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A CNBB e a questão indígena no Brasil

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A Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) foi criada por iniciativa de Dom Hélder Câmara em 1952 e toma corpo num momento reformista da Igreja.

É interessante constatar que a CNBB, tão central no cenário brasileiro das próximas décadas, nasceu a partir de experiência da Ação Católica, movimento de leigos e com um núcleo organizativo principalmente de mulheres vindas dela. D. Hélder estará à frente das duas organizações. A Igreja Católica, até então espalhada e isolada localmente através das dioceses, que se ligavam diretamente a Roma, passaria a ter uma estrutura nacional. Isso se deu num contexto mais amplo da sociedade brasileira quando, a partir do último governo Vargas (1950-1954) até o final da presidência de Juscelino Kubitscheck (1955-1959), tivemos um período que podemos chamar de construção da nação. A Igreja participou desse processo e dessa tendência de unidade nacional. (GÓMEZ DE SOUZA, 2004, p. 79)

Ainda, sobre o impulso reformista, aponta-nos Boff (1977, p. 115) três fases por qual passou a Igreja Católica brasileira até os idos da década de 1970. São elas

Num primeiro momento, que vai de 1950 a 1965, trata-se da Igreja- grande-instituição que se renova e impõe a renovação. No segundo momento, de 1962-1970, é a Igreja-na-base a portadora da renovação, criando uma dinâmica qualitativamente diferente da anterior. No terceiro momento, de 1968 a 1975, nota-se um esforço de convergência: a instituição se apóia nas bases e as bases dão um novo sentido à instituição.

No tocante às questões sociais, principalmente em relação à defesa dos povos indígenas, motivadas pela abertura do Vaticano II e, também através da interpretação de suas diretrizes pelas Conferências Episcopais, teremos no Brasil a questão indígena encabeçada pelo Secretariado Nacional de Atividades Missionárias (SNAM) da CNBB. A primeira iniciativa da Igreja Católica brasileira pós-

conciliar para tratar da questão indígena ocorreu em outubro de 1967, em Brasília e recebeu o nome de Encontro de Pastoral da Desobriga (SUESS, 1989, p. 14).

Logo em seguida foi convocado pelo SNAM o primeiro encontro sobre Presença da Igreja nas Populações Indígenas, também ficou conhecido como o Primeiro Encontro de Pastoral Indigenista (PREZIA, 2003, p. 48). Ao que tudo indica os missionários que atuavam junto à questão indígena não saíram satisfeitos, uma vez que os temas debatido no primeiro encontro giraram em torno do trabalho da desobriga de populações não-índias. Em virtude disso, um ano depois o SNAM realizou um novo encontro com os missionários que atuavam junto às populações indígenas.

Paralelamente à inserção do debate acerca da ação missionária junto aos povos indígenas era inaugurado o regime ditatorial no Brasil, em 1964, enrijecido três anos depois pela ascensão da chamada “linha dura” do exército. Neste período foi encampada uma política de integração das fronteiras brasileiras, o que provocou uma onda de invasões dos denominados “espaços vazios”, territórios até então habitados por várias etnias indígenas.

A política fundiária de concentração de terras nas mãos de grandes grupos econômicos, por meio de incentivos fiscais concedidos pelo Estado, levou à desapropriação de grande parte das terras indígenas, que foram entregues aos latifundiários, posseiros e pequenos proprietários (MARTINS, 1986). Esta ação política ocasionou frentes de expansão economicamente descontínuas e em permanente movimento (BITTENCOURT, 2003).

O modelo autoritário e revestido de uma ideologia desenvolvimentista obteve seu ápice nos governos de Costa e Silva e Médici. Isso se deu em virtude do boom econômico.

Observadores tanto brasileiros quanto estrangeiros concordavam que o rápido crescimento estava ‘legitimando’ o regime, especialmente aos olhos da classe média. As três metas de Delfim foram amplamente alcançadas. O crescimento econômico apresentava a mais alta taxa sustentada desde os anos [19]50. O PIB subiu à média anual de 10,9 por cento de 1968 a 1974. O setor líder foi a indústria, com 12,6 por cento ao ano. A performance mais modesta foi a da agricultura, com a média de 5,2 por cento. A inflação ficou na média de 17 por cento (embora o número oficial de 15,7 por cento para 1973, como se admitiu depois, tenha sido uma atenuação da verdade). Quanto às reservas, subiram de US$656 milhões em 1969 para US$6,417 bilhões em 1973. Alguns críticos

