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2. Réquiem à infância

2.1. Um sábado em 30

2.1.9. A comédia do patriarcalismo

Em Um sábado em 30, o verdadeiro nó da trama que, consequentemente, deflagra a crise que envolverá toda a família e, inclusive, os empregados, dá-se quando Sá Nãna revela a Seu Quincas e a D. Mocinha o envolvimento “amoroso” de Romeu e Filó; relacionamento que leva a moça à desonra e desgraça. Indignado com a atitude do filho, o patriarca decide obrigá-lo a casar-se com a empregada, como forma de castigo e também de reparação à honra da moça, mesmo tendo consciência das diferenças sociais que os separam. O que desencadeia o conflito geral entre a família que se opõe à sua vontade, especialmente, sua esposa e seu sogro. Tal embate retoma o mito original da comédia nova que é o conflito entre pai e filho. O pai autoritário que se opõe e veta o desejo do filho.

52 Esta jornada de pastoril (Alerta – Alerta) já se encontra na primeira versão de Um sábado em 30, em dois

momentos, sem estar na íntegra, sempre tendo Zefa como intéprete. (MARINHO 1968:37,67). Na segunda versão da peça, em 1986, esta mesma jornada encontra-se na sua totalidade e é cantada não apenas por Zefa, mas também por Julião e Chico (provavelmente uma reverberação da encenação do TAP, em 1963). Além desta inserção musical, constava na primeira edição uma outra jornada de pastoril – Meu passarinho – também cantada por Zefa. (MARINHO, 1968:24). Estas mesmas jornadas serão retomadas em Viva o cordão

encarnado (1969; 1999?). Ainda nesta edição, constam indicações de outras inserções musicais: depois de ouvir-se um coro de meninos acompanhando o palhaço Chimarrão, ao final do tradicional “Hoje tem espetáculo?/ Tem sim senhor”, o palhaço entoa uma canção (“O bela menina, vai dizer à tua patroa,/ Que hoje lá no circo,/ Tem uma porção de coisa boa!/ O bela menina, vai dizer ao teu patrão!/ Que hoje lá no circo/ Tem o palhaço Chimarrão!/ (Gritando)/ Azeita rapaziada!”) (MARINHO 1968:68); também escuta-se a voz de uma solteirona, apaixonada por Romeu, cantando Último beijo, de Zequinha de Abreu (70); Sá Nãna põe Leninha para dormir, cantando Ai! Estácio! (73); Chico, Julião, Sá Nãna e Joana divertem-se entre si com Ê Ê Ê Ê Cauã (97-98), e quando Sá Nãna revela para toda a família o quase adultério de Seu Quincas, ouve-se o Hino do Partido Liberal (Abano e Vassourinha) (127). Na segunda edição, o autor suprimiu algumas canções (Meu passarinho, a canção do palhaço Chimarrrão, Último beijo e Abano), permanecendo o Alerta – Alerta; Ai! Estácio!; Ê Ê Ê Cauã e a Marcha revolucionária (Vassourinha), todas transcritas integralmente, à exceção de Vassourinha. (MARINHO 1986b: 40, 51, 56, 63). Ressaltemos que no programa de Um sábado em 30, quando da estréia em 1963, reproduziam-se duas músicas além das constantes nas duas edições do texto: a modinha de A cabôca bonita (“Quando as estrelas vão no céu aparecendo,/ e o firmamento fica todo iluminado,/ vejo, cabocla, sob o sol que vai morrendo,/ o fogo eterno do teu seio retratado!/ E tenho, então, a alma desolada/ por um queixume de tristeza e de amargor!/ É que as estrelas, com seu manto prateado,/ vêm tirar-te do meu lado,/ vêm roubar-te ao meu amor!”) e Você não me dá, de Catulo da Paixão Cearense; música – “Bambino” – de Ernesto Narazeth (I – Como tão linda está!/ Como tão linda está!/ Mas, se um beijo eu pedir,/ você não me dá.../ você não me dá.../ Quem lhe implora é o amor,/ a inocência, o candor!/ Mas, você é tão má,/ que eu sei que você/ não dá... não dá!/; II – Sua boca é um primor!/ Uma abelha do amor!/ Sou capaz de jurar/ que seu beijo há de ter/ o sabor do luar!/ Sua boca é um altar,/ onde eu quero rezar/ e, após a confissão,/ nos seus lábios crismar/ os meus lábios, então./; III – Não tem pena de ver,/ um Poeta sofrer!/ Quem lhe implora é o amor,/ é a doída aflição!/ Do meu coração!/ Se me promete dar,/ eis-me aqui a esperar!/ Mas, você é tão má/ que eu sei que você,/ não dá... não dá...!”). Ainda no mesmo programa, encontra-se a letra da Marcha revolucionária, de Romildo Queiroga, com música de

