• Nenhum resultado encontrado

3 OS PROFESSORES E O ENSINO POR MEIO DE FILMES

3.1 A COLETA DE DADOS E A VALIDAÇÃO DO INSTRUMENTO

O instrumento escolhido foi a entrevista. A coleta de dados se deu em duas etapas distintas: a primeira, dedicada à validação do instrumento de pesquisa incluiu a visita a duas escolas e a entrevista individual de três professores – um de Geografia, uma de Sala de Leitura e um de Ciências, todos no nível do ensino fundamental II. Durante a segunda fase, que já contava com o instrumento de pesquisa definitivo, foram visitadas outras duas escolas e entrevistados outros três professores, novamente um de Geografia, uma de Sala de Leitura e uma de Ciências. A escolha das escolas seguiu apenas o critério da facilidade de contato: foram escolas nas quais o pesquisador trabalhou ou nas quais havia amigos professores que pudessem apresentar a voluntários para as entrevistas. Na segunda fase, acresceu-se a este critério o cuidado de se entrevistar professores das mesmas disciplinas já contempladas na fase anterior. Assim, obtém-se ao menos um elemento de comparação. Tal comparação pode evidenciar características específicas de professores de diferentes disciplinas, no que se refere aos seus critérios para a escolha de filmes com potencial formativo.

Nas escolas, conversou-se informalmente com coordenadores, professores outros que não os entrevistados e diretores sempre que possível. Estas conversas permitiram uma melhor percepção da real importância dos acervos e da estrutura da escola para as escolhas de filmes por parte dos professores. Também foram visitados os acervos de filmes quando os havia e

feitas anotações sobre os tipos de filmes disponíveis, bem como sobre a organização dos títulos. Buscou-se ainda observar instalações para uso de filmes, como salas de vídeo, salas de leitura e equipamentos nas salas. Os dados dessas observações não foram sistematizados para que compusessem a apresentação final aqui proposta, mas foram essenciais para ajudar a formar um quadro mais complexo das condições às quais o professor precisa submeter suas escolhas e as formas de trabalho com filmes nas escolas.

Como parte dos cuidados éticos da pesquisa, nenhum dos professores terá seu nome real exposto. Ao invés disso, cada um deles é identificado por uma letra. As escolas são identificadas por números romanos de I a IV.

As questões do roteiro de entrevista aqui proposto têm por objetivo investigar as condições que servem de base para certos comportamentos dos professores, no que tange a sua relação com a indústria cultural – notadamente os filmes.

Dado que os professores transformam bens culturais que a princípio não são produzidos para fins didáticos ou pedagógicos justamente em suportes para sua prática didática/pedagógica, é mister compreender porque eles o fazem. Estes “porquês” se referem aos condicionantes sociais (pressões, cultura e tradições escolares, exigências curriculares) e também a certas consequências que a indústria cultural traz, como parte do aparato de controle técnico em uma sociedade administrada. Consequências estas que se manifestam como reprodução da forma de fruição alienada das diversas obras de arte a que as pessoas se submetem fora da escola. Mas que também, por outro lado, podem se manifestar como uma reação do professor a essa mesma alienação – como uma alienação da alienação ou uma percepção do que a obra tem de negativo, de denúncia das promessas não cumpridas da sociedade que ela representa.

Assim, se o professor usa filmes em sala de aula, é porque acredita que o filme ensina algo. Porém, na cultura de massas, o que o filme ensina é a resignação à mesma realidade da qual o oprimido deseja fugir quando o assiste. A questão central, portanto, é saber em que grau o professor, tendo consciência de seu papel como agente de promoção da cultura, é capaz de efetuar uma leitura crítica das obras de arte, resguardando o valor formativo que estas possam vir a ter ou negando-as quando necessário.

Com a finalidade de organizar a análise, cada questão da entrevista foi categorizada sob uma dimensão diferente do problema pesquisado. Antes da entrevista, foram coletados alguns dados objetivos, preenchidos pelo próprio professor.

Parte da análise dirigiu-se a uma compreensão dos critérios que guiam os professores na escolha dos filmes para ensinar. Por isso, foi empreendido um esforço de compreensão do porquê de alguns filmes aparecerem, espontaneamente, na fala dos professores entrevistados, atentando para a posição que estas obras ocupam na dinâmica de distribuição da indústria cinematográfica. Este foco trará material que poderá ser lido à luz das respostas dos professores referentes ao uso de filmes hollywoodianos e de suas potencialidades como material didático.

Após uma visita ao acervo de filmes de cada uma das duas primeiras escolas estudadas, procurou-se entender em quais condições e com que propósitos essas coleções de foram montadas, assim como quais professores recorrem àqueles acervos. Ficou claro, após conversas informais com docentes e coordenadores de ensino, que quem mais exibe filme nestas escolas não usam os que estão disponíveis nos acervos, preferindo trazê-los de casa, seja de coleções particulares, seja baixando-os pela Internet com o intuito de levá-los à sala de aula. A montagem do acervo das escolas mostrava-se tão alheio ao efetivo uso que os professores fazem de filmes para ensinar, que sua composição perdeu importância como fonte para explicar suas posições perante o filme.

