Capítulo II O Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos e o exercício
3. Os órgãos de proteção dos direitos humanos no Sistema Interamericano
3.1. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos
A CIDH foi primeiramente anunciada pelo Artigo 106 da Carta da OEA. Nele, está expresso que “[h]averá uma Comissão Interamericana de Direitos Humanos que terá por principal função promover o respeito e a defesa dos direitos humanos e servir como órgão consultivo da Organização em tal matéria [...]”153. Em 1959, a CIDH foi efetivamente criada, com
sede em Washington D.C., e foi instituída como um órgão responsável por zelar pela proteção dos direitos humanos no âmbito da Organização dos Estados Americanos, muito embora a sua atuação inicial tenha se restringido a funções promotoras, em sentido estrito, e não protetivas, em relação aos direitos humanos154.
Nos anos seguintes, mais precisamente em 1965, a CIDH foi transformada em um instrumento de controle da Organização dos Estados Americanos, a qual recebeu autonomia para dirigir-se a qualquer Estado americano para a coleta de informações e formulação de recomendações que julgasse necessárias. Em 1967, através do Protocolo de Buenos Aires, que resultou na reforma do Artigo 51 da Carta da OEA, a CIDH passou a figurar como um dos principais órgãos da Organização dos Estados Americanos. Posteriormente, em 1978, quando entrou em vigor a CADH, a CIDH foi instituída como o órgão responsável por supervisionar a Convenção155.
A CIDH é composta por sete juízes156 independentes, que atuam no recebimento e
processamento de denúncias e petições que reclamem o cometimento de violações aos direitos humanos, na emissão de relatórios, no exame de comunicações e na realização de visitas aos
153 Cf. Carta da Organização dos Estados Americanos, Artigo 106. Disponível em: http://www.oas.org/dil/port/tratados_A-
41_Carta_da_Organiza%C3%A7%C3%A3o_dos_Estados_Americanos.pdf. [08.07.2017].
154 Cf. José Augusto Lindgren Alves, Os direitos humanos na pós-modernidade, São Paulo: Perspectiva, 2005, p. 77. 155 Cf. José Augusto Lindgren Alves, Os direitos humanos..., op. cit., loc. cit..
156 Os juízes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos são eleitos pela Assembleia Geral da Organização, a partir de uma
lista de candidatos indicados pelos governos dos Estados signatários. Fatores como autoridade moral e notório conhecimento em matéria de direitos humanos, são características indispensáveis à escolha dos indicados. Cf. Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Artigo 3.1. Disponível em: https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/t.Estatuto.CIDH.htm. [08.07.2017].
Estados signatários para a condução de investigações abstratas ou que tenham sido motivadas por denúncias realizadas à própria Comissão. Após a realização das visitas, a CIDH publica informes especiais, através dos quais busca demonstrar os aspectos relativos a sua atuação e instituir preceitos referenciais para que os Estados estabeleçam medidas mais eficazes para a promoção dos direitos humanos.
Diante disso, pode-se afirmar que a atuação da CIDH está ligada a três funções elementares, a saber: o sistema de petição individual157, o monitoramento da situação dos
direitos humanos nos Estados-parte e a atenção às linhas temáticas prioritárias. Através desse conjunto de ações, a CIDH confere atenção às populações, comunidades e grupos historicamente submetidos à discriminação.
As funções e atribuições da CIDH são estabelecidas no teor dos Artigos 18, 19 e 20 do Estatuto da CIDH, os quais referem-se, respectivamente, aos Estados membros da Organização, aos Estados signatários da CADH e aos Estados membros da Organização que não fazem parte da Convenção.
A CIDH estabelece um rol de requisitos, de “forma”158 e de “fundo”159 para a admissão
das petições ou denúncias, quais sejam: a) a necessidade de terem sido interpostos e esgotados os recursos da jurisdição interna, conforme os princípios de Direito Internacional; b) um prazo prescricional de seis meses para a denúncia ser apresentada, a contar da data em que o presumido prejudicado tenha sido notificado da decisão definitiva; c) a obrigação de que a demanda esteja sendo analisada, em âmbito internacional, tão somente pela CIDH, evitando assim uma duplicidade de processos; e, d) a imprescindibilidade de que a demanda não tenha sido anteriormente examinada pela CIDH ou por qualquer outro órgão com jurisdição internacional160.
