3. CIÊNCIAS HUMANAS ALGO-SAXÃS Raewyn Connell e as masculinidades
3.1. Raewyn Connell e Masculinities
3.1.2. A compreensão da masculinidade em Connell
Connell conclui que a masculinidade não poderia nunca ser um objeto da ciência positivista, pois é compreendida como parte de uma estrutura maior, a de gênero. Assim, a masculinidade é “un lugar en las relaciones de género, en las prácticas a través de las cuales los hombres y las mujeres ocupan ese espacio en el género, y en los efectos de dichas prácticas en la experiencia corporal, la personal y la cultural.” (MA: 109).
Gênero é “una de las formas en las que se ordena la práctica social” (MA: 109)92, a que se refere ao âmbito reprodutivo, no qual incluem-se a excitação e a troca sexual, o nascimento e o cuidado infantil. As práticas sociais se ordenam em relação à estrutura de gênero, não de um modo imediato, mas “inventivo” (MA: 109), de forma que ao nos referirmos à masculinidade e à feminilidade, o fazemos a “procesos de configuración de la práctica” (MA: 110; Sartre) ou a “proyectos de género”, que, através do tempo,
92 Outras formas de organização da prática estariam em interação com a de gênero, notoriamente as de raça e
transformam seus pontos de partida em estruturas de gênero. Estrutura e práticas se conformam, assim, de um modo circular, porém aberto a transformações.
Dentro desta compreensão da estrutura de gênero, faz-se necessário precisar três dimensões essenciais:
a) Relações de poder: seu principal eixo é a dominação dos homens sobre as mulheres, ou seja, o patriarcado. Embora haja resistências e inversões (por exemplo, uma mulher chefa de família), elas tendem a ser reprimidas.
b) Relações de produção: há uma divisão do trabalho, cabendo aos homens acumular maiores dividendos e obter os lugares de controle.
c) Catexe: as relações relativas ao âmbito sexual.
Uma vez evidenciada a existência de diferentes masculinidades, relacionadas às diferentes configurações culturais e históricas, o primeiro passo seria o de não incorrer em uma tipologia essencialista, como teria feito Eric Fromm em A personalidade autoritária. Para tal, seria necessária uma “análise dinâmica” (MA: 116) que desse conta da interação da estrutura de gênero com as de classe e raça, especialmente do modo que os homens interagem entre si nas fronteiras destas estruturas. Mediante estas linhas, reconhecidamente abstratas, Connell propõe uma compreensão das masculinidades segundo determinados padrões (os de hegemonia, subordinação, cumplicidade e marginação). Ela enfatiza que estes não constituem tipologias, mas posições dentro de um modelo das relações de gênero, o qual estaria sempre dentro de tensões e em processos de modificações.
A “masculinidade hegemônica” (MH) transformou-se no conceito mais popular de Connell, adquirindo quase uma vida própria93. Ela a define como “la configuración de la práctica de género que incorpora la respuesta aceptada, en un momento específico, al problema de la legetimidad del patriarcado, lo que garantiza (o se considera que garantiza) la posición dominante de los hombres y la subordinación de las mujeres” (MA: 117). Sua origem se encontraria no conceito de hegemonia em Gramsci, o qual “se refiere a la dinámica cultural por medio de la cual un grupo exige y sostiene una posición de mando en la vida social” (MA: 116-117). Seu êxito estaria assegurado na medida em que esta posição de mando fosse reconhecida sem a necessidade do uso da violência direta94.
A hegemonia organiza a dominação cultural, o que implica o posicionamento de determinados homens em posições de poder e o de outros na de subordinação. Nas sociedades ocidentais, a mais importante dominação é a que se dá por parte dos heteros
93 Esta constatação é tomada pela própria Connell, em artigo publicado com James Messerschmidt (2005),
sobre o uso que o conceito de masculinidade hegemônico recebeu nos últimos anos.
sobre os gays. Na homossexualidade estaria depositado “todo aquello que la masculinidad hegemónica desecha simbólicamente” (MA: 119), sendo quase indiscernível da feminilidade. No entanto, mais do que esta “estigmatização cultural” (MA: 118), trata-se de subordinação mediante uma série de práticas materiais, as quais teriam sido denunciadas já no início do movimento de liberação dos homens gays: “exclusión cultural y política, el abuso cultural (em Estados Unidos, los hombres gays son ahora el principal blanco de la derecha religiosa), la violencia legal (como el encarcelamiento bajo la acusación de sodomía), la violência en la calle (que incluye desde la intimidación hasta el asesinato), la discriminación econômica y los boicots personales” (MA: 118)95.
Dentro do terceiro padrão, estariam os cúmplices, aqueles homens que se aproveitam do patriarcado sem se adequarem rigorosamente à MH, o qual implica evitar também seus aborrecimentos. O trecho abaixo é importante na medida em que, ao mesmo tempo em que enuncia a posição de Connell, mostra também o quanto sua exposição pode ser confusa e contraditória:
El matrimonio, la paternidad y la vida comunitaria a menudo suponen compromisos profundos con las mujeres, y no una dominación evidente o una muestra incuestionable de autoridad. Muchos hombres que aprovechan los dividendos patriarcales también respetan a sus esposas y madres, nunca son violentos con las mujeres, hacen lo que les corresponde en el trabajo de la casa, llevan su salario a la familia y están convencidos de que el feminismo se debe a extremistas… (MA: 120)
Valendo de um exemplo generalista para explicar-se, Connell traz à leitora aspectos da MH que antes não tinham sido apresentados ou sequer supostos. Se antes havia dito que o padrão hegemônico teria sucesso quando aceito sem o uso da violência, aqui parece evidenciar, por contraste, que ela é possível. Há ainda uma outra observação importante: se a masculinidade cúmplice é definida mediante um exemplo, não estamos aptos para compreender como seria este padrão em uma outra cultura: o que do modelo é generalizável ou não? Isto é algo que nós leitoras, aparentemente, devemos decidir.
O último padrão apresentado, o de masculinidade marginal, não se encontra apenas dentro da estrutura de gênero, mas na interação desta com outras estruturas sociais, como a de classe ou raça. Uma vez mais, a explicação se dá pela ordem do exemplo, primeiramente o de operários que se encontram excluídos das renovações digitais e relegados ao trabalho físico e, em segundo, os homens negros estadunidenses, empurrados pelo capitalismo ao desemprego e vítimas da violência policial racista e institucionalizada. Assim, os marginalizados parecem ser os excluídos (desempregados) ou os relegados a
95 Esta lista é elaborada a partir dos trabalhos de Dennis Altman, Homosexaul: opression and liberation, de
posições muito inferiores (sub-emprego), estando a mercê de uma violência institucionalizada. Uma vez mais, a conceitualização não é dada, mas requer um trabalho interpretativo por parte do leitor.