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4. A dialética campo-cidade no Brasil: esboços de uma reflexão

4.1. Campesinato e Urbanização: contradições e continuidades

Pela primeira vez na história humana a população urbana se torna majoritária na humanidade (DAVIS, 2006). Somos social e individualmente submetidos ao processo de urbanização crítica80 de uma maneira absurdamente intensa. Tendo em vista que populações inteiras

abandonaram, e continuam a abandonar seus lares nas periferias urbanas e rurais em busca de novas formas de realização da vida em médias, grandes cidades, ou mesmo constituindo lavouras em novas áreas de expansão agrícola, a mobilidade do trabalho - que acompanha os ciclos de produção e de consumo que atende aos lucros almejados por acionistas do setor financeiro (SANTOS, 2013. p. 99-132) - se torna um eixo central de análise quando se pensa nas formas atuais de reprodução do capitalismo. O que leva a pessoas, mulheres, homens, famílias inteiras, dentro de sua complexa diversidade, a sair de seus locais de origem, repletos de significado, para seguir rumo a uma outra realidade rural ou urbana que é ao mesmo tempo sedutora e desconhecida e que pode revelar-se também dor e sofrimento? O que leva trabalhadores a se levantarem cedo todos os dias, apinharem- se em um transporte público caro e desconfortável, para trabalhar por baixos salários?

As grandes cidades brasileiras conhecem, desde a década de 1930, e com mais intensidade a

80 “Considerando-se os limites da inserção, no mercado de trabalho, da força de trabalho disponível nas grandes cidades; considerando-se, também, como fundamento e base de desenvolvimento das cidades, como corpo citadino ou na sua materialidade, a propriedade da terra capitalizada, que sustenta um amplo campo de negócios urbanos, a urbanização em nosso país é crítica. A tentativa de reunir urbanização e industrialização num par coerente, sem fissuras, embora específico é insuficiente.

O que é a urbanização crítica? É a impossibilidade do urbano para todos, a não ser que se transformem radicalmente as bases da produção e da reprodução sociais.” DAMIANI, Amélia Luísa. Urbanização crítica e

situação geográfica. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri; OLIVEIRA, Ariovaldo Ubelino de. Geografias de São

partir da década de 197081, um crescimento populacional muito expressivo, fato que as transforma

de pequenos e médios centros urbanos com algumas centenas de milhares de habitantes em grandes conglomerados populacionais em um período de tempo relativamente curto. Ao analisarmos o crescimento de cidades como São Paulo, podemos observar que, até fins do século XIX, pouco se esperava daquela modesta vila, como descreve Pierre Monbeig em seu trabalho O Crescimento da Cidade de São Paulo (2015):

Pequena cidade de 26.040 habitantes em 1872, São Paulo não passava de modesto centro administrativo de uma província cuja população somava 837.354 pessoas. As grandes sedes econômicas, demográficas e intelectuais do Brasil ainda se localizavam então no Rio de Janeiro e nas antigas capitais do Nordeste, Salvador e Recife. A partir de 1890, a população do Estado de São Paulo aproximou-se do milhão e meio, enquanto sua capital já havia mais que dobrado o contingente. Dez anos mais tarde, estas cifras apresentavam um crescimento brutal: 2.282.279 habitantes para o conjunto do Estado, e 239.280 para sua capital, a qual, desde então, não cessou de crescer ao mesmo ritmo. Em 1920, sua população abrangia 579.033 indivíduos (em face dos 4.592.188 do Estado), e o recenseamento de 1940 apurou 7.261.698 para este último e 1.326.261 para a capital. (Op. Cit. p.16)

Esta mesma capital permanece com um crescimento populacional intenso mesmo após o período analisado por Monbeig. A cidade atinge a cifra de 5 924 615 habitantes no recenseamento de 1970, saltando para 11 253 503 no recenseamento de 2010, números intensificados pelos cerca de 18 milhões de habitantes que vivem hoje na Região Metropolitana de São Paulo. Em Curitiba, cidade analisada neste trabalho, os dados populacionais não são menos reveladores. Em 1950, a população assomava 180 575 habitantes, elevando-se para 609 026 em 1970, chegando ao número de 1 751 907, segundo o censo de 201482.

Tais números revelam-nos uma realidade que poucas vezes é analisada dentro de toda sua complexidade, dentro ou fora da academia. Observando, como professor, as representações encontradas nos livros didáticos para o Ensino Fundamental e Médio e o senso comum sobre a vida nas cidades brasileiras, a explicação para o crescimento destas aparece representada de maneira grosseira e simplificada: os antigos habitantes de núcleos rurais, sentindo-se atraídos pela grande oferta de empregos gerados pela industrialização nos grandes centros urbanos e em busca de uma melhor colocação profissional, partem – de muita boa vontade – para as cidades para concorrer por uma vaga no mercado de trabalho, superlotando-a e causando todos os problemas sociais que a cidade possui. O migrante é, diretamente, o culpado pela crise urbana que se instaura.

