2.2 Uma questão de normatividade
2.2.3 O ordenamento jurídico
2.2.3.2 A completude do ordenamento jurídico
No que tange à completude do ordenamento jurídico, ela pode ser assim definida, segundo as palavras de Bobbio (2014):
[...] Por “completude” se entende a propriedade pela qual um ordenamento jurídico tem uma norma para regular qualquer caso. Posto que a ausência de uma norma se chama, com frequência, de “lacuna” (em um dos sentidos do termo “lacuna”),
“completude” significa “ausência de lacunas”. Em outras palavras, um ordenamento é completo quando o juiz pode encontrar nele uma norma para regular qualquer caso que se lhe apresente, ou melhor, não há casos que não possa ser regulado com uma norma extraída do sistema (2014, p 112).
A ideia de completude do ordenamento jurídico implica o reconhecimento que ele deve ser visto como um sistema fechado, hermético, possível de regular, por completo, todas as relações ocorridas em sociedade. No entanto, como já se salientando anteriormente, as relações
intersubjetivas possuem elevada dinamicidade, em contraste com o sistema normativo jurídico, pensado para dar estabilidade ao grupo social por ele regulado, pois deverá perdurar ao longo do tempo.
Desse modo, percebe-se que o ordenamento jurídico, com o passar do tempo, não se demonstrará mais adequado àquela realidade social, impondo-se a necessidade de substituição/adequação de suas previsões, para que se mantenha atual e em conexão com os valores estruturantes que o criaram, sob pena de seus preceitos não mais conseguirem regular os fatos sociais.
Importante notar-se que esse será um processo continuo e perpétuo, fazendo com que sempre o ordenamento jurídico não se demonstre suficiente para solucionar/regular os casos surgidos, o que ofende a sua ideia de completude.
As palavras de BOBBIO (2014) corroboram com este entendimento:
[…] paralelamente ao processo natural de envelhecimento de um código, é preciso considerar que na segunda metade do século passado ocorreu, por obra da chamada Revolução Industrial, uma profunda e rápida transformação da sociedade, que fez com que as primeiras codificações – que refletiam uma sociedade ainda principalmente agrícola e pouco industrializada – parecessem ultrapassadas, portanto, insuficientes e inadequadas, e acelerou seu processo natural de envelhecimento. Basta pensar que ainda no Código Civil italiano de 1865, que derivava do francês, todos os problemas relativos ao trabalho, a que posteriormente foi dedicado um livro inteiro, eram resumidos em um artigo. Falar da completude de um direito que ignorava o surgimento da grande indústria e de todos os problemas da organização do trabalho a ela relacionados significava fechar os olhos diante da realidade por amor a uma fórmula, deixar-se iludir pela inércia mental e pelo preconceito (2014, p 120).
Neste cenário, verifica-se que atribuir a completude ao ordenamento jurídico se apresenta como tarefa praticamente impossível, pois isso implicaria a imposição de realização de constante e infindável processo de reformulação desse, o que demandaria excessivo tempo, além de não se mostrar como medida eficiente para regular a vida em sociedade.
Em razão disso, constata-se que o ordenamento jurídico deve ser visto como um sistema normativo incompleto, aberto, ou seja, ao invés de tentar se impor a completude desse, faz-se necessário reconhecer que ele possui lacunas, o que significa que não existe, de modo exaustivo, regras de conduta capazes de regular todas e quaisquer relações intersubjetivas ocorridas, mas sim que pode ocorrer que certas situações não tenham regulação própria.
Neste cenário, denota-se a grande importância que deve ser atribuída aos princípios jurídicos, pois assim como o processo interpretativo – a hermenêutica – se apresenta essencial para elaboração das normas jurídicas, em virtude de permitir a análise da complexidade dos fatos à luz dos preceitos normativos, possibilitando a definição/construção da norma aplicável
ao caso; são através dos princípios que a alteração dos valores sociais, oriunda da dinamicidade da relações sociais, poderão adentar ao sistema normativo.
Sob o aspecto formal, os princípios jurídicos devem ser compreendidos como pontos de entradas/acesso dos valores definidos pelo grupo social no sistema normativo, permitindo que esses possam pautar/influenciar a aplicação das regras existentes. Eles devem ser vistos, utilizando-se de certa alegoria de fácil compreensão, como tubos respiradores, que permitem o arejamento do sistema normativo, viabilizando que novos ares possam adentrar e espalharem-se no ordenamento jurídico, dando-lhe espalharem-sempre um novo frescor social.
Desse modo, vislumbra-se que os princípios jurídicos possibilitam que a alteração dos valores estruturantes da sociedade, que ocorrem com elevada frequência, possa ser reinserida no ordenamento jurídico, viabilizando a adequação das previsões já existentes à dinamicidade das relações intersubjetivas ocorridas. Mas para que isso ocorra, faz-se necessário reconhecer a multiplicidades de fontes do Direito, pois elas permitirão que esses valores possam gerar novos princípios jurídicos, ou mesmo compor a estrutura de princípios já existentes, garantido assim o arejamento/rejuvenescimento do ordenamento jurídico. Aceitar, portanto, que o ordenamento jurídico possui lacunas, demonstra-se essencial para possibilitar que a múltiplas fontes do Direito possam atuar, pois caso exista uma situação, um fato não tratado pelas previsões do ordenamento jurídico, dado princípio oriundo de uma fonte secundária – que não seja a lei – poderá prever algo que solucione/regule o caso concreto.
Ademais, considerar que os princípios também são meios hábeis de regular certa estruturação jurídica de objetivos, implica a percepção que esses serão dotados de sanção, não aquela direta/explicita como outras regras jurídicas, mas sim aquela indireta/implícita, conforme já explicado, ocasionando a não consecução dos efeitos almejados, no caso de sua inobservância.
Dessume-se, portanto, que a força normativa dos princípios reside na abertura que esses propiciam ao sistema normativo jurídico, permitindo que a mudança dos valores sociais, oriundos da dinamicidade relações intersubjetivas em sociedade, possam ser incorporados ao sistema e, assim o fazendo, alterar a compreensão/interpretação das disposições normativas, adequando-as às mutáveis necessidades do grupo social.
Nesse passo, compreendida a força normativa dos princípios jurídicos, necessária se faz agora entender como são definidos os seus conteúdos. É o que se passa a fazer, a seguir.