CAPÍTULO 2 – ENCAMINHAMENTOS METODOLÓGICOS
2.2 OPÇÕES METODOLÓGICAS
2.2.5 A coleta de dados e o processo de análise
Após a apreciação documental, deu-se continuidade à coleta dos dados em duas etapas conforme explicitado anteriormente. Primeiramente, houve uma roda de conversa com um grupo reduzido de quatro docentes dos cursos de Medicina, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, escolhidos aleatoriamente com o intuito de identificar conceitos pertinentes para a elaboração de um roteiro de entrevista.
A roda de conversa teve duração de uma hora e trinta minutos, momento em que a pesquisadora lançou questionamentos condizentes com os objetivos da pesquisa. Os participantes do grupo expuseram sua trajetória profissional, relatando
as experiências formativas relevantes, as possíveis influências na atuação docente, a cultura profissional e institucional, entre outros aspectos que fazem parte de seu cotidiano. Salienta-se que os docentes participantes desse primeiro momento não foram os mesmos entrevistados posteriormente. Após a releitura das discussões por meio da transcrição de áudio, pôde-se identificar alguns conceitos sensibilizadores, que, segundo Charmaz (2009), são o ponto de partida para a elaboração das questões de entrevista relevantes para o desenvolvimento da pesquisa.
Para Strauss e Corbain (2008), as perguntas de uma entrevista devem ser baseadas em literatura, em experiência ou em um trabalho preliminar de campo, como foi o caso da realização desse grupo de conversa. Assim, os conceitos determinados a partir da discussão grupal foram: cultura profissional, atuação docente, formação profissional e trajetória acadêmica e profissional. Por meio desses conceitos, foi possível instigar ideias a serem investigadas, sendo, portanto, ferramentas provisórias. Além disso, serviram para observar, ouvir e pensar os dados de forma analítica. De posse dos conceitos sensibilizadores, elaborou-se um roteiro de entrevista contendo questões abertas que estimulassem a discussão e reflexão dos participantes da pesquisa.
As entrevistas foram realizadas individualmente com o objetivo de “revelar a opinião, os sentimentos, intenções e ações dos participantes bem como os contextos e estruturas de suas vidas” (CHARMAZ, 2009, p. 30). No total, foram onze participantes, quatro do grupo de conversa e sete das entrevistas. A análise dos dados teve início a partir das transcrições de cada entrevista realizada, com o intuito de ser fiel à abordagem metodológica adotada, a teoria fundamentada. Essa teoria preconiza que a análise e a coleta dos dados ocorram de forma simultânea, facilitando ao pesquisador a percepção de possíveis lacunas ou problemas no instrumento de pesquisa. Além disso, a cada transcrição, redigiram-se memorandos com observações, sentimentos e percepções da pesquisadora em relação aos entrevistados, bem como seus insights analíticos.
Após esse primeiro momento de coleta e transcrição de dados, compreendeu- se que houve um número suficiente de participantes para embasar a construção da teoria, pois os dados passaram a ser repetitivos, não havendo novos achados. A partir disso, o passo seguinte foi revisitar as perguntas elencadas para a entrevista com cada sujeito, possibilitando, assim, uma pré-análise referente ao perfil dos
participantes. Dentre as características elencadas, destacaram-se: sexo, tempo de docência, área de atuação7 e tempo de atuação profissional.
Dando prosseguimento à análise dos dados, procedeu-se a uma primeira leitura geral desse perfil, utilizando a teoria fundamentada, com vistas à codificação, que faz parte da primeira etapa da análise: “A codificação na teoria fundamentada exige uma parada para que possamos questionar de modo analítico os dados que coletamos” (CHARMAZ, 2009, p. 67). A diferença entre a codificação na teoria fundamentada e a lógica quantitativa que aplica categorias ou códigos preconcebidos é que, na teoria fundamentada, os códigos surgem da observação das ações evidenciadas, sendo denominações ativas dos dados e buscando, assim, capturar a realidade (CHARMAZ, 2009).
Nessa teoria, a codificação acontece em dois momentos: um primeiro momento denominado codificação inicial ou aberta, em que ocorre uma leitura dos dados, e um segundo momento denominado codificação focalizada, que desenvolve as categorias. Na codificação aberta, elegeu-se como forma de codificação a de incidente por incidente, pois esta permite uma comparação das atividades cotidianas, observando as ações que emergem. Essa etapa contou com criatividade, técnicas e procedimentos que auxiliaram a condução do trabalho, sempre apoiado na teoria fundamentada. Dessa forma, primeiramente, fez-se uma leitura comparativa, assinalando as ações dos participantes em cada parágrafo das entrevistas – foram elaborados quadros e mapas conceituais que possibilitaram uma visão mais ampla dos achados. Segundo Strauss e Corbin (2008), a codificação incidente por incidente é uma comparação para classificar dados, permitindo a criação de códigos que, inicialmente, são provisórios, pois a cada nova revisão analítica podem ser revistos.
Em seguida, fez-se uma lista facilitando a percepção das convergências e divergências entre os dados apresentados. De posse desse material, surgiram os primeiros códigos classificados analiticamente conforme o exemplo apresentado na Figura 3.
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Fisioterapia, Enfermagem, Medicina, Farmácia, Fonoaudiologia, Odontologia e Terapia Ocupacional.
Figura 3 – Exemplo de codificação aberta
Fonte: Elaborada pela autora.
