1. PLANO DE EDUCAÇÃO: DEFINIÇÕES, CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E
3.2 A sistematização como linha de ação para a elaboração de um plano de educação
3.2.4 O plano educacional como expressão de uma práxis transformadora
Um plano de educação deve centrar-se na busca da unidade entre teoria e prática, enfocando a relação de interdependência e reciprocidade entre estes dois elementos, fornecendo prioridade ao desenvolvimento da capacidade de reflexão crítica na prática e sobre a prática. É preciso levar em consideração que a prática é um ponto de partida para que sejam produzidos novos conhecimentos e que, por outro lado, a teoria isoladamente não gera as mudanças necessárias e, por isso, não é traduzida em realidades inovadoras.
Os atores sociais envolvidos no processo educacional necessitam olhar em sua volta e perceber que é analisando seu entorno e que as respostas a alguns problemas sociais surgirão, por isso, a prática não se faz sem teoria e vice-versa (FREIRE, 1983; VEIGA, 2001).
De acordo com Veiga (2001), ao construirmos um projeto pedagógico é preciso fornecer os meios e as condições operacionais para efetivá-lo e mantê-lo como processo. Com isso a instituição a qual o projeto se vincula se legitima conferindo valor a uma prática social coletiva. E é nesse sentido que o projeto se constitui como fruto de reflexões e debates e, ao mesmo tempo, como produto e processo. Sendo assim, um plano de educação está em processo de permanente construção e reconstrução, sobretudo por ter como um de seus princípios a qualidade de ensino, que, conforme Demo (1999, p. 14), significa “consciência e capacidade de ação, saber e mudar”.
Um plano educacional não permite por si só que seu município efetive uma educação de qualidade, mas possibilita que a comunidade escolar tenha consciência de sua trajetória e interfira nos seus rumos.
Discutimos neste capítulo questões referentes à teoria da ação comunicativa proposta por Jürgen Habermas e à necessidade de um agir comunicativo para a elaboração de planos educacionais. Com base nessa proposição teórica defendemos a idéia de que, para acontecer um processo pedagógico democrático e participativo durante a construção dos planos é necessário o diálogo entre os atores sociais envolvidos.
Na sequência sinalizamos para linhas de ação para a elaboração de um plano educacional, em que destacamos as características da metodologia da sistematização. Destacamos, depois, a necessidade de ser realizado um diagnóstico participativo do local a fim de estabelecer com maior clareza as condições e necessidades da localidade. Fizemos referência, ainda, à multiplicidade de sujeitos envolvidos e à pluralidade das falas que devem ser consideradas no processo de elaboração de um plano.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao focalizar o que se considera como progressos e refluxos no processo de construção da democracia e da participação popular na educação, foi necessária uma releitura histórica, não apenas com vistas a analisar períodos, a partir do entrelaçamento de fatores econômicos, políticos e sociais, mas, acima de tudo, porque implica um posicionamento frente aos rumos que a trajetória democrática e participativa, metamorfoseada pela estrutura de poder foi historicamente conservada pela sociedade brasileira.
Quando analisamos o tema participação e, de modo particular, sua relação com a educação, há o compromisso de não apresentá-lo despojado das demais relações de poder, sob pena de não ser assimilado e cair na arapuca de conceitos dúbios, elaborados com a intenção de deslocar a temática das suas verdadeiras origens, para um interesse em que são deslocadas para outra vertente, as concepções defendidas dentro do interesse em questão.
Nesse contexto foram inseridas as políticas sociais implementadas pelo Estado, dentre as quais citamos as políticas públicas educacionais, mais especificamente a que está sendo pauta para essa discussão: os planos municipais de educação.
Dentro desse parâmetro destacam-se dois movimentos de atores sociais introduzidos no mesmo espaço-tempo. O primeiro refere-se aos governantes que fazem parte de um sistema de ações imposto de cima para baixo, o que não deveria acontecer, principalmente quando falamos da construção de uma política pública participativa, diferentemente de uma democracia de fato, em que o sistema deveria ser horizontal, já que todos possuem o mesmo poder de voz e vez; e o segundo movimento provém das camadas populares com menor poder, se considerarmos o sistema capitalista. Esta parte da população almeja um espaço educativo condizente com os avanços da sociedade, de forma a atenuar as grandes disparidades sociais, que não deveriam existir em um estado democrata.
As modificações sofridas no campo institucional-educativo, nos últimos anos, foram realizadas sem levar em consideração as reivindicações históricas dos profissionais da educação, nem as experiências que foram desenvolvidas pelas instituições e tiveram bons resultados.
