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A COMPLEXIDADE DA QUESTÃO DA OCUPAÇÃO RECENTE DAS

5 A NATUREZA DOS PROBLEMAS

5.2 A COMPLEXIDADE DA QUESTÃO DA OCUPAÇÃO RECENTE DAS

O relevo condizente a porção insular principal do município de Vitória é constituído por aspectos fisionômicos caracterizados por diversos morros, morrotes e colinas, com vertentes de considerável inclinação. Estes são sustentados em alguns setores por fácies de espessa cobertura pedológica em contraposição a ocorrência de afloramentos rochosos, denotando certa heterogeneidade quanto aos aspectos morfológicos e geoambientais da ilha.

As características geológico-geotécnicas da Ilha de Vitória, aliadas à ocupação desordenada, mostram um quadro de risco que, com o avanço da ocupação, vêm ressaltando os aspectos antrópicos modificadores do meio físico como os maiores geradores de risco. Têm-se tornado bem comuns acidentes gerados por acúmulo de lixo em talvegues, escavações em taludes para construção de moradias ou

subdimensionamento de “muros de arrimo” executados pelos próprios moradores de áreas instáveis.

Em plena associação a tal conformação ambiental, se consubstancia de maneira marcante na paisagem da Ilha de Vitória, em especial na área condizente ao Maciço Central, a existência de setores densamente ocupados por diversas atividades antrópicas cotejadas por fragmentos territoriais onde sobressai a cobertura vegetal de Mata Atlântica em estágios diversos de regeneração. Contanto, contempla-se a associação de setores territoriais amplamente degradados em função do desenvolvimento de atividades pretéritas e contemporâneas impactantes sobre os recursos naturais como, vegetação, fauna, solo, água e o ar, frente à presença de áreas protegidas ou remanescentes “naturais”, comumente representados por parques e APA’s.

Fenômeno sócioambiental de grande vulto se consolidou na paisagem “acidentada” de Vitória por meio da dinâmica de ocupação de suas porções mais íngremes, que veio a sofrer um momento de maior intensidade a partir dos anos 70 do século passado. Tal fato deve-se, em primeira instância, às modificações na estrutura agrária e urbana brasileira que ocorreram de forma mais contundente no referido decênio, onde se observara, no caso capixaba, forte ligação com a questão da monocultura do café e o processo de urbanização e industrialização acelerado no período em questão (CAUS, 2007).

Constitui fato de extrema importância no campo à execução da política de erradicação dos cafezais posta em prática nos meados de 1960 pelo Governo Estadual em cumprimento as determinações advindas do Governo Federal. Tal medida contribui, em tese, para disponibilização de um quantitativo significativo de mão-de-obra, que em muitos casos tinha como destino certo o “alistamento” nas atividades comerciais, industriais e da construção civil na cidade de Vitória e nos municípios vizinhos à capital.

O surgimento de empreendimentos de grande porte econômico em Vitória contribuiu, no período recorrente, para com a atração de mão-de-obra advinda não apenas do campo, mas também, dos municípios limítrofes a capital – hoje região

metropolitana – e de outras cidades da região sudeste, tendo como expoente nas diversas atividades, a implantação da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) na região continental da ilha.

Com relação ao breve quadro socioeconômico acima aludido, constatou-se, grosso modo, que nos últimos setenta anos - e em especial entre os decênios de sessenta a oitenta - ocorreram consideráveis acréscimo no percentual quantitativo populacional do município de Vitória, conforme pode ser observado na Tabela 5.2-1 a seguir.

Tabela 5.2-1: População Residente no Município de Vitória entre os Anos de 1940 e 2008.

Ano População Crescimento (%)

1940 45.212 - 1950 50.922 12,63 1960 83.351 63,68 1970 133.019 59,59 1980 207.747 56,18 1991 258.777 24,56 1996 265.874 2,74 2000 291.889 9,78 2008 314.042 7,59

Fonte: Instituto de Pesquisa do Estado do Espírito Santo – IPES (2009).

Tal dinâmica demográfica potencializou a pressão antrópica sobre a disponibilidade e qualidade dos recursos naturais, que de certa maneira se reproduz até os dias atuais.

Conforme dados apresentados pela Secretária Municipal de Habitação de Vitória (SEHAB), aproximadamente 38% da população de Vitória se encontram em áreas de risco à ocorrência de eventos geológico-geotécnicos, o quê inclui um quantitativo considerável de habitações e populações em tal situação. Estas áreas foram classificadas pela citada secretaria de acordo com os níveis de risco recorrentes (Alto, Médio e Baixo), sendo seus resultados demonstrados na Tabela 5.2-2.

Tabela 5.2-2: Número de Habitações e de População Residente em Áreas de Risco no Município de Vitória.

Risco Habitações População residente

Alto 3.784 15.136

Médio 3.150 12.600

Baixo 22.799 91.196

Totais 29.733 118.932

Fonte: Secretaria Municipal de Habitação de Vitória (SEHAB), 2008.

