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2. A GEOPOLÍTICA DO PETRÓLEO

2.5. A competitividade na indústria do petróleo

Até a década de 1950 as empresas norte-americanas tiveram o controle da oferta mundial de petróleo e, consequentemente, mantiveram os preços administrados estáveis dessa

commodity em patamares que garantiram a manutenção da hegemonia da indústria petrolífera

dos Estados Unidos, propiciaram retornos elevados sobre os investimentos, bem como evitaram os conflitos com os países anfitriões que estavam, até então, satisfeitos com os retornos sobre os contratos de cessão de exploração. A hegemonia das grandes empresas norte-americanas começou a diminuir a partir da entrada no mercado de pequenas e médias empresas independentes que tinham baixo grau de integração vertical e do esforço dos países produtores para aumentarem o controle e o rendimento sobre a exploração do petróleo.

A combinação destes dois fatores foi gradualmente erodindo a estrutura organizacional das majors e preparando o terreno para que elas fossem encarar uma competição, durante os anos setenta, com outras empresas que obtiveram concessões individuais no Oriente Médio. O sucesso dessas novas empresas foi conseguido graças aos apoios que tinham de seus governos, aos acordos empresariais que firmaram com as empresas locais e da maior rentabilidade sobre a exploração que concederam aos países anfitriões. Em 1946 apenas 9 empresas operavam no Oriente Médio, as sete maiores (as “Sete Irmãs”) , mais a CFP francesa e o petroleiro armênio Colouste Gulbenkian. Em 1956 havia 19, principalmente devido à entrada de americanos independentes, enquanto em 1970 o número tinha subido para 81 (Yergin, 2014).

A entrada dessas novas firmas no cenário internacional teve como consequência imediata a exploração em novas área de extração e o surgimento de novos players. Grandes campos foram descobertos na Argélia, na Líbia, na Nigéria e nos Emirados Árabes. Nos anos sessenta,

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as reservas provadas de petróleo aumentaram15 em 41%. Desses 32 estavam localizados no Oriente Médio e Norte da África e apenas 4,5 nos Estados Unidos. Os custos das novas reservas totalizaram apenas 1,5 centavos por tonelada no Oriente Médio e 13 centavos na África, contra 1,4 dólar nos Estados Unidos e 3 dólares na Europa (CLÔ, 2000, cap 4). A maior parte do acréscimo da produção era originário das novas empresas entrantes. Esses novos produtores não conseguiram penetrar no mercado norte americano, pois este era inteiramente dominado pelas grandes empresas norte-americanas que supriam o mercado dos Estados Unidos prioritariamente pela produção doméstica e somente a diferença entre a oferta interna e a demanda era importado também por elas. Essa dificuldade fez a produção dos novos entrantes ser direcionada para os mercados europeu e japonês, elevando a oferta e pressionando os preços dos petróleo para baixo nas transações livres, aquelas que não eram dominadas pelas majors. Os recém-chegados tinhas estímulos para elevarem rapidamente a produção com o objetivo de recuperarem os investimentos e garantir um fluxo de caixa para pagamento do serviço das dívidas, assumidas no período pré-operacional, em virtude dos recursos financeiros limitados que possuíam.

Gradativamente, conforme um mercado livre de petróleo crescia pari passu o aumento da produção das novas entrantes, o poder das grandes empresas de controlar o mercado internacional ia diminuindo e os preços eram forçados para baixo. A posição agressiva das novas empresas tinha como objetivo a sobrevivência e a proteção dos seus investimentos no Oriente Médio e no Norte da África. A estratégia utilizada por elas foi a diversificação dos investimentos: intensificação da exploração nos novos campos petrolíferos recém agregados à produção; e a ofensiva sobre as áreas até então exploradas pelas grandes empresas norte- americanas e inglesas. Para ter sucesso, essas empresas deveriam ofertar contratos de exploração muito mais vantajosos aos países anfitriões. Os recém-chegados ofereceram aos países produtores diversas vantagens que não eram oferecidas pelas majors: extensão de área produtiva; controle sobre os investimentos; maiores lucros; participação de empresas locais na produção entre outras vantagens. Os países anfitriões viam nesses novos contratos maiores perspectivas de retornos e de aumentar o controle dos seus recursos petrolíferos no longo prazo. Vários acordos de participação mútua na exploração entre essas empresas e as empresas locais passaram a ocorrer. Historicamente, o mais relevante foi o acordo de coparticipação assinado em 1957 entre a National Iranian Oil Company e Agip (do grupo ENI) de Enrico Mattei (CLÔ, 2000, cap 4). Com acordos desse tipo, os países do Oriente Médio e do Norte da África

