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A cidade segundo a abordagem sitteana: fragmentos, elementos, escala

3. Capítulo 2: a dimensão artística da cidade

3.1. A dimensão artística da cidade em Camilo Sitte

3.1.1. A cidade segundo a abordagem sitteana: fragmentos, elementos, escala

A praça, elemento central do discurso de Sitte, é o leitmotif que articula sua crítica e sua visão das cidades europeias, e de Viena em particular. A praça, antagônica às grandes esplanadas modernas, os pequenos jardins particulares “a salvo da poeira e do vento”, as arcadas, as estátuas e os chafarizes evocados pelo autor estabelecem o arcabouço através do qual Sitte elabora sua análise e suas propostas urbanísticas.

Como observa Carlos Roberto Monteiro de Andrade (in SITTE, 1992, p.vii), é a escala do fragmento que interessa a Sitte. Seus objetos de análise não são colocados num contexto maior, mas uns em relação aos outros, moldando

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assim a imagem de cidade com base em modelos relacionais de escala bastante controlada, talvez ainda sob o controle de um artista, arquiteto ou urbanista.

Sitte utiliza recortes precisos da paisagem urbana, "em vez das perspectivas voo de pássaro, ou de plantas de conjunto reunindo dados diversos". O todo urbano não interessa a Sitte, e os problemas de escala relativos não serão tratados por ele. Em A construção das cidades segundo seus princípios artísticos não há uma única imagem “de corpo inteiro” de Viena.

O crítico e historiador vive a polêmica com os construtores da Ringstrasse da Viena moderna. Vive também sentimentos contraditórios quanto às possibilidades oferecidas pelo novo contexto: há um Sitte que enaltece os espaços em escala humana das cidades antigas, e outro que se deixa encantar pela grandiosidade do Palácio Hofburg e do conjunto de edifícios monumentais em construção na Heldenplatz do Imperador Francisco José I.

Sitte observa as cidades antigas onde vielas estreitas desembocam em praças de tamanho proporcional, isto é, estreitas. Mas as novas dimensões impostas pela cidade em transformação exigem “espaços gigantescos”. E exemplifica através da Ringstrasse de Viena com 57 m de largura, da Esplanade de Hamburgo com 50 m e da Av. Campos Elíseos em Paris com 152 m. O autor observa que “nem mesmo a Piazza San Marco tem essa largura.”

Fica evidente que as novas exigências de mobilidade impõem modificações estruturais à cidade. O lugar de sociabilização das pessoas na cidade, para o exercício daquela especial habilidade referida por Bauman (2001), a civilidade, desloca-se das praças, antes fechadas – característica fundamental destacada por Sitte – para as praças abertas e vias que, alargadas, agora concentram os fluxos urbanos vitais da cidade moderna, e polarizam as atividades principais da cidade antes constritas às praças: da praça do comércio à rua do comércio, e desta ao eixo comercial.

A produção em escala, um novo fator do mundo moderno, determina novos parâmetros de vida na cidade a partir das novas relações de trabalho. Mudam os espaços de uso coletivo, que serão cada vez mais produtivos e

funcionais. Transforma-se também o espaço das representações simbólicas, tomado pela escala monumental.

A defesa das referências tradicionais faz com que Sitte reitere o “modelo barroco” historicamente consagrado pela cultura europeia. O Barroco (que vai do séc. XVII a meados do séc. XVIII) que, segundo Kostof (1991), foi um “prolongamento em escala” do Renascimento. Ainda que negasse suas proporções “rígidas e imutáveis”, manteve a perspectiva como fundamento da concepção dos espaços e como instrumento de valorização dos elementos urbanos, como edifícios, monumentos, praças e vias.

Sitte anota que “Paris foi a (cidade) que menos se distanciou do modelo barroco.” Como Roma, Paris enfrentou desde muito cedo a condição de metrópole moderna em função de seu expressivo crescimento, mas ambas tiveram “sua origem num momento superior no aspecto artístico”, isto é, são cidades cujas origens remotas lhes garantiram alguns de seus principais aspectos pinturescos, a despeito do primevo crescimento que sofreram.

Aqui, Sitte trata da questão da escala da cidade que, nos exemplos utilizados, mesmo transformada em metrópole, preservou a característica mais importante – a escala – das praças, seus elementos urbanos fundamentais.

Criticando o “moderno sistema de blocos”, mas admitindo sua inevitabilidade como estratégia de desenvolvimento da metrópole, Sitte investe na tentativa de nela garantir o lugar da arte, reconhecendo a nova escala que se impõe aos artistas construtores. Toma por exemplo dois projetos do arquiteto alemão Gottfried Semper (1803 -1879): o Zwinger de Dresden (não realizado) e o conjunto de edifícios junto ao Hofburg, palácio originado de um castelo medieval sucessivamente ampliado e modernizado (mas apenas parcialmente realizado), que era a principal residência do Imperador Francisco José I.

Ambos os projetos, que se caracterizam especialmente pela escala gigantesca e pelos programas que supõe tudo o que seria acessível somente às classes abastadas, são feitos depois da Primavera dos Povos de 1848, podem ser entendidos como uma manifestação do status quo em reação à agitação política

de então, fruto das crises econômicas. A exigência de representatividade dos extratos médios das sociedades europeias e a defesa do nacionalismo foram fatores que concorreram para o desmoronamento da ordem política tradicional baseada nas monarquias absolutistas e nos regimes centralizadores e autocráticos, tais como aquele vigente no então Império Austro-Húngaro, dominado pela dinastia do Habsburgos.

A escolha de tais projetos por Sitte chama a atenção. A defesa da manutenção dos valores representados na cidade medieval-renascentista o conduz à cidade liberal com sua escala agigantada e seus programas excludentes, e o leva a uma paradoxal defesa da onipresença e da perenidade de uma forma de poder que estava sendo severamente questionada, e que viria ser definitivamente derrotada por força de uma ampla articulação política e social cerca de vinte e cinco anos depois da publicação de A construção das

cidades segundo seus princípios artísticos.

A suntuosidade e a escala monumental dos edifícios, aliadas a rigorosa simetria imposta por eixos perspécticos do “modelo barroco” que organizam um programa constituído pelo palácio imperial, por um museu, uma igreja e um teatro, opõem-se às características mais caras a Sitte das praças das cidades antigas. A praça da cidade medieval-renascentista, lugar das atividades urbanas cotidianas e espaço da representação popular, ganhará novo e diverso sentido, passando a ser o lugar das atividades institucionais e da representação máxima do poder. Não haverá mais o mercado, assim como o espaço das festas e manifestações populares. A Heldenplatz, com suas dimensões agigantadas (130 x 240 m), não se destina à reunião do povo, mas antes à celebração de uma ordem imutável.

Figura 14. Heldenplatz, vista aérea, Viena, Áustria.

Fonte: http://austria-forum.org/attach/Heimatlexikon/Wiener_Hofburg/scaled- 447x300_Hofburg%2C_Wien1.jpg

Figura 15. Estátua do Arquiduque Carlos da Austria, Heldenplatz.

Fonte: ttp://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/9b/