3. CIÊNCIAS HUMANAS ALGO-SAXÃS Raewyn Connell e as masculinidades
3.1. Raewyn Connell e Masculinities
3.1.6. A prática e a utopia
No último capítulo do livro, Connell procura pensar o que “nuestro conocimiento actual sobre la masculinidad respresenta para el proyecto de justicia social en las relaciones de gênero.” (MA: 303). Ela acredita que o século XX testemunhou “el surgimiento de una conciencia histórica sobre el género” (MA: 306) a qual, no entanto, não implica num aniquilamento do patriarcado, pois suas estruturas institucionais e materiais mantêm-se sólidas. Há, outrossim, uma progressiva deslegitimação, já que a desigualdade para com as mulheres, assim como a homofobia, carecem hoje de sustentações terminantes.
Esta consciência histórica alcançada graças a dois séculos de lutas feministas é o que distingue as lutas de gênero anti-patriarcais contemporâneas. Após driblar as propostas
99 Embora já tenha defendido a comensurabilidade entre o moderno e o não moderno, há um caráter genérico
próprio à modernidade, que Connell bem o identifica, coincidindo com outras autoras, como Sedgwick (ver cap. II), hooks e Davis (ver cap. I) ou Judith Butler (2005): o acirramento da heteronormatividade, a nuclearização familiar, a separação radical do público e do doméstico podem ser interpretados, como o faz Connell, sob a emergência de uma lógica identitária de gênero.
100 Há, assim, uma concordância entre o trabalho de Connell com os de Welzer-Lang (cap. IV) e Segato (cap.
VI), que, na linha de Godelier, defendem ser a dominação dos homens estabelecida a partir de um engano fundamental que priva as mulheres do conhecimento dos mecanismos de dominação.
liberais (baseadas no individualismo) e a pós-moderna (cética para com qualquer fundamentação política), Connell retoma a ontoformatividade da prática para ressaltar que a oposição ao patriarcado:
… no es solo resistencia, hace que existan nuevos arreglos sociales (aunque sea parcialmente). Así, el feminismo no solo cuestiona el que se determine la posición discursiva de las mujeres, sino que también incluye la construcción de nuevos servicios de salud, la definición de nuevas escalas de sueldos, la creación de hogares más pacíficos, la colectivización del cuidado infantil, etc. (MA: 308).
O mesmo aconteceria com o movimento trabalhista ou os anti-coloniais. Em todos estes projetos se encontraria implícito o “princípio da justiça social”, que por sua vez implica a busca da igualdade complexa, não uniforme.
No gênero, a igualdade complexa se ocupa das três estruturas que a constituem. Nas relações de poder, implica questionar o predomínio dos homens no Estado, as profissões e direção, assim como a violência dos homens contra mulheres. Na divisão de trabalho implica terminar com os dividendos patriarcais na economia monetária, compartilhar o peso do trabalho doméstico e igualar o acesso à educação e à preparação. Na estrutura da catexe, implica terminar com o estigma da diferença sexual e com a imposição da heterossexualidade obrigatória e reconstruir uma heterossexualidade não hierárquica. No caso dos homens, implica também um novo trabalho do corpo no sentido de oferecer cuidado. Isto permite Connell dizer que a justiça social nas relações de gênero seja de interesse universalizável, sem por isso implicar um esgotamento da política como supõem os pós-modernos, já que as possibilidades humanas de exploração de si se abrem sempre a novas possibilidades.
As políticas levadas a cabo por aqueles homens que procuram distanciar-se da MH, Connell as denomina “políticas de saída”. Elas se articularam desde os anos 70 nos países ricos em grupos denominados “movimientos de liberación de los hombres” ou de “aumento de consciencia de los hombres” (ibid.: 316). Acreditavam eles encontrarem-se na crista de uma onda que traria mudanças radicais em um futuro curto, o que não só não ocorreu, como muitos grupos se distanciaram dos feminismos101 ou se dissolveram.
Segundo Connell, o problema dos grupos de homens se encontra em que eles contrariam uma importante máxima dos movimentos sociais: unir-se em torno de interesses comuns. No caso dos homens, a justiça social de gênero vai contra seus
101 Como, por exemplo, os grupos mítico-poéticos. Alguns grupos de reflexão de homens dos anos 70,
inicialmente ligados aos feminismos, encontram nas idéias de Jung a concepção de um masculino profundo que foi perdido pelos homens contemporâneos, levados pela vida moderna e por demandas excessivas das mulheres. Embora hoje estes grupos tenham pouca importância para os movimentos de homens pró- feministas, eles foram uma temática de discussão na década de 1970, dado atraírem muitos dos homens que se encontravam descontentes com a masculinidade.
interesses. Neste sentido, parece ser nula a possibilidade de uma vinculação massiva de homens aos movimentos anti-sexistas. Saídas mais eficazes parecem ser encontradas na interconexão do gênero com outras estruturas sociais. Assim, a solidariedade que surge entre homens e mulheres em movimentos sindicais, ambientalistas ou raciais permitiria a emergência também de uma solidariedade de gênero para com as mulheres.