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começaram aos poucos a se livrar dos monopólios bilaterais impostos pelas majors. Antes da entrada das novas empresas, os países produtores somente tinham duas alternativas: permitir a exploração do seu petróleo pelas grandes empresas ou adiar a exploração, pois não havia empresas domésticas nem estrangeiras capazes de assumir o papel do cartel das “Sete Irmãs”. Outra pressão para a queda dos preços foi o reaparecimento do petróleo soviético nos mercados internacionais, que antes da Segunda Guerra Mundial já representava um percentual significativo nas exportações soviéticas, mas sua participação no mercado internacional era extremamente baixa. No pós-guerra, a produção soviética cresceu e, como a demanda energética de energia interna ainda era suprida essencialmente pelo carvão, houve um excedente produtivo significativo que era exportado para o bloco socialista e também passou a concorrer com o petróleo do ocidente. O preço do petróleo soviético era baixo devido ao modelo produtivo do sistema socialista. Em plena Guerra Fria Enrico Mattei16 firmou em 1958 um contrato de compra de petróleo da URSS que representava uma grande percentual das importações italianas. Esse contrato provocou fortes reações do bloco capitalista, mas também mostrou o novo comportamento da oferta de petróleo mundial.

A incorporação dos novos entrantes ao mercado mundial do petróleo provocou um processo evolutivo de redução do grau de coordenação oligopolística e de controle do comércio pelas grandes empresas petrolíferas. Com a redução do poder do cartel das “Sete Irmãs”, o arranjo da oferta mundial de petróleo sofreu alteração. O surgimento de um mercado livre de petróleo bruto ofertado pelas pequenas e médias empresas, chamado de mercado spot17 (à vista), no qual o preço de oferta era inferior ao praticado pelas majors para contratos de fornecimento mais longos, pressionou gradativamente o preço do petróleo bruto para baixo. A pressão para baixar os preços foi momentaneamente interrompida pela Guerra da Coreia (1950-53), pelo desaparecimento das exportações iranianas após a nacionalização de Mossadeq (1951-54) e pela Guerra de Suez (1956-57). Com a volta da normalidade ao mercado internacional, a diferença entre os preços publicados e os preços spot tendeu a aumentar a partir de 1958, chegando a superar os 25% nos meados dos anos sessenta.

Devido do aumento da competição do mercado livre, as majors responderam com uma redução de preços publicados nos mercados, mas, diante das fortes reações do países produtores, elas tiveram que manter os preços publicados constantes e passaram a dar

16 Enrico Mattei foi diretor da ENI, empresa estatal fundada pelo governo italiano em 1953.

17 Mercado spot compreende as transações em que a entrega da mercadoria é imediata e o pagamento é feito à

vista. Por isso, é também chamado de mercado disponível, mercado físico ou mercado pronto (revista de informações e debates do IPEA, edição 21 – 4/4/2006).

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descontos aos compradores, sendo que esses preços ficaram mais baixos que os praticados no mercado à vista. A partir do final dos anos 50, o mercado mundial do petróleo passou a ser dividido em três submercados:

a) o mercado norte-americano, que estava fechado e praticava preços superiores aos internacionais;

b) o mercado soviético, muito restrito ao bloco socialista, com exceção de poucas transações com o bloco capitalista; e

c) o mercado internacional, que, por sua vez, era subdividido no mercado controlado pelas grandes empresas, que representavam 85% a 90% do comércio global, e o mercado livre ou a domicílio que tratava dos outros 10% a 15% (CLÔ, 2000, cap 4).