Vassourinha, (“Pernambuco não desmente/ seu passado varonil!/ Sempre foi e é valente,/ na defesa do Brasil!/ Lutai! Lutai!/ Povo pernambucano!/ Leão do Norte/ de honrosa tradição!/ Lutai! Lutai!/ Que o povo é soberano!/ E vencerá pela Revolução!/ Nosso povo revoltado/ tem a fúria de um leão!/ Até mesmo desarmado,/ briga de pedra na mão!”). Cf. TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO, programa (1963).

Neste caso, Seu Quincas tenta frear a volúpia de Romeu, ao mesmo tempo em que sua resolução tem o caráter de castigo, de correção moral. Todavia, seu empenho nessa questão é tão intenso, apieda-se com tal desprendimento, inflando-se em fúria contra o filho e compaixão pela empregada que coloca sob suspeita suas boas intenções. De seu discurso emergem conceitos éticos e morais que ultrapassam diferenças de classe e gênero, diferentemente do que se evidenciou no tratamento dispensado aos empregados Chico e Julião. Dessa forma, a identificação proporcionada ao leitor-espectador pelo realismo da cena é nesse momento refratada. A ação de Seu Quincas provoca um certo efeito de estranhamento. Como pode um senhor de engenho dos anos 30, guardião e centro de uma ancestral estrutura social extremamente rígida e excludente, abandonar preconceitos de classe e de gênero em prol de ideais de igualdade, posicionando-se declaradamente contra qualquer “mania de tradição”, numa sociedade em que prepondera a preservação das tradições?

No seu discurso, o patriarca age como se, ele próprio, estivesse carregado de culpa, como se estivesse a compensar através do castigo do filho uma falta que outrora ele mesmo cometera e que permaneceria latente em sua consciência, atormentando-o, preenchendo seu espírito de remorso; remorso que não se encontraria na consciência de Romeu. Esta hipótese pode ser reforçada pelas próprias palavras de Seu Quincas e também pelas insinuações de Sá Nãna:

SEU QUINCAS – [...] Eu também fui jovem e tive minhas aventuras... mas nunca infelicitei moça... e sobretudo, respeitei a casa de meu pai!... E ainda essa pobre coitada, que era noiva... Que ia ter sua família!... Não!

SÁ NÃNA - Não venha com muita inocência não! O senhor já teve seu "par de botas"! (MARINHO 1968:118).

Seu “Não” impõe tanta dramaticidade em sua fala, um excesso de zelo por uma empregada que ele nem ao menos conhecia, já que Filó havia se empregado em sua casa apenas um dia antes, que nos indagamos as reais motivações psicológicas de sua revolta. Mesmo que ele se posicione, declaradamente, contra a prática perversa de defloramento de moças inocentes, instituída pelo seu filho como continuação do machismo e do autoritarismo patriarcal, numa sociedade que primava pelo decoro da mulher. Nesta instituição social, só podem existir dois tipos de mulher: as “decentes” ou as “perdidas”. Observa-se um excesso em sua indignação que faz sua conduta moral também ser posta

sob suspeita pela velha agregada da casa. Suspeita que se confirma quando Sá Nãna 53 revela que, assim como o filho, Seu Quincas também é susceptível ao mesmo tipo de falta: quase cometeu o adultério com a cozinheira da casa (Joana). Uma vez, invadiu o quarto da moça e só não consumou o ato, porque se intimidou com a presença da velha que se encontrava por perto e que, naturalmente, se fez notar pelo patriarca. 54 Sua moral também é colocada em questão, justificando nossa hipótese inicial de superação de sua própria culpa através do castigo ao filho.

