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Capítulo I – A proteção internacional aos direitos humanos e o controle de

4. Os tratados internacionais de direitos humanos

O direito internacional dos direitos humanos transcendeu o aspecto político das relações internacionais entre os Estados e consolidou-se como um meio necessário para a afirmação de garantias e liberdades, possibilitando, assim, a humanização do direito internacional contemporâneo e a internalização dos direitos humanos. Tal preceito busca “reconhecer que os seres humanos têm direitos protegidos pelo direito internacional e que a denegação desses direitos engaja a responsabilidade internacional dos Estados, independentemente da nacionalidade das vítimas de tais violações”82.

Em âmbito técnico-jurídico, o direito internacional dos direitos humanos foi responsável pela efetivação de diversos documentos em nível internacional83, os quais possibilitaram a

80 Cf. André de Carvalho Ramos, Pluralidade das ordens jurídicas..., op. cit., p. 511. 81 Cf. André de Carvalho Ramos, Pluralidade das ordens jurídicas..., op. cit., p. 513.

82 Cf. Thomas Buergenthal, Prólogo, in. Antônio Augusto Cançado Trindade, A proteção internacional dos direitos humanos:

fundamentos jurídicos e instrumentos básicos, São Paulo: Saraiva, 1991, p. 31.

implementação de procedimentos capazes de alterar a lógica-funcional de estruturas constitucionais rígidas, dando espaço à implementação de novas disposições normativas para a tutela dos direitos humanos.

Os tratados84 internacionais – especialmente os que versam sobre os direitos humanos –

constituíram-se como a principal fonte de obrigações do direito internacional85 e se tornaram

responsáveis por estabelecer medidas protetivas para a salvaguarda de direitos inerentes à condição humana, tais como o fluxo relacional entre os preceitos estabelecidos nos referidos documentos e as normativas existentes no ordenamento interno dos Estados. Além disso, os tratados também foram compreendidos como “modos de expressão de acertos e ajustes, de manifestações de vontade, entre pessoas de direito internacional, os quais geram direitos e obrigações para as partes signatárias, com força de lei e obrigatoriedade de cumprimento [...]”86.

Notavelmente, a eficácia dos tratados internacionais no ordenamento interno dos Estados está condicionada ao processo de incorporação conferido pelos países, sendo regulados por leis internas ou no teor dos textos constitucionais. Nesse sentido, a efetivação dos textos legais impressos em tais documentos está subordinada ao sistema de parametrização das normas internacionais em relação aos preceitos normativos estabelecidos no ordenamento jurídico interno dos Estados. Esse fluxo operacional estabelece o mecanismo de recepção das normas internacionais e a valoração que será conferida para tal documento.

Diante disso, pode-se afirmar que, no domínio da proteção internacional dos direitos humanos, as obrigações internacionais são contraídas pelos Estados através do exercício da sua

84 A terminologia “tratado” refere-se aos acordos celebrados entre os sujeitos de Direito Internacional, entretanto, outras

denominações são empregadas para referir-se aos acordos internacionais, como por exemplo: Convenção, Pacto, Protocolo, Carta, Convênio e Acordo Internacional. Cf. Flávia Piovesan, Direitos humanos..., op. cit., p. 110.

85 Nesse sentido, afirma Louis Henkin: “Subsequentemente à Segunda Guerra Mundial, os acordos internacionais de direitos

humanos têm criado obrigações e responsabilidades para os Estados, com respeito às pessoas sujeitas à sua jurisdição, e um direito costumeiro internacional tem se desenvolvido. O emergente Direito Internacional dos Direitos Humanos institui obrigações aos Estados para com todas as pessoas humanas e não apenas para com estrangeiros. Este Direito reflete a aceitação geral de que todo indivíduo deve ter direitos, os quais todos os Estados devem respeitar e proteger. Logo, a observância dos direitos humanos é não apenas um assunto de interesse particular do Estado (e relacionado à jurisdição doméstica), mas é matéria de interesse internacional e objeto próprio de regulação do Direito Internacional”. Cf. Louis Henkin, International law: cases and materials, 3. ed., Minnesota: West Publishing, 1993, pp. 375-376, apud Flávia Piovesan, Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos: Jurisprudência do STF, p. 16. Disponível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/16470-16471-1-PB.pdf. [04/07/2017].

soberania87, razão pela qual os tratados figuram no ordenamento nacional dos Estados que

expressamente os consentiram e ratificaram.

Assim, caso os Estados não cumpram os preceitos normativos expressos nos tratados dos quais são signatários, assumem uma condição passível de responsabilização internacional. Nesse sentido, o fato ilícito internacional surge a partir de uma conduta comissiva ou omissiva, a qual é avaliada conforme os termos vigentes no sistema internacional, ainda que esses sejam considerados lícitos no ordenamento jurídico interno.

Esses fatores estão diretamente ligados aos atos praticados pelos poderes estatais, ou seja, “leis, atos administrativos, atos políticos, decisões judiciais, mesmo as provenientes da Suprema Corte, podem ser consideradas internacionalmente ilícitas, caso violem Direitos previstos nas fontes internacionais”88.

Cabe pontuar que, muito embora o acolhimento dos tratados internacionais no ordenamento jurídico interno dos Estados esteja sujeito aos seus procedimentos jurisdicionais para tal fim, o direito internacional conta com a parametrização estabelecida pela Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados89, documento esse já referido em tópicos anteriores deste

trabalho e que tem como objetivo regular a estruturação e a interpretação dos tratados internacionais no contexto mundial.

A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados fundamenta-se no princípio pacta sunt servanda, estabelecendo que “todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé”90. As partes a que se refere o documento dizem respeito

aos polos figurados entre os Estados e as Organizações Internacionais, ou entre as próprias Organizações Internacionais, frente aos preceitos estabelecidos em normativas que podem ter natureza hard low ou soft low.

87 Cf. Antônio Augusto Cançado Trindade, A Proteção Internacional dos Direitos Humanos - Fundamentos Jurídicos e Instrumentos

Básicos, São Paulo: Ed. Saraiva, 1991, p. 47.

88 Cf. Thiago Oliveira Moreira, A aplicação dos tratados internacionais de direitos humanos pela jurisdição brasileira, Natal:

EDUFRN, 2015, p. 188.

89 A Convenção de Viena define o termo “tratado” como um “acordo internacional regido pelo Direito Internacional e celebrado

por escrito i) entre um ou mais Estados e uma ou mais organizações internacionais; ou ii) entre organizações internacionais, quer este acordo conste de um único instrumento ou de dois ou mais instrumentos conexos e qualquer que seja sua denominação específica”. Cf. Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, Artigo 2º, alínea a. Disponível em: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1427770.pdf. [12.07.2017].

A Corte Europeia, a exemplo da prática realizada pela Corte Interamericana, fez remissão às regras de interpretação da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados91. No

âmbito da Corte Europeia, essa afirmativa pode ser percebida no caso Golder vs. Reino Unido92,

assim como em Luedicke, Belkacem and Koç vs. Alemanha93, através dos quais reconheceu que

os princípios estabelecidos na Convenção de Viena, relativos à interpretação dos tratados, são aceitos pelo direito internacional. No domínio da Corte Interamericana, podem ser observadas referências à Convenção de Viena em diversos casos, contenciosos ou consultivos, como por exemplo em seu Parecer Consultivo 17/200294.

Convém mencionar que o processo de internacionalização do direito, por meio de instrumentos como os tratados95, não se constituiu como um fenômeno exclusivo dos direitos

humanos, devido às relações internacionais estabelecidas pelas nações, que saíram do domínio exclusivo dos Estados e passaram a ser reguladas também através de normativas internacionais. Como exemplo, podemos citar os aspectos econômicos estabelecidos pelos tratados internacionais de direito econômico e organizações internacionais para esse fim.

A internacionalização das relações políticas e econômicas, junto ao desenvolvimento dos princípios de direito internacional público96, apresentou o seu contributo à valorização da

temática dos direitos humanos no âmbito das relações entre os Estados e indivíduos na ordem

91 As regras de interpretação da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados estão presentes na Seção III, Artigos 31 a 33

do referido documento.

92 Cf. Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, demanda Golder vs. Reino Unido. Disponível em:

http://hudoc.echr.coe.int/eng?i=001-57496. [12.07.2017].

93 Cf. Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, demanda Luedicke, Belkacem and Koç vs. Alemanha. Disponível em:

http://hudoc.echr.coe.int/eng?i=001-57529. [12.07.2017].

94 Cf. Corte Interamericana de Direitos Humanos, Parecer Consultivo 17/2002, parágrafo 21. Disponível em:

http://www.corteidh.or.cr/docs/opiniones/seriea_17_esp.pdf. [12.07.2017].

95 Por tratado, “entende-se um acordo de vontades entre sujeitos de Direito Internacional constitutivo de direitos e deveres ou de

outros efeitos nas relações entre eles; ou, de outra perspectiva, um acordo de vontades, regido pelo Direito Internacional, entre sujeitos de Direito Internacional; ou, ainda, um acordo de vontades entre sujeitos de Direito Internacional, agindo enquanto tais, de que derivam efeitos jurídico-internacionais ou jurídico-internacionalmente relevantes.” Cf. Jorge Miranda, Curso de direito..., op. cit., p. 57.

96 A terminologia direito internacional público encontra variadas definições na “doutrina estrangeira”, como “international law”,

“law of nations”, “droit international”, “droit des gens”, “diritto delle genti”, “Recht der Nationen”, “Völkerrecht”, etc”. Cf. Jónatas Machado, Direito Internacional: do paradigma clássico ao pós-11 de Setembro, 4. ed., Coimbra Editora, 2013, p. 23.

internacional97, mediante a afirmação de valores ético-universais e do surgimento de novos atores

internacionais com natureza intergovernamental, supranacional e não governamental, responsáveis pela projeção dos indivíduos como sujeitos de direito internacional98. Nesse sentido,

é possível afirmar que “[...] o desenvolvimento dos princípios de direito internacional público levaram à valorização do tema dos direitos humanos também na esfera das relações entre os Estados, entre as nações e entre grupos e indivíduos na ordem internacional.”99