A ocupação das partes mais altas e íngremes dos morros de Vitória fora feita essencialmente por população de baixa renda, em lotes diminutos, constituindo em diversos setores, pequenos aglomerados urbanos sem um mínimo de ordenamento e/ou consideração quanto à viabilidade técnica e ambiental frente a ocupação de tais setores do modelado.

As dificuldades financeiras faziam parte, na maioria dos casos, da realidade daquele contingente de migrantes oriundos do interior Capixaba e de outras unidades da federação, fato que se associava à inexistência ou a pouca expressão de políticas públicas voltadas à implantação de uma estrutura urbana que atendesse de forma satisfatória tal demanda por novos assentamentos.

Em consonância a dinâmica de ocupação de Vitória, desenvolveu-se inúmeras ações de caráter modificador e, em certos casos, degradador do meio físico e biótico em questão. Estes são conformados fundamentalmente pelas queimadas, supressão parcial ou total da vegetação original e remoção/corte da cobertura pedológica, desde as encostas mais íngremes até aos fundos de vale.

Tais intervenções surgem, na maioria dos casos, como um reflexo direto e indireto derivativo do processo de implantação de infra-estruturas urbanas precárias e/ou insuficientes. Estas, comumente, foram concebidas e operacionalizadas inicialmente pelos próprios ocupantes destas “novas áreas” urbanas, não havendo assim um balizamento das atividades de crescimento da malha urbana pautada no planejamento do uso e da ocupação do solo.

Ocorrerá de forma marcante no entorno do Maciço Central de Vitória inúmeras intervenções em sua constituição biofísica, mormente, relacionadas à execução de benfeitorias estruturais no objetivo de construir e/ou retificarem vias de acesso, entre outros aparatos urbanos. Estas atividades proporcionaram de modo geral a modificação e remoção de vegetação original, assim como de materiais inerentes as vertentes em virtude da realização de aterros, redes de saneamento básico, entre outros serviços. Tais fatos contribuíram para a complexidade ambiental do espaço em questão e de seus possíveis reflexos quanto a essa nova configuração territorial pós anos 1980.

A partir deste fértil cenário, onde se conjugam historicamente diversas tipologias de uso e ocupação do solo, de idades e dinâmicas distintas, cria-se um ambiente propício à incidência e/ou intensificação de fenômenos geomorfodinâmicos severos, fundamentalmente representados por deslizamentos e queda de materiais geopedogenéticos diversos.

Estes fenômenos, na maioria dos casos, possuem sua gênese fundada na inexistência de um planejamento apurado e condizente as formas pretéritas e atuais de uso e a ocupação do solo, principalmente no que condizem as áreas reconhecidas como ambientalmente frágeis e, por sorte, protegidas por legislação específica. Estas normalmente são representadas pelos setores mais elevados e escarpados do relevo local, visto as condições geotécnicas adversas aos quais os materiais constituintes das vertentes são submetidos ou encerrados em relação às áreas mais baixas.

Para que se possa realizar de fato a implantação de um planejamento físico- territorial mais adequado para a área em questão, deve-se, antes de qualquer coisa, levar em conta as potencialidade e fragilidades do meio em questão. Estes devem estar fundados no pleno conhecimento das características geobiofísicas regionais em associação as peculiaridades sócio-econômicas derivadas dos processos de produção/reprodução do espaço geográfico.

Para tal, faz-se necessário aplicar a realidade abarcada numa perspectiva integradora que perpasse pelo âmbito das ciências ligadas a natureza e a

sociedade, no qual a Geografia Física tem papel de destaque na função de “carrefour” (ponto de encontro) para uma ótica integrativa do meio, isto é, dos fatos físicos, bióticos, antrópicos.

Contudo, a contribuição da Geografia Física e de seus subcampos, neste caso em especifico da Geomorfologia, terá como aspecto fundamental extrair informações, características e cenários que auxiliem a elaboração e proposição de modos e padrões mais adequados para com o uso racional dos recursos naturais, especificamente, a questão do uso e da ocupação do solo no meio urbano.

Todavia, faz-se hoje necessário, no âmbito da Geomorfologia, uma maior aproximação quanto à compreensão das intensidades e extensividades referentes às interferências derivadas das ações antrópicas em relação aos aspectos geodinâmicos e geomórficos Quaternários, em especial, no que concerne a indicação e caracterização de áreas ou setores territoriais relacionados ao desequilíbrio eminente e potencial do meio em questão.

Para que os preceitos acima citados sejam alcançados de maneira satisfatória no âmbito do planejamento físico-territorial, há de se adotar no bojo do presente estudo, metodologias e técnicas de análises de caráter híbrido. Estas têm como objetivo promover adequadamente a coleta, tratamento, correlação e exposição (síntese) de dados, informações e características geomorfológicas de modo integrado as tipologias de uso e ocupação do solo da área de estudo, como a paisagem em questão o exige, em sua pluralidade e complexidade intrínseca, onde se destaca a perspectiva integradora do meio ambiente.

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