Apesar das boas intenções, sua rigidez torna-o passível de suspeita, revelando sua hipocrisia. As mesmas práticas perversas de Romeu encontram-se também presentes em Seu Quincas, numa “hereditariedade social”, dir-se-ia. Dessa forma, desfaz-se a imagem solene e revolucionária de senhor de engenho avesso às tradições patriarcais. No desvelamento de sua falha de caráter, de sua hipocrisia, abala-se sua moral, fazendo-o perder, momentaneamente, a autoridade sobre a família, sobretudo, sobre sua esposa, e desvalidando suas boas intenções para com Filó. Destrói-se um dos pilares dessa família e dessa sociedade: o patriarca. Percebe-se, portanto, um típico procedimento cômico, no qual se pulverizam todos os falsos moralismos, com um olhar, cuja força “puxa para baixo” tudo o que se encontra em cima, instalando a crise, cindindo, criando rachaduras em toda a superfície de imagem solene e polida. Bem próprio da comicidade em geral de Bergson que denuncia o que é rígido e artificial, assim como da força cômica, concebida por Cleise Mendes. Contudo, a queda de Seu Quincas, a fissura de sua moral e ética, mostra-se mais dramática do que especificamente cômica.

Por outro lado, D. Mocinha fazia-se perceber até então como a esposa virtuosa e submissa, abnegada aos filhos e generosa com os seus empregados e, sobretudo, com os seus agregados. Todavia, na última cena revela a fragilidade de sua imagem; seu reverso.

53 Sá Nãna conhece a vida de todos na casa, sempre a vigiar suas condutas, proporcionando tanto o

desmascaramento de muitos personagens como situações cômicas de engano. Por exemplo, o suposto roubo do dinheiro da feira, a princípio pensava-se que fora Filó a autora do furto, depois com a intromissão de Sá Nãna pensou-se que havia sido Joana, porque no começo da peça a velha surpreendeu a cozinheira escondendo um misterioso embrulho em diversos lugares. Mas logo em seguida, descobre-se que se tratava apenas de uma foto de Romeu a quem Joana achava muito bonito. Por fim, constata-se que o dinheiro não foi roubado. Que tudo não passou de um engano de D. Mocinha. Por isso, quem em verdade conduz a ação é a própria agregada, pois suas revelações funcionam como golpes de teatro, redirecionando muitas vezes o rumo da intriga. Este conhecimento da vida intima da casa confere-lhe poder sobre os outros personagens e a confiança de D. Mocinha que é quem a mantém a seu serviço. Esta é sua função: servir de “capataz doméstico” dos empregados. Todavia, sua função de censora moral sobrepõe-se à sua personalidade, torna-se um excesso, endurece seu caráter devido ao seu automatismo, fazendo-a vigiar indistintamente patrões e empregados, tanto Filó e Joana quanto as filhas do casal e o próprio patriarca.

54 Na segunda versão de Um sábado em 30, quem presenciou a tentativa de adultério de Seu Quincas,

confidenciando a Sá Nãna o ocorrido, foi Julião que, aborrecido pela humilhação que sofreu, decide vingar-se do patrão, contando seu segredo à velha bisbilhoteira.

Torna-se claro ao leitor-espectador que seu filho desenvolve uma prática perversa de seduzir moças virgens e ingênuas e depois largá-las no mundo, à mercê da própria sorte, roubando-lhes seu bem mais precioso que é a virgindade, símbolo da decência da mulher daquela época. D. Mocinha não se dá conta, não vê, nem quer enxergar o sofrimento de Filó. Só pensa na tradição da família, na humilhação que seria ver seu varão casar-se com uma moça pobre e perdida. Reflete os princípios dessa sociedade, sem solidarizar-se. Quando questiona a resolução do marido esses são seus argumentos: “- Mas Seu Quincas, o senhor quer tomar a medida máxima! Não está vendo a impossibilidade?!... A diferença? Ela é uma empregadinha...” (MARINHO 1968:117). Agora, passa a defender a tradição de sua família, tradição que criticava quando queixava-se da ausência de Vasco, quando culpava essa mesma tradição de guerreiros na família, de homens bravos e destemidos, tal como a sociedade patriarcal o exige, mas que a colocava distante de seu “herói”. Naquele momento, negava a tradição “Teixeira Cavalcanti”. Mas quando se trata de reprimir a sexualidade de suas filhas ou de proteger a “tradicional” canalhice de Romeu, retoma seu antigo modo de pensamento, ao seu modus vivendi, o que provoca a ironia e o escárnio do marido:

SEU QUINCAS - (Irônico) A senhora agora já voltou ao seu pedestal!... A sua tradição Teixeira Cavalcanti!... Ao seu orgulho que sempre me irritou... Agora acabou-se a humanidade... já não necessita mais da proteção dos Santos!... Seu herói já vem por ai, são e salvo!