De forma semelhante, as tensões entre os diferentes padrões de masculinidades (notoriamente a oposição entre as marginais e subordinadas para com as cúmplices e hegemônicas) provocam tensões que desestabilizam as propostas patriarcais, da mesma forma que determinadas relações entre homens e mulheres (por exemplo, as que Connell relatava como existindo entre um homem próximo à masculinidade cúmplice e sua família) terminavam por contribuir à deslegitimação do patriarcado.
Desta forma, mais do que propriamente um movimento de homens, a política de saída passa por alianças entre diversos grupos, em níveis político e pessoal, sendo que as mulheres são parte necessária desta política. Todas estas condições fazem necessário não postular uma estrutura social pré-estabelecida à qual apontar. A estrutura social futura, qualquer que venha a ser, não está no começo, mas no fim do processo. De momento temos de nos ater a acumular pressões em direção às mudanças, sem pretender determiná- las, em uma política de “meras possibilidades” (MA: 328) 102.
3.2. Considerações.
Dentre as diferentes considerações que poderíamos fazer sobre a obra de Connell, nos restringiremos às seguintes:
1) Como anunciado no princípio do capítulo, sua insistência em abarcar diferentes âmbitos das masculinidades, embora implique uma tarefa titânica exposta a erros, faz-se necessária na medida em que coloca em diálogo instâncias que, normalmente pensadas separadamente por questões práticas, exigem também serem pensadas em conjunto.
2) Sua relação com a teoria é, sem dúvida, paradoxal. Por um lado, denuncia a falta de interesse teórico no campo dos EHMM e se dedica, ela mesma, a uma leitura de um número variado de obras sobre masculinidades, gênero ou história. Por outro lado, com muita freqüência realiza leituras aparentemente rápidas e imprecisas de muitos dos autores que parecem ter grande importância em sua obra. É o caso de sua imputação a Gayle Rubin de ter conceitualizado a “heterossexualidade obrigatória” como sendo própria apenas às
102 A última frase do livro torna-se, no entanto, abusivamente humanista, vale a pena citá-la: “Tal vez esta sea
otra forma de expresar el interés que todas las personas de este planeta tenemos en la justicia social, la paz y el equilibrio con el mundo natural.” (MA: 328).
mulheres, quando uma primeira leitura de seu texto mostra claramente o contrário. Sua articulacao teórica dista, assim, da cuidadosamente elaborada por Welzer-Lang, como veremos no próximo capítulo.
3) A ênfase na diferença entre masculinidades não é, em nível teórico, feita em detrimento de uma atenção à estrutura de gênero como uma lógica de dominação. Contra um certo sentido comum acadêmico que dilui a associação entre homens ou masculinidades com a opressão das mulheres, Connell mostra o modo em que esta se articula no período histórico recente e como ela se mantém na atualidade.
4) Sua ênfase nas relações históricas entre a masculinidade contemporânea e o imperialismo denota um interesse político raro nas ciências sociais do primeiro mundo e abre a possibilidade de uma interlocução com o pensamento anti-colonial. Embora não possamos estar de acordo com a pressuposição de uma incomensurabilidade entre o moderno e o não moderno, faz-se importante a consideração de que uma identidade de gênero propriamente dita não existia na Europa medieval. A radicalidade desta afirmação talvez seja excessiva, mas, como já apontamos, outras autoras também coincidem em expor que a coerência de gênero na modernidade é excepcional para com outros períodos históricos.
5) Sua proposta de saída política da masculinidade é também muito completa, se excetuarmos seus momentos de excessiva confiança em uma justiça social. É realmente importante sua consideração de que os grupos de homens não tiveram força nos anos setenta e que muito provavelmente não a terão jamais. A incorporação dos homens nas lutas feministas estará ligada ao entrecruzamento de diferentes lutas de libertação, à disputa interna entre diferentes modos de masculinidades e à associação com as mulheres. Este entendimento permite que se possa deslocar concepções subjetivistas da mudança das masculinidades para o campo das interações sociais, onde as diferentes tensões políticas podem dar lugar a modificações importantes também nas masculinidades.
4. CIÊNCIAS HUMANAS EM LÍNGUA FRANCESA. Daniel Welzer-Lang e a casa