2. Capítulo 1 Base teórica conceitual
2.3. Camillo Sitte e A construção das cidades segundo seus princípios artísticos
2.3.5. Sitte, Riegl e a questão dos valores a preservar
Se a referência a Ruskin é obrigatória dada sua influência sobre Camillo Sitte, a importância de colocá-lo em relação à Alois Riegl (1858-1905), está em reconhecer que certos aspectos do pensamento do autor de A construção das
cidades segundo seus princípios artísticos serão tratados de forma sistematizada
em Le culte moderne des monuments – Son essence et sa gênese.
Num ambiente de intensa discussão teórica, movido pelas transformações modernizadoras que ocorriam nas cidades europeias, Riegl é designado, em 1902, presidente da Comissão Central para a Arte e os Monumentos Históricos da Áustria, com vistas à sistematização legal e normativa para conservação dos monumentos locais. Para desempenhar a função, irá desenvolver um corpo teórico com base nos valores subjacentes ao bem patrimonial e numa metodologia que os articule, de modo a estabelecer os possíveis critérios de sua preservação.
Na introdução da tradução francesa de Le culte moderne des
monuments – Son essence et sa gênese, Francoise Choay, observando que o
processo de aniquilação e destruição dos conjuntos edificados e das construções históricas acompanha o homem em seu processo civilizatório, aponta o atavismo
Figura 6. Alois Riegl
Fonte: Wikimedia Commons
da “destruição progressista a serviço da inovação cultural” (CHOAY apud RIEGL, 1984, p. 8). Choay registra que, na Europa dos anos 1850, “a evisceração das cidades antigas destrói, em beneficio de uma arquitetura que se pretendia virgem de referências históricas, edifícios prestigiosos e tecidos urbanos intersticiais, marcos consagrados pelos séculos” (CHOAY apud RIEGL, 1984, p. 9).
A propósito da ideia de Le Corbusier de soterrar o bairro antigo do Marais e a maior parte da velha Paris sob arranha-céus de 220 m de altura - proposta que alguns argumentam que seria apenas uma provocação, e da demolição dos pavilhões de Baltard (Le Halles) na década de setenta, Choay pergunta sobre o sentido da conservação dos monumentos antigos, e sobre o papel que poderiam ou deveriam exercer nas sociedades atuais. Vale lembrar que se o processo de transformação das cidades ocorreu de forma inexorável e muitas vezes irrefletida, a ele correspondeu o desenvolvimento de um conjunto de doutrinas de salvaguarda dos monumentos históricos, que por vezes levou a posturas conservacionistas dogmáticas. Tais posturas, contestadas ao longo do tempo, “no quadro das novas políticas de reabilitação e participação dos usuários”, colocaram a questão da preservação do patrimônio em novo patamar, no qual o papel da participação social tem novo peso.
De modo inovador, Riegl distancia-se da coisa-em-si, busca observar os fatos artísticos com isenção e construir “um inventário dos valores não ditos e dos significados não explicitados subjacentes ao conceito de monumento histórico” (CHOAY apud RIEGL, 1984, p. 17). O que implica dizer que os valores e os significados evocados pelos monumentos nos grupos sociais passam a ser reconhecidos.
Destarte, Riegl rejeita um código preestabelecido do que deva ser a arte e suas manifestações. Seu modelo de apreciação do fato artístico parece ter muito do método científico cartesiano, em que o objeto de estudo é repartido em fragmentos definidos que são para analisados separadamente, e depois recompostos num mosaico articulado que permitirá o juízo, o discernimento e o estabelecimento de critérios objetivos do que se deva ou não preservar.
É curioso como Riegl, assim como seu contemporâneo Sigmund Freud (que nasce apenas dois anos antes), percorrem caminhos aparentemente paralelos quanto à percepção da existência de relações e significados ocultos ou latentes, na mente como nas manifestações artísticas e construtivas humanas, ambos reconfigurando o modo de pensar o homem moderno e suas manifestações, num contexto de profunda crise das instituições sociais e políticas, e de seus respectivos espaços.
Segundo Choay, em Riegl “o dilema destruição/conservação não comporta jamais uma solução – justa e verdadeira –, mas soluções alternativas, de pertinência relativa.” Choay destaca que Le culte moderne des monuments –
Son essence et sa gênese nos convida a uma meditação sobre a nossa
sociedade, em que o monumento histórico, com o cotejo de instituições e pessoas que o celebram, com seus ritos e mitos, “não é mais apenas um modo inocente de autopreservação.”
O interesse dessa observação, renovado nestes dias em que a dimensão artística do urbanismo parece restrita apenas à eventual eleição de certos elementos urbanos históricos, reside no fato de que Arte supõe a representação não apenas de si mesma, mas da própria condição humana num dado momento histórico. Há, na manifestação artística, a intenção de comunicar algo, o que faz dela um fenômeno de comunicação que possibilita o contato e relação entre autor e público, a estabelecer vínculos de natureza identitária.