D. MOCINHA - Não seja injusto!

SEU QUINCAS -- Injusto? Injustiça é deixar mais uma pobre moça entregue ao mundo!... Se isto na sua família é tradição, não tenho nada com os hábitos de seu pai... Mas seu filho, é filho de um homem que não apóia vilania! Vá chamar a moça aqui! (MARINHO 1968:118).

Ambos, marido e mulher, são separados por universos distintos que os opõem. Enquanto o primeiro esbraveja contra as tradições da família da esposa, esta assume o que outrora também repudiava. Passa, então, a acusar o marido de agir contra sua família, de tripudiar de sua “respeitável” tradição, no firme propósito de proteger seu filho do rebaixamento imposto pela autoridade paterna: “- Percebo o meu erro! O senhor e a sua família sempre tentaram desmoralizar a minha família!” No que Seu Quincas retruca: “- Desmoralizar, não! Protesto! mas achar ridícula essa mania de tradição, sempre achei, e disso a senhora sabe!” (MARINHO 1968:121). Até que, também dominada pela fúria,

ameaça abandonar o marido:

D. MOCINHA – [...] - Se meu filho casar com essa coisinha eu me retiro para sempre desta casa!

... SEU QUINCAS - Coisinha não! Ela era tão pura quanto qualquer de suas filhas! Idiota! Pensa que é grande importância! É apenas ridícula! Muito ridícula! (MARINHO 1968:123-124)

Na violência da discórdia que os afasta um do outro, subentendem-se resquícios dos malefícios dos casamentos arranjados, no sistema coronelístico. Não há nenhuma identidade entre ambos, são dois completos estranhos. Talvez, devido à resposta de Seu Quincas, à sua agressividade, logo em seguida, Sá Nãna revelou o segredo do patriarca. Agiu em defesa a quem, de fato, servia e protegia: criou a mãe de D. Mocinha e a própria Mocinha.

Não se reconhece mais em D. Mocinha, ao chamar Filó de “empregadinha”, a mulher que, no começo da peça, fazia o seguinte tipo de afirmação sobre suas comadres do mato: “- Sabe que é uma gente de brio! Quisera que as minhas amizades aqui na rua, fossem tão sinceras quanto dessa gente!” (MARINHO 1968:43). Tal paradoxo reforça as contradições dessa sociedade, seu sistema perverso de dominação, que baseia suas relações pessoais, nas questões de trabalho, sobretudo, na dependência e no favor. Quando tudo isso é transcendido e vislumbra-se a possibilidade de uma pessoa humilde como Filó ascender ao mesmo status de D. Mocinha, essas ternas relações de amizade e dependência, que condicionam a dialética entre o patrão e o empregado, são colocadas em suspensão em detrimento da segregação de classes, dos velhos preconceitos que baseiam a sociedade patriarcal brasileira e que persistem ainda hoje. Portanto, não é só o marido que é desmascarado, mas também a matriarca, pois sua ação reforça o pensamento patriarcal. Cai o segundo pilar da família e do patriarcalismo em Um sábado em 30.

Sobre Um sábado em 30 paira o fantasma de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, exatamente porque o livro trata da história intima da sociedade brasileira, seus primórdios, de uma vida doméstica e conjugal, onde se viveu sob o patriarcado escravocrata, polígamo, mas cristão, num cristianismo circunscrito ao cotidiano da família, rodeado pelas crendices e pelos ritos dos escravos e que, em sua miscigenação, erigiu as bases de nossa organização social e de nosso imaginário, nossa subjetividade. Esse é o

pensamento que sobrevoa a obra em questão, de maneira fantasmal, mas que muito ilustra a reconstituição e a análise que Gilberto Freyre fez da sociedade patriarcal brasileira. Eis as palavras do sociólogo que reforçam nossa observação:

Nas casas-grandes foi até hoje onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro; a nossa continuidade social. No estudo da sua história íntima despreza-se tudo o que a história política e militar nos oferece de empolgante por uma quase rotina de vida: mas dentro dessa rotina é que melhor se sente o caráter de um povo. Estudando a vida doméstica dos antepassados sentimo-nos aos poucos nos completar: é outro meio de procurar-se o “tempo perdido”. Outro meio de nos sentirmos nos outros – nos que viveram antes de nós; e em cuja vida se antecipou a nossa. É um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos. (FREYRE [1933] 2000:56).