Essas observações trouxeram, para esta pesquisa a consequência de alterar o foco metodológico: ao que parece, o poder que o acervo tem de explicar a forma que a indústria cultural afeta a escola é muito pequeno, se não insignificante, sem o teor das práticas e crenças dos professores que escolhem utilizar-se dele ou não, de acordo com critérios que precisam ser esclarecidos.

Dessa maneira, o recurso à entrevista torna-se crucial, por permitir acesso a um acervo mais interessante que o existente nas escolas: o acervo ideal, presente apenas nas crenças e práticas dos professores que ensinam por meio dele e que é pessoal e intransferível. O acervo que as escolas detêm ganha um significado mais profundo quando percebido como articulado com este acervo pessoal. Em outras palavras: um estudo que, como este, vise identificar e interpretar os critérios segundo os quais os professores elegem um produto cultural ao invés de outro para ensinar, não pode concentrar-se isoladamente (e nem privilegiadamente) sobre o acervo cultural que as escolas detêm, mas deve conceder lugar de destaque à capacidade que os professores têm de lidar com ele de maneira a cumprir as tarefas que a sociedade lhe atribui, incluídas aí as relações didático-pedagógicas e questões de currículo.

Outro ponto, que decorre do primeiro, é que a responsabilidade de que o professor se acha imbuído por sua posição de transmissor de cultura é uma referência de análise muito importante. Tal referência de análise estava presente no roteiro de entrevista inicial, com uma pergunta formulada exatamente para trazê-la à tona: (você procura se manter atualizado, procurando saber “o que estão todos assistindo”?), mas a posição dos professores perante o acervo das escolas e as respostas obtidas nas entrevistas preliminares parecem mostrar que a ênfase atribuída a este elemento era ainda, na ocasião da fase de validação do instrumento de pesquisa, incipiente, ao passo que teve de adquirir maior cuidado nas entrevistas seguintes.

Por fim, a análise de conteúdo dos filmes citados espontaneamente pelos professores foi descartada, mantida em seu lugar uma rápida análise não sistemática da posição dos filmes no universo da produção e distribuição cinematográfica, com o intuito de se observar se são obras que privilegiam o mercado ou a própria mensagem que querem passar – e apenas na medida em que estes filmes puderem contribuir para esclarecer os critérios de escolhas de filmes por seu potencial formativo. Isso não eliminou, mas delimitou a análise dos filmes em si e o subsequente aprofundamento em questões teóricas estéticas excessivamente específicas, que poderiam desviar o rumo da presente pesquisa e aumentar desnecessariamente seu volume por meio da adição de discussões que, neste momento e, para os propósitos atuais, são secundárias.

Vale ainda observar que estes apontamentos não alteram o sentido da pesquisa ou das questões que a guiaram, mas colocaram-na diante de escolhas de ênfase bem diferentes das que outrora se orientou a investigação.

O objetivo deste trabalho é entender a posição dos professores diante das condições impostas por uma estrutura social que é repressiva e analisar suas possibilidades de resistência diante do controle social exercido sobre suas formas de pensar. Para tanto, buscou-se entender a lógica que orienta os professores na escolha de filmes para sua utilização em sala de aula.

Esperava-se que entender tais critérios de escolha esclarecesse em algum nível a posição dos professores diante da possibilidade de dividir a cultura entre uma “alta cultura” e uma “cultura de massas”. Se os professores tenderiam a fazer uma distinção entre dois tipos de cultura, este trabalho pretendeu investigar como as manifestações desta distinção relacionam-se com a pretensão de uma educação para a crítica e autonomia, entendida como: atitudes prezadas, ao menos oficialmente, pela escola pública.

A hipótese elaborada foi: que os professores, premidos pela ideia de que são, como parte de sua identidade profissional, os guardiões e transmissores de uma cultura com características próprias, tendem a manter viva uma distinção entre o que seja a alta cultura e a cultura de massas, a preservar esta distinção nos usos que faz de seus instrumentos de trabalho (neste caso, os filmes que julgam material didático) e nas escolhas de produtos culturais para entretenimento (que devem ser de um tipo) e produtos culturais para fins formativos (que devem ser de outro tipo).

Atentou-se também para a relação entre estes dois universos – o da alta e o da baixa cultura. De certa forma, trata-se de reafirmar o poder de crítica e negação presente na cultura. Neste caso, pretendeu-se verificar se os professores distinguem os produtos culturais voltados ao entretenimento daqueles destinados à formação do aluno. Se, além disso, recorrem a esses elementos da cultura (filmes) como um modo de refletir e estimular a consciência crítica acerca da sociedade (ou se ao menos vislumbram a necessidade de fazê-lo). Se, afinal, os critérios e a relação estabelecida com os produtos culturais são condizentes com as premissas de uma educação que prime pela crítica e autonomia, como contrapontos a uma sociedade que tende a controlar as possíveis formas de sua negação e impor necessidades heterônomas.

Documentos relacionados