A partir de uma perspectiva histórica, o modelo de valores proposto por Riegl interpreta o modo pelo qual nos relacionamos com os monumentos, o que neles valorizamos e como o fazemos, com a premissa de que seu valor existe porque somos nós que o atribuímos.
Os conceitos trabalhados por Riegl tais como arte, rememoração, historicidade, antiguidade e contemporaneidade, estão presentes, ainda que de forma não sistematizada, no pensamento de Sitte. A análise de Sitte dos monumentos, praças e conjunto de edifícios baseia-se na espacialidade e nos aspectos plásticos de cada elemento, mas sempre em relação aos valores que
representam: valor de arte, valor de memória construtiva, valor de representação, valor de referência. A leitura sistemática de inúmeros espaços, especialmente praças, revela os diversos valores artísticos e históricos acumulados ao longo do tempo, que Sitte contrapõe às transformações urbanas em curso.
Ao observá-las, Riegl reconhecerá, no lugar de um valor artístico absoluto, um valor relativo, constatando que não há mais lugar para a ideia canônica da arte uma vez que o valor artístico é uma atribuição conferida num certo momento, numa dada circunstância histórica, o que define ao longo do tempo um processo de desenvolvimento evolutivo da noção de valor.
Quanto ao conteúdo simbólico atribuído aos monumentos, Sitte aponta, sem o formular expressamente, para um valor outro que aquele intencionalmente convocado (o símbolo nacional, o herói), qual seja um valor artístico historicamente conferido. É sobre essa ideia de valor que Sitte constrói sua imagem de cidade, relativizando o monumento histórico ao seu tempo, historicizando-o nos termos que Argan fará depois, como veremos.
Ao buscar identificar os valores permanentes de que as cidades antigas são portadoras e a eternização desses mesmos valores pela preservação dos monumentos, Sitte aponta para aquilo que será posteriormente definido por Riegl como valor de rememoração intencional, a exigir do monumento “a imortalidade, o eterno presente, a perenidade do estado original”. Ideia que remete à busca do presente eternizado através de uma imagem imune ao tempo e seus efeitos.
O valor de rememoração intencional, por sua vez, é próximo aos valores de contemporaneidade que segundo Riegl podem ser de dois tipos: o valor de uso prático, que responde pelas necessidades materiais do homem e diz respeito às condições materiais de utilização prática dos monumentos; e o valor de arte – que pode ser relativo ou de novidade – que atende às necessidades espirituais.
Em especial, o valor de arte relativo, definido segundo a formulação teórica da kunstwollen de Riegl, seria a capacidade que o monumento antigo mantém de sensibilizar o homem moderno a despeito de sua aparência não
moderna, tornando-o capaz de satisfazer uma vontade artística moderna ainda que criado segundo uma kunstwollen4 diferente da nossa. É possível perceber em Sitte a ideia de que existe uma vontade artística inerente, própria a cada período histórico e que permanece ativa e significativa ao longo do tempo, que transcende sua condição temporal, sendo capaz de suprir a necessidade espiritual do homem moderno e por isso mesmo devendo de ser preservada através dos monumentos. É o que justifica a apaixonada defesa que Sitte faz dos monumentos como elementos capazes de sensibilizar o cidadão moderno quanto ao seu lugar no mundo hoje, a partir da experiência cotidiana da memória do passado dos espaços públicos da cidade e de seus monumentos.
Passado e presente, antigo e contemporâneo, conceitos e situações idealizadas e concretas, superadas ou em processo, permanente e transitório: estas, as marcas de um tempo matizado por transformações profundas, em que a busca da imortalidade pela permanência eterna dos monumentos expõe o reconhecimento da morte em curso de um modo de vida e de um sistema de valores.
Para Carl Schorske, “Sitte situava-se como um defensor do lado artístico, contra o que considerava um planejamento espacial frio, adaptado ao fluxo do tráfego. Aceitando o estilo histórico na arquitetura, com toda sua capacidade de significação simbólica, ele defendia o renascimento do projeto histórico também para o espaço urbano, com ênfase nas praças, em vez de nas ruas dominadas pelos veículos, tal como acontecia no projeto da Ringstrasse. (...) A praça era para ele a forma urbana que poderia gerar e sustentar a comunidade, restaurar o sentimento de pertencer a uma polis que a febril cultura comercial moderna estava matando” (SCHORSKE, 2000, p. 181).
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Termo que expressa um “movimento dinâmico o qual, distintamente das formas de desejo expressas na religião, nas leis e na política, estava unicamente dirigido para o ordenamento artístico do mundo perceptual.” (HATT e KLONK, 2006, p. 82).
Ao levantar minuciosamente as praças de cidades europeias “consideradas significativas do ponto de vista da qualidade estética”, sua obra constitui um conjunto de princípios artísticos que regem estes ambientes urbanos, não se tratando, vale notar, de simplesmente “(...) retomar o modo de construir do passado, mas de alguma maneira, diante das novas necessidades advindas com o progresso, reter como lições a lógica espacial daqueles espaços públicos" (SCHORSKE, 2000, p. 181).