Como Marinho pode ser acusado de saudosista (PONTES 1963d; PRADO [1963] 2002; MICHALSKI 1976), de restringir-se a um “lirismo de situações” (PONTES 1963d) se os alicerces da sociedade que ele apresenta são colocados abaixo, levando consigo tudo o que se encontrava por cima em sua solenidade? A princípio, pensávamos que Um sábado em 30 seria uma exaltação ou defesa dos valores da família e do provincianismo da vida rural face às “revoluções” e os “idealismos” que a modernização da civilização e de seus novos sistemas de produção traziam, cujo preço seria a vida de filhos e pais de família, a desestruturação de nossas bases familiares. Valores familiares representados por D. Mocinha. Por outro lado, a Revolução é apenas defendida por Major Paulino, porém este é um personagem ridículo e, por isso, sua defesa não pode ser levada em consideração. Em si mesmo, ele sintetiza a caricatura de um revolucionário da Aliança Liberal que se sobrepõe ao espírito de um senhor de engenho, tornando seu “orgulho aliancista” em motivo de derrisão. Questionam-se os sacrifícios do “homem comum” em detrimento da renovação de toda uma nação, o que, de fato, não chega a ocorrer, pois suas formas de organização social permanecem as mesmas para o desassossego desse mesmo “homem comum”, vítima de todas as mazelas da sociedade e “bode expiatório” de suas inovações. Em Um sábado em 30, expõem-se as conseqüências da Revolução sobre a família, sua desestruturação. São conflitos que extravasam o âmbito nacional invadindo o cotidiano: a espera dos filhos, maridos e noivos, perdidos nos campos de batalha ou nas matas. Ou seja, paga-se um preço muito caro pela renovação da sociedade, por sua transgressão e D. Mocinha indaga durante todo o texto se, de fato, isso vale a pena, se é realmente necessário, se o homem não

deveria resignar-se ao seu provincianismo, satisfazer-se em ser “apenas” um “homem comum” e esquecer-se do “homem político”.

Todavia, os valores dessa família também são colocados abaixo pela hipocrisia que sustentava seus dois pilares: Seu Quincas e D. Mocinha; respectivamente, o patriarca e a matriarca. Partes desse sistema, ambos contribuem para a manutenção desse ancestral modelo de organização social, misturando nessa mesma “panela velha” preconceitos de raça, gênero e classe, repassando de geração em geração e propagando-os entre seus empregados e agregados, como prova a conduta de Sá Nãna que, além de resignar-se ao fatalismo social de sua existência, endossa-o entre seus pares, inclusive, como forma de exercício de poder, reproduzindo essa mesma prática, de subalterno para subalterno. Ou seja, seu hábito de vigiar os empregados e repetir regularmente para as criadas da casa que “um branco” nunca poderia se passar para casar com “um negro”, reforça essas formas de diferenciação, que contribuem para a estagnação social, perpetuando-as, além de servir de meio para que a velha exerça sua soberania sobre os demais serviçais, pois conhecimento também é poder.

A partir desses fatos, podemos pressupor que nada resiste à força cômica de Marinho, pois todas as máscaras são retiradas, subvertendo e colocando pelo avesso o que se apresentava em sua fidalguia. A Revolução é ridicularizada, o patriarcalismo já se mostrava nocivo desde seu princípio e a família, núcleo dessa sociedade, sua força motriz, revela-se também viciosa e decadente. Diante disso, o que resta a fazer?

A confusão está instalada e todos se acusam simultaneamente. Seu Quincas teve sua moral e autoridade abalada. Inutilmente, tenta expulsar Sá Nãna da casa. Major Paulino deseja vingança pela honra da filha e do neto. As filhas do casal que a tudo ouviam, pensam nos seus próprios problemas: Mercês indagava-se se, depois de todo esse escândalo, Gustavo ainda teria interesse de casar-se com ela e Maria de Jesus só tinha pensamentos para o circo que partia, embora elas também se mostrassem atentas ao que se passava, emitindo opiniões, por vezes, contraditórias. Mercês estava de acordo com o pai e era de opinião que Romeu deveria casar como uma forma de correção enquanto que Maria de Jesus achava que Filó deveria partir e que este casamento seria um erro. Paradoxo para uma moça que se dizia apaixonada por um artista de circo, que nenhum futuro poderia lhe oferecer a não ser a magia do picadeiro. Além disso, as duas empregadas envolvidas no