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1. PLANO DE EDUCAÇÃO: DEFINIÇÕES, CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E

3.2 A sistematização como linha de ação para a elaboração de um plano de educação

3.2.3 A complexidade e a multiplicidade das relações

Para a elaboração de uma política pública que tenha como preceitos a gestão democrática e a participação do povo é de fundamental importância a compreensão de que as relações estabelecidas socialmente são complexas e múltiplas.

O nascimento do humano está enraizado em princípios atualmente ignorados ou parcelizados (a condição cósmica, a condição física e a condição terrestre), mas que são de grande importância para entendermos quem somos enquanto sujeitos terrenos. Não existe possibilidade de se fazer uma educação pertinente sem conhecer para quem se está ensinando. É isso que é preciso observar ao elaborar um plano educacional: conhecer quem são os atores sociais envolvidos na política pública em questão e suas diferentes inter-relações.

Existem diferentes tipos de conhecimentos sobre a existência humana, mas o grande problema é o fato de eles estarem separados e dispersos, conduzindo ao distanciamento do humano e à dificuldade que os seres humanos possuem de se relacionar.

A compreensão é a um só tempo meio e fim da comunicação humana. Mas a última não garante a primeira, principalmente porque uma das maiores dificuldades dos seres humanos é compreender um ao outro e, conseqüentemente, aceitar as diferentes opiniões que surgem, tanto no diálogo quanto em atitudes do dia-a-dia.

Para Morin (2002, p. 93) “educar para compreender a matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa; educar para a compreensão humana é outra”. E é notório que o sistema de ensino está carente de educação que visa à compreensão humana.

A humanidade está desprovida de um espírito de coletividade porque o sujeito é forçado, pelo sistema competitivo do capitalismo, a pensar cada vez mais em si próprio, a ser egoísta, sem levar em consideração os outros. Mais do que isso, quando leva em conta os outros sujeitos envolvidos só tem empatia com quem ele se identifica. E como somos muito diferentes em termos de cultura, raça e credo, são poucas as pessoas que compreendem umas às outras.

É tarefa da educação contribuir para que os seres humanos ajam em busca da compreensão de uns aos outros, pois o planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensão mútua. Somente desta forma se estará caminhando rumo a uma nova realidade, a realidade tão sonhada por todos que lutam por um mundo mais digno, que viva em paz e que seja viável para as próximas gerações. E para isso o ser humano necessita de ética.

Morin (2002) denomina a ética do gênero humano de antropo-ética. Para ele, a “antropo-ética deve ser considerada como a ética da cadeia de três termos

indivíduo/sociedade/espécie, de onde emerge nossa consciência e nosso espírito propriamente

humano" (MORIN, 2002, p. 106). O ser humano só se constrói na sociedade e pela sociedade, inserido em uma cultura que é passada de geração para geração. A construção do ser humano, por isso, requer consciência participativa e cidadã, sendo que o pensar individualmente o coletivo é a chave da antropo-ética.

Faz parte da ética do gênero humano uma dimensão social só possível em meio à democracia, que possibilita uma relação entre indivíduo e sociedade, além de produzir no cidadão um sentimento de solidariedade e de responsabilidade. É o que não ocorre, por

exemplo, numa ditadura, em que o cidadão não é convidado a participar porque seu pensamento não tem sentido ser discutido e levado em conta.

Evidentemente que não existe democracia absoluta. Ela é sempre incompleta, mas pode ser analisada como um grande avanço no que diz respeito ao regime político que é autoritário, pois ela precisa do consenso da maioria dos cidadãos e respeito das regras do jogo democrático. Por isso a democracia dispõem de dispositivos que permitem que quem esteja no poder, ou seja, que quem tenha sido eleito pelo povo pense no coletivo ou na maioria dos cidadãos.

O povo brasileiro passou por um período ditatorial em que os governos militares negaram uma cultura de participação. Deste modo, quando somos convidados a participar desconfiamos do convite e abrimos mão da participação, também por estarmos acostumados com a representatividade política. Enfim, falta-nos a prática democrática.

Evidentemente que a democracia não é apenas o direito de fala, mas também propicia uma vida digna e de qualidade para todos os cidadãos. Ela se constitui em meio aos conflitos e diversidade de opiniões. Se não participamos e não discutimos não conseguimos dar lugar a diversidade para a existência do que chamamos de democracia.

A gestão democrática é composta pelo tetragrama que tem como vértices as palavras: coerência, participação, compromisso e diálogo.

Coerência no sentido de diminuir a distância entre a fala e as atitudes. O discurso está impregnado de palavras que fazem parte das idéias de gestão democrática, mas as atitudes estão longe de serem democráticas. Talvez isso aconteça em função do histórico de autoritarismo em que não participávamos das decisões políticas.

A questão do compromisso precisamos analisar conjuntamente com a questão da participação. É possível a existência de uma participação sem compromisso, uma participação apenas de corpo presente. No entanto, se existirem o compromisso e o engajamento no que se pretende executar, a participação ocorrerá e, consequentemente, quando isso não acontece, não há participação.

No decorrer do texto vimos que a democracia participativa existirá somente se houver diálogo entre os sujeitos, mesmo que ele não seja o único elemento que a constitui. A linguagem e o diálogo são considerados como elementos fundamentais da ação intersubjetiva necessária para que os seres humanos se entendam. O entendimento não consiste em simples

aceitação de uma proposição alheia. Ele implica no estabelecimento de acordos justificados e fundamentados, alcançados por intermédio do diálogo. Neste sentido, o diálogo é ação transformadora das realidades sociais e, por isso, não pode ser elitizado.

Para a elaboração de uma política educacional eficaz precisa existir a interação de toda a comunidade escolar. Como já foi elucidado anteriormente, ninguém melhor do que os próprios cidadãos submersos no cotidiano em questão para saber as necessidades regionais e os problemas que devem ser combatidos. Assim, ao se estabelecer a participação dos agentes sociais para a construção das políticas se está subentendendo que o conhecimento do senso comum servirá de propulsor para o seu processo de construção. Mas, por outro lado, é necessário que se estabeleça um diálogo com o conhecimento técnico-científico para que, mediante sua articulação, se construa um novo conhecimento que seja pertinente para a elaboração da política pública educacional.

Evidentemente que o senso comum está carregado de concepções mistificadoras, mas, mesmo assim, tem uma dimensão libertadora e utópica, que faz uso do diálogo entre os diferentes tipos de conhecimentos, principalmente o científico, para se chegar a uma idéia aceita pela maioria dos agentes participantes, pois ele é transparente e tem como fonte o princípio da igualdade.

O senso comum, por si só, acaba sendo conservador se não aceitar outros tipos de conhecimentos. Mas se for amparado pelo conhecimento científico e estabelecer com ele um diálogo, dará lugar a um novo tipo de racionalidade. Desta forma, evidencia-se que o senso comum e o conhecimento científico são dependentes, e ambos são válidos quando articulados na construção do público, do democrático.

Enfim, é essa a democracia que precisa acontecer na elaboração das políticas públicas educacionais que pretendem estar baseadas nos preceitos de participação popular. Não se trata de valorizar um conhecimento em detrimento do outro, mas de proporcionar o entrecruzamento das falas do cidadão comum com as da equipe técnica organizadora das políticas. Não se trata de uma relação vertical ou de poder, mas sim, de um diálogo necessário para a construção de práticas coerentes, realizadas com compromisso e participação ativa de todos os sujeitos envolvidos.