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5 A NATUREZA DOS PROBLEMAS

5.1 O SENTIDO DOS PROBLEMAS

Os problemas inerentes à questão da instabilidade potencial do relevo em associação à recorrência de fenômenos geomorfodinâmicos de considerável monta, nos leva não somente a reflexão sobre os aspectos ligados aos problemas físico- naturais do meio, mas também no que refere às condições de habitação e moradia de grande parte da população estabelecida em áreas consideradas de risco ambiental8.

No caso do meio urbano brasileiro, tal reflexo é frequentemente associado a uma dinâmica evolutiva do sítio, fundamentada, muita das vezes, na dificuldade econômica de certas parcelas populacionais ao acesso a ecúmenos ou a estabelecimentos mais apropriados à “fixação” do homem. Contanto, muitas das vezes faz-se premente a ocupação das encostas com forte inclinação ou de fundos de vale estreitos, que se conformam ambientalmente inapropriados frente à inexistência de planejamento para tal.

A constatação de deficiências quanto às infra-estruturas básicas destinadas a atender os moradores localizados nas áreas de encostas no Brasil, assim como os riscos ambientais (sociais, econômicos, de vida etc.) aos quais estes estão expostos, encontra-se relacionados a diversos fatores de cunho econômico, político e ambiental, como:

7 De acordo com Santos (1985), a primeira natureza consiste na “natureza em estado natural”, diferentemente da segunda natureza, já submetida á sociedade, isto é, a natureza que já apresenta resultados da ação humana.

8 Resultam da associação entre os riscos naturais e os riscos decorrentes de processos naturais agravados pela atividade humana e pela ocupação do território (VEYRET & DE RICHEMOND, 2003).

 baixa qualidade dos materiais utilizados na construção de moradias, devido a dificuldades econômicas na aquisição;

 precariedade ou Inexistência de planejamento adequado quanto o estabelecimento de formas de uso e ocupação do solo que levem em conta as peculiaridades naturais do sítio; e,

 fragilidades e potencialidade em relação às condições naturais do meio (geomorfológicas, litotectônicas, fitofisionômicas, climática, etc.), que atuam de forma conjunta e complexa na constituição do modelado.

Este quadro encontra forte correspondência - temporalmente e espacialmente - com a ativação, reativação e/ou aceleração de processos inerentes à evolução das formas de relevo, sendo estes importantes no que se refere aos riscos dos quais são expostos certa parcela da população, que acabam ocupando setores da encosta ambientalmente frágeis.

As intervenções para construção de infra-estruturas de moradias e seus acessórios estão fortemente relacionadas aos diversos impactos impostos ao meio em questão ou, mais especificamente, no que se refere ao sistema vertente em seus elementos e em sua dinâmica evolutiva.

Em diversas circunstâncias o conceito e a definição de “impacto ambiental”

encontram-se relacionados quase que exclusivamente ao homem como vetor propagador da degradação da natureza e consequentemente de seus recursos (água, ar, solo, vegetação), sendo esta natureza (primeira) apresentada à sociedade como imaculada ou desprovida de modificações pretéritas derivadas das intervenções antrópicas pós-moderna.

Tal referencial idealista nos permite, em tese, propor diversas reflexões sobre a questão dos impactos ambientais urbanos causados pelas atividades antrópicas contemporâneas, sendo, ao nosso entender, necessário fazê-las por uma ótica mais próxima da realidade ou mais humanizada sobre os fatos. Isto, de acordo com Coelho (2005), demanda do pesquisador e de sua proposta de abordagem para a problemática ambiental urbana uma flexibilidade quanto a sua proposta metodológica, pois sua interpretação necessita abarcar em sua construção fatores

especificamente físicos e biológicos em conjunção a aspectos essencialmente antrópicos, pois:

“A complexidade dos processos de impacto ambiental urbano apresenta um duplo desafio. De um lado, é preciso problematizar a realidade e construir um objeto de investigação. De outro, é necessário articular uma interpretação coerente dos processos ecológicos (biofísico-químicos) e sociais à degradação do ambiente urbano.” (p: 19).

Portanto, pensar a questão ambiental em relação aos impactos urbanos causados ou acelerados pelas atividades sócio-econômicas, demanda elaboração de novas linhas de pesquisas conduzidas, não apenas pelo viés ambientalista e/ou preservacionista do meio ambiente, mas também, no que tange considerar as peculiaridades sócio-econômicas locais, consubstanciadas no espaço por um conjunto específico de ações ou atividades antrópicas.

Para Coelho (2005) o impacto ambiental deve ser considerado do ponto de vista de sua indivisibilidade quanto aos aspectos naturais e antrópicos que o compõem, pois:

“No estágio de avanço da ocupação do mundo, torna-se cada vez mais difícil separar impacto biofísico de impacto social. Na produção dos impactos ambientais, as condições ecológicas alteram as condições culturais, sociais e históricas, e são por elas transformadas. Como um processo em movimento permanente, o impacto ambiental é ao mesmo tempo, produto e produtor de novos impactos. Como produto, atua como novo condicionante do processo no momento seguinte.” (p: 25).

Desta maneira, verifica-se o estabelecimento concreto de diversas relações entre a natureza (primeira) e a sociedade, profundamente marcada pelo processo unidirecional de transformação diferenciado e dinâmico, onde o homem ao mesmo tempo é sujeito modificador e modificado do e no meio no qual se insere.

Todavia, há de se ter muita precaução quanto à proposição de afirmações e conclusões sobre os problemas inerentes à intensificação de fenômenos e fatos geomórficos naturais, como os movimentos de massa. Para tanto, deve-se evitar, a priori, a associação simplista e/ou determinística que comumente apontam os moradores/ocupantes das vertentes dos morros como únicos vetores a contribuir com a degradação do meio utilizado, pois: “o impacto ambiental não é, obviamente, só resultado de uma determinada ação realizada sobre o ambiente; é relação de mudanças sociais e ecológicas em movimento” (COELHO, 2005, p.25).

Assim, faz-se importante, do ponto de vista do entendimento das potencialidades e fragilidades do meio, a busca por sua apreensão, qualificação e entendimento em relação às mudanças sociais e ecológicas nele operadas. Estas devem ser consideradas tanto no espaço como no tempo, sendo necessária para tal á construção de hipóteses ou conjecturas que auxiliem aplicação das metodologias elencadas para a resolução dos problemas recorrentes.

5.2 A COMPLEXIDADE DA QUESTÃO DA OCUPAÇÃO RECENTE

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