Sendo assim, sem pretender respostas prontas à questão da educação democrática e participativa, até porque, como pudemos observar durante o trabalho, as práticas gestionárias
no Brasil ainda estão muito fragilizadas e funcionando na base da improvisação, sem que os governantes saibam ao certo o que é a democracia e a participação, e sem entender como a prática deve acontecer para que ela exista de fato, como foi o caso da construção do Plano Municipal de Educação de Santa Maria.
Através da iniciativa de se elaborar os planos municipais de educação, com a participação da comunidade escolar, fica evidenciada a preocupação de alguns agentes sociais em lançar iniciativas concretas de construção democrática, a partir da inclusão da sociedade civil nos novos mecanismos de gestão da educação pública, como foi o caso do Município de Santa Maria. Para Boaventura de Sousa Santos, (2002), a democracia implica determinadas quebras com o que já está estabelecido, via normas e tradições, e, por isso, acontece a tentativa de instituir novas regras sociais dentro de uma nova perspectiva de um novo contrato social.
Os rumos que a educação vem tomando, atualmente, a partir da deflagração da democratização dos processos escolares, principalmente no que diz respeito à gestão democrática e suas implicações, requerem uma diferenciação entre os critérios de baixa intensidade e de alta intensidade democrática e participativa. Além disto, se a democracia e a participação não se constituem em um sistema determinado ou regime jurídico imposto, é válido acreditar que as instituições escolares e as práticas de elaboração de políticas públicas educacionais se fortalecem pelas vias da participação da comunidade escolar.
Falar de autoridade partilhada no interior da escola e das decisões que dizem respeito a ela requer a indissociável ligação entre direção, órgãos colegiados e a sua respectiva autonomia; no caso da elaboração de planos educacionais, essa idéia remete à participação das associações de bairro e também dos órgãos colegiados (conselho escolar) das escolas de cada região.
Assim, após percebermos os reais sentidos entre estas práticas partilhadas é que podemos entender as outras derivações que provêm daí, principalmente em relação à participação ativa de todos os envolvidos no processo, porque quanto mais partilhada é a autoridade mais participativa é a democracia.
Levando-se em consideração o referido no parágrafo anterior, observa-se também que a autoridade partilhada acaba afastando o perigo das decisões centralizadas e e alheias aos verdadeiros interesses da comunidade escolar e da sociedade civil, alijando-as de participar de discussões que lhes interessam, acarretando uma participação de baixa intensidade, porque os
atores sociais não se sentem envolvidos no processo, como no caso da elaboração do Plano Municipal de Educação de Santa Maria, em que a participação popular foi caracterizada como de baixa intensidade.
Nesses processos de decisão acerca da escola e, principalmente, da educação, de modo geral, os atores sociais deveriam ser concebidos como fonte de informação e conhecimento, como participantes ativos do processo coletivo de fazer e transformar a educação local e global, principalmente porque estas articulações fornecem credibilidade e fortalecem as práticas sociais locais, simplesmente por servirem de elo e de redes que ligam os movimentos mais amplos e com maior capacidade de ações transformadoras, que migram rumo às alternativas capazes de atingir uma participação de alta intensidade.
Por isso, a importância da gestão partilhada e do diálogo como articulador desta prática, que oportuniza e facilita a organização de ações coletivizadas e de resistência a qualquer forma de poder.
Sendo assim, tendo como intermediárias algumas formas de experimentação institucionais, com enfoque na participação do povo, e, a partir do rastreamento e construção de possibilidades emancipatórias e democráticas, se abre a possibilidade de consolidação de uma nova cultura gestionária, com enfoque na participação da comunidade em ações que denotam o seu interesse.
Pensando nas condições necessárias para que aconteça uma construção pedagógica e democrático-participativa de um plano de educação, foram estabelecidos alguns pressupostos. Entre eles:
- o plano de educação como um bem comum e, por isso, necessita da participação de todos na sua elaboração;
- o diálogo como palavra em forma de comunicação entre os sujeitos é indissociável da vida em sociedade, ele supõe a troca entre seres humanos, trocas de idéias e opiniões;
- a busca de alternativas para o entendimento entre indivíduos linguisticamente; - as decisões do Estado submetidas ao controle de decisões do povo;
- a sistematização como linha de ação para a elaboração de planos de educação por oportunizar a expressão de experiências de vida, práticas reflexivas e estar apoiada na liberdade;
- o desenvolvimento de diagnóstico local para elaborar um plano eficaz, avaliando a realidade da localidade;
- elaboração de plano de estratégias potenciais.
Essas são as condições necessárias para a elaboração pedagógica e democrático- participativa de um plano de educação que a pesquisa possibilitou desvendar. Evidentemente que para pesquisas futuras ficaram questões a serem desenvolvidas.