Entendemos que tal forma de analisar este fenômeno nos desvia os olhos da verdadeira 81“(…) nas décadas de 60 e 70, a crescente urbanização, o desenvolvimento industrial e o surto migratório interno, principalmente do Nordeste do país geraram um excedente de mão-de-obra na cidade, que levou ao fim das Vilas Operárias. Os custos com moradia passaram a ser de responsabilidade dos trabalhadores, forçando-os a se refugiarem nas periferas, sem nenhuma infra-estrutura.” CATARUCCI, Amanda de Fátima Martin. A APA do armo

na Produção da Cidade e a Cidade na Produção do Relevo. Trabalho de Graduação Individual. Departamento de

Geografia – FFLH – USP. 2007. P.35.

realidade de concentração-despossessão de capitais, terras e a imposição de um modo de vida urbano que nunca consegue ser realizado plenamente por grande parte da população pobre destas mesmas cidades. Há aqui uma leitura meramente positiva e historicista do processo urbano, que apresenta um urbano isento de contradições internas, sem luta de classes e que pretendemos, ainda que na forma de apontamentos, descortinar, ou, segundo Damiani (2004), dramatizar:

Pierre George fala de migração não só como deslocação humana, mas como irradiação geográfica de um dado sistema econômico e de uma dada estrutura social. Na maioria das vezes é um empreendimento controlado: um ato político (Op. Cit. p. 40).

Os fluxos migratórios da região Norte/Nordeste em direção Sul/Sudeste, apresentam seu ápice na década de 1970, e já foram bastante analisados por geógrafos, sociólogos e outros cientistas sendo, porém, insuficientes para explicar a atual conjuntura da contradição campo-cidade no Brasil. Áreas que estão além das fronteiras nacionais – lembrando o intenso fluxo de imigrantes bolivianos, haitianos entre vários outros83 que se inserem no cenário atual – podem ser descritas

como continuidade-descontinuidade deste, e que necessita de atualizações. Hoje, muitos municípios do Brasil sofrem, ao contrário de grande parte das metrópoles brasileiras, um contínuo déficit populacional.

É o caso de cidades como Poção de Pedras, no Maranhão. No censo de 1991, o município contava com 24 481 habitantes, decaindo para 22 378 em 2000; 19 708 em 2010; e tendo, como estimativa para o ano de 2013 a cifra de 18 633 habitantes84. A tendência à queda populacional é

registrada, hoje, por municípios rurais brasileiros que passam, coincidentemente ou não, por processos de modernização e atualização das forças produtivas e seus consequentes conflitos. Às margens do Rio Paranapanema, por exemplo, encontra-se uma região formada por extensos latifúndios especializados no monocultivo de cana-de-açúcar, soja e gado. Formada pelos municípios de Nova Londrina, Marilena, São Pedro do Paraná, Itaúna do Sul e Diamante do Norte, ao Sul da região denominada Pontal do Paranapanema, temos uma importante zona produtora de, principalmente, cana-de-açúcar e etanol no Noroeste do Estado do Paraná. A região convive, nos últimos anos, com uma queda populacional expressiva, e que muito nos chama atenção, conforme mostra gráfico 1 a seguir:

83 Movimentos migratórios muito bem tratados por vários números da revista Travessias, organizada pelo Centro de Estudos Migratórios, da Pastoral do Migrante na cidade de São Paulo e pelo Centro de Estudos Urbano Rural Irmã Araújo em Curitiba.

Em toda a região, assim como no Sul do Mato Grosso do Sul, no Oeste da Bahia e no Sul do Pará, há queda populacional nos municípios rurais segundo os dados do IBGE. Entendo que ao se deslocar espacialmente, grande parte dos trabalhadores situam-se, mais uma vez, diante da crise do trabalho imanente ao desenvolvimento do capitalismo, sobrevivendo de maneira precária através de subempregos e bicos esporádicos. Mudar-se é largar para trás laços que nunca mais serão reconstruídos da mesma maneira. O migrante nunca se insere plenamente no local para o qual passa a viver e, ao mesmo tempo, nunca abandona de todo suas origens. Eis então que pretendo compreender a divisão campo-cidade como etapa inicial e primordial da divisão do trabalho85,

intensificada em tempos de crise global do modo de produção dominante, ampliando, com isso, as taxas de exploração do trabalho no campo e na cidade, fenômeno que pode ser esmiuçado através do debate realizado sobre a ideia de acumulação primitiva e reprodução ampliada do capital, desenvolvido com maestria por Luxemburg (1984) em A Acumulação do Capital, obra com a qual estabelecerei um diálogo.