As denúncias de violação às normativas expressas nos documentos internacionais podem ser submetidos à CIDH por qualquer entidade não governamental, grupos de pessoas ou
157 Observa-se que: “[...] o sistema faz uma ponte com o cidadão através da denúncia, sendo esta efetuada por qualquer pessoa
por petição endereçada à Comissão de Direitos Humanos ou por organizações não-governamentais”. Cf. Artur Cortez Bonifácio, O Direito Constitucional Internacional e a proteção dos direitos fundamentais, São Paulo: Método, 2008, p. 278.
158 Cf. Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Artigo 28. Disponível em:
https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/t.Estatuto.CIDH.htm. [08.07.2017].
159 Cf. Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Artigos 31 - 34. Disponível em:
https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/t.Estatuto.CIDH.htm. [08.07.2017].
de forma individual, mediante a apresentação de uma petição. A partir da denúncia, a CIDH realiza uma investigação dos fatos anunciados e, se comprovada a existência de violação, formula recomendações ao Estado responsável161, com o intuito de reparar e restabelecer o gozo
de direitos e estabelecer um fator referencial para que situações similares não ocorram.
Os Estados que não observarem os preceitos estabelecidos pela CIDH, assim como as normativas expressas nos documentos internacionais, poderão sofrer sanções internacionais, consideradas constrangimento internacional público. A exposição das violações cometidas pelos Estados ocorre através da emissão de relatórios aos Estados signatários da Organização dos Estados Americanos e no decorrer das suas Assembleias Gerais162.
Alguns autores defendem modificações no funcionamento da CIDH, similares às que ocorreram com a extinta Comissão Europeia de Direitos Humanos e a consequente estruturação e fortalecimento da sua Corte. Entretanto, não se pretende que a CIDH seja extinta, mas que deixe de ser o único meio pelo qual os indivíduos possam apresentar as suas alegações163 à
Corte Interamericana.
Tal medida possibilitaria que a CIDH direcionasse os seus esforços para o desempenho de funções semelhantes às exercidas por órgãos como o Ministério Público, atuando, nesse sentido, para a promoção de medidas que resultassem na proteção aos direitos humanos, além de participar de forma efetiva nos processos junto à Corte Interamericana164.
161 Nesse sentido, corrobora o seguinte entendimento: “[...] No afã de apurar a prova, a Comissão poderá realizar audiências e
investigações no local dos fatos. Ao final do processo, a Comissão, se entender pela procedência da queixa, recomendará a mudança de conduta e a indenização dos prejuízos causados à vítima e o compromisso de que o denunciado não cometa outras violações dos direitos fundamentais. Em caso de não cumprimento das recomendações, a Comissão publicará suas conclusões no relatório anual que remete à OEA, podendo, ainda, enviar o caso à Corte Interamericana de Justiça, com sede em San José da Costa Rica”. Cf. Artur Cortez Bonifácio, O Direito Constitucional..., op. cit., loc. cit..
162 Cf. Maria Beatriz Galli; Ariel Dulitzky, A Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o seu papel central no Sistema
Interamericano de proteção dos Direitos Humanos, in. Luiz Flávio Gomes; Flávia Piovesan, O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 62.
163 Nesse sentido, observa-se que “[n]o sistema interamericano, o indivíduo tem capacidade processual para apresentar um caso
de violação de direitos humanos somente perante a Comissão Interamericana e não pode encaminhar em seu próprio nome, e de forma independente, um caso perante a Corte. A Corte somente pode receber um caso se for a requerimento da Comissão ou de um dos Estados-partes da Convenção Americana.” Cf. Maria Beatriz Galli; Ariel Dulitzky, A Comissão Interamericana..., op. cit., p. 82.
164 Cf. Antônio Celso Alves Pereira, Apontamentos sobre a Corte Interamericana de Direitos Humanos, in. Sidney Guerra, Temas
Em suma, pode-se afirmar que a CIDH busca construir soluções amistosas para as demandas que lhe são apresentadas e, caso não logre êxito nesse sentido, tem competência para submeter os casos à apreciação da Corte Interamericana. Essa circunstância, juntamente com a afirmação de um mecanismo preventivo de proteção, resultante das vistorias in loco realizadas pela CIDH e dos seus pareceres consultivos emitidos, faz parte do conjunto de ações que são desempenhadas para a efetivação do Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos.