968), é potente na interpretação de muitas das mobilizações expostas neste capítulo, assim como outras ocorridas recentemente no Brasil:
(…) estes fenômenos introduzem contradições novas. Além do mais, em relação aos novos fenômenos, as antigas superestruturas (ideológicas e institucionais), edificadas na base da industrialização, das relações sociais e políticas desse período, podem ter um atraso crescente ou decrescente, manifesto ou oculto. Sem excluir desse esquema as superestruturas políticas, os aparelho ideológicos especializados e institucionalizados.
(…) De abstratas e incompletas, as dissociações tornam-se imperfeitas, mas sua realização completa e anuncia o seu fim. Efetuada no terreno, é no terreno que podem ser superadas:na rua. Aqui o estudante encontra o trabalhador e a razão reduzida a suas funções encontra a palavra. Ideologias notadamente a do intelecto analítico puro, se realizam praticamente. Instituições governam. E é assim que essas ideologias e essas instituições tardam, enterradas em suas realizações. Os fenômenos urbanos acompanham o definhamento das superestruturas do crescimento industrial (inclusive o urbanismo). Este crescimento que não pode assegurar o desenvolvimento social se desacredita, com sua ideologia, com sua racionalidade, com suas instituições. (Op. Cit. p. 129-30)
Em Curitiba, onde boa parte do jogo de poderes que paira sobre a disputa atual pelo Estado brasileiro se desenrola; onde a questão da técnica e da ciência se colocou como superior a qualquer outra forma de raciocinar; tais fenômenos urbanos dilatam suas fissuras e expõem os limites da forma sobre a vida cotidiana. O Estado recuou da reintegração de posse sobre a ocupação Tiradentes ante a ameaça de que se ocupassem prédios no centro da cidade. Abriu abrigos emergenciais para a população em situação de rua após manifestações do Movimento Nacional do Povo da Rua. Obrigou-se a dar respostas – evasivas – às pressões em relação ao cartel formado pela família Gulin em torno do transporte público da cidade. Precisou-se de muito jogo de cintura para lidar com as ocupações de escola em todo o Brasil. O povo fala, cabe ao pensamento de esquerda ouvir, e criar estratégias sobre como agir espacialmente. Estamos sentados sobre um barril de pólvora, e ele há de explodir.