Assim, utilizaram-se ferramentas analíticas fundamentais para a codificação, objetivando auxiliar na comparação entre os conceitos e ampliando a sensibilidade e o reconhecimento de tendências. A ferramenta analítica utilizada foi a comparação sistemática entre dois ou mais fenômenos.
Figura 4 – Exemplo de codificação aberta
O objetivo do pesquisador ao conceituar um fato, um objeto ou uma ação é agrupar acontecimentos, provocando uma imagem cultural comum. Assim, listaram-se as ações evidenciadas nos incidentes de cada sujeito, estabelecendo, a partir disso, uma releitura dos códigos e buscando compreender seus significados. “Os incidentes, os objetos ou as ações específicas que usamos ao fazer as comparações teóricas podem ser derivados da leitura ou da experiência” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 85). Esse processo se repetiu em cada transcrição dos sete indivíduos participantes.
Após a leitura criteriosa dos códigos e a comparação entre eles, identificaram- se as recorrências, criando, portanto, as subcategorias. “Ao dizer que estamos codificando teoricamente, queremos dizer que estamos codificando com base em conceitos e na forma como variam segundo suas propriedades e diretrizes” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 92). A codificação aberta ou inicial orienta, portanto, o pesquisador para uma criteriosa análise em relação à relevância dos dados evidenciados. Além disso, evita que o pesquisador imprima questões pessoais como medos ou motivações aos dados coletados (CHARMAZ, 2009).
Inicialmente, elaboraram-se dez subcategorias apresentadas no esquema a seguir (Figura 5), as quais, após a codificação focalizada, foram agrupadas, gerando, assim, cinco categorias (Figura 6) e diminuindo, dessa forma, as unidades de trabalho. Tal procedimento vai ao encontro do que prevêem Strauss e Corbin (2008), ao afirmar que o pesquisador tem como princípio a observação de conceitos que podem ser agrupados – agrupar conceitos elaborando categorias torna-se relevante, pois oferece a possibilidade de reduzir o número de unidades com que se está trabalhando.
Figura 5 – Processo de codificação aberta para codificação focalizada
Codificação aberta Codificação focalizada
Fonte: Elaborada pela autora. O fazer docente e seu reconhecimento como fonte de satisfação pessoal e profissional
Entre o método tradicional e o estímulo a novas estratégias de
ensino e aprendizagem
O FAZER DOCENTE- SATISFAÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL E OS
DESAFIOS CONSTANTES
A convivência por afinidade - realidade de uma cultura
profissional
A união e o respeito como valores relevantes da cultura profissional
CULTURA PROFISSIONAL DA ÁREA DA SAÚDE
A prioridade como forma de organização dentre a pluralidade
de papéis desempenhados
Conciliação das diversas atividades da docência
A PRIORIDADE COMO FORMA DE ORGANIZAÇÃODO FAZER DOCENTE AS INFLUÊNCIAS DA FAMÍLIA, DA PRÁTICA E DA FORMAÇÃO NA ATUAÇÃO DOCENTE Importância da família e da pós-
graduação na escolha da carreira docente
A supervalorização da experiência prática e profissional na atuação
docente
RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO: CORDIALIDADE E RESPEITO NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL E ENCAMINHAMENTO PARA DOCÊNCIA Perfil docente- responsabilidade
e respeito como guia da relação entre aluno e professor
Observando o perfil acadêmico- encaminhamentos para a
A interpretação das categorias, reagrupando-as de forma a reduzir as unidades pré-elencadas, é denominada na perspectiva da teoria fundamentada como codificação focalizada. Nessa etapa, ocorre a união dos dados evidenciados na codificação aberta, havendo, portanto, um cruzamento entre as categorias que se associam. O objetivo da codificação focalizada é de classificar, sintetizar ou organizar os dados após a codificação aberta (CHARMAZ, 2009). A seguir, apresenta-se o diagrama com as categorias desenvolvidas (Figura 6) para posterior discussão dos dados.
Figura 6 – Resultado da codificação focalizada
Fonte: Elaborada pela autora.
Salienta-se que o caminho percorrido entre a realização das entrevistas, a transcrição dos áudios, a efetuação das codificações e a criação das categorias foi permeado por reflexões analíticas relevantes, resultando, dessa forma, em uma maneira focada de análise dos dados, a fim de compreender a realidade pesquisada. A seguir, são apresentados os dados analisados durante a realização deste estudo. Para manter o sigilo dos participantes, estes foram identificados como P1,P2,P3,P4,P5,P6 e P7. Primeiramente, apresenta-se uma discussão quanto a algumas características que marcam o perfil dos docentes participantes – são observações relevantes que se destacaram e merecem atenção, pois auxiliaram no
processo de compreensão do fenômeno estudado. Em seguida, iniciam-se ponderações acerca das categorias identificadas por meio das codificações aberta e focalizada, expondo-se, por fim, a última etapa da investigação, que é a codificação seletiva ou a constituição da teoria fundamentada.
Esta pesquisa teve como orientação ética os requisitos da Resolução 466/12, do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos. Todas as informações da pesquisa são de caráter sigiloso, ou seja, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ANEXO A) foi assinado por todos os participantes. As entrevistas foram realizadas individualmente e gravadas. As gravações foram transcritas e os participantes informados de que iriam receber uma cópia da mesma. Os dados obtidos no desenvolvimento dessa pesquisa serão utilizados única e exclusivamente para e a execução desse trabalho. A possível publicação de resultados manterá os aspectos éticos sinalizados nesta tese.
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CAPÍTULO 3 – CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE: TRAJETÓRIA CURRICULAR