INTERNACIONALIZACAO DO ATIVISMO
1.7.5. O MARCO TEÓRICO DO ATIVISMO JUDICIAL NO SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS
1.7.5.1 A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
Como discutido acima, após a Primeira Guerra Mundial, com a mudança de paradigma na condução da Política Internacional, as Conferências passaram a discutir outras agendas da política internacional como os direitos humanos.
Na América essa discussão girava em torno da criação de um sistema que quebrasse a hegemonia norte-americana e que se voltasse ao fortalecimento dos Estados, objeto do Congresso do Panamá, em 1826.
Essas discussões tratavam de conformar interesses colidentes, a proteção de direitos humanos e a política de não intervenção e igualdade soberana. O interesse era não melindrar os Estados Unidos e desenvolver política de não intervenção e criando um sistema americano fortalecido249.
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ALTER, Karen. International Courts in International Politics: Four Judicial Roles and Their Implications for State-IC relations.2005. pp.14-20
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No de 2014, as contribuições foram 70% da Noruega, 25% da Dinamarca e 5% da Colombia. Disponível em http://www.corteidh.or.cr/tablas/ia2014/portugues/files/assets/common/downloads/page0088.pdf. Acesso em 11.10. 2015
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GOLDMAN, Robert K. History and action: The Inter-American Human Rights System and the role of the Inter-American Commission on Human Rights. Human Rights Quartely. v.31. n 4, 2009. pp. 856-887
Em 1889, com a criação da União Pan-Americana, muitas convenções foram celebradas, sem o efeito de criar um sistema americano fortalecido, objetivando a promoção e garantia dos direitos humanos, o que somente viria a acontecer após a Segunda Guerra Mundial, com a criação do sistema universal, centrado na ONU250, visando à paz mundial, a segurança global e a proteção dos direitos humanos.
Nas Américas, a proteção de direitos humanos foi objeto da Conferência Interamericana para os Problemas da Guerra e da Paz, adotando-se uma Resolução sobre a Proteção dos Direitos Humanos, que atribuía ao Comitê Jurídico Interamericano a função de redigir uma Convenção sobre Direitos e Deveres Universais do Homem, que após muitas negociações deu origem a Carta da OEA, estabelecendo a OEA e consolidando não intervenção nos assuntos domésticos dos Estados signatários251.
A complementação da Carta Política foi realizada com a Carta de Direitos Humanos, a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem, que não integrava a OEA, o que demonstrou a fragilidade do sistema criado, e que somente doze anos depois impulsionaria a criação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos252, por questões políticas e não voltadas a proteção de direitos humanos na região. Temia-se a influência do comunismo na região, por interferência de Cuba.
Portanto, pode-se afirmar que a preocupação com a política cubana na região sul- americana impulsionou a criação da CIDH como órgão autônomo da organização regional, que surgiu dez antes da Convenção Americana, na V Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, em Santiago, em 1959, por meio da Resolução VIII. Tinha apenas funções de promover os direitos humanos, mas paulatinamente passou a realizar ações voltadas não apenas à promoção, mas efetivamente à tutela, controle e supervisão, o que se concretizou com a Resolução XXII da II Conferência Interamericana Extraordinária, por recomendação da OEA.
A natureza jurídica de convenção somente veio a ocorrer, em 1967, com a modificação da Carta da OEA. Os Estados observavam com muita cautela a atividade da Comissão, que representava segunda a ótica desses, um órgão norte- americano. Esses efeitos políticos decorrentes da Guerra fria no Continente Americano foram frutíferos porque novas
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Instituída pela Carta de São Francisco de 1948 e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, também de 1948.
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investidas na criação de um sistema de proteção aos direitos humanos foram levadas a efeito com a Declaração de Santiago, de 1960. Esta, além de proclamar que as violações de direitos ameaçavam a segurança e estabilidade na região, aprovou por resolução a criação de uma corte, uma comissão e outros mecanismos de proteção aos direitos humanos253.
Até então, a Comissão era um órgão consultivo, mas sem muitos recursos financeiros e sem atribuições relevantes, sendo questionado em vários momentos acerca de seus verdadeiros propósitos.
No período de 1960, data de sua criação, até 1967, quando adquiriu maior competência, pelo Protocolo de Buenos Aires, a CIDH tinha um papel insignificante no SIDH, e que somente se modificou com a própria modificação da Carta da OEA254.
Surpreendida pela adesão de vários países latino-americanos aos Pactos de Direitos Civis e Políticos, e Econômicos, Sociais e Culturais da ONU, o Conselho da OEA submeteu a CADH, em 1969, à ratificação pelos Estados-parte, quando foi aprovada255
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A competência para conhecer de denúncias individuais viria apenas com a Resolução XXII, mas em face da necessidade de colaboração dos governos que estavam sendo investigados sobre as violações. Essa competência ficou mitigada, e a Comissão passou a dar maior atenção à investigação dos casos coletivos, porque poderia fazer visitas in loco sem autorização dos Estados, e remeter relatórios sobre as violações investigadas a OEA. Essa opção pelos casos coletivos também foi resultado da insuficiência de recursos e da possibilidade de maior visibilidade da Comissão pelos Estados Americanos, que lhe renderia maior credibilidade e efetividade.
A Comissão manteve suas competências originais na OEA, quando do surgimento do Pacto de San José da Costa Rica, e ao lado da Corte IDH, passou a ter competência referente a todos os Estados-parte na CADH, de apreciar as denúncias de violações individuais ou coletivas e investigar os fatos, e concluindo sobre violação às cláusulas da CADH remeter à Corte; representar a parte denunciante no julgamento do caso e na supervisão de cumprimento da decisão da Corte, e em caso de descumprimento da decisão remeter a CIDH256. Por essa
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Ibidem. pp. 856-887 255
Fato inusitado é que a CIDH surgiu antes da CADH. Esta última levou cerca de 20 anos para ser submetida ao Conselho da OEA, apresentada pelo Comitê Interamericano de Juristas (1945-1965). Nova modificação feita em 1967 pelo Conselho da OEA, apresentada na Conferência Especial sobre Direitos Humanos
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razão, alguns entendem que o Sistema Interamericano de proteção de direitos humanos tem duas origens: a primeira na Carta da OEA (1959) e a segunda na Convenção Americana.
Com sede em Washington D.C., EUA, a CIDH compõe-se de sete membros, dentre pessoas de alta autoridade moral e reconhecido saber em matéria de direitos humanos, eleitos, por quatro anos. Não representam seus países, mas todos os membros da Organização dos Estados Americanos.
Tem competência consultiva e contenciosa. No desempenho de sua primeira função, apresenta seminários, palestras, relatórios visando à promoção de direitos humanos, ou ainda responde a consultas acerca de questões levantadas pelos Estados que compõem a OEA. Pode formular recomendações para todo Estado-Membro daquela organização.
No tocante à competência contenciosa suas decisões somente atingem os Estados que hajam ratificado a Convenção e que tenham declarado reconhecer a competência da Comissão (por tempo indefinido, definido ou para um caso especial) para receber e examinar as comunicações que um Estado-parte alegue contra outro, também parte, ou violações dos direitos humanos previstos no Pacto de São José.
Além de receber comunicações de Estados-Partes noticiando violações de direitos humanos, a Comissão poderá receber petições individuais, das vítimas, de seus representantes, de grupos de pessoas ou de organismos não governamentais, e as apreciará desde que esgotados os recursos de jurisdição interna, não haja litispendência, ou seja, não esteja o fato sendo objeto de análise em outra esfera internacional e não tenha decorrido o prazo de seis meses a partir da ciência da decisão que lhe negou acolhimento de sua pretensão.
Cabe ressaltar que se a decisão de jurisdição interna é morosa ou não se baseia no
due process of law não há que se falar em inadmissibilidade do petitório, nos termos do art. 46 da Convenção, mas será esse recusado se for apócrifo e sem dados que identifiquem a nacionalidade, a profissão e o domicílio da pessoa ou pessoas que tiveram seus direitos violados.
Recebendo uma petição individual ou comunicação estatal a Comissão depois de apreciada a sua admissibilidade solicita informações ao Estado demandado, que as deverá remeter num prazo razoável, podendo ocorrer o arquivamento, em caso de falta de justa causa ou a inadmissibilidade ou a improcedência do pedido após analise das provas, uma solução amistosa ou o caso é submetido à Corte.
A Comissão, na sua função consultiva tem realizado um trabalho que muito tem contribuído para a sedimentação do SIDH, ao enfrentar questões importantes sobre pena de morte; suspensão de direitos e garantias processuais, o caso do habeas corpus, migração de pessoas e sua repercussão nos direitos sociais e trabalhistas, a proteção de crianças em conflito com a lei e que sejam imigrantes, o controle de legalidade dos atos praticados pela Comissão, a responsabilidade dos Estados-parte, além da discussão de cláusulas da Carta da OEA, e os métodos e princípios que devem ser utilizados para interpretação, bem como a interação e interpretação sistemática, levando-se em conta a interpretação realizada pelos órgãos da ONU, da CEDH e a CADH, e a doutrina da margem de controle ou de margem de apreciação da implementação de decisões que foi adotada na CEDH, e que passou a ser apreciada pela CIDH257.
A Comissão, desde o ano de 1997 até o ano de 2014, submeteu 50% a mais de casos à Corte IDH, comparativamente aos dois anos anteriores, totalizando hoje 309 casos contenciosos. Também o número de denúncias elevou-se de quatro demandas por ano, até 2002, e a partir de 2003 esse número elevou-se para quinze demandas, em média, por ano.
A Comissão IDH exerce um papel relevante no SIDH em apoio a Corte e na proteção e garantia dos Direitos Humanos. O caráter eminentemente político que marcou sua criação e perdurou por duas décadas, e marcou-a pelo descrédito nos fins de defesa de direitos humanos, hoje é marcada por uma nova fase de respeitabilidade e visibilidade no SIDH.