haviam anteriormente previsto que altas taxas de crescimento seriam improváveis, se não impossíveis. Economistas como Celso Furtado apresentaram uma análise subconsumista afirmando que o melhor que se podia esperar era a estagnação da metade dos anos [19]60. Para esses economistas, o crescimento só podia ser alcançado através da realização de reformas estruturais (como reforma agrária, reforma educacional etc.) para redistribuir a renda e consequentemente aumentar a demanda efetiva. Mas Delfim Neto e seus tecnocratas estavam obtendo o crescimento rápido através de meios diferentes, como incentivos tributários, hábil manipulação do sistema financeiro e redução dos custos da mão-de-obra. (SKIDMORE, 1988, p.276)

O fato curioso do denominado milagre econômico foi a fraca participação da agricultura no produto interno bruto brasileiro. A política encampada pelo governo estimulou financiamentos aos grandes grupos econômicos que se apossaram da terra. Muitas vezes pertencentes às comunidades indígenas, tomaram-nas para fins de especulação e canalização de empréstimo. Isso ocorreu mais intensamente na região amazônica.

A presença missionária reorganizada de acordo com as orientações pós- conciliares vai intensificar a defesa dos povos indígenas. O historiador Leandro Mendes Rocha (2003), ao se debruçar sobre a política indigenista no Brasil entre 1930 e 1967, revela que, desde a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) já ocorriam disputas entre os missionários e o Estado.

As tensões giravam em torno, principalmente entre os militares positivistas e os salesianos. As acusações por parte dos positivistas apresentam os salesianos, como agentes das nações imperialistas que procuram desnacionalizar os índios. Do outro lado, a Igreja Católica reage ao anticlericalismo republicano através da estadualização da Igreja, a partir de alianças com as oligarquias regionais. Nas décadas de 1950, embora existisse a animosidade entre missionários e o SPI, havia também a coexistência de uma parceria em virtude das dificuldades enfrentadas.

Os avanços no processo de modernização e suas consequências no campo tornam, principalmente a partir dos anos [19]50, a questão indígena mais complexa, com o aumento das pressões da sociedade nacional sobre os índios, especialmente na Amazônia ocidental [...] os dirigentes do SPI haviam constatado a dificuldade de prestar sozinhos assistência aos índios, sobretudo quando a ação das frentes de expansão se acelerava em várias regiões, deixando esse órgão a reboque dos acontecimentos. (ROCHA, 2003, p. 145-146) O brasilianista Mainwaring (1985) afirma que a Igreja Católica a partir do papado de João XXIII procurou inovar-se e se tornar mais relevante socialmente. No

entanto, conviveram no interior da instituição crenças, tradições e práticas tradicionais e propostas de um novo jeito de ser igreja. O autor sustenta a tese em sua obra: Igreja e Política no Brasil que o clero, altamente politizado assumiu no período da repressão uma postura dúbia em relação ao Estado. De um lado ficaram os ditos “conservadores” e, por outro, um grupo que receberam a denominação de “progressistas”, também denominados de Igreja Popular. Na ótica de Mainwaring (1985, p. 10) correspondem

àqueles setores que tem uma visão política progressista da missão da igreja. Essa visão política está expressa nas concepções teológicas e no trabalho pastoral junto às classes populares (camponeses, operários e população urbana de baixa renda). Em geral, os intelectuais envolvidos na proposta de igreja popular estão comprometidos com uma transformação social radical.

Em relação à política indigenista, o episcopado brasileiro divergia. Alguns prelados apoiavam as ações governamentais que defendiam a integração das comunidades indígenas à sociedade nacional. Por outro lado, havia aqueles que criticavam a atuação do governo e a política indigenista oficial frente às comunidades indígenas.

Um fato que destaca bem essa divisão dentro da Igreja Católica partiu da intensificação da ocupação da Amazônia em 1970 que, evidentemente, também tornou veemente a violência contra as populações indígenas daquela região. Em virtude disso, os setores sociais engajados na luta pelos direitos dos povos indígenas no Brasil denunciaram os massacres que ocorriam na região. O fato ganhou espaço notório na mídia de alguns países europeus e motivou a vinda de uma Comissão da Cruz Vermelha Internacional para investigar tais denúncias.