O que discutimos neste trabalho também foi que a gestão da educação, por sua vez, compromete de maneira global a educação pública, pois seu produto final deveria resultar na qualidade do ensino, o que não é observado com grande evidência ao falarmos da educação no Brasil, mesmo que as políticas públicas visem à qualidade educacional.
Ao pensarmos na educação democrática precisamos consolidar alguns princípios, entre eles: igualdade de oportunidades, igualdade de participação, igualdade de ensino (público e privado), igualdade de oportunidades de vida, igualdade de voz ativa e outros; entretanto, as condições mínimas para a efetivação destas igualdades somente serão possíveis caso o sistema de ensino seja capaz de oferecer para todos uma formação de igual valor e qualidade, enquanto apresto para o futuro, possibilitando a toda a sociedade uma educação de qualidade, com vistas ao desenvolvimento social, econômico e político, o que ainda não foi identificado.
Podemos concluir que o problema resultante desta pesquisa (quais são as condições necessárias para uma construção pedagógica e democrática participativa de um plano de educação, como, por exemplo, deveria ter sido no caso de Santa Maria?) foi respondido pela hipótese que considerou que a exigência de uma construção pedagógica e democrático- participativa de um plano de educação se vincula aos motivos inerentes à educação nas sociedades republicanas, dentre os quais se coloca a perspectiva da inclusão de todos no âmbito da cultura, da sociedade e da política. Por este motivo, o processo de construção de um plano educacional demanda uma articulação baseada numa racionalidade comunicativa, com linhas de ação capazes de garantir o envolvimento e a participação dos diversos segmentos envolvidos e/ou interessados.
Quando almejamos uma participação ativa da sociedade, precisamos definir previamente como esta política será desenvolvida, já estabelecendo assuntos que são necessários discutir com o povo, fazendo com que aconteça um processo pedagógico e participativo, tanto na discussão de assuntos referentes à educação quanto na vivência da
democracia participativa, quando acontece o chamamento da população para discutir assuntos de seu interesse.
Assim, através do estudo em questão, observamos que o fato de o cidadão participar ou não da elaboração de políticas públicas, como no caso, planos municipais de educação, está vinculado a motivos que dizem respeito à sua educação enquanto cidadão, fato esse que já vem sendo discutido quando são propostas mudanças desde a educação republicana, em que é defendida a igualdade de todos.
Outro problema para a baixa participação da comunidade escolar na elaboração de planos educacionais diz respeito aos instrumentos e mecanismos que são utilizados para a construção do que está sendo proposto. Desde o início da elaboração dos planos, a comunidade escolar deve ser convidada a participar para se sentir engajada em todo o processo e sentir que faz parte do que foi construído.
O diagnóstico realizado no início do processo é peça fundamental para que a política seja eficaz e que esteja condizente com a realidade de cada localidade. Por isso, ele deve ser realizado em conjunto com a comunidade, sob pena de, se o diagnóstico não conseguir retratar fidedignamente a realidade, o plano não ser eficaz.
Outro mecanismo fundamental é a comunicação. O fato de equipes diretivas estarem presentes e conduzirem a elaboração de um plano educacional não pode gerar opressão na comunidade escolar, até mesmo por que a comunidade vai controlar as ações do Estado. O que se deseja é que possam expressar o que realmente pensam, sem constrangimento. Assim, precisamos superar a percepção reduzida das tarefas que cabe à educação frente a um caráter emancipatório e que acaba contrapondo-se à formação pautada estritamente no caráter instrumental.
Além disso, propomos que a razão não seja constituída apenas como algo subjetivo, mas sim, que se baseie na intersubjetividade, pois ela é construída na interação com os outros seres humanos. Não existe pensamento que seja autônomo, o sujeito constrói seu pensamento inserido na sociedade, sem dispensar a percepção dos outros.
Nesse sentido, a elaboração de um plano de educação para um determinado município é a razão coletiva dos sujeitos que participaram das discussões e que expuseram seus pensamentos e angústias dentro de um pensar coletivo.
Com esta pesquisa pudemos observar que é impossível conduzir a construção de uma política pública sem que sejam articulados alguns passos que a guiarão, conforme evidenciamos no terceiro capítulo. O diálogo e a comunicação são indispensáveis quando propusermos a elaboração de algo que faz parte de uma coletividade, o que foi evidenciado com o estudo da teoria da ação comunicativa proposta por Habermas (1992). A articulação entre os envolvidos, baseada na racionalidade comunicativa, é capaz de gerar linhas de ações que possibilitam a participação dos diversos segmentos envolvidos ou interessados.
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