Diante da imagem negativa do governo e de seus órgãos gestores da política indígena, em virtude da conivência dos atos desumanos praticados e que foram denunciados na imprensa internacional, alguns prelados da região da Amazônia que defendiam as ações governamentais, em encontro da CNBB, assinaram um documento em apoio à política integracionista do presidente Garrastazu Médici. A resposta de setores progressistas da Igreja Católica ao ato de apoio ao governo foi enfática. No mesmo encontro, os bispos, em sua maioria denunciaram a tortura e outros crimes praticados pelo governo autoritário. (PREZIA, 2003, p. 51)

Em seguida, o recém-nomeado bispo da prelazia de São Félix do Araguaia, Pedro Casaldaliga, lançou a carta pastoral: Uma Igreja na Amazônia em conflito com

o latifúndio e a marginalização social (1971). Na parte dedicada aos índios o prelado relata que a FUNAI, sucessora do antigo SPI não avançou positivamente no atendimento aos índios

por causa do pouco preparo dos elementos do órgão e, sobretudo pela própria ideologia da FUNAI, não se levam em conta os avanços da verdadeira etnologia e antropologia e sacrifica-se impunemente a cultura do índio [...] A aculturação rápida, sem levar em conta os reais interesses dos índios, é proposta pelo presidente da FUNAI Gal. Bandeira de Mello, que em suas declarações chegou mesmo a sugerir a extinção do Parque Nacional do Xingu. (CASALDÁLIGA, 1971, p. 24)

Mais do que uma carta pastoral o documento consistia numa denúncia grave da situação das populações (posseiros e índios) do nordeste mato-grossense e apontava para a nova postura de ação dos “progressistas” na Igreja do Brasil. A aliança entre Igreja-Governo estava fragilizada. O trabalho pastoral ficou engessado pelas constantes ameaças, espancamentos e torturas de militantes da Igreja na região.

A ação dos militares na prelazia de São Félix do Araguaia foi intensificada em virtude, principalmente do receio de que um foco guerrilheiro se espalhasse junto aos camponeses da região. A prelazia que estava sob o comando de Dom Pedro Casaldáliga possuía uma forte resistência à presença de empreendimentos agropecuários que ameaçavam de expulsão os trabalhadores do campo.

Ao mesmo tempo em que fomentava a insatisfação dos camponeses vitimados pela ação dos grupos econômicos. Nas proximidades do rio Araguaia, entre os estados do Pará, Maranhão e Tocantins o Partido Comunista do Brasil (PC do B) enfrentava as forças do exército no evento conhecido por Guerrilha do Araguaia.

A Guerrilha do Araguaia provocou repercussão internacional. As notícias de um pequeno grupo armado, composto de jovens ideólogos revolucionários, que pretendiam repetir os feitos ocorridos na pequena ilha de Cuba assombravam os altos comandos do exército. Os moradores locais assistiram as investidas do exército de forma bestializada. Não entendiam a ameaça que um pequeno grupo trazia para ser combatido de forma tão dura. O exército brasileiro fomentou na região medo e insegurança em nome da segurança nacional. O regime militar transformou em suspeitos todos os religiosos que atuavam junto aos camponeses e indígenas da região.

Essas perseguições não ocorriam apenas dentro dos limites de atuação da guerrilha. Atingiram também, por exemplo, a prelazia de São Félix, no Baixo Araguaia, na fronteira de Mato Grosso e Goiás, área em que atuava o bispo dom Pedro Casaldáliga, alinhado aos setores progressistas da Igreja Católica e que, por isso, sofreu constantes ameaças à sua integridade física devido ao seu posicionamento em defesa de posseiros. (CAMPOS FILHO, 2003, p. 168)

Embora tenha ocorrido uma parceria entre Igreja e Estado durante séculos, a ação missionária progressista começava a constranger a relação entre ambos. Alguns militares descreviam o clero progressista como elementos que poderiam causar danos irreparáveis ao regime. A concordata moral sofria ameaças com a intensificação de ações de ambos os lados: Estado e Igreja15.

Além de Dom Pedro Casaldáliga, que inclusive teve seu nome registrado para acompanhamento criterioso no início da década de 1970 pelo o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS-GB), o Serviço Nacional de Informações (SNI) e os membros do Exército, outros bispos também tiveram acompanhamento criterioso de suas ações16. Suspeitava-se que membros do clero católico estivessem envolvidos em ações comunistas. O principal foco de preocupação dos militares era a Prelazia que estava sob o comando de Dom Pedro Casaldáliga, considerado um dos bispos mais radicais do Brasil. (SERBIN, 2001, p. 291).

O cenário de surgimento e atuação do CIMI coincidirá com um dos momentos mais tensos do regime ditatorial no Brasil.

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